13 de fevereiro
Hoje o dia começou estranho. O telefone tocou e atendi sem pensar duas vezes.
Olá Vasco?
Não é o Vasco. Sou Leonor.
Leonor? Quem é você?
Minha senhora, quem é você? Eu sou namorada do Vasco. Queria falar com ele? Não está, está a fazer horas extra no trabalho
Senti o mundo a girar debaixo dos meus pés. Notei umas gotas vermelhas no chão da cozinha, e a dor no ventre aumentava. Dobrei-me de dor e percebi que a minha bebé estava quase a chegar.
O meu marido, Vasco, há mais de cinco anos que sai de Portugal para trabalhar. Primeiro na Alemanha como camionista, depois em França a fazer obras. Foi pelo dinheiro, para garantir um futuro melhor aos nossos dois filhos. Sabíamos bem que por cá não teríamos grandes oportunidades.
Com o passar dos meses, Vasco até foi sortudo. Mensalmente mandava-nos caixas com enchidos, arroz, azeite, doces. Transferia também euros para a minha conta, para eu guardar no banco. Acabámos por conseguir juntar o suficiente para comprar um T1 para o nosso filho mais velho em Lisboa.
Parecia que estava tudo bem. Mas há uns meses, comecei a sentir algo diferente no corpo. Pensei que fosse a menopausa, mas não era. Engordei de repente, só queria dormir, comia demais, e o humor variava de instante para instante. A internet dizia-me: estou grávida. Fiquei incrédula. Grávida aos 45 anos? Fiz o teste e lá estavam, firmes, as duas riscas vermelhas.
Nem aos meus filhos nem às minhas noras contei. Não queria ouvir gozo, nem ser apontada como a mãe velha que perdeu o juízo. Decidi esconder a gravidez. Aproveitei o inverno e vesti casacos largos. Com os agasalhos, ninguém via a barriga.
Mas não queria este bebé. Chamem-me de insensível, mas tenho já dois filhos e netos, quero dedicar-lhes o tempo que me resta, não andar atrás de fraldas. E sinceramente, manter mais uma criança é impossível. Vasco teria de voltar a emigrar e eu não aguento ficar só.
No hospital disseram que era tarde demais para qualquer intervenção, demasiado arriscado. Não sabia se conseguiria resistir. Tentei convencer-me que tudo correria bem. Talvez Vasco até se alegrasse por termos mais um filho? Decidi ligar-lhe pelo Skype, só com o microfone ligado.
Olá, Vasco
Não é o Vasco. É a Leonor.
Leonor? Quem é você?
Minha senhora, quem é você? Sou namorada do Vasco. Ele está no trabalho, não vai voltar já.
Desliguei o telefone e chorei. Sim, até isso acontece: um marido pode trair-nos em qualquer lado. Senti raiva, quis pedir o divórcio, deitar fora as coisas dele, nunca mais ver o Vasco.
Mas ainda restava uma esperança de que ele voltasse quando soubesse do bebé. Sabia que em fevereiro ele vinha cá, nos aniversários dos rapazes, aproveitando a licença. Sonhei, até, que passeávamos os três no Jardim da Estrela. Vasco com a nossa menina pela mão, eu pela outra.
No dia 14, Dia dos Namorados, Vasco apareceu. Preparei um jantar especial, acendi velas e pus música romântica. Queria criar uma noite em paz.
Vasco, tenho uma surpresa. Estou grávida. Dizem que é uma menina.
Sua desgraçada! gritou ele.
Vasco ficou vermelho de raiva, atirou pratos ao chão, bateu na mesa.
Enquanto eu trabalho fora como um burro, andas com outros? Agora queres que eu sustente este filho de outro?
Vasco, deixa-me explicar
Sai da frente, não quero olhar para ti! empurrou-me de lado e acabei por bater com a barriga na quina da mesa, caindo.
Vasco pegou na mala, saiu de casa e bateu a porta, furioso. As gotas de sangue aumentavam, a dor era insuportável. Agarrei no telemóvel e chamei a ambulância. Senti que a minha menina estava mesmo à porta de nascer.
Quando os enfermeiros chegaram, já tinha a minha filha nos braços. Ela não chorava, dormia tranquila.
Bom dia, mãe, vem connosco?
Não. Levem a criança, não a quero.
Como assim?
Assim mesmo. Levem-na. Esta menina acabou com a minha família! Talvez alguém a ame, mas eu não consigo. Levem-na daqui!
Sem remorsos, entreguei a bebé às enfermeiras. Examinaram-me, os partos foram fáceis, sem complicações. Logo que foram embora, limpei tudo, tomei banho, e fui dormir.
Os meus filhos nunca souberam do que fiz à irmã. Todos os dias vou à igreja e peço a Deus que a proteja e anseio que encontre uma família verdadeira. Sei que não dou mais para ser mãe, não quero sentir esse peso novamente. Só quero que o Vasco volte para casa, mas ele regressou à Alemanha e só fala com os rapazes.
Chamem-me o que quiserem, mas escolho o meu marido, não a criança. Deus será o meu juiz.







