Без категорії
039
SEM ALMA… Cláudia Vasconcelos voltou para casa. Mesmo aos 68 anos, não abria mão de ir ao salão de cabeleireiro com frequência, cuidando do cabelo e das unhas, para se sentir melhor. — Claudinha, veio cá uma senhora que disse ser tua parente. Avisei que só ias chegar mais tarde, ela prometeu voltar — comunicou-lhe o marido, Jorge. — Parente? Já não tenho família. Deve ser uma “parente de sétimo grau”… provavelmente para pedir alguma coisa. Devias ter dito que fui para os confins do mundo! — respondeu Cláudia, aborrecida. — Ora, para quê mentir? Pareceu-me da tua família, alta e elegante, lembra até a tua mãe, que Deus a tenha. Não me parece que tenha vindo pedir nada. Muito distinta, bem vestida — tentou acalmá-la Jorge. Meia hora depois, a tal parente bateu à porta. Cláudia abriu. De facto, parecia-se com a falecida mãe, vestia-se com requinte: sobretudo caro, botas de couro, luvas, brincos com pequenos diamantes — em matéria de joias, Cláudia entendia bem. Sentaram-se à mesa já posta. — Vamos nos apresentar, já que somos parentes. Eu sou Cláudia, esqueça o formalismo dos sobrenomes, vejo que temos idades próximas. Este é o meu marido, Jorge. Por que lado da família és minha parente? — perguntou Cláudia. A mulher hesitou e corou ligeiramente. — Eu sou Galina… Galina Vilhena. Temos realmente pouca diferença de idade. Fiz 50 anos no dia 12 de junho. Reconhece essa data? — Cláudia empalideceu. — Vejo que se lembra. Sim, sou tua filha. Mas não se preocupe, não quero nada de ti. Só precisava ver minha mãe biológica. Passei a vida sem saber porquê a mãe nunca me amou. Aliás, já lá vão oito anos que partiu. Por que só o pai me amava? Ele também faleceu recentemente, há dois meses. No fim, contou-me sobre si. Pediu que a perdoasse, se possível — Galina falava emocionada. — Não entendo nada! Tens filha? — perguntou o marido, surpreso. — Parece que sim. Depois explico-te tudo — respondeu Cláudia. — Então és mesmo minha filha? Muito bem, já olhaste para mim? Se pensas que vou pedir desculpa ou me arrepender, enganas-te. Não tenho culpa nenhuma nisso! Espero que papá tenha explicado tudo. Se pensas que vais despertar sentimentos de mãe em mim, nem sonhes, nem um grama! Desculpa — — Posso voltar a visitar-vos? Moro aqui perto, numa casa grande de dois andares, porque não vens tu e o Jorge? Quero que se acostume ao facto de que existo. Trouxe fotos do teu neto e bisneta, talvez queiras ver? — pediu Galina, timidamente. — Não. Não quero. Não venhas. Esquece que existo. Adeus! — respondeu Cláudia friamente. Jorge chamou um táxi para Galina e foi acompanhá-la. Ao voltar, Cláudia já tinha tirado tudo da mesa e via televisão, tranquila. — Que sangue-frio! Deviam pôr-te a comandar exércitos, será que não tens mesmo alma? Sempre achei que eras fria, mas nunca pensei que fosse tanto — disse Jorge. — Conhecemo-nos quando eu tinha 28 anos, certo? Pois bem, a alma foi tirada de mim muito antes disso. Fui criada numa aldeia, sempre quis vir para a cidade. Era a melhor aluna e só eu entrei na faculdade. Aos 17 conheci o Vítor. Amava-o loucamente, era 12 anos mais velho. Depois de uma infância pobre, o mundo da cidade era um conto de fadas. Mal dava para comer com a bolsa. Vítor nunca me prometeu nada, mas estava certa que, com tanto amor, casaríamos. Quando me levou pela primeira vez à casa de campo, nem hesitei. Achei que, a partir dali, estava presa ao coração dele. Os encontros tornaram-se regulares. Logo notei que ia ser mãe. Disse a Vítor. Ficou feliz. Como a barriga cresceria, perguntei quando iríamos casar. Eu já tinha 18, podia ir ao registo. — Prometi-te casamento? — respondeu com outra pergunta. — Não prometi. Nem vou casar. Já sou casado… — disse, friamente. — E o bebé? E eu? — — E tu? És jovem, saudável, poderias ser escultura de uma rapariga robusta. Pedes licença da faculdade, estudas até não dar mais, depois, eu e a minha mulher levamos-te para casa. Não conseguimos ter filhos, a minha mulher é bem mais velha. Quando nascer, ficamos com ele. Como vai ser, não te interessa. Trabalho na câmara e ela dirige um serviço hospitalar, tudo seguro. Depois de parires, vais à faculdade, e ainda te pagamos. Na época, ninguém falava em maternidade de substituição. Provavelmente fui das primeiras “mães de aluguer” sem querer. E voltar à aldeia, envergonhar família? Morei na casa deles até o parto. Ela nunca entrou no quarto, talvez ciúmes. Tive a filha em casa, trouxeram uma parteira, tudo correto. Não amamentei, levaram-na logo — nunca mais a vi. Passada uma semana, conduziram-me à porta, Vítor deu-me dinheiro. Voltei à faculdade. Depois, trabalho na fábrica, deram-me um quarto no dormitório para famílias. Fui subindo até chefe de secção. Tive muitos amigos, mas ninguém quis casar até encontrares tu comigo. Já tinha 28, nem queria mais casar, mas era preciso. O resto sabes. Vivemos bem, sempre com o que precisávamos. Três carros, casa cheia, quinta cuidada, férias todos os anos. A fábrica sobreviveu aos anos 90 porque só ali fazem peças especiais para tratores. Ainda está cercada de arame farpado e torres de vigia. Reformámo-nos com benefício. Temos tudo. Não temos filhos, nem precisamos. Olha as crianças de hoje… — terminou Cláudia a sua confissão. — Vivemos mal. Amo-te. Passei a vida a tentar aquecer o teu coração, nunca consegui. Não é pelos filhos, mas nunca tiveste pena de ninguém, nem de um gatinho ou cãozinho. A minha irmã pediu ajuda para a sobrinha, não deixaste cá nem uma semana. Hoje veio cá a tua filha e como a recebeste? É tua filha! Sangue teu… É triste, se fôssemos mais novos, pedia o divórcio, mas agora é tarde. És fria como gelo — disse, revoltado, Jorge. Cláudia até se assustou, nunca o viu tão duro. Toda a sua vida calma foi virada pelo regresso da filha. Jorge mudou-se para a quinta, onde vive até hoje com três cães que recolheu da rua e vários gatos. Vai raramente a casa. Cláudia sabe que ele visita a filha Galina e já está íntimo dos netos e bisnetos. — Sempre foi despassarado, e assim ficou. Que viva como quiser — pensa Cláudia. Nunca sentiu vontade de conhecer melhor a filha, o neto, ou a bisneta. Viaja sozinha até à praia. Descansa, recupera-se e sente-se ótima.
SEM ALMA… Leonor dos Santos regressou a casa envolta no nevoeiro da tarde, como se flutuasse entre
Без категорії
013
De Empregada a Membro da Família: Quando Aleuvina Decidiu Casar Após os 63, o Filho e a Nora Ficaram em Choque e Não Sabiam Como Reagir ao Novo Recomeço, Enquanto a Nova Vida se Transformava em Uma Rotina de Trabalho e Desilusão na Casa do Marido, Até Que Aleuvina Escolheu Retomar Seu Lugar ao Lado dos Verdadeiros Familiares
Tornei-me uma criada Quando decidi que ia casar-me, o meu filho, Ricardo, e a minha nora, Margarida
Без категорії
085
Ninguém foi enxotado, – dissemos para ambas, – eles é que, por algum motivo, não quiseram ficar! Que venham! Ficaremos felizes – Fica aqui! Não estamos em casa! – respondeu Pedro, tranquilo. – Mas estão a tocar à campainha! – Valéria estacou, levantando-se do sofá. – Deixa tocar, – disse Pedro. – E se for alguém importante? – perguntou Valéria. – Ou algum assunto sério? – Sábado, meio-dia, – respondeu Pedro. – Tu não convidaste ninguém, eu não espero visita! Conclusão? – Vou só espreitar pelo olho mágico! – sussurrou Valéria. – Senta! – A voz de Pedro era firme. – Não estamos em casa! Quem quer que seja, que vá embora! – Tu sabes quem é? – perguntou Valéria. – Suspeito, por isso te peço para sentar e não aparecer à janela! – Se for quem penso, eles não vão desistir facilmente! – disse Valéria, encolhendo os ombros. – Depende de quanto tempo ficarmos sem abrir a porta, – respondeu Pedro calmamente. – Mais cedo ou mais tarde, eles desistem. Eles não vão dormir no prédio. E nós não precisamos de sair de casa. Por isso, senta, pega nos auscultadores, no telemóvel e vê um filme. – Pedro, a minha mãe está a ligar, – disse Valéria, mostrando o telemóvel. – Então à porta está a tua tia com o filho desajeitado, – concluiu Pedro. – Como é que sabes? – Valéria ficou surpreendida. – Se fosse o meu primo, – e Pedro pronunciou “primo” com desdém, – quem estaria a ligar seria a minha mãe! – Não consideras outras hipóteses? – perguntou Valéria. – Se forem vizinhos, não quero conversar. Se fossem amigos, já tinham ido embora depois de tocar algumas vezes. Provavelmente, como pessoas decentes, teriam ligado antes a perguntar se podiam passar! Não ficavam meia hora a tocar à porta! Só familiares inconvenientes atormentam assim a nossa campainha! – Pedro, é a minha tia, – suspirou Valéria. – A mãe mandou mensagem. Pergunta onde é que estamos metidos. A tia Natália quer ficar uns dias connosco, tem coisas para tratar na cidade! – Escreve-lhe que há hotéis de sobra na cidade, – Pedro sorriu. – Pedro! – protestou Valéria. – Não posso escrever isso! – Eu sei, – Pedro refletiu. – Escreve que não estamos em casa, que estamos a morar num hotel porque estão a dedetizar a casa! – Boa ideia! – Valéria escreveu a mensagem e enviou. – Pedro, ela diz para arranjarmos dois quartos para ela e para o Costa… – Valéria ficou perplexa. – Escreve que não há dinheiro. E que alugámos duas camas num hostel, e na sala estamos com quinze estrangeiros, – Pedro sorriu satisfeito com a sua criatividade. – A mãe pergunta quando voltamos, – Valéria olhou para o marido. – Escreve que daqui a uma semana, – disse Pedro. Pararam de tocar à porta. O casal suspirou de alívio. – Pedro, a mãe escreveu que a tia vem daqui a uma semana, – disse Valéria, exausta. – E nós não estaremos em casa outra vez, – disse Pedro. – Sabes que isso não resolve o problema? Não podemos fugir deles para sempre. E se vierem em dia de semana? Ou nos apanharem depois do trabalho? Tanto a minha tia como o teu primo são capazes de tudo! – Pois é, – suspirou Pedro. – Quem nos mandou comprar um T3? – Foi para a nossa futura família grande, – lembrou Valéria. – Precisamos é de filhos! – disse Pedro, sério. – Dois, se possível! – Isso não depende só de nós! – protestou Valéria. – Sabes que temos de investigar! Não está a correr bem! – É preciso eliminar o stress, e tudo resolve-se, – garantiu Pedro. – Stress, ora são os teus, ora os meus! Devíamos mandar todos para longe! Por causa deles nada funciona! Valéria não respondeu. Sabia que Pedro tinha razão. Antes de casar, fizeram exames caros para verificar compatibilidade, doenças genéticas e fertilidade. Tudo estava ótimo. Mas logo depois do casamento, adiaram os planos de filhos para juntar dinheiro para comprar casa. Não podiam contar com heranças. Antes do casamento, ambos moravam com as mães em T1 pequenos. Tiveram de se virar sozinhos. Cinco anos de trabalho árduo e muita poupança renderam um apartamento grande. Usado, prédio antigo, precisou de obras e de mobília nova. Mas foi pura felicidade! Nem tinham festejado a mudança, apareceu logo a tia de Valéria, com o filho. E para não deixarem os jovens refilarem, a mãe da Valéria veio junto. – Aqui não falta espaço! Não como eu com a Valéria, que sofríamos num quarto! – Que maravilha, – aprovou tia Natália. – Um quarto para mim, outro para o Costa! – Na sala não se dorme, – disse Pedro. – É para descansar! – Mas eu não venho trabalhar! – riu tia Natália. – Valéria, explica ao teu marido que não nos fica bem, ele ressona! E ainda nem pôs a mesa para as visitas! – Não vos estávamos à espera, – aflita, disse Valéria. – E o frigorífico está vazio, – disse Pedro, solidário. – Vá lá, – concedeu tia Natália. – Pedro, vai ao supermercado; Valéria, corre para a cozinha! – Então, mexam-se! – mandou a sogra. – É assim que recebem visitas? – Não se estão a achar?… – indignou-se Pedro, mas Valéria puxou-o para outra sala. Quando Pedro conseguiu tirar a mão de Valéria da boca, perguntou: – Valéria, ninguém está a exagerar aqui? Eu meto-os todos na rua, até à tua mãe! Se vieram de visita, comportem-se como convidados! Isto quê? – indignou-se Pedro. – Pedro, ela é simples! Vem do interior! Lá é costume! – Eu conheço gente simples, mas falta de respeito não é costume em lado nenhum! – Amor, não vamos discutir com a mãe e com a tia! Depois vão-me dar cabo dos nervos! E tu vais virar o vilão da família! Precisas disso? – Não me importa nem um pouco! Se me tratam desse jeito, é fácil ignorar e esquecer! Podem desaparecer, não me fazem falta! – Por favor, Pedro! Tem pena de mim! Se mandarmos a tia embora, a mãe nunca me perdoa! Só tenho a minha mãe! Este argumento resultou. Pedro respirou fundo e foi ao supermercado. Tia Natália ficou duas semanas em vez de três dias. Já ao segundo dia, Pedro precisou de valeriana. A partida da tia e do filho foi celebrada com muita alegria, vassoura e esfregona. Limparam a casa durante três dias. Depois, tudo se repetiu, do lado dele. – Mano, vim cá só um tempinho, – disse Demétrio, abraçando Pedro com força. – Tenho uns assuntos para tratar e volto! – Não podes ir tratar disso sozinho? – perguntou Pedro. – Como assim? Tenho família! Não os deixava sozinhos no campo! Pensa! E se acontecer algo? A mulher vigia-me! – Por isso trouxeste as crianças? – perguntou Pedro. – Com quem ia deixá-las? – Demétrio bateu-lhe nas costas. – Eles têm que se divertir! Vamos agitar esta cidade como antigamente! – Demétrio! – berrou Svetlana. – Eu é que te vou agitar, nem vais conseguir mexer mais! Depois de uma hora e meia com o primo Demétrio, Valéria já tinha enxaqueca. As crianças gritavam pela casa, Svetlana só sabia berrar, não falava de outro modo. E Demétrio só queria sair para a noite, o que fazia Svetlana berrar ainda mais. – Pedro, não és filho único da tua mãe? – Valéria murmurou, colada ao travesseiro. – É primo, do lado da mãe, – resmungou Pedro. – Chamo-lhe primo. – Pouco me interessa como lhe chamas, não dá para pedir para sair? – Olha, até que gostava, – disse Pedro, colocando a mão no coração, – mas a situação é igual à tua tia. Depois a minha mãe ‘come-me o juízo’ à colherada! Mal descansavam de uma visita, vinham outras. Tia Natália e filho sempre tinham negócios na cidade. O primo Demétrio e família vinham tratar assuntos de vez em quando. As mães visitavam os filhos regularmente. Sogra atormentava o genro, sogra a nora. O stress constante estava a destruir o equilíbrio do jovem casal. E claro, filhos nessa roda-viva de visitas, nem pensar. Além da saúde ir abaixo – como seria sequer possível? – E se trocássemos de casa? – sugeriu Valéria. – Para um hospital psiquiátrico? – sorriu Pedro. – Ainda nos mandam para lá! – Não, – sorriu Valéria. – Trocamos por uma casa igual. Há quem queira viver noutro bairro. Mudamos e não dizemos a ninguém para onde! – Não resolve, – resmungou Pedro. – E o meu primo e a tua tia vão descobrir, os novos inquilinos contam onde era a casa. Vão encontrar-nos! Depois não nos perdoam! – E talvez consigamos tempo para fazer um filho? – sugeriu Valéria. – Precisamos de tempo para o ter e para nascer. Só assim justificávamos…– Pedro abanou a cabeça. – Nem vale a pena mudar, – suspirou Valéria. – E se pedirmos abrigo a amigos? Talvez assim ninguém nos encontre! – Estás a falar do Valério e da Cátia? – perguntou Pedro. – Sim, – acenou Valéria. – Eles têm espaço. – Mas têm a Tera, esqueceu? – Pedro sorriu. – Prefiro viver com a pastora alemã do que com os nossos familiares! – Valéria baixou os ombros. – Espera! – gritou Pedro, pegando no telemóvel. – Valério, empresta-me o cão! – Amigo! Fico-te em dívida! Queremos ir de férias e não temos com quem deixar a menina! Ela não gosta de estranhos, mas adora-vos! – Valério vibrou pelo telefone. – Trago ração, cama, brinquedos, taças! E pago-te! – Traz já! – animado, disse Pedro. Virou-se para Valéria, radiante: – Liga para a mãe, que a tia venha amanhã! Eu aviso o meu primo para vir na semana seguinte! – Tens a certeza? – questionou Valéria. – Ficaremos felizes em recebê-los! – disse Pedro, sorrindo. – Se não gostam do nosso novo morador, que culpa temos? O primo Demétrio e família bastou um “au!” para preferirem um hotel confortável. A tia Natália tentou ficar. – Fechem esse bicho nalgum lado! – exigia, escondida atrás do filho. – Tia Natália, está a brincar? – sorriu Pedro. – Quarenta e cinco quilos de puro músculo! Não é um cãozinho, é uma pastora alemã! Ela arromba qualquer porta! – Porque é que ela me mostra os dentes? – a voz de tia Natália tremeu. – Não gosta de estranhos, – encolheu os ombros Valéria. – Livrem-se dela! Não posso ficar na mesma casa com essa fera! – Livrar? – indignou-se Pedro. – Este cão é nosso agora! Não temos filhos ainda, precisamos de amor! E amamos muito a Tera! – E nunca a vamos deixar! – acrescentou Valéria. Depois, ambas as mães ligaram a perguntar porque não acolheram familiares. – Ninguém expulsou ninguém, – respondíamos a ambas, – eles é que por alguma razão não quiseram ficar! Que venham! Estamos sempre felizes em recebê-los! – Mas e o cão? – Mãe, nós não negamos nada a ninguém! Mas as mães também deixaram de aparecer de surpresa. Um mês depois, Tera voltou para os seus donos, prometendo voltar se fosse preciso. Não foi necessário. Valéria esperava gémeos.
Ninguém os expulsou, esclareciam, tanto a um lado como ao outro, foram eles que decidiram ir embora!
Без категорії
034
Alô… É o Vasco? – Não, aqui é a Helena… – Helena? Quem é você? – Minha senhora, e você quem é? Eu sou a namorada do Vasco. Queria falar com ele? Ele não está, ficou até mais tarde no trabalho… Fiquei tonta, reparei gotas vermelhas no chão. A barriga doía tanto que quase me contorcia… Senti que o bebé estava a chegar. O meu marido Vasco já há 5 anos seguidos vai trabalhar fora. Já guiou camiões na Alemanha, fez remodelações na Polónia. Foi pela necessidade de dinheiro. Temos dois filhos e queríamos dar-lhes um futuro melhor. E sabíamos bem que cá em Portugal seria difícil conseguir isso. E sabem, lá fora o Vasco teve sorte. Todos os meses enviava-nos caixas com comida. Conservas, arroz, óleo, doces. Mandava dinheiro para o meu cartão para eu colocar no banco, a render juros. Conseguimos juntar o suficiente para comprar um apartamento para o nosso filho mais velho. Parecia que estava tudo bem, mas uns meses atrás senti algo estranho no meu corpo. Pensei logo em menopausa, mas não era. Engordei, estava cansada, fome constante, o humor mudava. A Internet dizia que eram sinais de gravidez. Mas grávida aos 45? Não acreditei e fui fazer o teste. Lá estavam duas riscas vermelhas. Não quis contar aos filhos nem às noras sobre o bebé. Para quê? Para se rirem de mim, dizerem que a mãe perdeu o juízo na idade dela? Decidi esconder a gravidez. E como era inverno, vestia roupa larga e ninguém via a barriga. Mas não queria ter outro filho. Muitos vão dizer que não tenho Deus no coração, mas eu já não sou jovem. Tenho filhos e netos a quem quero dedicar o tempo, não voltar à rotina dos fraldas e choros. E nem temos dinheiro para mais uma criança. O Vasco teria de voltar a emigrar e eu não aguentava sem ele. Diziam que era arriscado interromper a gravidez e poderia prejudicar-me. Tentei convencer-me que ia correr tudo bem. Talvez o Vasco até ficasse feliz com a notícia de mais um filho. Decidi ligar-lhe no Skype. Só áudio, sem vídeo. – Alô, Vasco… – Não, é a Helena. – Helena? Quem é você? – E você quem é? Eu sou a namorada do Vasco. Queria falar com ele? Ele atrasou-se no trabalho. Desliguei e chorei muito. Às vezes a vida traz traição a qualquer hora, com qualquer pessoa. Pensei logo em pedir o divórcio, deitar fora todas as coisas do Vasco, não ouvir nem ver mais. Mas ainda tinha esperança que ele voltasse para a família quando soubesse do bebé. Sabia que em fevereiro vinha cá por causa dos anos dos filhos. Sonhei até que passeávamos no parque, eu de um lado a segurar a mão da nossa filha e do outro o Vasco. No dia 14 de fevereiro, Dia dos Namorados, o Vasco chegou. Preparei um jantar romântico, velas, música, tudo para criar um clima de paz. – Vasco, tenho uma surpresa. Estou grávida. Dizem que vai ser uma menina. – Sua grande descarada! – gritou o Vasco. Ficou vermelho de raiva, virou pratos no chão, bateu com os punhos na mesa. – Enquanto eu faço sacrifícios lá fora, anda a saltar pra outros braços? Agora quer que eu aceite esse bastardo? – Vasco, deixa-me explicar… – Sai daqui, não quero ver-te! – empurrou-me tão forte que bati a barriga na mesa e caí. O Vasco saiu, pegou na mala e bateu a porta. Fiquei tonta, reparei nas gotas vermelhas no chão, a barriga doía, contorcia-me. Consegui ligar para o INEM, mas já sentia que o bebé ia nascer. Quando chegaram, já tinha a nossa filha nos braços. Estava tranquila, não chorava, dormia descansada. – Então, mãe, vem connosco? – Não. Levem a menina, eu não a quero. – Como assim? – Levem, já disse! Esta menina acabou com a minha família! Talvez alguém a ame, mas eu não sou capaz. Leve-a, não quero vê-la! Com o coração tranquilo entreguei a menina à equipa médica. Fizeram o exame em casa, não tive problemas, o parto foi sereno. Depois que saíram, limpei tudo, fui para o banho e dormir. Ninguém sabe dos filhos que entreguei a menina. Todos os dias vou à igreja, peço a Deus por ela, que seja saudável e encontre uma família que a queira. Sei que não sou capaz de enfrentar tudo outra vez. Só quero que o Vasco volte. Mas ele já foi novamente para a Alemanha, só fala com os filhos. Podem dizer que sou uma mulher sem juízo. Mas escolho o marido, não a filha. Que Deus me julgue.
13 de fevereiro Hoje o dia começou estranho. O telefone tocou e atendi sem pensar duas vezes. Olá Vasco?
Без категорії
0109
Uau, olha só, pai, que recepção! E pra quê esse spa, se em casa tens tudo incluído? Quando o Diogo entregou as chaves do seu apartamento à Eva, ela percebeu: missão cumprida. Nem o DiCaprio esperou tanto pelo Óscar como Eva aguardou por seu Diogo, e ainda por cima com ninho próprio. Aos trinta e cinco, já meio desesperançada, Eva deitava cada vez mais olhares solidários aos gatos da rua e às montras de “Tudo para Artesanato”. Então aparece ele — solteiro, que gastou a juventude a construir carreira, a comer comida saudável, a ir ao ginásio e outras mariquices tipo “encontrar-se” neste mundo, e sem filhos. Eva pediu este presente desde os vinte anos e, pelos vistos, lá em cima finalmente perceberam que ela não estava a brincar. — É a última viagem de trabalho do ano e ficarei só contigo — disse Diogo, entregando as chaves. — Só não te assustes com o meu antro. Normalmente só volto para dormir — disse, antes de voar para outro fuso durante o fim‑de‑semana. Eva pegou na escova de dentes, no creme e foi ver que antro seria aquele. O problema apareceu logo à porta. Diogo tinha avisado que a fechadura às vezes encrava, mas Eva não esperava tanto. Ela tentou abrir durante quarenta minutos: empurrou, puxou, meteu as chaves até ao fim, tentou gentilmente, mas a porta claramente não queria dar as boas-vindas à nova inquilina. Eva começou a pressionar psicologicamente, como aprendera com colegas atrás da escola. Ao barulho, abriu-se a porta da vizinha. — Porque está a tentar entrar numa casa alheia? — perguntou uma voz feminina preocupada. — Eu não estou a tentar entrar à força, tenho as chaves — respondeu Eva, já irritada. — E quem é você? Nunca a vi por aqui — insistiu a curiosa. — Sou a namorada dele! — retorquiu Eva, desafiadora, com as mãos na cintura, mas só via uma fresta de porta para o diálogo. — Você? — estranhou a vizinha. — Sim, eu. Há algum problema? — Nem por isso. Só que ele nunca trouxe ninguém aqui (nesta altura Eva ficou ainda mais encantada por Diogo), agora aparece logo uma assim… — Uma assim como? — Eva não percebeu. — Bem, não é da minha conta. Com licença — encerrou a vizinha a conversa, fechando a porta. Eva meteu a chave e deu tanta força, de tanto querer entrar naquela toca, que quase girou o aro inteiro. A porta abriu. O mundo interior de Diogo ficou todo evidente, e Eva congelou por dentro. Claro que alguém jovem e solteiro cultiva algum ascetismo, mas aquilo era uma verdadeira cela. — Coitado, o teu coração já se esqueceu — ou talvez nunca soube — o que é aconchego… — murmurou Eva, percorrendo o humilde lar onde agora frequentaria. Por outro lado, estava feliz. A vizinha não mentiu: nunca uma mão feminina tocou nessas paredes, nesse chão, nessa cozinha nem nessas janelas sem cor. Eva era a primeira. Sem conseguir aguentar, calçou-se e correu à loja comprar uma cortina bonita e tapete para a casa de banho, e ainda pegou nuns panos e pega‑panela para a cozinha. Na loja, não se aguentou… Ao tapete e cortina juntaram-se ambientadores, sabonetes artesanais e caixas organizadoras para cosmética. «Dar uns toques femininos numa casa alheia não é abusar», dizia Eva, enquanto punha o segundo carrinho no supermercado. A fechadura passou a já não resistir a Eva. Na verdade, já nem funcionava — parecia guarda-redes de hóquei sem máscara. Percebendo o estrago, Eva, com facas de cozinha, desmontou a velha fechadura até à meia-noite e de manhã foi buscar uma nova. As facas, claro, também precisavam de trocas. E já agora talheres, toalha de mesa, tábuas, bases de quentes… E as cortinas, fica logo ali ao lado. No domingo ao almoço, Diogo ligou a dizer que ia ficar mais uns dias em trabalho. — Fico feliz se trouxeres aconchego e calor à minha casa — sorriu ele ao telefone, quando Eva confessou ter mudado um pouco o visual do lar. Aliás, aconchego ela já estava a entregar às carradas, tudo planeado com documento técnico e mapa. Anos de espera acumulados e agora que a deixaram agir, Eva não sabia parar. Quando Diogo regressou, só restava uma aranha ao lado da ventilação da velha casa. Eva ainda pensou expulsá-la, mas, ao ver os olhinhos assustados a tantos imprevistos, decidiu deixá-la como símbolo de respeito ao alheio. A casa de Diogo parecia, agora, que ele já fora feliz em casamento por oito anos, depois ficou desiludido, e entretanto feliz outra vez — agora de outro jeito. Eva não só reiventou o apartamento mas garantiu também que todo o prédio soubesse que havia nova dona e qualquer questão podia ser tratada com ela. Ainda não tinha aliança no dedo, mas isso era só detalhe técnico. Os vizinhos torceram o nariz mas acabaram resignados: «Pronto, como quiser, não é da nossa conta». No dia da chegada de Diogo, Eva preparou jantar caseiro, embalou o seu traseiro ainda firme numa roupa vistosa e provocadora, espalhou incenso e, com as luzes novas baixas, começou a esperar. Diogo atrasou-se. Quando Eva sentiu que o conjunto já magoava o sítio por onde tanto fez agachamentos no ginásio, alguém meteu a chave na fechadura. — A fechadura é nova, empurra, está destrancada! — respondeu Eva meio insegura, mas sensual. Não tinha medo do julgamento. Trabalhou tão bem na casa que perdoavam tudo. Na hora que a porta se abriu, Eva recebeu uma SMS de Diogo: «Onde estás? Estou em casa. A casa está exatamente igual. Os amigos disseram que ias encher tudo de cremes». Eva só leu muito depois. Por agora, entravam cinco estranhos: dois rapazes, dois miúdos e um avô que, vendo Eva, logo endireitou as costas e penteou os cabelos grisalhos com a mão. — Uau, pai, que festa de boas-vindas! E para quê esse spa se tens tudo incluído em casa? — disse o jovem, levando logo cotovelada da esposa por estar a olhar. Eva parou, em choque, de copos em punho. Queria gritar mas ficou paralisada. A aranha riu num canto. — Desculpe, quem é? — piou Eva. — O dono aqui do ninho. E você, é da clínica? Veio fazer curativos? Acho que disse que já dou conta sozinho — comentou o avô, de olho na roupa de enfermeira de Eva. — Bem, senhor António, aqui está mesmo bem acolhedor — olhou por trás a esposa do rapaz. — Agora sim, não que isto parecia um túmulo. E você, miúda, como se chama? O nosso António não é demasiado experiente para si? Mas olha, é senhor respeitado, tem casa própria… — É-é-Eva… — Bem, fez bom negócio, senhor António! O avô, pelos olhos brilhantes, também achou tudo um feliz acaso. — E o Diogo? — murmurou Eva. Nervosa, bebeu os dois copos de uma vez. Saber mais — Eu sou o Diogo! — ergueu o braço um miúdo de oito anos. — Olha, ainda não podes ser Diogo — e a mãe arrastou filhos e marido para o carro. — Desculpe, enganei-me no apartamento — Eva recuperou os sentidos, lembrando-se do drama com a fechadura. — Isto é Rua das Magnólias, dezoito, porta vinte e seis? — Não, isto é Rua das Beiras, dezoito — esfregou as mãos o avô, pronto a abrir o presente inesperado. — Pois… — suspirou Eva, — enganei-me. Força, fiquem à vontade, vou só ali ligar alguém. Pegou no telemóvel e correu à casa de banho, barricou-se com a toalha. Foi aí que leu a SMS de Diogo. «Diogo, estou quase, fiquei presa no supermercado», escreveu Eva. «Ok, espero-te. Se puderes, traz uma garrafa de tinto», veio a resposta. Tinto, Eva ia trazer mas já consigo mesma. Com o tapete, tirou a cortina e esperou os estranhos irem à cozinha para fugir da casa de banho. Rapidamente, meteu tudo num saco e saiu da casa. — Depois explico — avisou Eva, ao ver Diogo abrir-lhe a porta. Indo em modo automático, cruzou-se com ele sem olhar. Primeiro foi à casa de banho trocar cortina e estender o tapete, depois caiu no sofá da sala e apagou até ao dia seguinte, até todo o stress e vinho evaporar. Ao acordar, frente a ela estava um jovem à espera de explicações. — Pode dizer-me que morada é esta, por favor?.. — Rua do Futuro, dezoito.
Uau, pai, olha a recepção que te fazem! E para quê precisavas daquele spa, se em casa tens verdadeiro “
Без категорії
018
— Eu não podia abandoná-lo, mãe — sussurrou Miguel. — Compreende? Não podia. Miguel tinha catorze anos e sentia que o mundo inteiro estava contra ele. Ou melhor, ninguém o queria compreender. — Lá vem o traquina outra vez! — murmurava Dona Clara do terceiro andar, atravessando apressada para o outro lado do pátio. — Cresceu só com a mãe. Eis o resultado! Miguel passava, mãos nos bolsos das calças de ganga rasgadas, fingindo não ouvir. Mas ouvia. A mãe trabalhava até tarde. Na mesa da cozinha, um bilhete: «Os panados estão no frigorífico, aquece.» E silêncio. Sempre silêncio. Naquele dia voltava da escola, onde os professores tinham voltado a “ter uma conversa” sobre o seu comportamento. Como se ele não percebesse que era visto como um problema para todos. Percebia. Mas o que mudava? — Ó rapaz! — chamou o senhor Vítor, o vizinho do rés-do-chão. — Viste aí um cão manco? Alguém tem de o enxotar. Miguel parou e olhou. Junto aos caixotes do lixo estava mesmo um cão. Adulto, pelagem ruiva com manchas brancas. Estava deitado e só os olhos seguiam as pessoas. Olhos inteligentes e tristes. — Já alguém que o ponha na rua! — concordou Dona Clara. — Isso está doente! Miguel aproximou-se. O cão não se mexeu, abanou apenas a cauda com fraqueza. Tinha uma ferida feia na pata de trás, sangue seco. — Então, ficas aí parado? — atirou o senhor Vítor. — Pega num pau e afasta-o! Foi então que algo dentro de Miguel se revoltou. — Ninguém toca nele! — disse de repente, protegendo o cão. — Ele não faz mal a ninguém! — Olha, olha! — admirou-se o senhor Vítor. — O defensor apareceu. — E vou continuar a defender! — Miguel agachou-se ao lado do cão, estendeu a mão com cuidado. O animal cheirou os dedos e lambeu-lhe a palma. Miguel sentiu calor no peito. Pela primeira vez em muito tempo, alguém lhe mostrava carinho. — Vamos embora — sussurrou para o cão. — Vem comigo. Em casa, Miguel improvisou uma cama para o cão com casacos velhos num canto do quarto. A mãe trabalhava até ao final do dia — ninguém ia ralhar ou enxotar “a peste”. A ferida parecia grave. Miguel recorreu à internet, pesquisando primeiros socorros para animais, enfrentando os termos médicos com esforço mas decorando tudo com determinação. — Tenho de limpar com água oxigenada — murmurava, vasculhando na farmácia de casa. — E passar iodo à volta. Com cuidado, para não doer. O cão estava calmo, confiava. Olhava para Miguel com gratidão — de uma forma que ninguém olhava há muito tempo. — Como te chamas? — Miguel enrolava a ligadura. — És ruivo… Chamo-te Ruivo, está decidido. O cão latiu baixo — parecia concordar. À noite, a mãe chegou. Miguel preparou-se para discutir, mas ela inspeccionou o curativo no Ruivo sem dizer nada. — Foste tu? — perguntou baixinho. — Fui. Vi na internet como fazer. — E vai comer o quê? — Arranjo qualquer coisa. A mãe demorou-se a olhar para o filho. Depois, para o cão, que lambia-lhe a mão com confiança. — Amanhã levamos ao veterinário — decidiu ela. — A ver como está a pata. Já tem nome? — Ruivo — respondeu Miguel, radiante. Pela primeira vez em muitos meses não havia uma parede entre eles. Na manhã seguinte, Miguel acordou mais cedo. Ruivo tentou pôr-se de pé, choramingando. — Calma, fica quieto — tranquilizou-o Miguel. — Já trago água, e comida. Em casa não havia ração. Deu-lhe a última panado, desfez pão no leite. Ruivo comeu com vontade, mas delicadamente. Na escola, Miguel não se irritou com os professores pela primeira vez em muito tempo. Pensava só no Ruivo — será que estava bem? Sofria? Sentia-se sozinho? — Hoje estás diferente — estranhou a directora de turma. Miguel encolheu os ombros. Não tinha vontade de contar — iam gozar. Saiu disparado para casa, ignorando os olhares dos vizinhos. Ruivo saltou de alegria ao vê-lo — já conseguia apoiar-se em três patas. — Pronto, parceiro, queres ir lá fora? — improvisou uma trela com corda. — Mas devagar, protege a pata. No pátio, algo mudou. Dona Clara quase se engasgava ao vê-los juntos: — Levou-o para casa! Miguel, estás maluco?! — Porquê? — respondeu calmo. — Estou a tratar dele. Vai recuperar. — Tratas? — aproximou-se a vizinha. — E dinheiro para os remédios, onde vais buscar? Roubar à tua mãe? Miguel apertou os punhos, mas conteve-se. Ruivo encostou-se à perna dele — parecia sentir o ambiente. — Não roubo. Uso o que tenho guardado dos lanches — respondeu baixo. O senhor Vítor abanou a cabeça: — Filho, sabes que isso é uma vida? Não é brinquedo. Precisa comer, tratar, passear. Agora cada dia começava com uma volta no pátio. Ruivo recuperava rápido, quase corria — mesmo coxeando. Miguel ensinava-lhe comandos, com paciência. — Senta! Boa! Dá a pata! Assim! Os vizinhos viam de longe. Uns desaprovavam, outros sorriam. Miguel só via os olhos fiéis do Ruivo. Ele mudou. Aos poucos. Deixou de ser brusco, ajudava em casa, até melhorou nas notas. Ganhou uma razão de viver. E isso era só o começo. Três semanas depois, aconteceu o que Miguel mais temia. Voltava da última volta com Ruivo quando de trás das garagens surgiu uma matilha. Cinco ou seis cães — magros, ferozes, olhos a brilhar. O líder, um cão preto, rosnava, avançando. Ruivo recuou atrás de Miguel. Caminhar ainda lhe doía, não corria bem. Os outros perceberam a fraqueza. — Para trás! — gritou Miguel, agitando a trela. — Saiam! Mas a matilha não fugiu. Cercou-os. O cão preto rosnava mais fundo, pronto para atacar. — Miguel! — vêm de cima um grito de mulher. — Corre! Larga o cão e foge! Era Dona Clara, à janela, com outros rostos atrás. — Rapaz, não sejas tolo! — gritava o senhor Vítor. — Ele é coxo, nunca vai escapar! Miguel olhou para Ruivo. Tremia, mas não fugia. Colava-se à perna do dono, disposto a tudo. O cão preto saltou primeiro. Miguel protegeu-se, mas o impacto acertou-no ombro. Dentes afiados rasgaram a manga, chegaram à pele. Ruivo, apesar da pata ferida, do medo, atacou para salvar Miguel. Cravou os dentes na perna do líder, aguentou firme. Começou a briga. Miguel defendia-se a pontapés, empurrava Ruivo longe dos dentes alheios. Levava mordidas, arranhões, mas não desistia. — Meu Deus, que é isto! — chorava Dona Clara lá em cima. — Vítor, faz qualquer coisa! O senhor Vítor descia as escadas, agarrava o que podia — pau, ferro. — Aguenta, rapaz! — gritava. — Já vou ajudar! Miguel caía no chão sob a matilha, quando ouviu a voz familiar: — Saiam daqui! Era a mãe. Saíra do prédio com um balde de água e atirou-lhes em cima. Os cães fugiram, furiosos. — Vítor, ajuda! — gritou ela. O senhor Vítor correu com o pau, outros vizinhos também desceram. Ao perceberem a força da resistência, os cães fugiram. Miguel jazia no alcatrão, abraçando Ruivo. Ambos ensanguentados, ambos a tremer. Mas vivos. Inteiros. — Filho — a mãe ajoelhou-se, conferindo-lhe os ferimentos. — Quase me mataste de susto. — Eu não podia abandoná-lo, mãe — sussurrou Miguel. — Compreende? Não podia. — Compreendo — respondeu baixo. Dona Clara desceu ao pátio, aproximou-se, olhou para Miguel como se fosse desconhecido. — Rapaz — murmurou, confusa. — Podias ter morrido… Por causa de um cão. — Não por causa de um cão — intrometeu-se o senhor Vítor. — Por um amigo. Percebe a diferença, Clara? A vizinha acenou em silêncio. As lágrimas corriam-lhe pelas faces. — Vamos para dentro — disse a mãe. — Temos de tratar as feridas. Do Ruivo também. Miguel levantou-se com esforço, pegou no cão ao colo. Ruivo chorava baixinho, mas abanava vagamente a cauda — feliz por estar com o dono. — Esperem — deteve-os o senhor Vítor. — Amanhã vão ao veterinário? — Vamos. — Eu levo-vos, de carro. E pago o tratamento — o cão mostrou-se heróico, merece. Miguel olhou, admirado. — Obrigado, senhor Vítor. Mas eu faço questão. — Nem discutas. Pagas-me depois, quando puderes. Agora… — bateu-lhe no ombro. — Agora orgulhamo-nos de ti. Certo? Os vizinhos acenaram todos. Passou um mês. Era uma noite comum de outubro, e Miguel regressava da clínica veterinária, onde agora ajudava aos fins de semana como voluntário. Ruivo corria ao lado — a pata sarou, e quase não coxeava. — Miguel! — chamou Dona Clara. — Espera aí! O rapaz preparou-se para outra crítica, mas a vizinha estendeu-lhe uma bolsa de ração. — É para o Ruivo — disse, envergonhada. — É boa, cara. Cuida tão bem dele. — Obrigado, tia Clara — respondeu Miguel, sinceramente. — Mas cá por casa não falta. Agora trabalho na clínica, a doutora Ana paga-me. — Na mesma, aceita. Há-de ser útil. Em casa, a mãe preparava o jantar. Ao vê-lo, sorriu: — Como corre na clínica? A doutora Ana está satisfeita contigo? — Diz que tenho jeito para isto, e paciência. — Miguel acariciou o Ruivo. — Talvez seja veterinário. Estou a pensar a sério nisso. — E a escola? — Está tudo bem. Até o professor Pedro elogiou em Física. Diz que fiquei mais atento. A mãe acenou. No último mês, Miguel mudara como nunca. Era educado, ajudava em casa, cumprimentava os vizinhos. E mais importante — tinha um objetivo. Um sonho. — Amanhã o senhor Vítor vem aí. Quer propor-te trabalho extra. O amigo dele tem um canil, precisa de ajuda. Miguel iluminou-se: — A sério? E posso levar o Ruivo? — Penso que sim. Agora já é quase um cão de serviço. À noite, Miguel sentou-se no pátio com Ruivo. Ensaiavam novo comando — “vigia”. O cão obedecia, sempre atento ao dono. O senhor Vítor aproximou-se, sentou-se no banco ao lado. — Amanhã vais mesmo ao canil? — Vou. Com o Ruivo. — Então deita-te cedo. Vai ser puxado. Depois de ele sair, Miguel ficou mais um pouco. Ruivo deitou o focinho nas pernas dele, suspirou contente. Tinham-se encontrado. E nunca mais estariam sozinhos.
Não consegui deixá-lo, mãe murmurou o Miguel. Percebes, não consegui. Miguel tinha catorze anos e parecia
Без категорії
024
As circunstâncias não surgem sozinhas. São criadas por pessoas. Você criou as condições para abandonar um ser vivo na rua. E agora quer mudar tudo, quando lhe convém. Oleg voltava do trabalho para casa. Era uma típica noite de inverno portuguesa, quando tudo parece coberto por um véu de monotonia. Passou em frente ao supermercado do bairro e viu um cão sentado à porta. Vira-lata. Pêlo ruivo, desgrenhado. Olhar perdido, como o de uma criança que se perdeu. — Que fazes aqui? — resmungou Oleg, mas parou. O cão ergueu a cabeça e olhou. Não pedia nada. Só olhava. “Deve estar à espera dos donos”, pensou Oleg, e seguiu caminho. Mas no dia seguinte — a mesma cena. E no outro também. O cão parecia ter-se tornado parte daquele lugar. Oleg começou a reparar: as pessoas passavam, alguns deixavam um pedaço de pão, outros uma salsicha. — Então, por que estás aqui? — perguntou um dia, ajoelhando-se ao lado do animal. — E os teus donos? O cão aproxima-se, com cautela, e encosta o focinho à perna de Oleg. Oleg ficou imóvel. Há quanto tempo não fazia uma festa a alguém? Desde o divórcio tinham-se passado três anos. O apartamento vazio. Só trabalho, televisão, frigorífico. — Lada, querida, — sussurrou, sem saber de onde veio o nome. No dia seguinte levou-lhe salsichas. Passada uma semana, publicou um anúncio na internet: «Cão encontrado. Procuram-se donos». Ninguém respondeu. Um mês depois, Oleg regressava de um turno longo — era engenheiro, por vezes ficava de serviço toda a noite. E viu uma multidão junto ao supermercado. — O que aconteceu? — perguntou à vizinha. — Atropelaram o cão. Aquela que estava aqui há um mês. Coração apertado. — Onde está? — Levaram-na à clínica veterinária na Avenida Sophia de Mello Breyner Andrade. Pedem uma fortuna… Quem vai querer tratar uma sem-abrigo? Oleg não disse nada. Virou-se e foi a correr. Na clínica, a veterinária abanou a cabeça: — Fraturas, hemorragia interna. O tratamento será caro. E não garantimos que sobreviva. — Trate, — disse Oleg. — Pago o que for preciso. Quando Lada teve alta, levou-a para casa. E, pela primeira vez em três anos, o apartamento de Oleg encheu-se de vida. A vida mudou. Radicalmente. Oleg já não acordava com o despertador, mas com o toque suave do focinho da Lada, como se dissesse: “Chegou a hora, dono.” E ele levantava-se. Com um sorriso. Antes, a manhã começava com café e notícias. Agora — com um passeio no Parque das Nações. — Vá, menina, vamos apanhar ar fresco? — dizia, e Lada abanava a cauda, feliz. Na clínica trataram da documentação. Passaporte, vacinas. Ela estava oficialmente registada como sua cadela. Oleg até fotografou todos os documentos para garantir. Colegas estranhavam: – Oleg, parece que rejuveneceste! Estás tão animado. E era verdade — sentia-se finalmente útil e necessário. Lada provou ser inteligente. Muito inteligente. Entendia tudo ao mínimo gesto. Se ele demorava a chegar do trabalho, encontrava-o à porta com um olhar que dizia “Preocupei-me”. À noite, passeavam pelo parque. Longamente. Oleg contava-lhe sobre o trabalho, sobre a vida. Engraçado? Talvez. Mas ela parecia ouvir com interesse, atento, por vezes dava um gemido baixo, como resposta. — Sabes, Lada, antigamente achava que era mais fácil sozinho. Ninguém incomoda, ninguém exige nada. No fundo, só tinha medo de voltar a amar alguém. Os vizinhos habituaram-se aos dois. Dona Vera, do rés-do-chão, guardava sempre um ossinho. — Cão bonito, — dizia ela. — Vê-se que é estimada. Passou um mês. Mais outro. Oleg até pensou em criar uma página nas redes sociais para publicar fotos da Lada. Ela era fotogénica — o pêlo ruivo brilhava ao sol como ouro. Mas então aconteceu o inesperado. Passeio normal no parque. Lada cheirava os arbustos, Oleg sentado num banco, ao telemóvel. — Diana! Diana! Oleg ergueu a cabeça. Aproximava-se uma mulher, cerca de trinta e cinco anos, fato de treino caro, loira, maquilhada. Lada ficou alerta. E encolheu as orelhas. — Desculpe, — disse Oleg. — Enganou-se. Esta é minha cadela. A mulher pôs as mãos na cintura. — Como assim sua? Não sou cega, sei que é a minha Diana! Perdi-a há meio ano! — O quê? — Exatamente! Fugiu à porta de casa, procurei-a por todo o lado! E você roubou-a! O chão pareceu fugir debaixo de Oleg. — Espere. Como se perdeu? Eu recolhi-a ao pé do supermercado. Esteve lá um mês, abandonada! — E porquê? — a mulher aproximou-se. — Porque se perdeu! Adorava-a! Eu e o meu marido comprámos-a de propósito, foi caríssima! — Caríssima? — Oleg olhou para Lada. — É um rafeiro… — É mestiça! Fui muito cara! Oleg levantou-se. Lada encostou-se às suas pernas. — Muito bem. Se é sua, mostre os documentos. — Que documentos? — Passaporte de vacinação. Certificados. Qualquer coisa. A mulher hesitou: — Estão em casa! Mas não tem importância! Eu reconheço-a! Diana, vem cá! Lada nem se mexeu. — Diana! Aqui, agora! A cadela só se encolheu mais junto de Oleg. — Está a ver? — disse ele, baixinho. — Não a reconhece. — Só está ressentida por eu a ter perdido! — insistiu a mulher. — Mas é minha! E exijo que ma devolva! — Eu tenho documentos, — respondeu Oleg com calma. — Ficha da clínica, onde a tratei depois de ter sido atropelada. Passaporte em meu nome. Talões da ração. Dos brinquedos. — Não quero saber dos seus papéis! Isto é roubo! Passantes começaram a olhar. — Sabe que mais? — Oleg pegou no telemóvel. — Vamos resolver legalmente. Chamo a polícia. — Chame! — bufou a mulher. — Tenho testemunhas! — Quem? — Os vizinhos viram quando ela fugiu! Oleg ligou. O coração batia forte. E se ela estiver certa? E se Lada fugiu mesmo dela? Mas então porque ficou tanto tempo no supermercado? Porque não voltou para casa? E mais: porque agora treme junto dele, escondendo-se? — Alô? Polícia? Preciso de ajuda… A mulher sorriu, rancorosa: — Vai ver. A justiça será feita. Devolva-me a cadela! E Lada não saía do lado de Oleg. Foi então que Oleg compreendeu — ia lutar por ela. Até ao fim. Porque nesses meses Lada tornou-se não só um cão. Tornou-se família. O agente de polícia chegou meia hora depois. Sargento Rodrigues — homem calmo e atento. Oleg conhecia-o da administração do condomínio. — Contem o que aconteceu, — pediu, abrindo o bloco de notas. A mulher falou primeiro. Ansiosa, confusa: — É minha cadela! Diana! Comprámo-la por dez mil euros! Há meio ano fugiu, procurei-a por todo o lado! E este senhor roubou-a! — Não roubei, recolhi-a, — contrapôs serenamente Oleg. — Junto ao supermercado. Esteve ali um mês a passar fome. — Por quê? Porque se perdeu! Rodrigues olhou para Lada. Ela continuava junto a Oleg. — Algum documento? — Eu tenho, — Oleg tirou a pasta. Por sorte, ainda a tinha na mochila do último veterinário. — Ficha da clínica, da vez que foi atropelada. Passaporte. Vacinas todas em dia. O agente analisou os papéis. — E a senhora? Tem documentos? — Estão em casa! Mas não interessa! Eu digo-lhe: é minha Diana! — Quer explicar em detalhe como a perdeu? — perguntou Rodrigues. — Bem, estava a passear… soltou-se da trela e fugiu. Procurei, preguei anúncios. — Onde passeou? — No parque. Aqui perto. — E mora onde? — Na Avenida Sophia de Mello Breyner Andrade. Oleg sorriu, estupefato: — Desculpe. Isso é a dois quilómetros do supermercado onde a encontrei. Como foi lá parar? — Perdeu-se, suponho! — Os cães costumam saber o caminho de casa. A mulher corou: — O que é que você sabe de cães?! — Sei, — disse Oleg baixinho, — que um cão estimado não fica um mês abandonado no mesmo lugar. Procura quem gosta realmente dele. — Uma pergunta, — interrompeu Rodrigues. — Procurou a cadela, pregou anúncios. Contactou a polícia? — À polícia? Não pensei… — Meio ano? Perde uma cadela de dez mil euros e não contacta a polícia? — Achei que voltaria. O agente franziu o cenho: — Por favor, os seus documentos. — Quais documentos? — Bilhete de identidade. E morada. A mulher procurou nervosa na mala. — Aqui está. Rodrigues conferiu: — Está realmente na Avenida Sophia de Mello Breyner Andrade. Prédio quinze. Qual o apartamento? — Vinte e três. — E quando perdeu a cadela? — Meio ano atrás, por volta disso. — Data exata? — Vinte de janeiro ou vinte e um. Oleg pegou no telemóvel: — Eu recolhi-a a vinte e três de janeiro. E já estava ali quase um mês. Isto quer dizer que a cadela “deve ter-se perdido” antes disso. — Talvez tenha falhado as datas! — começou a mulher a balbuciar. E de repente quebrou: — Pronto! Fique com ela! Mas eu… eu gostava dela! Silêncio. — Como pôde? — perguntou Oleg. — O meu marido disse — vamos mudar de casa, não aceitam animais. Não consegui vendê-la — era só uma rafeira. Deixei-a à porta do supermercado, pensei que alguém a levaria. Oleg sentiu-se despedaçado. — Abandonou-a? — Só deixei. Não abandonei! Pensei que a recolhiam. — E agora quer levá-la? A mulher chorou: — Estou sozinha. Senti falta dela. Gostava dela! Oleg encarou-a, incrédulo. — Gostava? — repetiu. — Não se abandona quem se ama. Rodrigues fechou o bloco: — Está tudo claro. Oficialmente, a cadela pertence ao cidadão… — conferiu o bilhete de Oleg, — Voronenko. Ele tratou, registou, alimentou. Do ponto de vista legal, ela é dele. A mulher chorou: — Mas quero-a de volta! — Agora é tarde, — respondeu o agente. — Abandonou, abandonou. Oleg sentou-se ao lado de Lada, abraçou-a: — Pronto, menina. Está tudo bem. — Posso ao menos fazer-lhe uma festa? — pediu a mulher. — Só uma vez? Oleg olhou para Lada. Ela encolheu as orelhas, aninhou-se nele. — Vê? Ela tem medo de si. — Não fiz por mal. As circunstâncias assim o ditaram. — Sabe, — Oleg levantou-se. — As circunstâncias não surgem sozinhas. São criadas por pessoas. Você criou as condições para abandonar um ser vivo na rua. E agora quer mudar tudo, quando lhe convém. A mulher chorou: — Eu entendo. Sinto-me tão sozinha. — E ela? Como foi esperar um mês por si? Silêncio. — Diana, — chamou ela, pela última vez. A cadela nem se mexeu. A mulher virou costas, saiu apressadamente. Sem olhar para trás. Rodrigues deu uma palmada no ombro de Oleg: — Foi a escolha certa. Nota-se que ela gosta de si. — Obrigado. — Eu próprio sou criador de cães. Sei bem o que é. Quando o agente foi embora, Oleg ficou a sós com Lada. — Pronto, — disse ele, afagando-a. — Ninguém mais nos separa. Prometo. Lada ergueu o olhar. E Oleg viu algo que não era gratidão, mas amor sem limites. Amor — Vamos para casa? Ela ladrava, feliz, caminhando ao seu lado. Pelo caminho, Oleg pensava: afinal aquela mulher tinha razão numa coisa. As circunstâncias podem mudar. Pode perder-se trabalho, casa, dinheiro. Mas há coisas que não se podem perder: responsabilidade, amor, compaixão. Em casa, Lada deitou-se na sua manta favorita. Oleg preparou chá, sentou-se ao lado. — Sabes, Lada, — disse ele pensativo. — Talvez tenha sido o melhor. Agora sabemos que precisamos um do outro. Lada suspirou de contentamento.
As coisas não acontecem por acaso. São as pessoas que criam as circunstâncias. Foi por tua mão que deixaste
Без категорії
030
Maximiliano guardava em silêncio o arrependimento de ter apressado o divórcio. Homens sábios transformam amantes em celebração, mas ele – em esposa O ânimo de Maximiliano Petronilho desapareceu assim que, ao estacionar o carro, entrou no prédio. Em casa, foi recebido pela previsibilidade: chinelos à porta, aroma apetitoso do jantar, tudo limpo e flores no vaso. Nada o comoveu: a esposa em casa, e o que mais faria uma mulher madura o dia inteiro? Assar empadas e tricotar meias – exagero, claro, mas o essencial é isso. Marina veio ao encontro dele com o habitual sorriso: – Está cansado? Fiz empadas – de couve, de maçã, como gostas… Ela silenciou sob o olhar pesado de Maximiliano. Estava de calças de casa, cabelo preso sob o lenço – sempre cozinhava assim. Hábitos de cozinheira: trabalhou a vida inteira em restaurante. Os olhos ligeiramente maquiados, brilho nos lábios – outro costume, que agora lhe pareceu vulgar. Que mania de colorir a velhice! Talvez não devesse ser tão duro, mas disparou: – Maquiagem na tua idade já não faz sentido! Não te favorece. Marina tremeu os lábios, não respondeu, mas também não veio pôr a mesa. Até melhor. Empadas sob a toalha, o chá de camomila devidamente preparado – ele mesmo se serve. Depois do duche e do jantar, a ternura por ela foi voltando, assim como as lembranças do dia. Maximiliano, no seu robe de algodão favorito, sentou-se na poltrona predileta e finge ler. Como dissera a nova colega: – É um homem bastante atraente, além de interessante. Maximiliano tinha 56, era chefe do departamento jurídico de uma grande empresa, com recém-formado e três mulheres acima dos quarenta sob sua supervisão. Outra colaboradora estava de licença de maternidade. Para o seu lugar, contrataram a Ásia. No momento da contratação, Maximiliano estava em viagem; hoje viu a mulher pela primeira vez. Chamou para conversar no gabinete. Com ela entrou o aroma de perfume discreto e a sensação de frescor jovem. O rosto delicado, moldado por fios claros, olhos azuis confiantes. Lábios carnudos, sinal na bochecha. Seria possível que ela tivesse 30? Nem 25 parecia. Divorciada, mãe de um menino de 8 anos. Sem saber porquê, pensou: “Ainda bem!” Na conversa, flertou um pouco, alegando ser um chefe velho. Ásia bateu os cílios e rebateu com palavras que o agitaram e agora recordava. A esposa, passada a mágoa, apareceu com o chá de camomila habitual. Ele franze a testa: “Sempre fora de hora”. Bebeu, confesso, com prazer. Pensou: o que estará fazendo agora a jovem, tão bonita, Asia? O coração foi espetado por um sentimento esquecido – ciúmes. **** Asia, depois do trabalho, passou no supermercado. Queijo, pão, kefir para si no jantar. Chegou em casa neutra, sem sorriso. Abraçou o filho, Vasquinho, mais por hábito do que ternura. O pai remexia na marquise, onde tinha oficina montada, a mãe preparava o jantar. Fez as compras e avisou logo: estava com dor de cabeça, não quer conversa. Na verdade, estava melancólica. Desde que se divorciou do pai de Vasquinho, Asia tentava – sem sucesso – se tornar para alguém a verdadeira mulher da vida. Todos os homens que lhe pareciam dignos estavam bem casados e só queriam relações fugazes. O último, colega de trabalho, parecia apaixonado. Dois anos ardentes. Até alugou-lhe apartamento (para seu próprio conforto, claro), mas quando a coisa começou a ficar séria, disse que deviam terminar e que Asia devia pedir demissão. Ele próprio arrumou vaga. E Asia voltou a morar com pais e filho. A mãe compreendia, o pai achava que pelo menos o neto deveria crescer com a mãe, e não só com avós. Marina, esposa de Maximiliano, percebia há tempos que ele vivia uma crise da idade. Tudo tinha, mas faltava o essencial. Temia pensar no que poderia ser “essencial” para o marido. Tentava amenizar o clima: cozinhava o que ele gostava, estava sempre arrumada, não insistia em conversas profundas – embora precisasse. Buscou distraí-lo com o neto, a casa de campo. Mas Maximiliano se aborrecia, ficava fechado. Talvez por esse desejo de mudança, o romance dele com Asia começou instantâneo. Duas semanas depois de Asia entrar na empresa, ele a convidou para almoçar, depois levou-a para casa. Tocou-lhe a mão, ela se virou com o rosto corado. – Não quero te deixar. Vamos para minha casa de campo? – disse Maximiliano, rouco. Ásia assentiu e o carro arrancou. Às sextas, Maximiliano saía uma hora antes do trabalho, mas só às nove da noite a esposa recebeu SMS: “Amanhã conversamos.” Ele nem suspeitava o acerto da frase para a conversa futura – inútil, no fundo. Marina sabia que não se pode arder depois de 32 anos de casamento. Mas ele era tão familiar que perdê-lo era perder uma parte de si própria. Que resmungue, reclame, até enlouqueça – mas fique naquele seu lugar favorito, jante, respire ao lado dela. Marina, tentando encontrar palavras que pudessem estancar a ruína (só da vida dela), não dormiu até o amanhecer. Desesperada, tirou o álbum de casamento, onde eles eram jovens e tudo estava por vir. Era tão linda! Muitos sonharam em chamá-la de sua. Ele tinha de lembrar disso. Imaginava que ele chegaria, veria fragmentos da felicidade deles e compreendia: nem tudo se joga fora. Mas ele só voltou no domingo. E ela entendeu: acabou. Diante dela, Maximiliano era outro. Parecia vibrar com adrenalina. Desconforto, vergonha eram ausentes. Ao contrário da esposa, que temia mudanças, ele as desejava e aceitou-as prontamente. Até já planejara tudo. Falava com tom inquestionável. A partir daquele momento, Marina pode considerar-se livre. Ele pediu o divórcio – no dia seguinte. O filho e família iriam morar com Marina. Tudo nos termos da lei. Afinal, o apartamento de dois quartos onde morava o filho era de Maximiliano – herdado. Jogos de família Mudar-se para o apartamento de três quartos com a mãe não pioraria as condições da família jovem e ela teria a quem cuidar. O carro, evidente, ficaria com ele. Quanto à casa de campo – reservou o direito de lá descansar. Marina sentia-se miserável e pouco atraente, mas não conteve as lágrimas. Impediam-lhe de falar direito, só saíam palavras desconexas. Pediu que repensasse, invocasse a memória, pensasse na saúde, ao menos na dela… O último ponto provocou fúria. Ele aproximou-se e sussurrou como quem exclama: – Não me arrastes para tua velhice! Seria exagero dizer que Asia amava Maximiliano e por isso aceitou casar-se na primeira noite na casa de campo. Ela gostava do status de mulher casada, ainda mais pela vitória sobre o antigo amante que a havia rejeitado. Cansada de viver em apartamento controlado pelo pai rigoroso, queria estabilidade. Maximiliano podia dar isso. Não era a pior opção – admitia. Mesmo quase sexagenário, não parecia avô. Enérgico, jovial. Chefe. Culto, afável. E na cama, gentil, nada egoísta. Gostava da ideia do fim dos quartos alugados, falta de dinheiro, roubos. Só vantagens? Bem, havia dúvidas sobre a idade. Em menos de um ano, Asia começou a se decepcionar. Sentia-se ainda uma garota, queria aproveitar mais a vida. Regularmente, e não uma vez por ano, tudo “adequado”. Queria shows, ir ao parque aquático, tomar sol na praia de biquíni ousado, baladas com amigas. Pelo temperamento, conseguia conciliar tudo com a família e as tarefas domésticas. Mesmo o filho, agora vivendo com ela, não atrapalhava. Já Maximiliano estava visivelmente cansado. Experiente advogado, resolvia muitos problemas no trabalho, mas em casa era apenas um homem cansado, valorizando seus hábitos e busca de sossego. Aceitava visitas, teatro, até praia – mas bem dosados. Não recusava o carinho conjugal, mas terminava sempre dormindo cedo, até nove da noite. E ainda tinha que se preocupar com o estômago fraco: não suportava frituras, enchidos, produtos industrializados. A antiga esposa estragara-o! Por vezes, até sentia falta dos pratos a vapor de Marina. Asia cozinhava pensando no gosto do filho, sem entender como uma cotoletta podia fazer mal. Não decorava a rotina dos comprimidos, achando que homem adulto pode cuidar disso. Sem querer, parte de sua vida foi vivida sem ele. Passou a sair com o filho, respeitando seus gostos, encontrou-se mais com amigas. Engraçado: a idade do marido a fazia querer viver depressa. Já não trabalhavam juntos – a direção achou antiético e Asia passou ao cartório. Até sentiu alívio de não ter de passar o dia inteiro sob os olhos do marido, que lhe lembrava o pai. Respeito – era o sentimento que Asia nutria por Maximiliano. Quem sabe se isso basta para que o casal seja feliz? Aproximava-se o 60º aniversário de Maximiliano e Asia queria uma festa grandiosa. Mas ele reservou mesa num restaurante pequeno, que conhecia de vida. Parecia aborrecido, típico da idade. Asia não se incomodou. Colegas o homenagearam. Seria inconveniente convidar os antigos amigos do casal. Família longe, e não encontrou apoio ao casar com uma jovem. O filho, virtualmente, perdeu. Renegou-o. Mas não tem o pai direito de escolher? É que, ao casar, achava que “escolher” seria diferente. O primeiro ano com Asia foi uma lua de mel. Ele gostava de sair com ela, incentivava os gastos (não exagerados) e as amigas, apoiava o fitness. Aguentava bem shows barulhentos e filmes loucos. Entusiasmado, deu a Asia e o filho direito pleno ao apartamento. Pouco depois, transferiu sua parte da casa de campo para Asia. Asia pediu também a parte que Marina detinha. Ameaçou vender a desconhecidos. Comprada com dinheiro de Maximiliano, Asia registrou tudo em seu nome. Justificou pela proximidade do rio, floresta. Bom para a criança. Agora, durante o verão, pais de Asia e o neto iam para lá. E era melhor assim: Maximiliano não gostava muito do filho animado da jovem esposa. Casou por amor, não para criar filho alheio, ainda barulhento. A antiga família magoou-se. Recebendo o dinheiro, venderam o apartamento de três quartos e, não se sabe por quê, separaram-se. O filho e família arrumaram um apartamento de dois quartos, Marina, a ex-esposa, mudou-se para um estúdio. Como vivem, Maximiliano não quis saber. Jogos de família Chegou o dia dos 60 anos. Tantos votos de saúde, felicidade, amor. Mas ele não sentia ânimo. Faz tempo. A cada ano, a insatisfação o dominava. Amava a jovem esposa, sem dúvida. Não a acompanhava, esse era o ponto. E não conseguia dominá-la. Ela sorria e vivia à sua maneira. Não exagerava em nada – ele sentia, mas isso o irritava. Ah, se pudesse implantar nela o espírito da ex-esposa! Que se aproximasse com chá de camomila, cobrisse com manta se adormecesse. Caminharia feliz pelo parque. E conversaria longamente na cozinha, mas Asia não aguentava suas histórias. E parecia já se aborrecer na cama. Ele se irritava e isso atrapalhava. Maximiliano guardava o arrependimento de ter apressado o divórcio. Homens sábios transformam amantes em celebração, mas ele – em esposa. Asia, com esse temperamento, aguenta mais uns 10 anos como cavalo brincalhão. Mas mesmo com quarenta, será bem mais jovem. Esse abismo só aumenta. Se tiver sorte, ele termina a vida de repente. Senão? Esses “pensamentos nada festivos” martelavam-lhe a cabeça, aceleravam o coração. Procurou Asia com o olhar – estava entre os que dançavam. Linda, olhos brilhantes. É claro, era uma felicidade acordar ao lado dela. Cestas de presente Aproveitou o momento, saiu do restaurante. Queria respirar, arejar a tristeza. Mas os colegas se aproximaram. Sem saber como lidar com a angústia crescente, correu até um táxi parado. Pediu pressa. Depois decidiria o destino. Queria ir para onde importasse só ele. Que ao chegar, já aguardassem. Onde valorizassem seu tempo e pudesse relaxar, sem parecer fraco ou, Deus me livre, velho. Ligou para o filho e, quase suplicando, pediu o novo endereço da ex-esposa. Ouviu a merecida bronca, mas insistiu, repetindo que era questão de vida ou morte… Pediu que ao menos dissesse seu aniversário. O filho cedeu e explicou que ela talvez não estivesse sozinha. Não um homem, apenas um amigo. – Disse que estudaram juntos. O apelido é engraçado… Bulcovich, ou algo assim. – Bulcovic, – corrigiu Maximiliano, sentindo ciúmes. Sim, gostava dela. Ela agradava muitos. Bonita, atrevida. Ia casar-se com esse Bulcovic, mas ele, Max, andou na frente. Há muito tempo, mas tão “ontem” que parecia mais real que sua vida nova com Asia. O filho perguntou: – Pra que quer isso, pai? Maximiliano estremeceu com a palavra esquecida e entendeu: sentia uma saudade imensa de todos. Respondeu honestamente: – Não sei, filho. O filho passou o endereço. O motorista parou ao pedido. Maximiliano desceu, não queria falar com Marina na frente dos outros. Olhou o relógio – quase nove, mas ela sempre foi notívaga, para ele, uma espécie de madrugadora. Tocou o interfone. Mas quem atendeu não foi a ex-esposa, mas uma voz masculina. Disse que Marina estava ocupada. – Ela está bem? – perguntou Maximiliano, preocupado. A voz pediu que se identificasse. – Eu sou o marido, por sinal! Tu és o tal Bulcovic? – gritou Maximiliano. O “senhor” corrigiu, que marido Maximiliano é ex e não tem direito de incomodar Marina. Explicar que a amiga tomava banho, não achou necessário. – Então, amor antigo não enferruja? – perguntou Maximiliano, sarcástico e ciumento, pronto para discutir com Bulcovic. Mas este respondeu: – Não, amor antigo vira prata. A porta nunca foi aberta…
Fernando guardava dentro de si o arrependimento por ter se apressado no divórcio. Homens sábios transformam
Без категорії
092
— Pai, apresente-se, esta é a minha futura esposa e sua nora, Bárbara! — Borja brilhava de felicidade. — Quem?! — exclamou, surpreso, o professor doutor Romano Felimão. — Se isso é uma piada, não tem muita graça! O homem analisava, com repulsa, as unhas nos dedos ásperos da “nora”, achando impossível que aquela rapariga soubesse o que era água e sabão, tamanha a sujeira entranhada. “Meu Deus! Ainda bem que a minha Laura não presenciou tal vergonha! Sempre passámos bons modos a este rapaz…” — pensou, angustiado. — Não é piada! — declarou Borja, desafiador. — Bárbara vai morar connosco e daqui a três meses casamos. Se não quiser participar no meu casamento, faço sem ti! — Olá! — sorriu Bárbara, entrando como dona para a cozinha. — Trouxe empadas, doce de framboesa, cogumelos secos… — enumerava os alimentos que tirava de um saco bem desgastado. Romano Felimão apertou o peito ao ver a colcha branca, bordada à mão, manchada pelo doce a escorrer. — Borja! Tem juízo! Se estás a fazer isto para me provocar, não vale a pena… É demais! De que terra trouxeste esta desastrada? Não permito que viva na minha casa! — gritava, desesperado, o professor. — Eu amo a Bárbara. E ela tem todo o direito de viver na minha casa! — sorriu Borja, sarcástico. Romano Felimão percebeu que o filho o provocava. Sem discutir, recolheu-se ao seu quarto, magoado. Desde a morte da mãe, Borja mudara. Largara os estudos, tratava mal o pai e vivia levianamente. Romano Felimão esperava que o filho voltasse a ser sensato e bondoso, mas cada dia Borja afastava-se mais. E agora trazia para casa esta rapariga da aldeia, certo de que o pai jamais aceitaria tal escolha… No fim, Borja casou-se com Bárbara. Romano Felimão recusou ir ao casamento, incapaz de aceitar aquela nora inculta, que não sabia articular duas frases. Bárbara parecia não notar o desprezo do sogro e tentava agradar, só piorando a situação. Para Romano Felimão, nada nela era digno, só via falta de educação e modos… Borja, depois de brincar ao marido ideal, voltou à bebida e à vida de excessos. O pai ouvia discutir e até se alegrava, esperando que Bárbara desaparecesse de vez. — Sr. Romano! — irrompeu a nora, em lágrimas. — Borja quer divorciar-se, está a pôr-me na rua e eu estou grávida! — Por amor de Deus, para a rua não, tu tens para onde ir… O facto de estares grávida não te dá direito de ficar aqui após o divórcio. Desculpa, mas não me meto entre vocês… — respondeu o homem, já satisfeito por se livrar finalmente da presença indesejada. Bárbara, desesperada, foi fazer as malas. Não compreendia o ódio do sogro desde o início nem a leviandade de Borja, que a tratara como um brinquedo e deitou fora. Mesmo sendo do campo, também tinha sentimentos… *** Oito anos passaram… Romano Felimão vivia num lar de idosos. O tempo pesava. Borja rapidamente o colocara ali, livrando-se das obrigações. O velho homem resignou-se ao destino, consciente de não ter alternativa. Ainda recebia cartas de agradecimento de antigos alunos — tinha ensinado a milhares o valor do respeito e carinho. Mas ao próprio filho, não conseguira educar para ser homem… — Romano, tens visitas! — avisou o colega de quarto ao regressar do passeio. — Quem? Borja? — escapou ao velho, embora soubesse que era impossível; o filho nunca o visitaria, tal o ódio. — Não sei. Disseram para te chamar. Vai lá, depressa! — sorriu o amigo. Romano pegou na bengala e saiu devagar do quarto apertado. Na escada, ainda à distância, reconheceu imediatamente quem era, apesar de tantos anos. — Olá, Bárbara! — murmurou, cabeça baixa, ainda sentindo culpa pela rapariga sincera e simples, que não quis defender há oito anos. — Sr. Romano?! — admirou-se a mulher, rosada. — Mudou tanto… Está doente? — Um pouco… — sorriu, triste. — E tu? Como soubeste que estou aqui? — Borja contou. Ele não quer saber do filho. Mas o rapaz pede sempre para ver o pai, o avô… O Ivaninho não tem culpa de não ser reconhecido. Faltam-lhe laços de família. Somos só nós dois… — disse ela, trémula. — Desculpe, provavelmente não devia ter vindo. — Espera! — pediu o velho. — Como está o Ivaninho? Lembro que mandaste uma foto, tinha só três aninhos. — Ele está lá fora, à entrada. Chamo? — hesitou Bárbara. — Claro, filha, chama! — alegrou-se Romano Felimão. Entrou no átrio um menino ruivo, cópia miniatura de Borja. Ivaninho aproximou-se, tímido, daquele avô que não conhecia. — Olá, filho! Como cresceste… — comoveu-se o velho, abraçando o neto. Conversaram e passearam durante horas pelo parque do lar. Bárbara contou a dura vida, como perdeu a mãe cedo e criou sozinha o filho e a quinta. — Desculpa, Bárbara! Fui muito injusto contigo. Julguei-me culto, inteligente, mas só agora entendi que o que conta é a sinceridade e o coração, não só educação e modos, — confessou o velho. — Sr. Romano! Temos um convite para si, — sorriu ela, nervosa. — Venha viver connosco! Está sozinho, e nós também… Gostávamos de ter alguém da família perto. — Avô, venha! Vamos juntos à pesca, apanhar cogumelos no mato… É tão bonito na nossa aldeia, há espaço de sobra na casa! — pediu Ivaninho, agarrado ao avô. — Vamos sim! — sorriu Romano Felimão. — Falhei com o Borja, mas espero poder ser melhor para ti. E, afinal, nunca vivi numa aldeia. Tenho a certeza que vou gostar! — Vai adorar! — riu Ivaninho.
Pai, apresenta-te, esta é a minha futura esposa e tua nora, Mafalda! reluzia de alegria o Bernardo. Quem?
Без категорії
015
O coração de um gato negro batia surdo no peito e pensamentos dispersos atormentavam sua alma; por que será que a sua dona resolveu entregá-lo a estranhos? Por que ela o abandonou? Quando a recém-mudada Olívia ganhou de presente, na sua modesta e suada nova casa, um gato britânico todo preto, ficou alguns minutos em choque… O apartamento, simples e comprado com muito esforço, sequer estava totalmente montado e muitos outros problemas tomavam conta da sua rotina. E, de repente, um gatinho! Ao se recompor do susto, olhou nos olhos de âmbar do filhote, suspirou, sorriu e perguntou ao visitante que trouxe o animal: – É gato ou gata? – Gato! – Então, você será o Bartô! – disse ela ao pequeno. Ele abriu a bocarra e respondeu, resignado, um “Miau”… ***** Logo Olívia descobriu que gatos britânicos são companheiros perfeitos. Três anos depois, ela e Bartô viviam em pura sintonia. Mais ainda: Bartô revelou-se dono de uma alma sensível e um coração gigante. Esperava Olívia chegar do trabalho, aquecia suas noites, assistia filmes ao seu lado e a seguia pela casa durante a faxina. A vida com o gato ganhou novas cores. Era tão bom ser esperado em casa, ter alguém com quem rir, chorar, e ser entendido sem nem precisar falar. Parecia que a sorte finalmente estava a seu favor. Porém… Olívia começou a sentir fortes dores no lado direito do corpo. Achou que era só um músculo puxado, culpou a comida gordurosa. Quando piorou, foi ao médico. O diagnóstico foi um choque. Chorou a noite toda, abraçada ao travesseiro. Bartô, percebendo o sofrimento da dona, se encostou nela e ronronou baixinho, tentando consolar. Sem perceber, adormeceu ao som do ronronar do Bartô. De manhã, já conformada, resolveu não contar à família sobre a doença, evitando olhares piedosos e ajuda desconfortável. Restava ainda uma última esperança – tinha fé que os médicos encontrariam uma solução. Indicaram um tratamento que poderia ajudar. Mas e Bartô? Angustiada, decidiu encontrar para ele um novo lar com bons donos, caso tudo terminasse mal. Colocou um anúncio online, oferecendo seu gato de raça em boas mãos. Quando o primeiro interessado ligou perguntando o motivo da doação, Olívia, sem saber explicar, disse que estava grávida e que desenvolveu alergia à pelagem durante a gestação. Três dias depois, Bartô, com todos os acessórios, foi para outra casa, e Olívia internou-se no hospital… Dois dias depois, ligou para os novos donos perguntando pelo Bartô. Cheios de desculpas, disseram que o gato fugiu na mesma noite e que não conseguiram encontrá-lo. Tudo que ela queria era sair do hospital e procurar Bartô. Pediu à enfermeira para liberá-la, mas recebeu uma bronca e foi mandada de volta pro quarto. A vizinha de leito, percebendo o drama, perguntou o que estava acontecendo. Olívia contou tudo, chorando muito. – Não sofra antes da hora, menina – disse a senhora magrinha. Amanhã deve vir uma médica de Lisboa, que meu filho contratou pra me transferir de clínica, mas preferi ficar. Vou pedir pra ela te examinar. Quem sabe não é tão grave assim? – ela afagou Olívia, confortando-a. **** Ao sair da caixa de transporte, Bartô logo percebeu que aquele não era seu lar. Pessoas estranhas tentaram lhe fazer carinho… Bartô perdeu a calma, atacou e correu para o canto mais escuro. – Fábio, não mexe com ele agora, deixa ele se acostumar – ouviu Bartô uma voz feminina suave, mas não era a de Olívia. O coração do gato batia surdo. Que tragédia fez sua dona entregá-lo a desconhecidos? Por quê o abandonou? Olhos de âmbar varriam o cômodo em busca de escape. Encontrou uma janela aberta e, num salto, disparou para fora. Por sorte, era apenas o segundo andar e havia um gramado bem cuidado. Ali começou a jornada de volta de Bartô para casa… ***** A médica apareceu: uma mulher simpática chamada Maria Paula, examinou cuidadosamente e pediu que Olívia ficasse de lado na maca. Ela apalpou, perguntou das dores, revisou o prontuário, fez novos exames. Olívia não esperava boas notícias. Voltou para o quarto desanimada. – O que disseram, menina? – perguntou a vizinha. – Ainda nada, vão retornar depois. – Já eu não tive sorte, confirmaram o diagnóstico – lamentou a senhora. Olívia tentou confortá-la, ainda sem palavras. Meia hora depois, Maria Paula entrou com outros médicos: – Olívia, tenho boas notícias: sua doença tem tratamento, já indiquei o procedimento, fique aqui duas semanas e sairá saudável! – disse sorrindo. A vizinha comentou: – Que bom! Fico feliz de fazer o bem antes de partir. Seja feliz, menina! ***** Bartô não tinha estrela guia: seguia só a sua intuição de gato. O caminho pela cidade foi tortuoso, cheio de perigos e episódios engraçados. De animal doméstico, virou um felino feroz, aguçado pelos instintos. Evitando os carros, correndo, pulando, escalando árvores, Bartô seguia decididamente para casa… Num quintal silencioso, encarou um gato experiente, que tentou atacar o britânico, mas Bartô, agora guerreiro, não recuou. A briga terminou rápido, com o chefe local fugindo envergonhado e Bartô com uma orelha um pouco rasgada. Bartô foi aprendendo habilidades dos seus ancestrais: dormia em forquilhas de árvore, aprendia a comer dos sacos de lixo e até furtar comida dos gatos de rua alimentados pelos vizinhos. Enfrentou uma matilha de cães, que o encurralou em uma árvore. Moradores espantaram os cachorros e uma senhora tentou adotar Bartô, oferecendo mortadela. Com fome e medo, Bartô aceitou o carinho e ficou num lar temporário. Mas, depois de descansar e comer, se lembrou do seu objetivo, escapou pela porta do prédio e seguiu seu caminho… ***** Recebendo alta, Olívia voltou ao seu apartamento. Lembrava das palavras da vizinha do hospital, desejando felicidade. Estava radiante por estar saudável. Mas o coração doía. E Bartô? Não conseguia imaginar voltar a uma casa vazia. Assim que chegou, ligou para os ex-adotantes de Bartô e pegou o endereço. Indo até lá, soube como o gato havia fugido e decidiu buscar pistas. Diziam que era impossível, que já se passaram duas semanas, e que um gato doméstico jamais sobreviveria na rua, mas ela não desistiu. Caminhou por todos os bairros, olhou cada jardim, garagem, becos. Tentou pensar como um gato, chamou Bartô nas sombras dos porões. Já perto de casa, compreendeu que Bartô estava desaparecido. Seria impossível que ele, sem conhecer a cidade, voltasse até lá após tanto tempo. Chegando tristemente ao seu prédio, com lágrimas nos olhos, avistou um gato preto se aproximando pela calçada. “Um gato preto qualquer”, pensou, mas ao olhar melhor entendeu. Disparou com um grito: “Bartô!” O gato, sem forças para correr, sentou-se, estreitou os olhos de felicidade e sussurrou: “Cheguei!”
O coração do gato batia surdo no peito, os pensamentos dispersavam-se, a alma doía. Que poderá ter acontecido