EU NÃO PRECISO DE UMA FILHA PARALISADA… – disse a nora antes de partir… Mal ela imaginava o que estava prestes a acontecer… Numa aldeia portuguesa vivia o senhor António, um velhote boa praça que aos fins-de-semana gostava de beber um copinho de branco. O seu maior sonho era ter um cão, mas não qualquer cão — queria um puro Alentejano, daqueles robustos da planície. Para isso, estava até disposto a ir à Serra de Serpa, só para lá comprar o cão e trazê-lo para casa. Chamavam-lhe “Antóniço”, uns pelo nome, outros pelo apelido, mas ninguém sabia ao certo. O Sr. Antóniço, sempre sentado ao fim do dia no banco junto à horta, recordava outros tempos e atraía a juventude para ouvir histórias de antigamente na aldeia. A esposa, Dona Cláudia, já tinha partido há anos. O coração dela era fraco, os médicos proibiram-na de ter filhos, mas o desejo era tanto, que deu à luz o filho do Sr. António e ficou ainda mais doente. Ele fazia tudo por ela, não a deixava carregar nem um litro de leite do minimercado. “Não podes! Os médicos proibiram!” dizia ele. O Sr. António cuidava do filho, cozinhava, fazia tudo em casa. Dona Cláudia lamentava-se: — Até me envergonha! As vizinhas vão gozar… não faço nada, tudo o homem faz! Mas as vizinhas não gozavam, invejavam: — Ó Cláudinha, empresta-nos o teu Antóniço um dia, só para viver como tu! Ela sorria em resposta. E assim, com sorriso no rosto, partiu. António encontrou-a fria de manhã. Chorou como uma criança durante três dias e depois ocupou-se do filho. O rapaz tinha 14 anos e era rebelde. Casou cedo, ficou a viver em Lisboa, onde serviu o exército. E assim, Antóniço ficou só. Mas não desanimava: gostava de conversar com os jovens da aldeia no seu banco. O filho teve uma filha, e o avô esperava sempre a visita, mas a família nunca vinha: trabalho, falta de tempo, sempre uma desculpa. Só via a neta em fotografias. Logo a aldeia notou que o Sr. António andava mais cabisbaixo, não sorria, não fazia piadas nem sentava no banco. Foram perguntar e souberam: chegara um telegrama da nora, dizendo que tiveram um acidente de carro. A neta estava em estado grave no hospital, o filho morreu. Toda a aldeia teve pena do velho, mas que palavras podem ajudar num desgosto tão grande? Aceitava as condolências, mas não aliviava o seu sofrimento. Doía-lhe o filho que não voltaria, mas doía mais ainda a neta: jovem, de 15 anos, em coma no hospital. Não tinha notícias da nora, que não escrevia, não atendia o telefone. Como saber da neta? Apesar de nunca a ter visto, amava-a tanto ou mais. Pelas fotos, era parecida com a Cláudia em juventude. O Sr. António decidiu ir a Lisboa, mas na véspera, uma carrinha parou à porta. Entrou uma senhora sem cerimónias e trazia a neta numa maca. Deixaram a menina no sofá e foram-se embora. — Ela está paralisada da cabeça aos pés. Não quero uma filha assim. Ainda vou arranjar marido e ter um filho saudável! — disse a nora. — Mas eu não sou médico! — protestou António. — Médico não faz falta. Não podem ajudar. Ela precisa de uma cuidadora. Se não quiser ficar com ela, enterre-a viva, mas eu não vou acabar com a minha vida. Não sou cuidadora dela! — disse a mulher, batendo com a porta. — Nem mãe és, parece! — gritou António a caminho da porta. Ficava claro por que o filho nunca trouxe a família à aldeia. Com uma esposa destas, só para ir discutir no mercado, não visitar família… Como foi cair numa mulher assim? Mas agora já não podia perguntar. Se soubesse que ela ia abandonar a filha, revirava-se na cova. Ficaram então ele e a neta. A menina estava totalmente paralisada, mas António já estava habituado a cuidar de tudo. Agora tinha sentido para viver: a missão era curá-la. Os médicos desistiram, deram-lhe alta. Nem entendiam como ela sobreviveu ao acidente. Restavam os remédios caseiros, as mezinheiras. Não havia nenhuma na aldeia; a mais próxima, longe. Não podia levar a menina paralisada, nem a mezinheira vinha a casa por estar velha. Não se sabia o que fazer… António ia quase todas as semanas à mezinheira, que lhe dava ervas e misturas. Assim tratava a neta. Passou mais de um ano, sem mexer mãos ou pés, imóvel como um pedaço de lenha debaixo do cobertor. Mal conseguia falar, só murmurava sons confusos. O avô notava, às vezes, uma lágrima a cair-lhe pela face. O coração dele dilacerava-se. Imaginava que a neta chorava de saudades da mãe e do pai. Conversava muito com ela, lia histórias, mas não recebia resposta. Era duro para ambos. Até que uma noite aconteceu o improvável. Enquanto o avô estava ao pé da cama, um bando de jovens bêbados entrou pela porta aberta, voltando da festa na adega. Sabiam que vivia uma rapariga paralisada ali. Propuseram entrar para “se divertir”, já que, segundo eles, ela “não ia resistir”… — Ó avô, tira o cobertor da neta e abre-lhe as pernas! Vamos lançar sorte para ver quem começa… — disse o mais bêbado. — Tenham piedade! Ela só tem 15 anos! — protestou o velho. — Espera que vou lavar os dentes! — respondeu António, correndo para a cozinha e abrindo a porta da adega: “Vai!” De lá saiu um enorme Alentejano Mastim, arrancando calças dos vândalos! Ao chefe, quase arrancou as partes baixas. Rasgou-lhes as calças até ficarem de rabo ao léu. Saíram a correr pela aldeia, as pessoas a rir, e o cão atrás até à saída do povoado. António voltou ao quarto e a neta estava sentada, aos gritos pela janela: — Muxtar! Muxtar! Avô, agarra-o, não o deixes fugir! O avô chorou de emoção. Daí para a frente, a menina começou a recuperar. Em pouco tempo voltou a andar. Se foi por causa das ervas ou do susto com o cão, não se sabe — mas não parava de falar, queria compensar o tempo em silêncio. E de onde apareceu o cão? Ora, fácil: Muxtar, o Alentejano, era do filho de António, mas quando se deu a tragédia, a nora despachou tanto a filha como o animal. Trouxe o cão junto com a menina, mas nada disse ao velho. Quando saiu, António foi fechar o portão e encontrou o cão lá sentado: magro, sofrido, olhos tristes como vaca doente, a chorar de verdade. O avô nunca soube que o filho tinha um cão, mas não o ia deixar na rua — levou-o para casa. O cão foi fiel ao velho, e naquele dia só estava na adega porque aquele verão estava quente, e o avô deixava-o lá para não sofrer. Só libertava o cão ao entardecer, mas àquela hora ainda estava preso. Se estivesse solto, ninguém teria entrado. A neta revelou que chorava de saudades do cão, não da mãe. O avô deixava o animal no quintal, não o levava para dentro. Ela sentia a falta, mas não podia contar. Muxtar, depois de expulsar os bêbados, lambeu a cara da pequena dona, feliz por tê-la de volta. Vivem assim agora: António, a neta e Muxtar. Da mãe, nunca mais tiveram notícias.

NÃO QUERO UMA FILHA PARALISADA… disse a nora, e saiu, batendo a porta. Ela nem imaginava o que viria a seguir…

Num recanto estranho de Trás-os-Montes, vivia um velho comum. Pelos fins de semana, o senhor gostava de beber um pouco de água ardente. Sonhava em ter um cão mas não qualquer cão! Ele queria, acima de tudo, um cão de raça, um verdadeiro Cão da Serra da Estrela, daqueles que até criam lendas por ali. Não se importava de ir até à serra mais remota, só para buscar o animal e tê-lo consigo na velha casa.

Chamavam-lhe Tio Manuel Vicente. Se era primeiro nome, se era apelido, ninguém sabia ao certo. Tio Manuel ou Vicentinho, assim todos se lhe dirigiam, e ele nunca corrigia. Depois de trabalhar no quintal, sentava-se no banco à porta e deixava correr as lembranças dos tempos passados. A juventude do povoado reunia-se ao pé dele para ouvir como era a aldeia noutros dias.

A mulher de Manuel Vicente, Dona Celeste, já partira havia muito. O coração dela sempre fora fraco. Os médicos, com cara carregada, proibiram-na de ter filhos, mas ela sonhava com um bebé. Nasceu-lhe um filho a Manuel, e Celeste ficou logo muito doente. Manuel gostava dela com aquela devoção antiga. Fazia tudo pela casa, não a deixava nem ir buscar pão ao forno comunitário.
Não pode, Celeste! Os médicos não deixam! dizia, com severidade meiga.
Cozinhava, cuidava do menino, lavava a roupa. Celeste lamentava-se:
Valha-me Deus, Manuel! Ainda vão dizer que me põe envergonhada! As outras lavam, cozinham… E eu deixo tudo para ti!
Mas essas mulheres, em vez de rir, apenas invejavam:
Ó Celeste, mandavas cá o teu Manuel só um dia! Que maravilha viver assim!
Ela sorria, e assim com um sorriso ficou para sempre. Manuel encontrou-a fria numa manhã de nevoeiro, e chorou como uma criança três dias e três noites. Depois ocupou-se do filho.

O rapaz cresceu, passou pela tropa, e casou-se cedo na cidade onde serviu. Assim Manuel ficou só. Mas o velho não desanimava gostava de conversar com a malta jovem à porta, como quem esquece o tempo.

O filho teve uma filha a neta de Manuel. Ele aguardava ansioso a visita do novo ramo da família, mas nunca os via chegar. Ora era trabalho, ora falta de tempo, ora outra coisa qualquer. Só conhecia a neta pelas fotografias.

Um dia o povoado estranhou o modo sombrio de Manuel Vicente. Passeava como uma nuvem carregada, não sorria, não fazia piada, não tomava o seu banco favorito. Começaram a perguntar o que tinha sucedido. Descobriram então o que se passava: o velho recebera um telegrama a nora anunciava que a família sofrera um acidente de carro, o filho de Manuel morrera e a neta estava hospitalizada, em estado crítico.
Que desgraça, que destino infeliz! lamentavam todos na aldeia, mas que palavras podem consolar um velho num sofrimento assim?

Recebia condolências, mas não melhorava. O luto pelo filho era grande, mas maior ainda a dor pela neta. Uma adolescente, 15 anos, jovem, com tanta vida por viver, mas aflita num leito de hospital. E a nora desaparecera sem deixar notícia. Não escrevia, não atendia o telefone. Como saber da neta? Manuel nunca a vira de verdade, mas amava-a só de olhar para aquelas fotografias, onde parecia a Celeste em jovem.

Já planeava ir à cidade buscar notícias, quando, na véspera, uma carrinha parou à porta. Dois homens entraram em casa, carregando uma maca. Logo atrás entrou uma mulher, figura dura e apressada, a nora de Manuel. Depositaram a maca no sofá e, sem delicadeza, puseram ali a neta.

Está paralisada, da cabeça aos pés. Não preciso de filha assim! Ainda sou nova, hei de casar e ter filhos saudáveis! anunciou a mulher.
Mas eu não sou médico! tentou o velho.
Não precisa ser médico. Já disseram que não há remédio para ela. Só pode ficar deitada, como um fardo. Não quer cuidar dela? Que a enterre viva, aqui não fico para sacrificar minha vida. Não sou criada! disse a mulher, e saiu, batendo a porta.

Não parece ser mãe, de certeza! gritou Manuel.

Assim percebiam, então, por que o filho nunca viera à aldeia com a família. Com mulher dessas, só para criar caso no mercado, e não visitar parentes. Como se meteu o rapaz naquela armadilha? Agora já não lhe podia perguntar. Se soubera que a mulher abandonaria a filha, Manuel teria virado na campa do desgosto. E assim ficaram avô e neta juntos.

A menina, realmente imóvel, era um fardo feito pessoa, mas Manuel Vicente não era homem de recuar diante de trabalho e desventura. Naquele instante, achou novamente sentido para a vida curar a neta. Os médicos da cidade desistiram dela, mandaram-na para casa. Só lhe restava recorrer às mezinheiras e às ervas do povo. A mais famosa dessas curandeiras morava longe. Não podia levar uma criança imóvel. Todos os sábados, o velho pedalava até lá, voltando com chás, tisanas, ungentos. Assim tratava a neta.

Passou mais de um ano e a menina continuava igual: não mexia braço nem perna, estava calada como um tronco sob o cobertor. Só vez em quando murmurava sons indistintos. E, sob o olhar atento do avô, escorria uma lágrima pela sua bochecha. Nesses momentos, o coração do velho rachava. Achava que ela saudosa da mãe e do pai. O avô lia histórias, conversava horas, mas nunca veio resposta. Era duro para ambos.

Numa noite, o inesperado aconteceu. Enquanto Manuel Vicente velava ao lado da neta, uma horda de jovens bêbados irrompeu pela porta, que o velho esquecia aberta. Voltavam da festa no salão de baile, viram luz na janela. Sabiam que ali estava uma rapariga imobilizada. Alguém propôs entrar só por troça “Com paralisia, deve agradecer qualquer coisa. E se tentar resistir, nem pode!” empurraram a porta que cedeu sem defesa.

Ó velho, descobre a menina e abre-lhe as pernas bem abertas! Vamos tirar à sorte quem começa primeiro… berrava o mais embriagado.
Por piedade! Ela só tem quinze anos! desesperava Manuel.
Esperem só que vá escovar os dentes, já volto! disse o velho, correndo para a cozinha. Abriu apressado a porta da adega e gritou:
Ataca!

Dali saltou um imenso Cão da Serra, chamado Gualdim, que ninguém imaginava existir ali. Entre dentes e patas, apanhou canalhas pelas calças, quase arrancando “partes” do líder da turba. Aos outros rasgou as calças pelo traseiro. Fugiram em desespero pelas ruas da aldeia, de rabo ao léu, rindo a vizinhança; Gualdim saltou pela janela atrás deles, perseguindo até à entrada do povoado.

Manuel voltou ao quarto, e, de repente, a neta estava sentada, gritando para o cão pela janela:
Gualdim! Gualdim! Agarra-o, avô, não o deixes fugir!…

O velho deixou cair as lágrimas. Desde então, pouco a pouco, a neta recuperou. Primeiro falou, depois caminhou. Talvez os chás da curandeira, talvez o susto, ou apenas a alegria de ver o cão, mas começou a conversar sem parar, recuperando o tempo perdido sem voz. E perguntam de onde veio o cão? Pois é fácil: Gualdim era o cão do filho de Manuel. Na tragédia, a mulher dispensou não só a filha, mas também o animal. Trouxe-o com a menina, mas nada disse ao avô. Quando partiu, o velho foi fechar o portão, e ali estava o cão: magro, sofrido, com olhos mais tristes que os de uma vaca doente. Chorava lágrimas verdadeiras. Manuel nunca soubera desse cão; mas não podia rejeitar o bicho do filho.

O cão serviu fielmente, mas estando o verão tórrido, Manuel guardava Gualdim na adega fria durante o dia, soltando-o quando o calor abrandava. Naquela noite, o cão estava fechado ainda, e só por isso os vândalos entraram. Se Gualdim estivesse solto, nunca teriam passado pela porta.

Mais tarde, a neta contou ao avô: quando chorava, era de saudades do cão. O avô guardava o bicho no quintal, nunca na casa, e ela não conseguia dizer quanto o desejava junto de si.

Gualdim, ao regressar, lambeu o rosto da pequena dona, tão emocionado quanto ela. E assim passaram a viver juntos Manuel Vicente, a neta, e Gualdim. Da mãe da menina, nunca mais houve notícia.

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EU NÃO PRECISO DE UMA FILHA PARALISADA… – disse a nora antes de partir… Mal ela imaginava o que estava prestes a acontecer… Numa aldeia portuguesa vivia o senhor António, um velhote boa praça que aos fins-de-semana gostava de beber um copinho de branco. O seu maior sonho era ter um cão, mas não qualquer cão — queria um puro Alentejano, daqueles robustos da planície. Para isso, estava até disposto a ir à Serra de Serpa, só para lá comprar o cão e trazê-lo para casa. Chamavam-lhe “Antóniço”, uns pelo nome, outros pelo apelido, mas ninguém sabia ao certo. O Sr. Antóniço, sempre sentado ao fim do dia no banco junto à horta, recordava outros tempos e atraía a juventude para ouvir histórias de antigamente na aldeia. A esposa, Dona Cláudia, já tinha partido há anos. O coração dela era fraco, os médicos proibiram-na de ter filhos, mas o desejo era tanto, que deu à luz o filho do Sr. António e ficou ainda mais doente. Ele fazia tudo por ela, não a deixava carregar nem um litro de leite do minimercado. “Não podes! Os médicos proibiram!” dizia ele. O Sr. António cuidava do filho, cozinhava, fazia tudo em casa. Dona Cláudia lamentava-se: — Até me envergonha! As vizinhas vão gozar… não faço nada, tudo o homem faz! Mas as vizinhas não gozavam, invejavam: — Ó Cláudinha, empresta-nos o teu Antóniço um dia, só para viver como tu! Ela sorria em resposta. E assim, com sorriso no rosto, partiu. António encontrou-a fria de manhã. Chorou como uma criança durante três dias e depois ocupou-se do filho. O rapaz tinha 14 anos e era rebelde. Casou cedo, ficou a viver em Lisboa, onde serviu o exército. E assim, Antóniço ficou só. Mas não desanimava: gostava de conversar com os jovens da aldeia no seu banco. O filho teve uma filha, e o avô esperava sempre a visita, mas a família nunca vinha: trabalho, falta de tempo, sempre uma desculpa. Só via a neta em fotografias. Logo a aldeia notou que o Sr. António andava mais cabisbaixo, não sorria, não fazia piadas nem sentava no banco. Foram perguntar e souberam: chegara um telegrama da nora, dizendo que tiveram um acidente de carro. A neta estava em estado grave no hospital, o filho morreu. Toda a aldeia teve pena do velho, mas que palavras podem ajudar num desgosto tão grande? Aceitava as condolências, mas não aliviava o seu sofrimento. Doía-lhe o filho que não voltaria, mas doía mais ainda a neta: jovem, de 15 anos, em coma no hospital. Não tinha notícias da nora, que não escrevia, não atendia o telefone. Como saber da neta? Apesar de nunca a ter visto, amava-a tanto ou mais. Pelas fotos, era parecida com a Cláudia em juventude. O Sr. António decidiu ir a Lisboa, mas na véspera, uma carrinha parou à porta. Entrou uma senhora sem cerimónias e trazia a neta numa maca. Deixaram a menina no sofá e foram-se embora. — Ela está paralisada da cabeça aos pés. Não quero uma filha assim. Ainda vou arranjar marido e ter um filho saudável! — disse a nora. — Mas eu não sou médico! — protestou António. — Médico não faz falta. Não podem ajudar. Ela precisa de uma cuidadora. Se não quiser ficar com ela, enterre-a viva, mas eu não vou acabar com a minha vida. Não sou cuidadora dela! — disse a mulher, batendo com a porta. — Nem mãe és, parece! — gritou António a caminho da porta. Ficava claro por que o filho nunca trouxe a família à aldeia. Com uma esposa destas, só para ir discutir no mercado, não visitar família… Como foi cair numa mulher assim? Mas agora já não podia perguntar. Se soubesse que ela ia abandonar a filha, revirava-se na cova. Ficaram então ele e a neta. A menina estava totalmente paralisada, mas António já estava habituado a cuidar de tudo. Agora tinha sentido para viver: a missão era curá-la. Os médicos desistiram, deram-lhe alta. Nem entendiam como ela sobreviveu ao acidente. Restavam os remédios caseiros, as mezinheiras. Não havia nenhuma na aldeia; a mais próxima, longe. Não podia levar a menina paralisada, nem a mezinheira vinha a casa por estar velha. Não se sabia o que fazer… António ia quase todas as semanas à mezinheira, que lhe dava ervas e misturas. Assim tratava a neta. Passou mais de um ano, sem mexer mãos ou pés, imóvel como um pedaço de lenha debaixo do cobertor. Mal conseguia falar, só murmurava sons confusos. O avô notava, às vezes, uma lágrima a cair-lhe pela face. O coração dele dilacerava-se. Imaginava que a neta chorava de saudades da mãe e do pai. Conversava muito com ela, lia histórias, mas não recebia resposta. Era duro para ambos. Até que uma noite aconteceu o improvável. Enquanto o avô estava ao pé da cama, um bando de jovens bêbados entrou pela porta aberta, voltando da festa na adega. Sabiam que vivia uma rapariga paralisada ali. Propuseram entrar para “se divertir”, já que, segundo eles, ela “não ia resistir”… — Ó avô, tira o cobertor da neta e abre-lhe as pernas! Vamos lançar sorte para ver quem começa… — disse o mais bêbado. — Tenham piedade! Ela só tem 15 anos! — protestou o velho. — Espera que vou lavar os dentes! — respondeu António, correndo para a cozinha e abrindo a porta da adega: “Vai!” De lá saiu um enorme Alentejano Mastim, arrancando calças dos vândalos! Ao chefe, quase arrancou as partes baixas. Rasgou-lhes as calças até ficarem de rabo ao léu. Saíram a correr pela aldeia, as pessoas a rir, e o cão atrás até à saída do povoado. António voltou ao quarto e a neta estava sentada, aos gritos pela janela: — Muxtar! Muxtar! Avô, agarra-o, não o deixes fugir! O avô chorou de emoção. Daí para a frente, a menina começou a recuperar. Em pouco tempo voltou a andar. Se foi por causa das ervas ou do susto com o cão, não se sabe — mas não parava de falar, queria compensar o tempo em silêncio. E de onde apareceu o cão? Ora, fácil: Muxtar, o Alentejano, era do filho de António, mas quando se deu a tragédia, a nora despachou tanto a filha como o animal. Trouxe o cão junto com a menina, mas nada disse ao velho. Quando saiu, António foi fechar o portão e encontrou o cão lá sentado: magro, sofrido, olhos tristes como vaca doente, a chorar de verdade. O avô nunca soube que o filho tinha um cão, mas não o ia deixar na rua — levou-o para casa. O cão foi fiel ao velho, e naquele dia só estava na adega porque aquele verão estava quente, e o avô deixava-o lá para não sofrer. Só libertava o cão ao entardecer, mas àquela hora ainda estava preso. Se estivesse solto, ninguém teria entrado. A neta revelou que chorava de saudades do cão, não da mãe. O avô deixava o animal no quintal, não o levava para dentro. Ela sentia a falta, mas não podia contar. Muxtar, depois de expulsar os bêbados, lambeu a cara da pequena dona, feliz por tê-la de volta. Vivem assim agora: António, a neta e Muxtar. Da mãe, nunca mais tiveram notícias.
Ти си съпруга, ти имаш задължения