Tenho 58 anos e, francamente, já cheguei àquela fase em que me pergunto o que mais poderei fazer em relação à minha vizinha da frente. Ela mora mesmo à nossa frente e, pelo que vejo, deve ser nomeada diretora do departamento de Fiscalização do Bairro a mulher sabe tudo ao milímetro. Tem um sexto sentido só para saber a que horas chega o estafeta com as compras, se é jantar de takeaway ou só uns legumes frescos do mercado, quantos sacos trago, quem os leva para casa Se o senhor da Glovo se atrasa dois minutos, no dia seguinte já há recado maléfico pelo elevador: Deve ter sido acidente grave, pois ontem a entrega demorou!
Mas a fiscalização não fica por aí, não senhora! Mantém uma vigilância cerrada sobre o meu lixo. Sabe em que dias abaixo o caixote, quantos sacos levo e de que cor. Se numa semana levo dois sacos e na outra três, já vem a pergunta: Anda a fazer limpezas de primavera fora do tempo? Se numa sexta-feira não levo nada, só porque a lixeira ficou vazia, lá está ela a apontar no bloco mental. Um dia abordou-me sem rodeios para perguntar se despejo comida fora parecia que lhe estava a confessar um segredo do governo. Fiquei a olhar para ela, a pensar: mas em que momento os meus restos passaram a ser assunto nacional?
O meu cão, o Figo, também está na sua lista. Não é grande, não tem nada de feroz, só que ladra se alguém encosta a mão ao portão. Cada latido é um relatório. Já veio bater-me à porta para se queixar: O cão ladrou muito ontem enquanto você estava no trabalho. Detalhe: Ela é especialista em horários sabe exatamente a que horas ele ladrou, quantos latidos por minuto e até arrisca um motivo. Às vezes acho que conhece os movimentos da minha casa melhor do que eu própria.
Sobre o meu marido, o António, também não perdoa. Se chega tarde do escritório, logo no dia seguinte ouço um Ontem deitaram-se tarde, não foi? ou então O seu marido chegou quase à meia-noite, que se passou? Se chega cedo: Está doente? Ou teve problemas no emprego? Nada lhe escapa. E o melhor: não comenta só comigo, não faz circular as notícias pela vizinhança toda, e lá vêm versões aumentadas e distorcidas directamente ao meu ouvido.
A minha filha, Beatriz, com dezasseis anos, também está sob intenso escrutínio. Se sai com amigas, a vizinha faz a contabilidade: quantas entram, quantas saem. Se recebe alguém em casa, ela anota quem é, a hora que chega e a que se despede. Já a ouvi dizer à dona Graça que aquela rapariga sai muito para a idade dela, como se falasse da neta. Acabei por ter de a confrontar uma pessoa ainda respira fundo, mas tudo tem limites.
O que me deixa doida é que não se trata de alguém que se mudou há semanas. A senhora sempre viveu aqui tal como eu. A casa é da minha mãe (Deus a tenha), que ma deixou por ser filha única. Não tenho intenção nenhuma de me ir embora adoro o meu espaço, memórias e cheiro a chá ao final da tarde. O problema não é a casa é esta convivência forçada com alguém que desconhece o conceito de limite.
Já tentei de tudo: ignorar, ser simpática, dar respostas curtas, ser mais áspera nada resulta. Ela está sempre presente de olho posto, comenta, faz avaliações dignas de um auditor. O que eu queria saber era: como é que uma pessoa lida com uma vizinha destas sem perder a paz, sem entrar numa guerra fria de prédio, mas também sem deixar a própria vida pública na Praça da República?
Alguém que me dê uma receita, antes que isto vire telenovela da SIC.







