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010
Deixei Entrar de Volta para Minha Vida — Pai, que novidades são essas? Compraste uma loja de antiguidades? — Cristina perguntou, franzindo as sobrancelhas ao olhar para a toalhinha de croché branca sobre o seu cómoda. — Nem sabia que gostavas dessas coisas antigas. O teu gosto está igual ao da avó Zóia… — Olha a Cristininha! O que fazes aqui sem avisar? — Oleg Pimentel saiu da cozinha, meio atrapalhado. — Eu… o que dizer… não estava à tua espera… O pai esforçava-se para parecer animado, mas o olhar dele era de quem escondia alguma coisa. — Pois já vi que não estavas, — Cristina respondeu, com ar reprovador, dirigindo-se à sala onde a esperavam novas surpresas. — Pai… de onde veio tudo isto? O que é que se passa aqui? Cristina mal reconhecia o próprio apartamento… …Quando herdou a casa da avó, o cenário era deprimente. Móveis velhos, televisão gorda sobre uma mesa descascada, radiadores enferrujados, papel de parede a descolar… Mas era seu lar. Nessa altura, Cristina já tinha algum dinheiro guardado. Investiu tudo em obras, nada de remendos. Optou pelo estilo escandinavo: tons claros e minimalismo abriram o espaço. Fez questão de cada pormenor, cortinas à medida, tapetes felpudos… Agora, as cortinas eram só um tule barato que não tapava nada. O sofá italiano sumia debaixo de um cobertor sintético com um tigre estampado. Na mesa de centro, uma jarra rosa de plástico e flores artificiais ainda mais berrantes. E pior: os cheiros. Da cozinha vinha óleo a ferver e cheiro intenso a peixe. Sentia-se tabaco. E o seu pai nem fumava… — Cristininha, vê lá… — balbuciou finalmente Oleg. — A questão é… eu não estou sozinho. Queria ter dito antes, mas… — Como assim, não sozinho? — Cristina ficou espantada. — Pai, isso não era o trato! — Filha, a minha vida não acabou com a tua mãe. Ainda sou novo, nem reformas tenho. Não tenho direito a ser feliz na vida pessoal? Cristina hesitou. Sim, o pai tinha direito a fazer a vida dele. Mas… não naquela casa! …Os pais divorciaram-se há um ano. A mãe levou tudo com leveza, mergulhou em autoaperfeiçoamento. Tinha tantas amigas que nem tempo para tristeza havia. O pai, coitado, desesperou. Voltou para a sua casa de solteiro e apavorou-se. Dez anos de inquilinos, até que um deles adormeceu com o cigarro aceso. Não tinha dinheiro para obras, e esqueceu a casa. Nem vendeu, mas também não pensava em reabilitar. Viver ali era impossível: paredes chamuscadas, janelas partidas, bolor nas ombreiras… Parecia uma tumba de filme de terror. — Ó Cristina, não sei como hei de viver… — lamentou-se o pai, suspirando. — Aqui é perigoso, nem acabo as obras antes do inverno. Nem dinheiro tenho para isto tudo. Se morrer de frio, paciência… Cristina não aguentou. Não podia deixar o pai que a criara naquele estado. E se lhe acontecesse algo? Especialmente agora, que ela já morava com o marido, o apartamento dos pais vazio. Não ia arriscar outro inquilino. — Pai, fica lá em minha casa por agora, — sugeriu. — Está tudo pronto, confortável. Vais fazendo o teu arranjo, depois mudas-te. Só uma condição: nada de visitas. — Posso mesmo? — Oleg, surpreendido, agradeceu imenso. — Salvaste-me, filha. Prometo que será tudo calmo. Pois sim. Calmo… Enquanto Cristina se lembrava da conversa, a porta da casa de banho abriu e surgiu uma mulher de uns cinquenta anos, envolta no roupão favorito de Cristina, agora a tapar mal as formas da estranha. — Ó Oleguinho, temos visitas? — perguntou a senhora, com voz rouca de fumadora, sorrindo de lado. — Ao menos avisavas, estou em modo caseiro. — E você, quem é? — indagou Cristina, mirando o roupão. — E por que está a usar o meu roupão? — Sou a Joana, a paixão do teu pai. E estás tão nervosinha por quê? Peguei só o roupão, estava ali à toa. Cristina ferveu de raiva. — Tire. Já. — murmurou entre dentes. — Cristina! — pediu o pai, metendo-se no meio. — Não faças cenas! A Joaninha só… — A Joaninha só vestiu roupa alheia, num lar alheio! — cortou Cristina. — Pai, estás bom da cabeça? Trouxeste tua namorada e deixas que mexa nas minhas coisas sem pedir?! Joana revirou olhos e foi para a sala, atirando-se para cima do cobertor com tigre. — Que falta de educação, — declarou ela. — Se fosse o Oleg, dava-te era uma palmada, nem que fosses já crescida. A vida íntima do teu pai não te diz respeito! Cristina ficou sem fala. Uma estranha a tratava como criança malcriada, sentada no seu sofá. — Não diz respeito, — concordou ela. — Até o momento em que acontece na minha casa. — Na tua? — Joana arqueou sobrancelha e olhou questionadora para Oleg. Oleg gelou, colado à parede, com olhar assustado da filha para a amante. Rezava para que aquilo acabasse sem ele fazer nada, mas o drama só piorava. — Então… O papá esqueceu-se de contar? — Cristina sorriu friamente. — Eu digo então: ele aqui é hóspede, nada mais. Esta casa é minha, tudo aqui fui eu que comprei. Só lhe emprestei para viver e nunca imaginei visitas assim. Joana corou de fúria. — Oleg?.. — o tom dela virou gelado. — Então não disseste que a casa era tua? Andaste a mentir? O pai murchou de vergonha. — Ó… Joana, não foi assim… Percebeste mal. Tenho casa, só não esta. Não te quis incomodar com detalhes… — Não quis incomodar?! Bonito serviço. Agora tenho que ouvir sermão por tua causa! A paciência de Cristina chegou ao fim. — Fora, — disse baixinho. — O quê? — Joana ficou perplexa. — Fora daqui. Os dois. Têm uma hora. Se ficarem, falamos com a polícia. Isto de deixar entrar estranhos… Cristina dirigiu-se à porta, mas Oleg segurou-lhe o braço. — Filha! Vais pôr teu próprio pai na rua? Sabes como está aquilo! Morro de frio! O pai agarrou-se ao casaco dela. Cristina vacilou. Era o seu pai, quis ter pena. Veio à mente o passado, amor filial, o dever… Mas então olhou para Joana. A mulher, acomodada no roupão, fitava-a com um ódio feroz. Se cedesse agora, amanhã trocaria fechaduras e redecorava tudo. — Pai, é adulto. Arranja-se, — cortou Cristina, libertando-se. — Só você tem culpa. O trato era vive sozinho, mas trouxe mulher estranha, deixou-a mexer em tudo e desarrumou a casa… — Fica então com a tua casa! — gritou Joana. — Anda, Oleg. Nem te humilhes. Criaste uma ingrata… Meia hora depois, tudo resolvido. O pai saiu, calado, curvado, como velho. O olhar de cão desalojado ficou gravado na memória de Cristina, mas ela manteve firmeza. Assim que partiram, abriu as janelas para expulsar cheiro de peixe, cigarros e perfume barato. Recolheu roupão, cobertor, tudo o que Joana tocara. Fora para o lixo. No dia seguinte, chamou a limpeza, mudou fechaduras. Não suportava mais nada que tivesse rasto de invasão. …Passaram quatro dias. Agora o apartamento estava livre. Sem flores falsas ou maus odores. Cristina vivia com o marido, mas sentia leveza ao lembrar. Não falou mais com o pai. No quarto dia, ele ligou. — Alô, — atendeu, hesitante, Cristina. — Então, Cristina… — começou ele, voz embriagada. — Estás feliz agora? Acabou-se. A Joana foi-se embora… — Ai que surpresa — não resistiu a filha. — Aposto que foi depois de ver a tua casa verdadeira, percebeu que ia ter trabalho… O pai fungou. — Sim… Pus aquecedor, dormi num colchão insuflável. Ela aguentou três dias… Disse que sou um pobre e um vigarista, e foi para casa da irmã. Só perdi tempo… E eu gostava dela, Cristina! — Que gosto que nada. Procuravas conforto, ela também. Saíram ambos a perder. Pausa. O pai não se calava. — Estou mal sozinho, filha… — disse, por fim. — Aqui mete medo… Posso voltar? Juro, sozinho! Prometo! Cristina baixou o olhar. O pai estava sozinho, rodeado pelo próprio caos. Mas foi ele próprio que criou tudo: traiu a mãe, enganou a filha, ludibriou Joana. Sim, ela teve pena. Mas essa compaixão arruinaria ambos. — Não, pai. Não deixo. Contrata gente, faz obras. Aprende a lidar com aquilo que criaste. Só te posso dar contactos de bons trabalhadores. Precisares, chama. Cristina desligou. Duro? Talvez. Mas nunca mais quis deixar que sujassem o seu lar, nem a sua alma. Há coisas que não se conseguem limpar; só podemos evitar que entrem na nossa vida…
Foi pior do que imaginei Pai, o que são essas novidades aqui? Andaste a saquear uma loja de antiguidade?
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093
Deixei Entrar de Volta para Minha Vida — Pai, que novidades são essas? Compraste uma loja de antiguidades? — Cristina perguntou, franzindo as sobrancelhas ao olhar para a toalhinha de croché branca sobre o seu cómoda. — Nem sabia que gostavas dessas coisas antigas. O teu gosto está igual ao da avó Zóia… — Olha a Cristininha! O que fazes aqui sem avisar? — Oleg Pimentel saiu da cozinha, meio atrapalhado. — Eu… o que dizer… não estava à tua espera… O pai esforçava-se para parecer animado, mas o olhar dele era de quem escondia alguma coisa. — Pois já vi que não estavas, — Cristina respondeu, com ar reprovador, dirigindo-se à sala onde a esperavam novas surpresas. — Pai… de onde veio tudo isto? O que é que se passa aqui? Cristina mal reconhecia o próprio apartamento… …Quando herdou a casa da avó, o cenário era deprimente. Móveis velhos, televisão gorda sobre uma mesa descascada, radiadores enferrujados, papel de parede a descolar… Mas era seu lar. Nessa altura, Cristina já tinha algum dinheiro guardado. Investiu tudo em obras, nada de remendos. Optou pelo estilo escandinavo: tons claros e minimalismo abriram o espaço. Fez questão de cada pormenor, cortinas à medida, tapetes felpudos… Agora, as cortinas eram só um tule barato que não tapava nada. O sofá italiano sumia debaixo de um cobertor sintético com um tigre estampado. Na mesa de centro, uma jarra rosa de plástico e flores artificiais ainda mais berrantes. E pior: os cheiros. Da cozinha vinha óleo a ferver e cheiro intenso a peixe. Sentia-se tabaco. E o seu pai nem fumava… — Cristininha, vê lá… — balbuciou finalmente Oleg. — A questão é… eu não estou sozinho. Queria ter dito antes, mas… — Como assim, não sozinho? — Cristina ficou espantada. — Pai, isso não era o trato! — Filha, a minha vida não acabou com a tua mãe. Ainda sou novo, nem reformas tenho. Não tenho direito a ser feliz na vida pessoal? Cristina hesitou. Sim, o pai tinha direito a fazer a vida dele. Mas… não naquela casa! …Os pais divorciaram-se há um ano. A mãe levou tudo com leveza, mergulhou em autoaperfeiçoamento. Tinha tantas amigas que nem tempo para tristeza havia. O pai, coitado, desesperou. Voltou para a sua casa de solteiro e apavorou-se. Dez anos de inquilinos, até que um deles adormeceu com o cigarro aceso. Não tinha dinheiro para obras, e esqueceu a casa. Nem vendeu, mas também não pensava em reabilitar. Viver ali era impossível: paredes chamuscadas, janelas partidas, bolor nas ombreiras… Parecia uma tumba de filme de terror. — Ó Cristina, não sei como hei de viver… — lamentou-se o pai, suspirando. — Aqui é perigoso, nem acabo as obras antes do inverno. Nem dinheiro tenho para isto tudo. Se morrer de frio, paciência… Cristina não aguentou. Não podia deixar o pai que a criara naquele estado. E se lhe acontecesse algo? Especialmente agora, que ela já morava com o marido, o apartamento dos pais vazio. Não ia arriscar outro inquilino. — Pai, fica lá em minha casa por agora, — sugeriu. — Está tudo pronto, confortável. Vais fazendo o teu arranjo, depois mudas-te. Só uma condição: nada de visitas. — Posso mesmo? — Oleg, surpreendido, agradeceu imenso. — Salvaste-me, filha. Prometo que será tudo calmo. Pois sim. Calmo… Enquanto Cristina se lembrava da conversa, a porta da casa de banho abriu e surgiu uma mulher de uns cinquenta anos, envolta no roupão favorito de Cristina, agora a tapar mal as formas da estranha. — Ó Oleguinho, temos visitas? — perguntou a senhora, com voz rouca de fumadora, sorrindo de lado. — Ao menos avisavas, estou em modo caseiro. — E você, quem é? — indagou Cristina, mirando o roupão. — E por que está a usar o meu roupão? — Sou a Joana, a paixão do teu pai. E estás tão nervosinha por quê? Peguei só o roupão, estava ali à toa. Cristina ferveu de raiva. — Tire. Já. — murmurou entre dentes. — Cristina! — pediu o pai, metendo-se no meio. — Não faças cenas! A Joaninha só… — A Joaninha só vestiu roupa alheia, num lar alheio! — cortou Cristina. — Pai, estás bom da cabeça? Trouxeste tua namorada e deixas que mexa nas minhas coisas sem pedir?! Joana revirou olhos e foi para a sala, atirando-se para cima do cobertor com tigre. — Que falta de educação, — declarou ela. — Se fosse o Oleg, dava-te era uma palmada, nem que fosses já crescida. A vida íntima do teu pai não te diz respeito! Cristina ficou sem fala. Uma estranha a tratava como criança malcriada, sentada no seu sofá. — Não diz respeito, — concordou ela. — Até o momento em que acontece na minha casa. — Na tua? — Joana arqueou sobrancelha e olhou questionadora para Oleg. Oleg gelou, colado à parede, com olhar assustado da filha para a amante. Rezava para que aquilo acabasse sem ele fazer nada, mas o drama só piorava. — Então… O papá esqueceu-se de contar? — Cristina sorriu friamente. — Eu digo então: ele aqui é hóspede, nada mais. Esta casa é minha, tudo aqui fui eu que comprei. Só lhe emprestei para viver e nunca imaginei visitas assim. Joana corou de fúria. — Oleg?.. — o tom dela virou gelado. — Então não disseste que a casa era tua? Andaste a mentir? O pai murchou de vergonha. — Ó… Joana, não foi assim… Percebeste mal. Tenho casa, só não esta. Não te quis incomodar com detalhes… — Não quis incomodar?! Bonito serviço. Agora tenho que ouvir sermão por tua causa! A paciência de Cristina chegou ao fim. — Fora, — disse baixinho. — O quê? — Joana ficou perplexa. — Fora daqui. Os dois. Têm uma hora. Se ficarem, falamos com a polícia. Isto de deixar entrar estranhos… Cristina dirigiu-se à porta, mas Oleg segurou-lhe o braço. — Filha! Vais pôr teu próprio pai na rua? Sabes como está aquilo! Morro de frio! O pai agarrou-se ao casaco dela. Cristina vacilou. Era o seu pai, quis ter pena. Veio à mente o passado, amor filial, o dever… Mas então olhou para Joana. A mulher, acomodada no roupão, fitava-a com um ódio feroz. Se cedesse agora, amanhã trocaria fechaduras e redecorava tudo. — Pai, é adulto. Arranja-se, — cortou Cristina, libertando-se. — Só você tem culpa. O trato era vive sozinho, mas trouxe mulher estranha, deixou-a mexer em tudo e desarrumou a casa… — Fica então com a tua casa! — gritou Joana. — Anda, Oleg. Nem te humilhes. Criaste uma ingrata… Meia hora depois, tudo resolvido. O pai saiu, calado, curvado, como velho. O olhar de cão desalojado ficou gravado na memória de Cristina, mas ela manteve firmeza. Assim que partiram, abriu as janelas para expulsar cheiro de peixe, cigarros e perfume barato. Recolheu roupão, cobertor, tudo o que Joana tocara. Fora para o lixo. No dia seguinte, chamou a limpeza, mudou fechaduras. Não suportava mais nada que tivesse rasto de invasão. …Passaram quatro dias. Agora o apartamento estava livre. Sem flores falsas ou maus odores. Cristina vivia com o marido, mas sentia leveza ao lembrar. Não falou mais com o pai. No quarto dia, ele ligou. — Alô, — atendeu, hesitante, Cristina. — Então, Cristina… — começou ele, voz embriagada. — Estás feliz agora? Acabou-se. A Joana foi-se embora… — Ai que surpresa — não resistiu a filha. — Aposto que foi depois de ver a tua casa verdadeira, percebeu que ia ter trabalho… O pai fungou. — Sim… Pus aquecedor, dormi num colchão insuflável. Ela aguentou três dias… Disse que sou um pobre e um vigarista, e foi para casa da irmã. Só perdi tempo… E eu gostava dela, Cristina! — Que gosto que nada. Procuravas conforto, ela também. Saíram ambos a perder. Pausa. O pai não se calava. — Estou mal sozinho, filha… — disse, por fim. — Aqui mete medo… Posso voltar? Juro, sozinho! Prometo! Cristina baixou o olhar. O pai estava sozinho, rodeado pelo próprio caos. Mas foi ele próprio que criou tudo: traiu a mãe, enganou a filha, ludibriou Joana. Sim, ela teve pena. Mas essa compaixão arruinaria ambos. — Não, pai. Não deixo. Contrata gente, faz obras. Aprende a lidar com aquilo que criaste. Só te posso dar contactos de bons trabalhadores. Precisares, chama. Cristina desligou. Duro? Talvez. Mas nunca mais quis deixar que sujassem o seu lar, nem a sua alma. Há coisas que não se conseguem limpar; só podemos evitar que entrem na nossa vida…
Foi pior do que imaginei Pai, o que são essas novidades aqui? Andaste a saquear uma loja de antiguidade?
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015
A Casa de Campo do Papá O inesperado telefonema que revelou a venda da casa de campo familiar apanha Olga de surpresa – como se fosse cena de filme, ou uma daquelas coincidências de vida. Agora, entre cidades distantes, vozes familiares através de linhas de telefone trocam notícias sobre a antiga casa de campo: já não existe, foi vendida bem, podem até ajudar Olga financeiramente! É nas memórias entre Lisboa e a antiga aldeia, no aroma dos pomares – maçãs cor de mel, variedades portuguesas, conversas entre pai e filha sobre o céu de setembro – que Olga revisita infância, adolescência, amores, e lições de física difíceis de aprender. Na casa de campo, o pai torna-se outro homem, mais leve: canta modinhas, colhe frutas, recebe camaradas do tempo do Exército e de oficinas de telecomunicações. É num ambiente rural, com cheiro a terra molhada, onde a mãe de Olga só aparece de vez em quando – mulher elegante, zeladora de biblioteca militar e dona de uma beleza magnética – que se desenrola a história da família: entre o rigoroso conforto urbano e o improviso bucólico, entre “soldadinhos” do pai e dramas domésticos. Da adolescência dourada no campo até aos dias solitários na universidade de Coimbra, Olga tenta adaptar-se à vida entre culturas e idiomas diferentes – no rés-do-chão do mundo, com colegas alemãs e refeições na cantina, e saudades do lar a cada passo pelas ruas do bairro antigo. Com o passar dos anos, casamentos, divórcios, trabalho num jornal de fábrica aérea, nascimentos e perdas modificam os contornos da história. Entre vindas e idas, é a casa de campo que permanece o refúgio de finais de semana com o pai e a filha, as tardes de outono junto à lareira, o aroma a maçã, as conversas sobre vida e esperança – até ao último adeus ao pai, num outubro solarengo. O ciclo fecha-se com uma viagem até à terra das maçãs: Mação ou região dos pomares, onde Olga compra mudas de groselheira e, de volta ao lar, recebe por acaso a notícia da venda definitiva da casa de campo – já não existe, restam memórias, aromas e a terra que guarda para sempre as raízes de família.
A Quinta do Pai Foi por um acaso inesperado que Leonor soube que a quinta que ela e o pai tinham fora vendida.
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0195
Abre a porta, que já chegámos! – Julinha, é a tia Natália! – a voz ao telefone cintilava com uma alegria tão forçada que até doía nos dentes. – Daqui a uma semana estamos aí na cidade, temos uns documentos para tratar. Vamos ficar em tua casa, uma semaninha ou duas, está bem? Júlia quase se engasgou com o chá. Assim, sem “olá”, sem “como estás”, logo: vamos ficar. Não “podemos?”, não “fica-te bem?”. Não. É vamos ficar. Ponto final. – Tia Natália… – Júlia esforçou-se para manter a voz suave – Que bom ouvir-te. Mas quanto a ficarem cá… Olha, posso ajudar a encontrar um hotel bom? Há opções baratas, mesmo em conta. – Hotel? – a tia bufou, como se a sobrinha dissesse a coisa mais parva do mundo. – Para quê gastar dinheiro? Ainda tens aquele T3 que foi do teu pai! Três quartos só para ti! Júlia fechou os olhos. Começava… – É a minha casa, tia. – Tua? – o tom ganhou um corte afiado. – E o teu pai, era de quem? Não somos família? Sangue não é água, Julinha. Não somos estranhos para tu mandares para hotel, como se fôssemos uns cães! – Eu não estou a mandar ninguém para lado algum. Só não dá para ficarem cá. – Isso agora porquê? “Porque da última vez transformaram a minha vida numa sucursal do inferno,” pensou Júlia, mas disse: – São as circunstâncias, tia Natália. Não consigo receber-vos. – Circunstâncias! – já nem disfarçava o aborrecimento. – Três quartos vazios e tem circunstâncias! O teu pai, que Deus o tenha, nunca punha a família na rua. Tu és igualzinha à tua mãe… – Tia… – Que foi, tia? Vamos chegar sábado, para o almoço. O Maxim e o Paulinho vêm comigo. Recebe-nos a horas. – Já te disse… Não consigo. – Julinha! – voz dura, de comando. – Não se fala mais nisso. Sábado estamos aí. E desligou. Júlia pousou o telefone devagar. Ficou a olhar para um ponto. Suspirou fundo e recostou-se. É sempre assim. Há dois anos a tia Natália já “visitou”. Vieram quatro, disseram que eram três dias – ficaram duas semanas. Júlia ainda lembrava o pesadelo: Maxim, o marido da tia, estendido de sapatos no sofá, com o comando até às tantas. Paulinho, o filho já homem feito, desencantava comida do frigorífico e não lavava um prato. A tia Natália reinava na cozinha, criticava tudo: das cortinas ao azulejo “desenxabido”. Quando saíram, Júlia encontrou o sofá queimado, a prateleira da casa de banho partida e nódoas misteriosas no tapete. Nem uma palavra de dinheiro – nem para comida, nem para o gás, nada. Enfiaram as malas, despejaram um “obrigada, Julinha, és mesmo uma querida” e rua. Júlia passou a mão nas têmporas. Chega. Nunca mais. A tia pode berrar sobre sangue e família. Pode chegar no sábado – mas vai encontrar a porta fechada. Pegou do telefone e procurou hotéis. Bons, simpáticos, preço justo. Mandou a morada e explicou bem: isto é o que eu posso ajudar. Se não aceitarem, já não é problema dela. Dois dias passaram em santa paz. Trabalho, passeios à noite, janta só para si, quase convenceu-se que a chamada da tia fora só um pesadelo. Pode ser que mudem de ideias, encontrem outros parentes onde encostar. O telefone tocou na quinta à tarde. “Tia Natália” no ecrã, o estômago revirou. – Júlia, sou eu! – a voz explosiva invadiu a casa. – Amanhã chegamos, o comboio chega às duas. Vem buscar-nos e põe mesa posta, precisamos de comer a sério que isto não é brincadeira! Júlia sentou-se devagar. Os dedos apertavam o telefone. – Tia Natália, falei claro. Não vos recebo cá em casa. Não venham. – Ora, deixa-te disso! – tia riu, como se fosse piada. – Pareces uma criança, valha-me Deus. Não deixo, deixo… Já temos os bilhetes! – Isso é convosco. – Júlia, estás bem? – no tom, dúvida, logo trocada por firmeza – Somos da família ou quê? Tens obrigação de ajudar, isso é sagrado! – Não devo nada a ninguém. – Ainda como deves! O teu pai, que Deus o tenha… – Tia, chega do meu pai. É não. Palavra final. Tia suspirou alto, teatral, como quem tem paciência de mãe para filho birrento: – Julinha, a tua opinião aqui não conta, percebes? Somos família. E tu que pensas que somos uns inimigos. Amanhã às duas, não te esqueças! – Já disse… – Pronto, beijinhos, até amanhã! Desligou. Júlia ficou a olhar o ecrã. Dentro dela fervia algo quente e ruim. Lançou o telefone ao sofá e começou a andar para cá e para lá como um leão enjaulado. Então, bom para a tia que ache que pode tudo. Agarrou o telefone e encontrou “Mãe”. – Alô? Julinha? – o tom carinhoso, estranho – Aconteceu alguma coisa? – Olá, mãe. Olha… queria ir aí. Amanhã. Uma semana, talvez mais. Pausa. – Amanhã? Filha… só há um mês estiveste cá… – Eu sei. Mas preciso mesmo. Trabalho remoto, é igual onde estou. Posso? Mãe ficou em silêncio. Júlia quase via o rosto dela sério, a pensar. – Vem. Tens sempre casa. Sabes disso. Mas está tudo bem contigo? – Está, mãe. Só tenho saudades. Desligou e sorriu. Amanhã ao almoço tia Natália ia encontrar a porta trancada. Podia chamar, bater, armar escândalo no prédio – a dona não está. Nem foi à loja nem às amigas. Está noutro concelho, a mais de trezentos quilómetros. Júlia marcou bilhete. Comboio das 6h45. Perfeito. Quando a tia batesse à porta, ela estaria a beber chá na cozinha da mãe. Sangue não é água, mas família também precisa de ouvir um “não” de vez em quando. No comboio, Júlia escutou o som das rodas e imaginou a cara da tia à porta fechada. Os olhos pesavam, mas sentia-se tranquila. A mãe esperou-a na estação, abraçou forte, levou-a para casa. Deu-lhe panquecas com queijo fresco, chá e mandou-a dormir. – Depois conversamos, – tirando a chávena. – Agora descansa. Júlia adormeceu antes de lá chegar. Acordou ao som estridente do telefone. Procurou o aparelho a medo, leu no ecrã: “Tia Natália”. – Júlia! – tia berrava tanto que ela afastou o telefone. – Estamos há vinte minutos à tua porta! Porque é que não abres?! Júlia sentou-se na cama, esfregou o rosto. Lá fora o sol punha-se – dormitara meio dia. – Porque não estou aí, – disse, sorrindo. – Como assim não estás?! Onde estás?! – Noutra cidade. Silêncio. Depois, uma explosão. – Perdeste a vergonha?! Sabias que íamos e foste embora?! Como é possível?! – Muito fácil. Avisei que não vos recebia. Não quiseram ouvir. – Como é que tens lata! Tens as chaves com alguém, não tens?! Com a vizinha, com uma amiga! Liga, manda trazer! Ficamos lá sem ti, não somos crianças! Júlia ficou parada. Que descaramento… – Tia, estás a falar a sério? – Claro! Estamos cansados da viagem e tu armaras drama! – Não quero ninguém na minha casa. Nem sem mim, nem comigo. – Sua… A mãe entrou de mansinho, robe e cabelo despenteado, olhos semicerrados. Estendeu a mão e Júlia, sem saber porquê, passou-lhe o telefone. – Natália, – voz gelada da mãe – aqui é a Vera. Escuta e não interrompas. Da outra parte, uns sons confusos. – O Yuri nunca te grameu, Natália. Nunca. Eu sei melhor que ninguém. Porque insistes com a filha dele? O que queres dela? A voz da tia falhava, gaguejava. – Pois muito bem, – cortou a mãe. – Não voltas a ligar à Júlia. Nunca mais. Ela tem quem a ajude. Não és tu. Pronto. Ficou dito. Desligou e devolveu o telefone à Júlia. Júlia olhava para a mãe como se nunca a tivesse visto. – Mãe… Nunca te vi assim. Ela sorriu, ajeitando o robe: – O teu pai ensinou-me. Sempre disse: à Natália, é só assim. Ralhas à séria – e ela não volta a chatear durante anos. Riu e os olhos brilharam. – E funciona até hoje, imagina! Júlia desatou a rir, bem alto, enfim liberta do peso dos dias anteriores. A mãe acompanhou. – Vá, vamos ao chá à cozinha. Conta-me como foi esse filme todo.
Abre a porta, já cá estamos. Matilde, sou eu, a tia Leonor! a voz no telefone soava com uma alegria tão
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0168
Ao Entrar em Casa, Olívia Parou: Ao Lado dos Seus e dos Sapatos de João, Estavam Uns Altos e Caros Sapatos Femininos – Reconheceu-os Imediatamente, Eram da Irmã Dele. Por Que Ela Estava Ali? João Não Avisou Nada Sobre a Visita da Irmã – Olívia, o teu marido está em viagem outra vez? – Perguntou Paulo, colega de trabalho, cruzando-se com ela a caminho da paragem de autocarro. – Que tal um cafézinho? Podemos conversar e beber o teu cacau preferido, já que nunca há tempo para um “olá”, “adeus”. – Desculpa, Paulo, hoje não posso. O João prometeu chegar cedo a casa, vamos escolher a cozinha nova, ainda estamos a terminar as obras e não temos tudo comprado. De resto, ele já não vai a viagens há imenso tempo… – E chega sempre a horas a casa? – Paulo ironizou, mal disfarçando o tom. – Nem sempre, – sorriu Olívia, abanando a cabeça. – Precisamos tanto de dinheiro agora que o João tem de ficar mais tempo no trabalho. Quando mobiliarmos a casa toda, aí sim, ele chega cedo todos os dias. – Percebo, – disse Paulo, sorrindo antes de lhe desejar um bom fim de tarde e seguir outro caminho. Desta vez, Olívia teve sorte: o autocarro veio rápido, e acabou por apanhar lugar junto à janela, mergulhada nos seus pensamentos. Houve tempos em que ela e Paulo quase casaram, mas acabaram por se separar sem grande explicação – nem se lembrava bem porquê. E foi então que conheceu João, casando-se com ele meio para mostrar a Paulo que não estava sozinha. Paulo chegou a pedir desculpa, prometeu fazê-la feliz, mas Olívia já estava muito envolvida com João, acreditando que nunca tinha amado Paulo realmente. Recentemente, Paulo foi transferido para a filial onde Olívia trabalhava. Ela pensava que era coincidência, mas desconfiava que ele soubera que ela lá estava e quis reaproximar-se. Por mais que lhe fizesse bem saber que ele continuava sozinho e ainda a tratava com carinho, desejava-lhe felicidade e até sentia um ligeiro ciúme da futura esposa dele – Paulo era romântico, sabia cativar. Quanto ao seu próprio casamento, não podia dizer que teve azar com João, apenas que ultimamente ele dedicava quase todo o tempo ao trabalho, preocupado em dar-lhes conforto e estabilidade. Viviam no apartamento da irmã de João, oferecido gentilmente por ela enquanto os filhos cresciam – Oksana nunca soubera o que era precisar de dinheiro, nunca trabalhou, apenas investiu em imóveis pensando nos filhos. João e Olívia fizeram as obras e agora compravam móveis. Muitas vezes, Olívia pensava se não seria melhor alugar um apartamento já mobilado – quantos anos de renda teriam poupado, ou talvez já tivessem investido numa casa própria. Olívia saiu do autocarro, atravessou a rua e sempre com o cheiro forte de chuva no ar, entrou no prédio, subiu ao quarto andar sentindo uma tensão indefinível. Ao chegar ao apartamento, parou junto à porta: ao lado do seu e do sapato de João, uns sapatos altos, caros – reconheceu-os de imediato, eram da irmã dele. Para quê ela ali? João não mencionou visita nenhuma. Quase pronta para anunciar a sua chegada, algo a fez hesitar. Ficou parada, escutando. Ouvia a voz de Oksana: “Viagem não correu bem, mas pensei em dar-te umas férias… com uma condição: vais com a Vera, não com a tua esposa.” Olívia recordou João mencionar esse nome – uma amiga da irmã que Oksana tentava “juntar” com ele. Agora, ouvir aquele nome, deixou Olívia inquieta. João protestava, dizendo já ter dito que está com Olívia, não quer saber da Vera. Olívia suspirou de alívio, parecia mesmo só teimosia de Oksana. Pronta para entrar, ouviu a irmã insistir que Vera era melhor partido, que João nunca esqueceria Vera, e que Olívia não era a tal. Atordoada, Olívia tentava processar: João amou Vera? Quis casar com ela? Dissera-lhe que não tinha interesse por Vera! A conversa continuava: Oksana dizia que João casou com Olívia só para fazer Vera ter ciúmes. Olívia, contra o frio da parede, pensava se também não tinha feito igual ao casar com João só para dar uma lição a Paulo – mas ao contrário de João, ela realmente amava o marido. Tensa, ouviu João dizer que tudo aquilo era passado, agora tinha compromissos com Olívia. Mas Oksana insinuava que Vera tinha agora um apartamento enorme e ainda amava João – e que Olívia e ele iriam acabar expulsos do apartamento emprestado. E Vera sabia de tudo, foi ideia dela, queria que Oksana colaborasse na reconciliação do casal. Quando João perguntou “E o que digo à Olívia?”, Oksana respondeu levianamente: “Diz que vais ajudar-me na quinta, mas vais ao mar com a Vera.” Olívia não aguentou mais. Saiu silenciosamente, foi até uma cafetaria vazia, pediu um cacau com baunilha e ficou a remoer fragmentos da conversa. Como é possível toda esta mentira? Sentia-se traída, ferida, e não conseguia afastar a ideia de que seu casamento era só uma resposta de orgulho, não uma escolha sincera – ao contrário do que ela sempre acreditara. Já noite, Olívia regressou ao apartamento, convencida de que a separação era inevitável. Ao chegar, deparou-se com as malas de João. “Sim, deve estar a preparar-se para ir…” – O que estás a fazer? – perguntou, sabendo a resposta, mas João surpreendeu-a: – Olívia, vamos embora daqui. Já arranjei apartamento. É provisório, depois vamos tratar da hipoteca. – João olhou-a, notando o seu desconcerto. – Porque demoraste tanto? Estive a ligar-te o tempo todo, mas tens o telemóvel desligado. Arranjaste trabalho extra? Olívia mal acreditava. Tudo o que preparara para lhe dizer, perdeu sentido. Ele confirmou: tiveram discussão, decidiu que não queria mais depender da irmã. Sentou-se no sofá com ela e contou tudo sobre a conversa com Oksana. Admitiu tudo: realmente teve um romance com Vera, casou com Olívia para se vingar, mas agora a única pessoa que ama é ela. Olívia ouviu, sentindo alívio misturado com tristeza pela ausência de sinceridade, mas finalmente podiam falar abertamente. – Desculpa, devia ter contado antes, – disse João, – mas quando disseste que quase casaste com Paulo, achei que não valia a pena mexer nesse passado. Ela respirou fundo, lágrimas de alívio. “Tudo bem. O passado é passado. Arrendaste mesmo um apartamento?” – Sim, temporário, mas será o nosso lar. Sem Oksana, sem interferências. Vamos conseguir, prometo. Depois compramos casa. Olívia concordou. Sentia que era o caminho certo – finalmente iam viver para eles, sem pressões de terceiros. – Então, vamos começar a fazer as malas? Olívia acenou, emocionada, acreditando que pela primeira vez iam construir uma vida deles, deixando o passado para trás.
Ao entrar no apartamento, Inês parou logo à entrada. Perto da porta, arrumados com esmero ao lado dos
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072
O Sabor da Liberdade – Terminei as obras cá em casa no outono passado – começou Vera Ignátia, sorrindo. Passámos meses a escolher papéis de parede, a discutir o tom dos azulejos da casa de banho e a recordar, com carinho, como há vinte anos sonhávamos com este nosso T3. – Pronto, agora está tudo, – disse o marido, radiante na celebração do fim das obras – até já podemos casar o nosso Manel! Ele traz cá a mulher, os filhos vêm a caminho, e a casa finalmente transforma-se num lar animado e cheio de vida. Mas os sonhos não se realizaram. A nossa filha mais velha, Catarina, voltou para casa com duas malas e dois filhos. – Mãe, não tenho para onde ir – disse, anulando todos os nossos planos. Demos o quarto do Manel aos netos. Ele não se queixou, só encolheu os ombros: – Não faz mal, logo terei o meu. “O meu” era o apartamento da minha mãe, onde também se fez reforma há pouco tempo e que alugávamos a uma jovem família. Cada mês entrava uma modesta, mas preciosa, mesada – aquele “pé-de-meia” para quando eu e o meu marido já não pudermos cuidar um do outro. Um dia vi o Manel com a namorada, Leonor, de mãos dadas, de olhos no céu, a falar sobre aquela casa. Percebi logo as intenções, mas deixei correr. Até que um dia ouvi: – Dona Vera, o Manel pediu-me em casamento! Já encontramos o salão! Imagine: há uma carruagem verdadeira! E uma harpa! E um terraço de verão! Os convidados vão poder passear no jardim… – E depois, onde vão viver? – não resisti, – tal casamento deve custar um balúrdio! Leonor olhou para mim, como se eu tivesse perguntado pelo tempo em Marte. – Ficamos cá por uns tempos. Depois… logo vemos. https://clck.ru/3RKgHm – Aqui, – disse eu devagar –, já mora a Catarina com os filhos… Fica um hostel, não uma casa. Leonor fez beicinho. – Pois. Aqui não vale a pena. Vamos mesmo a um verdadeiro hostel. Pelo menos aí, ninguém se mete na nossa vida. Aquela frase tocou-me. Alguma vez me meti? Só queria evitar asneiras… Depois ainda tentei falar com o Manel: – Filho, para quê essa extravagância? Casem-se no civil, usem o dinheiro no sinal de uma casa! – A voz falhou-me… O Manel olhou pela janela, rosto fechado. – Mãe, então porque celebram vocês o aniversário de casamento sempre no “Dragão Dourado”? Podiam ficar em casa, ficava mais barato. Calou-me. Sorriu, malicioso: – Vocês têm a vossa tradição. Nós queremos a nossa. Comparou o nosso jantar de família, de cinco em cinco anos, à festa deles, meio milhão de euros! No olhar do Manel vi julgamento. Chamou-nos hipócritas. Esqueceu que ainda pagamos a prestação da carro dele. Nem sonha com o nosso “pé-de-meia”. E agora quer casamento, e dos caros! No fim, ele e a Leonor ficaram magoados. Principalmente porque não cedi a chave do apartamento da avó. *** Certa noite voltava a casa num autocarro quase vazio e vi uma mulher cansada refletida no vidro, com medo nos olhos. De repente, percebi: tudo o que faço é por… medo! Medo de ser peso morto. Medo de ser abandonada pelos filhos. Medo do futuro. Não nego o apartamento ao Manel por mesquinhice, mas por medo de não me sobrar nada. Obrigo-o a desenrascar-se, pago-lhe a vida por receio que falhe e fique desiludido. Quero que cresça, mas trato-o como a criança que não entende nada. Só querem começar a vida com pompa. Carruagem e harpa. É fútil, sim, mas têm direito. Se for com dinheiro deles! Primeiro, falei com os inquilinos – pedi que procurassem casa rapidamente. Um mês depois liguei ao Manel: – Venham cá. Vamos conversar. Chegaram desconfiados, prontos para discussão. Eu servi chá e… pus as chaves da casa da avó em cima da mesa. https://clck.ru/3RKg9f – Levem. Não façam festa: não é presente. Fica à vossa disposição por um ano. Nesse tempo, decidam: ou pedem empréstimo, ou ficam, mas noutras condições. O valor das rendas perco, mas pronto. É uma aposta. Não na vossa boda. No vosso futuro como família, não como vizinhos do refeitório. Leonor arregalou os olhos. O Manel olhou as chaves, sem saber o que fazer. – Mãe… e a Catarina? – Também há surpresa para ela. Vocês já são adultos. Agora a vida é vossa responsabilidade. Não somos o vosso colchão nem a vossa carteira. Só pais. Amamos, mas não salvamos. O silêncio foi ensurdecedor. – E o casamento? – perguntou Leonor, pela primeira vez incerta. – Casamento? – encolhi os ombros –, não sei. Façam como quiserem. Se arranjarem dinheiro para uma harpa, tenham harpa. *** O Manel e a Leonor foram-se embora, e eu fiquei com medo. Medo de que não resultasse, de que nunca me perdoassem. Mas pela primeira vez em anos respirei fundo. Porque finalmente disse “não”! Não a eles. Aos meus próprios receios. E deixei o meu filho partir para a vida adulta, livre, difícil e independente. Seja como for… *** Agora o olhar do Manel. Sonhávamos com um casamento de sonho. Mas a separação da minha irmã deitou tudo por terra. Quando a mãe disse que gastar num casamento de luxo era absurdo, senti-me derrotado. – Então porque vão sempre ao restaurante no aniversário de casamento? – disse, a magoar. – Ficavam em casa, era mais barato! Ela empalideceu. Era essa a intenção. Fiquei magoado. Sim, ofereceram-me um carro. Mas eu nunca pedi nada! Agora lançam-me à cara a prestação. Não pedi! Fizeram, agora aguentem. Fizeram obras no apartamento, diziam que era para nós. Mas afinal já não podemos lá viver. O apartamento da avó… é um “bem sagrado”, mais valioso que o casamento do filho! E agora? Como mostrar ao mundo – e a nós próprios – que somos uma família? Leonor, envergonhada, disse: – Manel, não te posso dar nada. Os meus pais não podem ajudar. Têm empréstimo. – Tu dás-me a ti – respondi, tentando confortá-la. No fundo, irritado. Não com ela. Com a injustiça. Porque é tudo à custa dos meus pais? Porque ajudam com má cara, como se cada euro lhes tirasse anos de vida? Esse tipo de ajuda sabe a culpa, não aquece o coração. Nunca conversámos abertamente com os pais: “Mãe, pai, percebemos o vosso medo. Como avançar unidos sem vos despedaçar?” Não. Só esperamos que adivinhem e realizem os nossos desejos, sempre sorridentes, sem condições. Como em pequenos. – E o casamento? – Leonor perguntou, nervosa. – O vosso casamento? – encolheu os ombros –, se conseguirem dinheiro para harpa, tenham harpa. Saímos. Eu rolava as chaves no bolso. – E agora? – perguntou a Leonor. Não sobre a casa. Sobre, mesmo tudo. – Não sei – admiti. – Agora é connosco… Nesse peso assustador da responsabilidade, senti uma liberdade nunca antes vista. O primeiro passo era este: será que mesmo queremos tudo isso, carruagem e harpa? Tradições são importantes, mas têm de se construir sobre algo mais do que um dia especial… *** E então? A vida a dois do Manel e da Leonor começou logo no dia seguinte. Finalmente juntos! Vivem num T1 simples. Não é deles, mas é só para eles. Obras recentes. Só que… ninguém os incomoda! No início, casa cheia de amigos! Como não? Liberdade! Depois, passado um mês, veio a vontade de um cão – e dos grandes! A Leonor sempre sonhou com um, nunca teve: a mãe não deixava. O Manel já tivera um – mas fugiu ainda no tempo da escola. Uma tragédia para ele… Assim, o elo do sonho entrou pela porta: um simpático labrador chamado Mercedes. https://clck.ru/3RKgGM Esse filhote fez das suas. Rasgar cantos, roer pernas da mobília, fazer disparates… por todo o lado. Quando Vera Ignátia veio visitar, ficou pasmada: nem sabia do novo morador. – Manel! Leonor! Como puderam?! Nem avisaram! – quase chorou, a olhar a casa – e para quê? Um cão destes é preciso vigiar, e está sempre sozinho! Claro que estraga tudo. Tantos pelos! Nem limpam? E o cheiro! Não dá! Têm de devolver o cão! Amanhã mesmo! – Mãe, – saiu seco do Manel, – afinal deste-nos a casa por um ano. Agora vais controlar-nos também? Queres as chaves de volta? – Nem pensar – exclamou Vera Ignátia –, dou minha palavra. Um ano é um ano. Mas têm de devolver a casa tal como receberam. Percebem? – Sim, – concordaram ambos. – Até lá, não me chamem. Não quero ver isto. *** A mãe cumpriu. Não apareceu. Mal ligava. Passados quatro meses, o Manel voltou para casa: a relação acabou. Contou tudo – ela era péssima dona de casa, não sabia cozinhar, não cuidava do cão. Tiveram de devolver o Mercedes ao criador, e com um saco de ração para três meses, como foi pedido. E isso custa dinheiro! – Apressaste-te com a Leonor, filho? – perguntou Vera Ignátia, disfarçando um sorriso – queriam casamento com carruagem e harpa… – Casamento, mãe?! Por favor! Podes alugar outra vez a casa da avó. – Para quê? Não queres lá morar, já te habituaste? – Prefiro aqui, em casa – abanou a cabeça – ou és contra? – Sempre a favor, – respondeu Vera Ignátia –, ainda por cima, desde que a Catarina saiu com os miúdos, voltou a reinar o silêncio…
O Sabor da Liberdade Acabámos as obras lá em casa no outono passado começou Maria Eduarda a contar.
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09
A Casa de Campo, Ela Conserta Tudo: Uma História de Família, Renovação e Reconciliação no Interior de Portugal
Estás doida, Mariana? Eu disse à Filomena que ias lá! Combinei tudo, para ela te guardar o melhor pedaço!
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0267
A Casa de Campo, Ela Conserta Tudo: Uma História de Família, Renovação e Reconciliação no Interior de Portugal
Estás doida, Mariana? Eu disse à Filomena que ias lá! Combinei tudo, para ela te guardar o melhor pedaço!
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062
De novo ela? – Quando o amor é posto à prova entre ex-mulheres, filhos e promessas incumpridas: a madrugada decisiva de Marina e Dmitri em Lisboa
Outra vez com ela Vais outra vez ter com ela? Margarida fez a pergunta já sabendo a resposta.
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013
EU NÃO PRECISO DE UMA FILHA PARALISADA… – disse a nora antes de partir… Mal ela imaginava o que estava prestes a acontecer… Numa aldeia portuguesa vivia o senhor António, um velhote boa praça que aos fins-de-semana gostava de beber um copinho de branco. O seu maior sonho era ter um cão, mas não qualquer cão — queria um puro Alentejano, daqueles robustos da planície. Para isso, estava até disposto a ir à Serra de Serpa, só para lá comprar o cão e trazê-lo para casa. Chamavam-lhe “Antóniço”, uns pelo nome, outros pelo apelido, mas ninguém sabia ao certo. O Sr. Antóniço, sempre sentado ao fim do dia no banco junto à horta, recordava outros tempos e atraía a juventude para ouvir histórias de antigamente na aldeia. A esposa, Dona Cláudia, já tinha partido há anos. O coração dela era fraco, os médicos proibiram-na de ter filhos, mas o desejo era tanto, que deu à luz o filho do Sr. António e ficou ainda mais doente. Ele fazia tudo por ela, não a deixava carregar nem um litro de leite do minimercado. “Não podes! Os médicos proibiram!” dizia ele. O Sr. António cuidava do filho, cozinhava, fazia tudo em casa. Dona Cláudia lamentava-se: — Até me envergonha! As vizinhas vão gozar… não faço nada, tudo o homem faz! Mas as vizinhas não gozavam, invejavam: — Ó Cláudinha, empresta-nos o teu Antóniço um dia, só para viver como tu! Ela sorria em resposta. E assim, com sorriso no rosto, partiu. António encontrou-a fria de manhã. Chorou como uma criança durante três dias e depois ocupou-se do filho. O rapaz tinha 14 anos e era rebelde. Casou cedo, ficou a viver em Lisboa, onde serviu o exército. E assim, Antóniço ficou só. Mas não desanimava: gostava de conversar com os jovens da aldeia no seu banco. O filho teve uma filha, e o avô esperava sempre a visita, mas a família nunca vinha: trabalho, falta de tempo, sempre uma desculpa. Só via a neta em fotografias. Logo a aldeia notou que o Sr. António andava mais cabisbaixo, não sorria, não fazia piadas nem sentava no banco. Foram perguntar e souberam: chegara um telegrama da nora, dizendo que tiveram um acidente de carro. A neta estava em estado grave no hospital, o filho morreu. Toda a aldeia teve pena do velho, mas que palavras podem ajudar num desgosto tão grande? Aceitava as condolências, mas não aliviava o seu sofrimento. Doía-lhe o filho que não voltaria, mas doía mais ainda a neta: jovem, de 15 anos, em coma no hospital. Não tinha notícias da nora, que não escrevia, não atendia o telefone. Como saber da neta? Apesar de nunca a ter visto, amava-a tanto ou mais. Pelas fotos, era parecida com a Cláudia em juventude. O Sr. António decidiu ir a Lisboa, mas na véspera, uma carrinha parou à porta. Entrou uma senhora sem cerimónias e trazia a neta numa maca. Deixaram a menina no sofá e foram-se embora. — Ela está paralisada da cabeça aos pés. Não quero uma filha assim. Ainda vou arranjar marido e ter um filho saudável! — disse a nora. — Mas eu não sou médico! — protestou António. — Médico não faz falta. Não podem ajudar. Ela precisa de uma cuidadora. Se não quiser ficar com ela, enterre-a viva, mas eu não vou acabar com a minha vida. Não sou cuidadora dela! — disse a mulher, batendo com a porta. — Nem mãe és, parece! — gritou António a caminho da porta. Ficava claro por que o filho nunca trouxe a família à aldeia. Com uma esposa destas, só para ir discutir no mercado, não visitar família… Como foi cair numa mulher assim? Mas agora já não podia perguntar. Se soubesse que ela ia abandonar a filha, revirava-se na cova. Ficaram então ele e a neta. A menina estava totalmente paralisada, mas António já estava habituado a cuidar de tudo. Agora tinha sentido para viver: a missão era curá-la. Os médicos desistiram, deram-lhe alta. Nem entendiam como ela sobreviveu ao acidente. Restavam os remédios caseiros, as mezinheiras. Não havia nenhuma na aldeia; a mais próxima, longe. Não podia levar a menina paralisada, nem a mezinheira vinha a casa por estar velha. Não se sabia o que fazer… António ia quase todas as semanas à mezinheira, que lhe dava ervas e misturas. Assim tratava a neta. Passou mais de um ano, sem mexer mãos ou pés, imóvel como um pedaço de lenha debaixo do cobertor. Mal conseguia falar, só murmurava sons confusos. O avô notava, às vezes, uma lágrima a cair-lhe pela face. O coração dele dilacerava-se. Imaginava que a neta chorava de saudades da mãe e do pai. Conversava muito com ela, lia histórias, mas não recebia resposta. Era duro para ambos. Até que uma noite aconteceu o improvável. Enquanto o avô estava ao pé da cama, um bando de jovens bêbados entrou pela porta aberta, voltando da festa na adega. Sabiam que vivia uma rapariga paralisada ali. Propuseram entrar para “se divertir”, já que, segundo eles, ela “não ia resistir”… — Ó avô, tira o cobertor da neta e abre-lhe as pernas! Vamos lançar sorte para ver quem começa… — disse o mais bêbado. — Tenham piedade! Ela só tem 15 anos! — protestou o velho. — Espera que vou lavar os dentes! — respondeu António, correndo para a cozinha e abrindo a porta da adega: “Vai!” De lá saiu um enorme Alentejano Mastim, arrancando calças dos vândalos! Ao chefe, quase arrancou as partes baixas. Rasgou-lhes as calças até ficarem de rabo ao léu. Saíram a correr pela aldeia, as pessoas a rir, e o cão atrás até à saída do povoado. António voltou ao quarto e a neta estava sentada, aos gritos pela janela: — Muxtar! Muxtar! Avô, agarra-o, não o deixes fugir! O avô chorou de emoção. Daí para a frente, a menina começou a recuperar. Em pouco tempo voltou a andar. Se foi por causa das ervas ou do susto com o cão, não se sabe — mas não parava de falar, queria compensar o tempo em silêncio. E de onde apareceu o cão? Ora, fácil: Muxtar, o Alentejano, era do filho de António, mas quando se deu a tragédia, a nora despachou tanto a filha como o animal. Trouxe o cão junto com a menina, mas nada disse ao velho. Quando saiu, António foi fechar o portão e encontrou o cão lá sentado: magro, sofrido, olhos tristes como vaca doente, a chorar de verdade. O avô nunca soube que o filho tinha um cão, mas não o ia deixar na rua — levou-o para casa. O cão foi fiel ao velho, e naquele dia só estava na adega porque aquele verão estava quente, e o avô deixava-o lá para não sofrer. Só libertava o cão ao entardecer, mas àquela hora ainda estava preso. Se estivesse solto, ninguém teria entrado. A neta revelou que chorava de saudades do cão, não da mãe. O avô deixava o animal no quintal, não o levava para dentro. Ela sentia a falta, mas não podia contar. Muxtar, depois de expulsar os bêbados, lambeu a cara da pequena dona, feliz por tê-la de volta. Vivem assim agora: António, a neta e Muxtar. Da mãe, nunca mais tiveram notícias.
NÃO QUERO UMA FILHA PARALISADA… disse a nora, e saiu, batendo a porta. Ela nem imaginava o que