Alô… É o Vasco? – Não, aqui é a Helena… – Helena? Quem é você? – Minha senhora, e você quem é? Eu sou a namorada do Vasco. Queria falar com ele? Ele não está, ficou até mais tarde no trabalho… Fiquei tonta, reparei gotas vermelhas no chão. A barriga doía tanto que quase me contorcia… Senti que o bebé estava a chegar. O meu marido Vasco já há 5 anos seguidos vai trabalhar fora. Já guiou camiões na Alemanha, fez remodelações na Polónia. Foi pela necessidade de dinheiro. Temos dois filhos e queríamos dar-lhes um futuro melhor. E sabíamos bem que cá em Portugal seria difícil conseguir isso. E sabem, lá fora o Vasco teve sorte. Todos os meses enviava-nos caixas com comida. Conservas, arroz, óleo, doces. Mandava dinheiro para o meu cartão para eu colocar no banco, a render juros. Conseguimos juntar o suficiente para comprar um apartamento para o nosso filho mais velho. Parecia que estava tudo bem, mas uns meses atrás senti algo estranho no meu corpo. Pensei logo em menopausa, mas não era. Engordei, estava cansada, fome constante, o humor mudava. A Internet dizia que eram sinais de gravidez. Mas grávida aos 45? Não acreditei e fui fazer o teste. Lá estavam duas riscas vermelhas. Não quis contar aos filhos nem às noras sobre o bebé. Para quê? Para se rirem de mim, dizerem que a mãe perdeu o juízo na idade dela? Decidi esconder a gravidez. E como era inverno, vestia roupa larga e ninguém via a barriga. Mas não queria ter outro filho. Muitos vão dizer que não tenho Deus no coração, mas eu já não sou jovem. Tenho filhos e netos a quem quero dedicar o tempo, não voltar à rotina dos fraldas e choros. E nem temos dinheiro para mais uma criança. O Vasco teria de voltar a emigrar e eu não aguentava sem ele. Diziam que era arriscado interromper a gravidez e poderia prejudicar-me. Tentei convencer-me que ia correr tudo bem. Talvez o Vasco até ficasse feliz com a notícia de mais um filho. Decidi ligar-lhe no Skype. Só áudio, sem vídeo. – Alô, Vasco… – Não, é a Helena. – Helena? Quem é você? – E você quem é? Eu sou a namorada do Vasco. Queria falar com ele? Ele atrasou-se no trabalho. Desliguei e chorei muito. Às vezes a vida traz traição a qualquer hora, com qualquer pessoa. Pensei logo em pedir o divórcio, deitar fora todas as coisas do Vasco, não ouvir nem ver mais. Mas ainda tinha esperança que ele voltasse para a família quando soubesse do bebé. Sabia que em fevereiro vinha cá por causa dos anos dos filhos. Sonhei até que passeávamos no parque, eu de um lado a segurar a mão da nossa filha e do outro o Vasco. No dia 14 de fevereiro, Dia dos Namorados, o Vasco chegou. Preparei um jantar romântico, velas, música, tudo para criar um clima de paz. – Vasco, tenho uma surpresa. Estou grávida. Dizem que vai ser uma menina. – Sua grande descarada! – gritou o Vasco. Ficou vermelho de raiva, virou pratos no chão, bateu com os punhos na mesa. – Enquanto eu faço sacrifícios lá fora, anda a saltar pra outros braços? Agora quer que eu aceite esse bastardo? – Vasco, deixa-me explicar… – Sai daqui, não quero ver-te! – empurrou-me tão forte que bati a barriga na mesa e caí. O Vasco saiu, pegou na mala e bateu a porta. Fiquei tonta, reparei nas gotas vermelhas no chão, a barriga doía, contorcia-me. Consegui ligar para o INEM, mas já sentia que o bebé ia nascer. Quando chegaram, já tinha a nossa filha nos braços. Estava tranquila, não chorava, dormia descansada. – Então, mãe, vem connosco? – Não. Levem a menina, eu não a quero. – Como assim? – Levem, já disse! Esta menina acabou com a minha família! Talvez alguém a ame, mas eu não sou capaz. Leve-a, não quero vê-la! Com o coração tranquilo entreguei a menina à equipa médica. Fizeram o exame em casa, não tive problemas, o parto foi sereno. Depois que saíram, limpei tudo, fui para o banho e dormir. Ninguém sabe dos filhos que entreguei a menina. Todos os dias vou à igreja, peço a Deus por ela, que seja saudável e encontre uma família que a queira. Sei que não sou capaz de enfrentar tudo outra vez. Só quero que o Vasco volte. Mas ele já foi novamente para a Alemanha, só fala com os filhos. Podem dizer que sou uma mulher sem juízo. Mas escolho o marido, não a filha. Que Deus me julgue.

13 de fevereiro

Hoje o dia começou estranho. O telefone tocou e atendi sem pensar duas vezes.

Olá Vasco?

Não é o Vasco. Sou Leonor.

Leonor? Quem é você?

Minha senhora, quem é você? Eu sou namorada do Vasco. Queria falar com ele? Não está, está a fazer horas extra no trabalho

Senti o mundo a girar debaixo dos meus pés. Notei umas gotas vermelhas no chão da cozinha, e a dor no ventre aumentava. Dobrei-me de dor e percebi que a minha bebé estava quase a chegar.

O meu marido, Vasco, há mais de cinco anos que sai de Portugal para trabalhar. Primeiro na Alemanha como camionista, depois em França a fazer obras. Foi pelo dinheiro, para garantir um futuro melhor aos nossos dois filhos. Sabíamos bem que por cá não teríamos grandes oportunidades.

Com o passar dos meses, Vasco até foi sortudo. Mensalmente mandava-nos caixas com enchidos, arroz, azeite, doces. Transferia também euros para a minha conta, para eu guardar no banco. Acabámos por conseguir juntar o suficiente para comprar um T1 para o nosso filho mais velho em Lisboa.

Parecia que estava tudo bem. Mas há uns meses, comecei a sentir algo diferente no corpo. Pensei que fosse a menopausa, mas não era. Engordei de repente, só queria dormir, comia demais, e o humor variava de instante para instante. A internet dizia-me: estou grávida. Fiquei incrédula. Grávida aos 45 anos? Fiz o teste e lá estavam, firmes, as duas riscas vermelhas.

Nem aos meus filhos nem às minhas noras contei. Não queria ouvir gozo, nem ser apontada como a mãe velha que perdeu o juízo. Decidi esconder a gravidez. Aproveitei o inverno e vesti casacos largos. Com os agasalhos, ninguém via a barriga.

Mas não queria este bebé. Chamem-me de insensível, mas tenho já dois filhos e netos, quero dedicar-lhes o tempo que me resta, não andar atrás de fraldas. E sinceramente, manter mais uma criança é impossível. Vasco teria de voltar a emigrar e eu não aguento ficar só.

No hospital disseram que era tarde demais para qualquer intervenção, demasiado arriscado. Não sabia se conseguiria resistir. Tentei convencer-me que tudo correria bem. Talvez Vasco até se alegrasse por termos mais um filho? Decidi ligar-lhe pelo Skype, só com o microfone ligado.

Olá, Vasco

Não é o Vasco. É a Leonor.

Leonor? Quem é você?

Minha senhora, quem é você? Sou namorada do Vasco. Ele está no trabalho, não vai voltar já.

Desliguei o telefone e chorei. Sim, até isso acontece: um marido pode trair-nos em qualquer lado. Senti raiva, quis pedir o divórcio, deitar fora as coisas dele, nunca mais ver o Vasco.

Mas ainda restava uma esperança de que ele voltasse quando soubesse do bebé. Sabia que em fevereiro ele vinha cá, nos aniversários dos rapazes, aproveitando a licença. Sonhei, até, que passeávamos os três no Jardim da Estrela. Vasco com a nossa menina pela mão, eu pela outra.

No dia 14, Dia dos Namorados, Vasco apareceu. Preparei um jantar especial, acendi velas e pus música romântica. Queria criar uma noite em paz.

Vasco, tenho uma surpresa. Estou grávida. Dizem que é uma menina.

Sua desgraçada! gritou ele.

Vasco ficou vermelho de raiva, atirou pratos ao chão, bateu na mesa.

Enquanto eu trabalho fora como um burro, andas com outros? Agora queres que eu sustente este filho de outro?

Vasco, deixa-me explicar

Sai da frente, não quero olhar para ti! empurrou-me de lado e acabei por bater com a barriga na quina da mesa, caindo.

Vasco pegou na mala, saiu de casa e bateu a porta, furioso. As gotas de sangue aumentavam, a dor era insuportável. Agarrei no telemóvel e chamei a ambulância. Senti que a minha menina estava mesmo à porta de nascer.

Quando os enfermeiros chegaram, já tinha a minha filha nos braços. Ela não chorava, dormia tranquila.

Bom dia, mãe, vem connosco?

Não. Levem a criança, não a quero.

Como assim?

Assim mesmo. Levem-na. Esta menina acabou com a minha família! Talvez alguém a ame, mas eu não consigo. Levem-na daqui!

Sem remorsos, entreguei a bebé às enfermeiras. Examinaram-me, os partos foram fáceis, sem complicações. Logo que foram embora, limpei tudo, tomei banho, e fui dormir.

Os meus filhos nunca souberam do que fiz à irmã. Todos os dias vou à igreja e peço a Deus que a proteja e anseio que encontre uma família verdadeira. Sei que não dou mais para ser mãe, não quero sentir esse peso novamente. Só quero que o Vasco volte para casa, mas ele regressou à Alemanha e só fala com os rapazes.

Chamem-me o que quiserem, mas escolho o meu marido, não a criança. Deus será o meu juiz.

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Alô… É o Vasco? – Não, aqui é a Helena… – Helena? Quem é você? – Minha senhora, e você quem é? Eu sou a namorada do Vasco. Queria falar com ele? Ele não está, ficou até mais tarde no trabalho… Fiquei tonta, reparei gotas vermelhas no chão. A barriga doía tanto que quase me contorcia… Senti que o bebé estava a chegar. O meu marido Vasco já há 5 anos seguidos vai trabalhar fora. Já guiou camiões na Alemanha, fez remodelações na Polónia. Foi pela necessidade de dinheiro. Temos dois filhos e queríamos dar-lhes um futuro melhor. E sabíamos bem que cá em Portugal seria difícil conseguir isso. E sabem, lá fora o Vasco teve sorte. Todos os meses enviava-nos caixas com comida. Conservas, arroz, óleo, doces. Mandava dinheiro para o meu cartão para eu colocar no banco, a render juros. Conseguimos juntar o suficiente para comprar um apartamento para o nosso filho mais velho. Parecia que estava tudo bem, mas uns meses atrás senti algo estranho no meu corpo. Pensei logo em menopausa, mas não era. Engordei, estava cansada, fome constante, o humor mudava. A Internet dizia que eram sinais de gravidez. Mas grávida aos 45? Não acreditei e fui fazer o teste. Lá estavam duas riscas vermelhas. Não quis contar aos filhos nem às noras sobre o bebé. Para quê? Para se rirem de mim, dizerem que a mãe perdeu o juízo na idade dela? Decidi esconder a gravidez. E como era inverno, vestia roupa larga e ninguém via a barriga. Mas não queria ter outro filho. Muitos vão dizer que não tenho Deus no coração, mas eu já não sou jovem. Tenho filhos e netos a quem quero dedicar o tempo, não voltar à rotina dos fraldas e choros. E nem temos dinheiro para mais uma criança. O Vasco teria de voltar a emigrar e eu não aguentava sem ele. Diziam que era arriscado interromper a gravidez e poderia prejudicar-me. Tentei convencer-me que ia correr tudo bem. Talvez o Vasco até ficasse feliz com a notícia de mais um filho. Decidi ligar-lhe no Skype. Só áudio, sem vídeo. – Alô, Vasco… – Não, é a Helena. – Helena? Quem é você? – E você quem é? Eu sou a namorada do Vasco. Queria falar com ele? Ele atrasou-se no trabalho. Desliguei e chorei muito. Às vezes a vida traz traição a qualquer hora, com qualquer pessoa. Pensei logo em pedir o divórcio, deitar fora todas as coisas do Vasco, não ouvir nem ver mais. Mas ainda tinha esperança que ele voltasse para a família quando soubesse do bebé. Sabia que em fevereiro vinha cá por causa dos anos dos filhos. Sonhei até que passeávamos no parque, eu de um lado a segurar a mão da nossa filha e do outro o Vasco. No dia 14 de fevereiro, Dia dos Namorados, o Vasco chegou. Preparei um jantar romântico, velas, música, tudo para criar um clima de paz. – Vasco, tenho uma surpresa. Estou grávida. Dizem que vai ser uma menina. – Sua grande descarada! – gritou o Vasco. Ficou vermelho de raiva, virou pratos no chão, bateu com os punhos na mesa. – Enquanto eu faço sacrifícios lá fora, anda a saltar pra outros braços? Agora quer que eu aceite esse bastardo? – Vasco, deixa-me explicar… – Sai daqui, não quero ver-te! – empurrou-me tão forte que bati a barriga na mesa e caí. O Vasco saiu, pegou na mala e bateu a porta. Fiquei tonta, reparei nas gotas vermelhas no chão, a barriga doía, contorcia-me. Consegui ligar para o INEM, mas já sentia que o bebé ia nascer. Quando chegaram, já tinha a nossa filha nos braços. Estava tranquila, não chorava, dormia descansada. – Então, mãe, vem connosco? – Não. Levem a menina, eu não a quero. – Como assim? – Levem, já disse! Esta menina acabou com a minha família! Talvez alguém a ame, mas eu não sou capaz. Leve-a, não quero vê-la! Com o coração tranquilo entreguei a menina à equipa médica. Fizeram o exame em casa, não tive problemas, o parto foi sereno. Depois que saíram, limpei tudo, fui para o banho e dormir. Ninguém sabe dos filhos que entreguei a menina. Todos os dias vou à igreja, peço a Deus por ela, que seja saudável e encontre uma família que a queira. Sei que não sou capaz de enfrentar tudo outra vez. Só quero que o Vasco volte. Mas ele já foi novamente para a Alemanha, só fala com os filhos. Podem dizer que sou uma mulher sem juízo. Mas escolho o marido, não a filha. Que Deus me julgue.
Očarujúca slečna z vyššej spoločnosti naloží túlavého psa do auta a odchádza. Ale kto by to bol povedal