Uau, pai, olha a recepção que te fazem! E para quê precisavas daquele spa, se em casa tens verdadeiro “tudo incluído”?
Quando o Diogo entregou-lhe as chaves do seu apartamento, Mafalda percebeu: missão cumprida. Nem Leonardo DiCaprio esperou tanto pelo Óscar, como Mafalda aguardou o seu Diogo, ainda por cima com ninho próprio.
Desiludida, aos trinta e cinco anos, olhava cada vez mais com ternura para os gatos vadios e para as montras de Tudo Para Artesanato.
E eis que aparece ele sozinho, um homem que gastou a juventude a construir carreira, alimentar-se de forma saudável, ginásios e outras tontices como encontrar-se no mundo, além de não ter filhos.
Mafalda desejava este presente desde os vinte anos e, algures lá em cima, devem finalmente ter percebido que ela não estava a brincar.
Tenho a última viagem do ano e depois sou todo teu, disse Diogo ao dar-lhe as tão esperadas chaves. Só não te assustes com a minha toca. Venho a casa só mesmo dormir, explicou antes de voar para outro fuso horário durante o fim de semana.
Mafalda preparou a escova de dentes, o creme e foi ver o que lhe esperava na toca. O primeiro problema surgiu logo à entrada. Diogo avisara que a fechadura às vezes emperrava, mas Mafalda subestimou.
Atacou a porta por quarenta minutos: empurrou, puxou, tentou com jeitinho, mas a porta teimava em não se deixar conquistar pela nova habitante.
Mafalda resolveu apelar à pressão psicológica, como nos tempos da escola em Lisboa atrás dos prédios. Ao ruído, abriu-se a porta da vizinha.
O que está a fazer a tentar abrir uma casa que não é sua? perguntou uma voz de senhora preocupada.
Não estou a assaltar, tenho as chaves, respondeu a furiosa Mafalda, limpando o suor da testa.
E você, quem é? Nunca a vi por aqui, insistiu a vizinha.
Sou a namorada dele! declarou Mafalda, braços na cintura, encarando apenas a fresta da porta.
É mesmo? admirou-se a mulher.
Sim, algum problema?
Não, nenhum. Só que ele nunca trouxe cá ninguém. (Mafalda passou a gostar ainda mais do Diogo). Você é a primeira.
Que quer dizer com “tal”? Mafalda não percebeu.
Olhe, deixa lá, não é da minha conta. A vizinha fechou a porta.
Percebendo que só uma podia vencer, Mafalda enfiou o chave e pressionou com toda a força, quase girando a moldura da porta. Por fim, ela abriu-se.
O mundo íntimo de Diogo revelou-se diante dela e seu coração gelou. A austeridade de um jovem solitário transformara o espaço numa verdadeira cela.
Coitado, teu coração já esqueceu, ou talvez nunca soube, o que é conforto, escapou dos lábios de Mafalda, ao olhar o apartamento acanhado onde teria de passar muito tempo.
Por outro lado, contentou-se. A vizinha não mentiu: o toque feminino nunca passou por aquelas paredes, chão, cozinha ou janelas. Mafalda seria a primeira.
Sem conseguir esperar, calçou-se e correu à loja mais próxima comprar um cortinado bonito e tapete para o WC, além de luvas e toalhas para a cozinha.
No supermercado, perdeu-se naquela onda. Ao cortinado e tapete juntaram-se ambientadores, sabonetes artesanais e práticos armazenadores para cosméticos.
“Encher um apartamento alheio destas pequenas coisas não é invasão,” consolou-se Mafalda, empurrando mais um carrinho de compras.
A fechadura não mais resistiu a Mafalda. Na verdade, já nem desempenhava sua função, tal como um guarda-redes sem máscara antes do jogo.
Sabendo o que fizera, até meia-noite tentava, com facas de cozinha, destrancar o velho canhão, e de manhã correu à loja comprar um novo. As facas também seriam substituídas, assim como garfos, colheres, toalhas de mesa, tábuas de corte e descansos para panelas. Logo seguiram-se cortinas e afins.
No domingo, Diogo ligou avisando que iria atrasar-se mais dois dias.
Fico feliz se trouxeres um pouco de aconchego à minha casa, disse sorrindo ao telefone, quando Mafalda revelou ter melhorado a decoração.
Na verdade, o calor já era despejado a camiões e organizado conforme plano técnico e inventário próprio. Anos a acumular dentro de uma mulher solitária agora saíam sem freio.
Antes do regresso de Diogo, só sobrava uma aranha perto da ventilação. Mafalda pensou em expulsá-la, mas ao ver os olhos assustados do bicho diante de tanta mudança, preferiu deixá-la ali como lembrete de respeito pelo que é dos outros.
O lar de Diogo parecia recobrar vida: como se ele já fosse casado há oito anos, depois se desiludisse e, enfim, voltasse a ser feliz, agora à sua maneira.
Mafalda não só tomou conta do apartamento, como deixou claro a todo o prédio que era a nova senhora do pedaço, e qualquer coisa, era só falar com ela. Aliança no dedo ainda não tinha, mas isso era só questão técnica.
Os vizinhos primeiro olhavam de lado, mas logo resignaram-se: “Faça como quiser, não nos incomoda”.
No dia da chegada do Diogo, Mafalda preparou uma verdadeira ceia portuguesa, embalou as suas curvas em roupa chamativa e atrevida, acendeu incensos nos cantos e, escurecendo a nova luz, aguardou.
Diogo atrasou-se. Quando Mafalda começou a sentir o desconforto da roupa, em especial naquela zona que tanto trabalhou nos agachamentos, ouviu alguém a inserir uma chave na porta.
O canhão é novo, empurra com jeito, não está trancado! respondeu Mafalda, envergonhada mas sedutora. Não tinha receio de críticas; o trabalho estava feito. Perdoariam tudo.
E quando a porta abriu, Mafalda recebeu um súbito SMS de Diogo: “Onde estás? Estou em casa. Não mudou nada! Os amigos assustaram-me dizendo que ias encher o espaço de cosméticos.”
Ela só leu muito depois. Por enquanto, cinco desconhecidos entraram no apartamento: dois jovens, dois miúdos e um avô bem idoso, que ao ver Mafalda, logo se aprumou e passou a mão pelos poucos cabelos brancos.
Ora bem, pai, que recepção! Para quê spa, com casa assim tão tudo incluído? brincou o rapaz, levando logo uma repreensão da esposa por estar a comentar.
Mafalda ficou estática, dois copos cheios nas mãos, incapaz de se mover ou gritar.
Num canto, a aranha pareceu rir.
Com licença, quem é você? questionou Mafalda.
Sou o dono da casa. E você veio da clínica fazer penso? Disse que conseguia sozinho, respondeu o avô, olhando para a veste de Mafalda, claramente inspirada em enfermeiras.
Humm sim, senhor António Matos, aqui há sobretudo calor e bem-estar, comentou a jovem esposa, espreitando atrás de Mafalda. Que diferença! Antes vivíamos num sepulcro. E você, qual o nome? Não será velho demais para si o nosso António Matos? Digo, homem prestante, casa própria…
Ma-ma-Mafalda
Veja que sorte, senhor António! Sabe escolher bem quem entra!
O avô, olhos a brilhar, parecia aprovar esta coincidência.
E onde está Diogo? sussurrou Mafalda, secando nervosamente os dois copos.
Eu sou o Diogo! gritou um miúdo de oito anos.
Ainda não é tua vez de ser Diogo, a mãe afastou-o, mandou os filhos e marido ao carro.
D-de-desculpe, creio que me enganei de apartamento, Mafalda começando a entender o que se passou com a fechadura. Isto é na Rua das Flores, número dezoito, apartamento vinte e seis?
Não, aqui é Rua das Acácias, dezoito, esfregava as mãos o avô, pronto para desembalar o inesperado presente.
Pois suspirou Mafalda, enganei-me. Então entrem, acomodem-se, eu faço uma chamada.
Pegou no telefone e correu para a casa de banho, bloqueando a porta e enrolando-se na toalha. Foi aí que leu a mensagem de Diogo.
Diogo, já venho, fiquei retida no supermercado”, respondeu Mafalda.
“Ok, espero por ti. Se puderes traz uma garrafa de tinto,” pediu Diogo por mensagem de voz.
Tinto já tinha a caminho, mas era dela. Pegou no tapete, despregou o cortinado e esperou que os estranhos passassem para a cozinha, antes de sair do WC.
Juntou as coisas à pressa e saiu do apartamento.
Depois explico, disse a Mafalda ao entrar finalmente na casa de Diogo.
Passando por ele quase sem olhar, foi primeiro à casa de banho, pôs o cortinado e estendeu o tapete, depois deitou-se no sofá e dormiu até de manhã, até todo o stress e o tinto se evaporarem.
Ao acordar, viu Diogo sentado à espera de explicação.
Por favor, qual é mesmo a morada?…
Rua dos Pinheiros, dezoito…
*
A vida às vezes leva-nos por caminhos inesperados, onde os erros se tornam oportunidades para rir de nós mesmos e aprender que, no fundo, o sentido de casa não está apenas nas coisas que trazemos, mas nas pessoas e histórias que ali vivemos. E, por vezes, a sorte é sabermos distinguir entre o que é nosso e aquilo que apenas nos serve de lição para nunca mais trocarmos a chave.






