Ao Entrar em Casa, Olívia Parou: Ao Lado dos Seus e dos Sapatos de João, Estavam Uns Altos e Caros Sapatos Femininos – Reconheceu-os Imediatamente, Eram da Irmã Dele. Por Que Ela Estava Ali? João Não Avisou Nada Sobre a Visita da Irmã – Olívia, o teu marido está em viagem outra vez? – Perguntou Paulo, colega de trabalho, cruzando-se com ela a caminho da paragem de autocarro. – Que tal um cafézinho? Podemos conversar e beber o teu cacau preferido, já que nunca há tempo para um “olá”, “adeus”. – Desculpa, Paulo, hoje não posso. O João prometeu chegar cedo a casa, vamos escolher a cozinha nova, ainda estamos a terminar as obras e não temos tudo comprado. De resto, ele já não vai a viagens há imenso tempo… – E chega sempre a horas a casa? – Paulo ironizou, mal disfarçando o tom. – Nem sempre, – sorriu Olívia, abanando a cabeça. – Precisamos tanto de dinheiro agora que o João tem de ficar mais tempo no trabalho. Quando mobiliarmos a casa toda, aí sim, ele chega cedo todos os dias. – Percebo, – disse Paulo, sorrindo antes de lhe desejar um bom fim de tarde e seguir outro caminho. Desta vez, Olívia teve sorte: o autocarro veio rápido, e acabou por apanhar lugar junto à janela, mergulhada nos seus pensamentos. Houve tempos em que ela e Paulo quase casaram, mas acabaram por se separar sem grande explicação – nem se lembrava bem porquê. E foi então que conheceu João, casando-se com ele meio para mostrar a Paulo que não estava sozinha. Paulo chegou a pedir desculpa, prometeu fazê-la feliz, mas Olívia já estava muito envolvida com João, acreditando que nunca tinha amado Paulo realmente. Recentemente, Paulo foi transferido para a filial onde Olívia trabalhava. Ela pensava que era coincidência, mas desconfiava que ele soubera que ela lá estava e quis reaproximar-se. Por mais que lhe fizesse bem saber que ele continuava sozinho e ainda a tratava com carinho, desejava-lhe felicidade e até sentia um ligeiro ciúme da futura esposa dele – Paulo era romântico, sabia cativar. Quanto ao seu próprio casamento, não podia dizer que teve azar com João, apenas que ultimamente ele dedicava quase todo o tempo ao trabalho, preocupado em dar-lhes conforto e estabilidade. Viviam no apartamento da irmã de João, oferecido gentilmente por ela enquanto os filhos cresciam – Oksana nunca soubera o que era precisar de dinheiro, nunca trabalhou, apenas investiu em imóveis pensando nos filhos. João e Olívia fizeram as obras e agora compravam móveis. Muitas vezes, Olívia pensava se não seria melhor alugar um apartamento já mobilado – quantos anos de renda teriam poupado, ou talvez já tivessem investido numa casa própria. Olívia saiu do autocarro, atravessou a rua e sempre com o cheiro forte de chuva no ar, entrou no prédio, subiu ao quarto andar sentindo uma tensão indefinível. Ao chegar ao apartamento, parou junto à porta: ao lado do seu e do sapato de João, uns sapatos altos, caros – reconheceu-os de imediato, eram da irmã dele. Para quê ela ali? João não mencionou visita nenhuma. Quase pronta para anunciar a sua chegada, algo a fez hesitar. Ficou parada, escutando. Ouvia a voz de Oksana: “Viagem não correu bem, mas pensei em dar-te umas férias… com uma condição: vais com a Vera, não com a tua esposa.” Olívia recordou João mencionar esse nome – uma amiga da irmã que Oksana tentava “juntar” com ele. Agora, ouvir aquele nome, deixou Olívia inquieta. João protestava, dizendo já ter dito que está com Olívia, não quer saber da Vera. Olívia suspirou de alívio, parecia mesmo só teimosia de Oksana. Pronta para entrar, ouviu a irmã insistir que Vera era melhor partido, que João nunca esqueceria Vera, e que Olívia não era a tal. Atordoada, Olívia tentava processar: João amou Vera? Quis casar com ela? Dissera-lhe que não tinha interesse por Vera! A conversa continuava: Oksana dizia que João casou com Olívia só para fazer Vera ter ciúmes. Olívia, contra o frio da parede, pensava se também não tinha feito igual ao casar com João só para dar uma lição a Paulo – mas ao contrário de João, ela realmente amava o marido. Tensa, ouviu João dizer que tudo aquilo era passado, agora tinha compromissos com Olívia. Mas Oksana insinuava que Vera tinha agora um apartamento enorme e ainda amava João – e que Olívia e ele iriam acabar expulsos do apartamento emprestado. E Vera sabia de tudo, foi ideia dela, queria que Oksana colaborasse na reconciliação do casal. Quando João perguntou “E o que digo à Olívia?”, Oksana respondeu levianamente: “Diz que vais ajudar-me na quinta, mas vais ao mar com a Vera.” Olívia não aguentou mais. Saiu silenciosamente, foi até uma cafetaria vazia, pediu um cacau com baunilha e ficou a remoer fragmentos da conversa. Como é possível toda esta mentira? Sentia-se traída, ferida, e não conseguia afastar a ideia de que seu casamento era só uma resposta de orgulho, não uma escolha sincera – ao contrário do que ela sempre acreditara. Já noite, Olívia regressou ao apartamento, convencida de que a separação era inevitável. Ao chegar, deparou-se com as malas de João. “Sim, deve estar a preparar-se para ir…” – O que estás a fazer? – perguntou, sabendo a resposta, mas João surpreendeu-a: – Olívia, vamos embora daqui. Já arranjei apartamento. É provisório, depois vamos tratar da hipoteca. – João olhou-a, notando o seu desconcerto. – Porque demoraste tanto? Estive a ligar-te o tempo todo, mas tens o telemóvel desligado. Arranjaste trabalho extra? Olívia mal acreditava. Tudo o que preparara para lhe dizer, perdeu sentido. Ele confirmou: tiveram discussão, decidiu que não queria mais depender da irmã. Sentou-se no sofá com ela e contou tudo sobre a conversa com Oksana. Admitiu tudo: realmente teve um romance com Vera, casou com Olívia para se vingar, mas agora a única pessoa que ama é ela. Olívia ouviu, sentindo alívio misturado com tristeza pela ausência de sinceridade, mas finalmente podiam falar abertamente. – Desculpa, devia ter contado antes, – disse João, – mas quando disseste que quase casaste com Paulo, achei que não valia a pena mexer nesse passado. Ela respirou fundo, lágrimas de alívio. “Tudo bem. O passado é passado. Arrendaste mesmo um apartamento?” – Sim, temporário, mas será o nosso lar. Sem Oksana, sem interferências. Vamos conseguir, prometo. Depois compramos casa. Olívia concordou. Sentia que era o caminho certo – finalmente iam viver para eles, sem pressões de terceiros. – Então, vamos começar a fazer as malas? Olívia acenou, emocionada, acreditando que pela primeira vez iam construir uma vida deles, deixando o passado para trás.

Ao entrar no apartamento, Inês parou logo à entrada. Perto da porta, arrumados com esmero ao lado dos sapatos dela e dos de João, estavam uns sapatos de salto alto caríssimos, imediatamente reconhecíveis eram da irmã dele, Rita. O que estará ela aqui a fazer? Inês puxou pela memória, mas não se recordava que João tivesse dito que a irmã viria visitá-los.

Inês, o teu ainda está em serviço fora? perguntou o colega dela, Paulo, quando ela já se dirigia para a paragem do autocarro. Queres ir ao café? Podemos tomar aquele chocolate quente que gostas e conversar um pouco, andamos sempre numa correria. Olá e adeus.

Desculpa, Paulo, hoje não consigo. O João prometeu que vinha mais cedo e íamos escolher a cozinha nova, ainda estamos a adaptar-nos ao apartamento depois das obras. E olha que ele já não tem saído em trabalho há algum tempo.

E chega sempre a horas a casa? perguntou Paulo, com uma ironia mal disfarçada.

Nem sempre, sorriu Inês, abanando a cabeça, agora precisamos mesmo de poupar euros, por isso o João tem ficado mais tempo no escritório. Quando tivermos o apartamento como queremos, aí já pode chegar cedo todos os dias.

Entendi, sorriu Paulo, despedindo-se e indo pelo seu caminho.

Inês teve sorte desta vez, o autocarro veio depressa. Saiu cedo do escritório, por isso conseguiu apanhar o transporte logo à primeira. Sentada junto à janela, ficou pensativa.

Houve tempos em que ela e Paulo estiveram quase a casar-se, mas acabaram por se separar de forma absurda já nem se lembrava do motivo. O João apareceu logo de seguida, e Inês foi com ele ao registo civil mais por orgulho para que Paulo soubesse que ela não ficou sozinha, e ficasse a pensar no que perdeu.

É certo que Paulo ainda tentou reconciliar-se com ela, pediu desculpa, prometeu fazê-la feliz e ser sempre fiel, mas Inês já estava demasiado envolvida com João. Decidiu que nunca tinha amado Paulo, que era só impressão, um engano.

Com o tempo, deixou de o recordar, mas há pouco ele foi transferido da sede da empresa para a filial onde ela trabalhava.

Ia fingindo surpresa com a coincidência, mas Inês desconfiava que ele pedira a transferência só por saber que ela estava ali. Mesmo assim, agradava-lhe que Paulo continuasse solteiro e ainda a tratasse com o mesmo carinho.

No fundo, queria-lhe bem, e até invejava, com um toque de picardia, a futura esposa dele Paulo tinha jeito para namorar, era um romântico nato.

Com João, não podia dizer que era infeliz, apenas ele trabalhava cada vez mais. Dava tudo pela família, queria que não precisassem de nada, mas para a mulher mal restava tempo.

Viviam, ainda por cima, no apartamento da irmã de João. Rita, generosa, cedeu-lhes o espaço enquanto os filhos dela cresciam.

Rita nunca conheceu dificuldades financeiras, nem trabalhou um único dia; não havia lógica em alugar os imóveis, era apenas um investimento dizia que quando os miúdos crescessem teriam onde morar.

João e Inês fizeram obras à sua maneira, Rita permitiu, e agora estavam na fase dos móveis. Por vezes, Inês pensava se não teriam sido mais felizes num aluguer, talvez num T2 já mobilado.

Afinal, o dinheiro investido teria dado para alguns anos de renda, ou então podiam ter começado com crédito à habitação. Mas João mal entrou nos olhos, quando Rita ofereceu a casa.

Inês saiu do autocarro, atravessou a rua e apressou-se em direção ao prédio. O cheiro de chuva no ar não a animava, hoje não lhe apetecia desfrutar da frescura.

Os pensamentos rodavam na cabeça, mas nenhum ficava por muito tempo; tudo mudava de lugar, como se esperasse algo melhor, mas não sabia bem o quê.

Quanto tempo teriam passado desde que ela e João mudaram para ali? Um ano? Um e meio?

Não se lembrava ao certo, mas sabia que aquela casa ainda lhe parecia provisória, e isso inquietava-a. As obras, a decoração, tudo à espera de uma vida que parecia começar só depois.

Subindo ao prédio, deu por si a andar devagar, quase como se quisesse adiar o momento de entrar. O som da porta de entrada fê-la acordar do devaneio e começou a subir para o quarto andar.

No silêncio das escadas, sentia uma tensão estranha a crescer por dentro.

Entrou no apartamento e parou logo ali: os sapatos de Rita lado a lado com os deles. Não se recordava que João tivesse dito que ela ia lá.

Já ia chamar para dizer que chegara a casa, mas algo a deteve. Um sexto sentido alertou-a para ficar quieta. Ficou imóvel, a ouvir.

Eu e o meu marido queríamos descansar, disse a voz de Rita. Mas ele não conseguiu tirar férias, então pensei em dar-te estas viagens. Só que há uma condição, o tom tornou-se mais exigente, tens de ir com a Vera, não com a tua mulher.

Inês gelou. Com a Vera? Lembrou-se que João mencionara o nome à passagem que Rita sempre tentava empurrá-lo para a amiga.

Na altura, não ligou. Agora, ao ouvir o nome, ficou apreensiva.

Não quero saber da Vera, respondeu João, já incomodado. Rita, já te disse várias vezes que agora sou casado com a Inês. Tenho a Inês! Para quê insistes?

Inês relaxou percebia que era mais uma das tentativas de Rita em meter-se. Quase foi abrir a porta da sala para anunciar que tinha chegado, mas Rita voltou à carga:

A quem é que queres enganar? Eu lembro-me de como tu gostavas da Vera. Até planeaste casar com ela, mas depois ficaste chateado por uma coisa qualquer. Não sejas teimoso a Inês não tem nada a ver contigo. Com a Vera seria diferente.

Inês ficou estática, digerindo o que ouvira. Amava? Ia casar-se? E sempre disse que Vera não lhe interessava Olhava para o chão, tentando controlar-se, mas as palavras de Rita invadiam-lhe a cabeça.

E então? João respondeu, mas havia nervosismo e talvez insegurança na voz. Isso ficou no passado. Sim, aconteceu, não nego, mas já passou. Amo a minha mulher.

Amas? Ora João, Rita não se calava. Só casaste com a Inês para fazer ciúmes à Vera, quando ela foi para outro. Depois quis voltar para ti, pediu-te desculpa; mas tu casaste só para te vingares.

No peito de Inês ficou um aperto. Vingança? Terá João casado só para provar alguma coisa? Sentia-se mal, lembrou-se de como apressara o casamento com João logo depois de se separar de Paulo.

Mesmo que João tivesse agido assim, agora amavam-se a sério, certo? Inês, com o coração contraído, esperou que o marido dissesse algo mais.

Foi, mas passou, ouviu a voz dele. Agora sou casado e tenho responsabilidades.

Que responsabilidades? Rita bufou. Nem filhos têm, graças a Deus. Espero que não te esqueças que a casa não é tua. Com a Inês, andarão sempre por casas emprestadas. A Vera, por sinal, recebeu dos pais um T3 novo, espaçoso… E continua a gostar de ti, espera que mudes de ideias.

Inês encostou-se à parede fria, resistindo à ansiedade interior. Como podia Rita dizer-lhe tal coisa? Ainda mais, queria saber o que João dizia. Ficou imóvel, tentando ouvir a resposta dele.

Rita, não inventes, João disse devagar, já sem aquela certeza antiga. A casa não é tudo; por agora temos onde ficar, depois compramos uma.

Mas Rita continuou:

Tu só te recusas porque tens orgulho ferido. Para ti, Vera sempre foi melhor; e ainda podes corrigir tudo. Com ela terias estabilidade, casa própria, a vida que mereces. Tu sabes que com a Inês nunca serás verdadeiramente feliz.

Aliás, acrescentou Rita. E recorda-te que não posso emprestar-vos a casa para sempre. Já tenho planos para ela, por isso brevemente terão de sair.

E a Vera sabe que estás a fazer isto? perguntou João, surpreendendo.

Claro que sabe! garantiu Rita. Aliás, foi ela quem pediu. Noutra semana, ela e eu combinámos tudo, ela sabe bem que gostas dela. Os bilhetes para a viagem foi ideia dela; pediu-me para fazer este papel.

Fez-se silêncio. E dentro de Inês tudo rodopiava. Porque é que ele não respondia? Estaria mesmo a ponderar?

E como explico à Inês? perguntou João, em voz baixa.

Diz-lhe que vais ajudar-me na quinta! Estamos a renovar e preciso de ajuda respondeu Rita com naturalidade. E vais à praia com a Vera. Simples.

Inês não quis ouvir mais. Saiu, silenciosa, do apartamento e, sem olhar para trás, afastou-se o mais rápido que pôde.

As pernas levaram-na automaticamente até uma pequena pastelaria, quase vazia. Na penumbra, uma música suave tocava, enquanto a noite começava a cair lá fora. Sentou-se junto à janela e pediu pela máquina um chocolate quente com baunilha, quase sem pensar. A cabeça fervilhava pedacinhos da conversa em casa não a largavam.

Repassava mentalmente as palavras de Rita como era possível? Como tinha João escondido tudo? Como pôde nunca contar-lhe que quis casar-se com outra? E logo uma amiga da irmã! Sentia-se traída e, ao mesmo tempo, magoada. Seria o casamento só uma vingança contra a ex? Pensou sempre que João a tinha escolhido pelo coração, mas agora a ideia de outros motivos pesava-lhe.

Por fim, ao contrário do marido, ela própria recusava até ir ao café com Paulo, quanto mais férias na praia! E ela amava João totalmente.

A noite caiu, as luzes eram distorcidas pelas gotas de chuva na janela. Inês não tocou na bebida. O tempo parecia suspenso.

João nem lhe ligou, nem perguntou onde estava. Deve estar a pensar na viagem com a Vera, pensou tristemente, nem se preocupa comigo.

Quando pegou no telemóvel para ver as horas, viu que estava sem bateria.

Suspirou fundo; não podia adiar mais era hora de voltar a casa. Juntou coragem e saiu, o vento frio da noite portuguesa a envolver-lhe o corpo. Ia resoluta, convencendo-se com cada passo que o fim do casamento estava perto. A separação parecia inevitável, e Inês tentava preparar-se para isso.

Chegando ao prédio, o peso no peito era maior. Subiu lentamente, girou a chave e entrou no apartamento. Encontrou silêncio não se ouvia televisão nem ruídos na cozinha. Mas, na sala, viu malas feitas; João estava a arrumar os seus pertences. Pronto, pensou, vai mesmo embora.

O que estás a fazer? perguntou automaticamente, apesar de já imaginar talvez ele dissesse que ia ajudar Rita na quinta. Mas João surpreendeu-a:

Inês, vamos sair daqui. Já encontrei outro apartamento. Por enquanto alugado, mas depois vemos como conseguir crédito. Parou um momento, olhando para ela Porque demoraste tanto? Tentei ligar-te, o telemóvel estava desligado. Andaste a fazer horas extra?

Inês não acreditava no que ouvia. Tudo aquilo que quisera dizer-lhe, todas as palavras que preparara, perderam sentido. Limitou-se a acenar com a cabeça, indecisa sobre como reagir.

Vamos mesmo sair? perguntou suavemente, sem compreender totalmente.

João deve ter sentido a hesitação dela e aproximou-se, explicando:

Discuti com a Rita, suspirou. E decidi, chega. Não aguento depender mais dela. Precisamos de casa nossa.

Inês sentiu um alívio a percorrer-lhe o corpo, mas sabia que não era o fim. Ele hesitou, depois respirou fundo e sentou-se no sofá, fazendo-lhe sinal para se sentar também. Resumiu-lhe rapidamente a conversa com Rita.

Devia ter-te contado antes, admitiu, baixando a voz. De facto, tive um namoro com a Vera. E sim, casei para fazer ciúmes. Mas, Inês, tens de saber: isso ficou lá atrás. És a única pessoa que amo de verdade; não quero perder-te.

Inês ouvia-o em silêncio, o alívio crescendo pouco a pouco. Era doloroso ter sido enganada, mas era importante finalmente conversarem sinceramente.

Perdoa-me por não te contar tudo mais cedo, murmurou João, de cabeça baixa. Quando contaste que quase casaste com Paulo, achei que não faria sentido. E depois nunca quis falar nisso.

Inês suspirou, sentindo as lágrimas a querer saltar. Mas era um choro de libertação.

Está bem, suspirou, já passou. Disseste que arranjaste apartamento?

Sim, respondeu ele, por agora alugado, mas vamos procurar um sítio só nosso, sem Rita, sem interferências. Vamos conseguir, prometo-te. Depois tratamos do crédito e fazemos tudo como deve ser.

Inês acenou. Sabia que era o caminho certo. At last iam viver para eles, sem conselhos nem planos alheios.

Então, João sorriu, vamos preparar tudo?

Inês voltou a acenar, sem conseguir expressar-se. Só lhe restava acreditar que, agora sim, a vida deles seguiria um rumo diferente, deixando para trás tudo o que devia ficar no passado.

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Ao Entrar em Casa, Olívia Parou: Ao Lado dos Seus e dos Sapatos de João, Estavam Uns Altos e Caros Sapatos Femininos – Reconheceu-os Imediatamente, Eram da Irmã Dele. Por Que Ela Estava Ali? João Não Avisou Nada Sobre a Visita da Irmã – Olívia, o teu marido está em viagem outra vez? – Perguntou Paulo, colega de trabalho, cruzando-se com ela a caminho da paragem de autocarro. – Que tal um cafézinho? Podemos conversar e beber o teu cacau preferido, já que nunca há tempo para um “olá”, “adeus”. – Desculpa, Paulo, hoje não posso. O João prometeu chegar cedo a casa, vamos escolher a cozinha nova, ainda estamos a terminar as obras e não temos tudo comprado. De resto, ele já não vai a viagens há imenso tempo… – E chega sempre a horas a casa? – Paulo ironizou, mal disfarçando o tom. – Nem sempre, – sorriu Olívia, abanando a cabeça. – Precisamos tanto de dinheiro agora que o João tem de ficar mais tempo no trabalho. Quando mobiliarmos a casa toda, aí sim, ele chega cedo todos os dias. – Percebo, – disse Paulo, sorrindo antes de lhe desejar um bom fim de tarde e seguir outro caminho. Desta vez, Olívia teve sorte: o autocarro veio rápido, e acabou por apanhar lugar junto à janela, mergulhada nos seus pensamentos. Houve tempos em que ela e Paulo quase casaram, mas acabaram por se separar sem grande explicação – nem se lembrava bem porquê. E foi então que conheceu João, casando-se com ele meio para mostrar a Paulo que não estava sozinha. Paulo chegou a pedir desculpa, prometeu fazê-la feliz, mas Olívia já estava muito envolvida com João, acreditando que nunca tinha amado Paulo realmente. Recentemente, Paulo foi transferido para a filial onde Olívia trabalhava. Ela pensava que era coincidência, mas desconfiava que ele soubera que ela lá estava e quis reaproximar-se. Por mais que lhe fizesse bem saber que ele continuava sozinho e ainda a tratava com carinho, desejava-lhe felicidade e até sentia um ligeiro ciúme da futura esposa dele – Paulo era romântico, sabia cativar. Quanto ao seu próprio casamento, não podia dizer que teve azar com João, apenas que ultimamente ele dedicava quase todo o tempo ao trabalho, preocupado em dar-lhes conforto e estabilidade. Viviam no apartamento da irmã de João, oferecido gentilmente por ela enquanto os filhos cresciam – Oksana nunca soubera o que era precisar de dinheiro, nunca trabalhou, apenas investiu em imóveis pensando nos filhos. João e Olívia fizeram as obras e agora compravam móveis. Muitas vezes, Olívia pensava se não seria melhor alugar um apartamento já mobilado – quantos anos de renda teriam poupado, ou talvez já tivessem investido numa casa própria. Olívia saiu do autocarro, atravessou a rua e sempre com o cheiro forte de chuva no ar, entrou no prédio, subiu ao quarto andar sentindo uma tensão indefinível. Ao chegar ao apartamento, parou junto à porta: ao lado do seu e do sapato de João, uns sapatos altos, caros – reconheceu-os de imediato, eram da irmã dele. Para quê ela ali? João não mencionou visita nenhuma. Quase pronta para anunciar a sua chegada, algo a fez hesitar. Ficou parada, escutando. Ouvia a voz de Oksana: “Viagem não correu bem, mas pensei em dar-te umas férias… com uma condição: vais com a Vera, não com a tua esposa.” Olívia recordou João mencionar esse nome – uma amiga da irmã que Oksana tentava “juntar” com ele. Agora, ouvir aquele nome, deixou Olívia inquieta. João protestava, dizendo já ter dito que está com Olívia, não quer saber da Vera. Olívia suspirou de alívio, parecia mesmo só teimosia de Oksana. Pronta para entrar, ouviu a irmã insistir que Vera era melhor partido, que João nunca esqueceria Vera, e que Olívia não era a tal. Atordoada, Olívia tentava processar: João amou Vera? Quis casar com ela? Dissera-lhe que não tinha interesse por Vera! A conversa continuava: Oksana dizia que João casou com Olívia só para fazer Vera ter ciúmes. Olívia, contra o frio da parede, pensava se também não tinha feito igual ao casar com João só para dar uma lição a Paulo – mas ao contrário de João, ela realmente amava o marido. Tensa, ouviu João dizer que tudo aquilo era passado, agora tinha compromissos com Olívia. Mas Oksana insinuava que Vera tinha agora um apartamento enorme e ainda amava João – e que Olívia e ele iriam acabar expulsos do apartamento emprestado. E Vera sabia de tudo, foi ideia dela, queria que Oksana colaborasse na reconciliação do casal. Quando João perguntou “E o que digo à Olívia?”, Oksana respondeu levianamente: “Diz que vais ajudar-me na quinta, mas vais ao mar com a Vera.” Olívia não aguentou mais. Saiu silenciosamente, foi até uma cafetaria vazia, pediu um cacau com baunilha e ficou a remoer fragmentos da conversa. Como é possível toda esta mentira? Sentia-se traída, ferida, e não conseguia afastar a ideia de que seu casamento era só uma resposta de orgulho, não uma escolha sincera – ao contrário do que ela sempre acreditara. Já noite, Olívia regressou ao apartamento, convencida de que a separação era inevitável. Ao chegar, deparou-se com as malas de João. “Sim, deve estar a preparar-se para ir…” – O que estás a fazer? – perguntou, sabendo a resposta, mas João surpreendeu-a: – Olívia, vamos embora daqui. Já arranjei apartamento. É provisório, depois vamos tratar da hipoteca. – João olhou-a, notando o seu desconcerto. – Porque demoraste tanto? Estive a ligar-te o tempo todo, mas tens o telemóvel desligado. Arranjaste trabalho extra? Olívia mal acreditava. Tudo o que preparara para lhe dizer, perdeu sentido. Ele confirmou: tiveram discussão, decidiu que não queria mais depender da irmã. Sentou-se no sofá com ela e contou tudo sobre a conversa com Oksana. Admitiu tudo: realmente teve um romance com Vera, casou com Olívia para se vingar, mas agora a única pessoa que ama é ela. Olívia ouviu, sentindo alívio misturado com tristeza pela ausência de sinceridade, mas finalmente podiam falar abertamente. – Desculpa, devia ter contado antes, – disse João, – mas quando disseste que quase casaste com Paulo, achei que não valia a pena mexer nesse passado. Ela respirou fundo, lágrimas de alívio. “Tudo bem. O passado é passado. Arrendaste mesmo um apartamento?” – Sim, temporário, mas será o nosso lar. Sem Oksana, sem interferências. Vamos conseguir, prometo. Depois compramos casa. Olívia concordou. Sentia que era o caminho certo – finalmente iam viver para eles, sem pressões de terceiros. – Então, vamos começar a fazer as malas? Olívia acenou, emocionada, acreditando que pela primeira vez iam construir uma vida deles, deixando o passado para trás.
Castigo Divino: o meu marido abandonou-me a mim e aos nossos filhos sem dinheiro para sobreviver, e um ano depois sofreu um acidente.