— Pai, apresente-se, esta é a minha futura esposa e sua nora, Bárbara! — Borja brilhava de felicidade. — Quem?! — exclamou, surpreso, o professor doutor Romano Felimão. — Se isso é uma piada, não tem muita graça! O homem analisava, com repulsa, as unhas nos dedos ásperos da “nora”, achando impossível que aquela rapariga soubesse o que era água e sabão, tamanha a sujeira entranhada. “Meu Deus! Ainda bem que a minha Laura não presenciou tal vergonha! Sempre passámos bons modos a este rapaz…” — pensou, angustiado. — Não é piada! — declarou Borja, desafiador. — Bárbara vai morar connosco e daqui a três meses casamos. Se não quiser participar no meu casamento, faço sem ti! — Olá! — sorriu Bárbara, entrando como dona para a cozinha. — Trouxe empadas, doce de framboesa, cogumelos secos… — enumerava os alimentos que tirava de um saco bem desgastado. Romano Felimão apertou o peito ao ver a colcha branca, bordada à mão, manchada pelo doce a escorrer. — Borja! Tem juízo! Se estás a fazer isto para me provocar, não vale a pena… É demais! De que terra trouxeste esta desastrada? Não permito que viva na minha casa! — gritava, desesperado, o professor. — Eu amo a Bárbara. E ela tem todo o direito de viver na minha casa! — sorriu Borja, sarcástico. Romano Felimão percebeu que o filho o provocava. Sem discutir, recolheu-se ao seu quarto, magoado. Desde a morte da mãe, Borja mudara. Largara os estudos, tratava mal o pai e vivia levianamente. Romano Felimão esperava que o filho voltasse a ser sensato e bondoso, mas cada dia Borja afastava-se mais. E agora trazia para casa esta rapariga da aldeia, certo de que o pai jamais aceitaria tal escolha… No fim, Borja casou-se com Bárbara. Romano Felimão recusou ir ao casamento, incapaz de aceitar aquela nora inculta, que não sabia articular duas frases. Bárbara parecia não notar o desprezo do sogro e tentava agradar, só piorando a situação. Para Romano Felimão, nada nela era digno, só via falta de educação e modos… Borja, depois de brincar ao marido ideal, voltou à bebida e à vida de excessos. O pai ouvia discutir e até se alegrava, esperando que Bárbara desaparecesse de vez. — Sr. Romano! — irrompeu a nora, em lágrimas. — Borja quer divorciar-se, está a pôr-me na rua e eu estou grávida! — Por amor de Deus, para a rua não, tu tens para onde ir… O facto de estares grávida não te dá direito de ficar aqui após o divórcio. Desculpa, mas não me meto entre vocês… — respondeu o homem, já satisfeito por se livrar finalmente da presença indesejada. Bárbara, desesperada, foi fazer as malas. Não compreendia o ódio do sogro desde o início nem a leviandade de Borja, que a tratara como um brinquedo e deitou fora. Mesmo sendo do campo, também tinha sentimentos… *** Oito anos passaram… Romano Felimão vivia num lar de idosos. O tempo pesava. Borja rapidamente o colocara ali, livrando-se das obrigações. O velho homem resignou-se ao destino, consciente de não ter alternativa. Ainda recebia cartas de agradecimento de antigos alunos — tinha ensinado a milhares o valor do respeito e carinho. Mas ao próprio filho, não conseguira educar para ser homem… — Romano, tens visitas! — avisou o colega de quarto ao regressar do passeio. — Quem? Borja? — escapou ao velho, embora soubesse que era impossível; o filho nunca o visitaria, tal o ódio. — Não sei. Disseram para te chamar. Vai lá, depressa! — sorriu o amigo. Romano pegou na bengala e saiu devagar do quarto apertado. Na escada, ainda à distância, reconheceu imediatamente quem era, apesar de tantos anos. — Olá, Bárbara! — murmurou, cabeça baixa, ainda sentindo culpa pela rapariga sincera e simples, que não quis defender há oito anos. — Sr. Romano?! — admirou-se a mulher, rosada. — Mudou tanto… Está doente? — Um pouco… — sorriu, triste. — E tu? Como soubeste que estou aqui? — Borja contou. Ele não quer saber do filho. Mas o rapaz pede sempre para ver o pai, o avô… O Ivaninho não tem culpa de não ser reconhecido. Faltam-lhe laços de família. Somos só nós dois… — disse ela, trémula. — Desculpe, provavelmente não devia ter vindo. — Espera! — pediu o velho. — Como está o Ivaninho? Lembro que mandaste uma foto, tinha só três aninhos. — Ele está lá fora, à entrada. Chamo? — hesitou Bárbara. — Claro, filha, chama! — alegrou-se Romano Felimão. Entrou no átrio um menino ruivo, cópia miniatura de Borja. Ivaninho aproximou-se, tímido, daquele avô que não conhecia. — Olá, filho! Como cresceste… — comoveu-se o velho, abraçando o neto. Conversaram e passearam durante horas pelo parque do lar. Bárbara contou a dura vida, como perdeu a mãe cedo e criou sozinha o filho e a quinta. — Desculpa, Bárbara! Fui muito injusto contigo. Julguei-me culto, inteligente, mas só agora entendi que o que conta é a sinceridade e o coração, não só educação e modos, — confessou o velho. — Sr. Romano! Temos um convite para si, — sorriu ela, nervosa. — Venha viver connosco! Está sozinho, e nós também… Gostávamos de ter alguém da família perto. — Avô, venha! Vamos juntos à pesca, apanhar cogumelos no mato… É tão bonito na nossa aldeia, há espaço de sobra na casa! — pediu Ivaninho, agarrado ao avô. — Vamos sim! — sorriu Romano Felimão. — Falhei com o Borja, mas espero poder ser melhor para ti. E, afinal, nunca vivi numa aldeia. Tenho a certeza que vou gostar! — Vai adorar! — riu Ivaninho.

Pai, apresenta-te, esta é a minha futura esposa e tua nora, Mafalda! reluzia de alegria o Bernardo.
Quem?! surpreendeu-se o Professor Doutor Manuel Filipe. Se isto é uma brincadeira, não tem graça nenhuma!
O homem olhava com desdém para as unhas maltratadas e sujas nos dedos rudes da nora. Parecia-lhe impossível que aquela rapariga soubesse o que era água e sabão. Senão, como explicar a crosta de terra que se acumulava por baixo das unhas?
Meu Deus! Ainda bem que a minha Leonor não viveu para ver tamanha desonra! Dedicámo-nos a ensinar boas maneiras a este rapaz pensou, angustiado.
Não é brincadeira! respondeu Bernardo, desafiador. A Mafalda vai ficar cá em casa, e dentro de três meses casamo-nos. Se não quiseres fazer parte disto, faço sozinho!
Olá! sorriu Mafalda, entrando com à-vontade na cozinha. Trouxe bolinhos, doce de framboesa, cogumelos secos ia dizendo, enquanto tirava produtos de um saco já gasto pelo tempo.
Manuel Filipe pôs logo a mão ao peito ao ver Mafalda estragar a toalha alva, bordada à mão, ao entornar o doce.
Bernardo! Tem juízo! Se fazes isto só para me magoar, não vale a pena… É cruel demais! De que aldeia trouxeste esta ignorante? Não admito que ela viva aqui! gritou o professor, num desespero.
Eu amo a Mafalda. E ela pode morar legalmente neste espaço ironizou Bernardo.
Manuel Filipe percebeu que o filho se estava a divertir à sua custa. Não respondeu, preferiu afastar-se, dirigindo-se em silêncio ao seu quarto.
Desde que Leonor faleceu, Bernardo mudara muito. Abandonou a faculdade, faltava ao respeito ao pai, e levava uma vida solta, irresponsável.
Manuel Filipe ainda tinha esperança que o filho melhorasse, voltasse a ser ponderado e bondoso. Mas, dia após dia, Bernardo tornava-se um estranho. E agora trazia esta aldeã para dentro de casa, sabendo que o pai nunca aceitaria tal união
Pouco tempo depois, Bernardo casou-se com Mafalda. O professor recusou-se a ir ao casamento; não queria reconhecer aquela nora. Revoltava-se ao ver que o lugar da Leonor, exímia dona de casa, esposa e mãe, era ocupado por uma jovem rude, incapaz de formar meia dúzia de frases bem ditas.
Mafalda parecia ignorar o desprezo do sogro, tentava agradar-lhe em tudo, mas só piorava. O velho continuava a não lhe ver virtude alguma; o mais que via era a falta de educação e modos
Bernardo, depois de fingir o papel de marido exemplar, voltou aos copos e às noitadas. O pai ouvia as discussões e, em segredo, regozijava, torcendo para que Mafalda desaparecesse de vez da sua casa.
Sr. Manuel Filipe! entrou a nora certa vez, lavada em lágrimas. O Bernardo vai divorciar-se de mim, quer expulsar-me, e eu estou grávida!
Ora, e porque tens de ir para a rua? Não és sem-abrigo Volta para onde vieste, então. O facto de estares grávida não te dá direito de viver cá depois do divórcio. Lamento, mas não me meto respondeu o homem, sentindo alívio por finalmente se ver livre dela.
Mafalda desabou em pranto, foi juntar os seus poucos pertences. Não compreendia porque o sogro a odiava desde o início, porque Bernardo a tratou como um animal doméstico de quem se desfaz. O que tinha ela de mal por ser do campo? Afinal, também tinha desejos, sonhos e sentimentos
***
Oito anos passaram… Manuel Filipe vivia agora num lar de idosos. Envelhecera muito nos últimos anos. Bernardo aproveitou-se depressa da fragilidade do pai, internando-o para se livrar das responsabilidades.
O velho resignou-se ao destino, sabendo que não havia solução. Dedicou uma vida inteira a transmitir valores: respeito, afetos, cuidado. Ainda recebia cartas de antigos alunos agradecidos Só ao próprio filho falhou.
Manuel, tens visitas avisou o colega de quarto, regressando de um passeio.
Quem? O Bernardo? escapou-lhe, já sabendo que era impossível. O filho nunca viria; o ódio era demasiado grande
Não sei. Ouvi a funcionária pedir que te chamasse. Vai lá!
Manuel pegou na bengala, saiu devagar do quarto abafado. Descendo a escada, avistou-a ao longe, reconheceu, apesar dos anos.
Olá, Mafalda! disse baixinho, de olhos baixos. Continuava a sentir culpa por não ter protegido aquela jovem sincera, simples e sensível, oito anos antes
Sr. Doutor Manuel?! admirou-se a mulher corada. Mudou tanto Está doente, não está?
Um pouco…, sorriu, triste. Como soubeste de mim?
O Bernardo contou. Ele recusa sequer falar com o nosso filho. Mas o rapaz nunca desiste: pede para ver o pai, o avô O Salvador não tem culpa de não ser reconhecido. Sente falta da família. Estamos sozinhos disse ela, com a voz a tremer. Desculpe, talvez não devesse ter vindo.
Espera! pediu o velho. Como está o Salvador? Lembro-me da última foto que enviaste, tinha só três aninhos.
Está lá fora, à entrada. Chama-o?
Claro, filha, chama sim! sorriu Manuel.
Entrou então um rapazinho ruivo, a cara chapada do Bernardo. Salvador aproximou-se, tímido, do avô desconhecido.
Olá, meu querido! Estás tão crescido emocionou-se o velho, abraçando o neto.
Conversaram longamente, passearam pelos caminhos dourados do outono no parque do lar. Mafalda contou-lhe sobre a vida difícil, a morte prematura da mãe, as lutas para criar o filho e tratar da casa.
Perdoa-me, Mafalda! Errei contigo. Julguei-me homem sábio, culto, mas só agora percebi que devemos valorizar as pessoas pelo coração e bondade, não pela instrução ou maneiras disse o velho.
Sr. Manuel Temos de lhe fazer um convite sorriu Mafalda, nervosa. Venha connosco! Está sozinho, e nós também Queríamos tanto ter família por perto.
Avô, venha! Vamos pescar juntos, procurar cogumelos na floresta É tão bonito na nossa aldeia, e temos espaço de sobra em casa! pediu Salvador, segurando a mão do avô.
Vou sim! sorriu Manuel. Falhei na educação do Bernardo, mas espero poder dar-te o que nunca consegui dar ao teu pai. E nunca vivi na aldeia Quem sabe, talvez goste!
Vai adorar! exclamou Salvador, feliz.

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— Pai, apresente-se, esta é a minha futura esposa e sua nora, Bárbara! — Borja brilhava de felicidade. — Quem?! — exclamou, surpreso, o professor doutor Romano Felimão. — Se isso é uma piada, não tem muita graça! O homem analisava, com repulsa, as unhas nos dedos ásperos da “nora”, achando impossível que aquela rapariga soubesse o que era água e sabão, tamanha a sujeira entranhada. “Meu Deus! Ainda bem que a minha Laura não presenciou tal vergonha! Sempre passámos bons modos a este rapaz…” — pensou, angustiado. — Não é piada! — declarou Borja, desafiador. — Bárbara vai morar connosco e daqui a três meses casamos. Se não quiser participar no meu casamento, faço sem ti! — Olá! — sorriu Bárbara, entrando como dona para a cozinha. — Trouxe empadas, doce de framboesa, cogumelos secos… — enumerava os alimentos que tirava de um saco bem desgastado. Romano Felimão apertou o peito ao ver a colcha branca, bordada à mão, manchada pelo doce a escorrer. — Borja! Tem juízo! Se estás a fazer isto para me provocar, não vale a pena… É demais! De que terra trouxeste esta desastrada? Não permito que viva na minha casa! — gritava, desesperado, o professor. — Eu amo a Bárbara. E ela tem todo o direito de viver na minha casa! — sorriu Borja, sarcástico. Romano Felimão percebeu que o filho o provocava. Sem discutir, recolheu-se ao seu quarto, magoado. Desde a morte da mãe, Borja mudara. Largara os estudos, tratava mal o pai e vivia levianamente. Romano Felimão esperava que o filho voltasse a ser sensato e bondoso, mas cada dia Borja afastava-se mais. E agora trazia para casa esta rapariga da aldeia, certo de que o pai jamais aceitaria tal escolha… No fim, Borja casou-se com Bárbara. Romano Felimão recusou ir ao casamento, incapaz de aceitar aquela nora inculta, que não sabia articular duas frases. Bárbara parecia não notar o desprezo do sogro e tentava agradar, só piorando a situação. Para Romano Felimão, nada nela era digno, só via falta de educação e modos… Borja, depois de brincar ao marido ideal, voltou à bebida e à vida de excessos. O pai ouvia discutir e até se alegrava, esperando que Bárbara desaparecesse de vez. — Sr. Romano! — irrompeu a nora, em lágrimas. — Borja quer divorciar-se, está a pôr-me na rua e eu estou grávida! — Por amor de Deus, para a rua não, tu tens para onde ir… O facto de estares grávida não te dá direito de ficar aqui após o divórcio. Desculpa, mas não me meto entre vocês… — respondeu o homem, já satisfeito por se livrar finalmente da presença indesejada. Bárbara, desesperada, foi fazer as malas. Não compreendia o ódio do sogro desde o início nem a leviandade de Borja, que a tratara como um brinquedo e deitou fora. Mesmo sendo do campo, também tinha sentimentos… *** Oito anos passaram… Romano Felimão vivia num lar de idosos. O tempo pesava. Borja rapidamente o colocara ali, livrando-se das obrigações. O velho homem resignou-se ao destino, consciente de não ter alternativa. Ainda recebia cartas de agradecimento de antigos alunos — tinha ensinado a milhares o valor do respeito e carinho. Mas ao próprio filho, não conseguira educar para ser homem… — Romano, tens visitas! — avisou o colega de quarto ao regressar do passeio. — Quem? Borja? — escapou ao velho, embora soubesse que era impossível; o filho nunca o visitaria, tal o ódio. — Não sei. Disseram para te chamar. Vai lá, depressa! — sorriu o amigo. Romano pegou na bengala e saiu devagar do quarto apertado. Na escada, ainda à distância, reconheceu imediatamente quem era, apesar de tantos anos. — Olá, Bárbara! — murmurou, cabeça baixa, ainda sentindo culpa pela rapariga sincera e simples, que não quis defender há oito anos. — Sr. Romano?! — admirou-se a mulher, rosada. — Mudou tanto… Está doente? — Um pouco… — sorriu, triste. — E tu? Como soubeste que estou aqui? — Borja contou. Ele não quer saber do filho. Mas o rapaz pede sempre para ver o pai, o avô… O Ivaninho não tem culpa de não ser reconhecido. Faltam-lhe laços de família. Somos só nós dois… — disse ela, trémula. — Desculpe, provavelmente não devia ter vindo. — Espera! — pediu o velho. — Como está o Ivaninho? Lembro que mandaste uma foto, tinha só três aninhos. — Ele está lá fora, à entrada. Chamo? — hesitou Bárbara. — Claro, filha, chama! — alegrou-se Romano Felimão. Entrou no átrio um menino ruivo, cópia miniatura de Borja. Ivaninho aproximou-se, tímido, daquele avô que não conhecia. — Olá, filho! Como cresceste… — comoveu-se o velho, abraçando o neto. Conversaram e passearam durante horas pelo parque do lar. Bárbara contou a dura vida, como perdeu a mãe cedo e criou sozinha o filho e a quinta. — Desculpa, Bárbara! Fui muito injusto contigo. Julguei-me culto, inteligente, mas só agora entendi que o que conta é a sinceridade e o coração, não só educação e modos, — confessou o velho. — Sr. Romano! Temos um convite para si, — sorriu ela, nervosa. — Venha viver connosco! Está sozinho, e nós também… Gostávamos de ter alguém da família perto. — Avô, venha! Vamos juntos à pesca, apanhar cogumelos no mato… É tão bonito na nossa aldeia, há espaço de sobra na casa! — pediu Ivaninho, agarrado ao avô. — Vamos sim! — sorriu Romano Felimão. — Falhei com o Borja, mas espero poder ser melhor para ti. E, afinal, nunca vivi numa aldeia. Tenho a certeza que vou gostar! — Vai adorar! — riu Ivaninho.
Мъж внезапно донесе в къщата дъщеря си от първия брак без да пита