NÃO QUERO UMA FILHA PARALISADA… disse a nora, e saiu, batendo a porta. Ela nem imaginava o que viria a seguir…
Num recanto estranho de Trás-os-Montes, vivia um velho comum. Pelos fins de semana, o senhor gostava de beber um pouco de água ardente. Sonhava em ter um cão mas não qualquer cão! Ele queria, acima de tudo, um cão de raça, um verdadeiro Cão da Serra da Estrela, daqueles que até criam lendas por ali. Não se importava de ir até à serra mais remota, só para buscar o animal e tê-lo consigo na velha casa.
Chamavam-lhe Tio Manuel Vicente. Se era primeiro nome, se era apelido, ninguém sabia ao certo. Tio Manuel ou Vicentinho, assim todos se lhe dirigiam, e ele nunca corrigia. Depois de trabalhar no quintal, sentava-se no banco à porta e deixava correr as lembranças dos tempos passados. A juventude do povoado reunia-se ao pé dele para ouvir como era a aldeia noutros dias.
A mulher de Manuel Vicente, Dona Celeste, já partira havia muito. O coração dela sempre fora fraco. Os médicos, com cara carregada, proibiram-na de ter filhos, mas ela sonhava com um bebé. Nasceu-lhe um filho a Manuel, e Celeste ficou logo muito doente. Manuel gostava dela com aquela devoção antiga. Fazia tudo pela casa, não a deixava nem ir buscar pão ao forno comunitário.
Não pode, Celeste! Os médicos não deixam! dizia, com severidade meiga.
Cozinhava, cuidava do menino, lavava a roupa. Celeste lamentava-se:
Valha-me Deus, Manuel! Ainda vão dizer que me põe envergonhada! As outras lavam, cozinham… E eu deixo tudo para ti!
Mas essas mulheres, em vez de rir, apenas invejavam:
Ó Celeste, mandavas cá o teu Manuel só um dia! Que maravilha viver assim!
Ela sorria, e assim com um sorriso ficou para sempre. Manuel encontrou-a fria numa manhã de nevoeiro, e chorou como uma criança três dias e três noites. Depois ocupou-se do filho.
O rapaz cresceu, passou pela tropa, e casou-se cedo na cidade onde serviu. Assim Manuel ficou só. Mas o velho não desanimava gostava de conversar com a malta jovem à porta, como quem esquece o tempo.
O filho teve uma filha a neta de Manuel. Ele aguardava ansioso a visita do novo ramo da família, mas nunca os via chegar. Ora era trabalho, ora falta de tempo, ora outra coisa qualquer. Só conhecia a neta pelas fotografias.
Um dia o povoado estranhou o modo sombrio de Manuel Vicente. Passeava como uma nuvem carregada, não sorria, não fazia piada, não tomava o seu banco favorito. Começaram a perguntar o que tinha sucedido. Descobriram então o que se passava: o velho recebera um telegrama a nora anunciava que a família sofrera um acidente de carro, o filho de Manuel morrera e a neta estava hospitalizada, em estado crítico.
Que desgraça, que destino infeliz! lamentavam todos na aldeia, mas que palavras podem consolar um velho num sofrimento assim?
Recebia condolências, mas não melhorava. O luto pelo filho era grande, mas maior ainda a dor pela neta. Uma adolescente, 15 anos, jovem, com tanta vida por viver, mas aflita num leito de hospital. E a nora desaparecera sem deixar notícia. Não escrevia, não atendia o telefone. Como saber da neta? Manuel nunca a vira de verdade, mas amava-a só de olhar para aquelas fotografias, onde parecia a Celeste em jovem.
Já planeava ir à cidade buscar notícias, quando, na véspera, uma carrinha parou à porta. Dois homens entraram em casa, carregando uma maca. Logo atrás entrou uma mulher, figura dura e apressada, a nora de Manuel. Depositaram a maca no sofá e, sem delicadeza, puseram ali a neta.
Está paralisada, da cabeça aos pés. Não preciso de filha assim! Ainda sou nova, hei de casar e ter filhos saudáveis! anunciou a mulher.
Mas eu não sou médico! tentou o velho.
Não precisa ser médico. Já disseram que não há remédio para ela. Só pode ficar deitada, como um fardo. Não quer cuidar dela? Que a enterre viva, aqui não fico para sacrificar minha vida. Não sou criada! disse a mulher, e saiu, batendo a porta.
Não parece ser mãe, de certeza! gritou Manuel.
Assim percebiam, então, por que o filho nunca viera à aldeia com a família. Com mulher dessas, só para criar caso no mercado, e não visitar parentes. Como se meteu o rapaz naquela armadilha? Agora já não lhe podia perguntar. Se soubera que a mulher abandonaria a filha, Manuel teria virado na campa do desgosto. E assim ficaram avô e neta juntos.
A menina, realmente imóvel, era um fardo feito pessoa, mas Manuel Vicente não era homem de recuar diante de trabalho e desventura. Naquele instante, achou novamente sentido para a vida curar a neta. Os médicos da cidade desistiram dela, mandaram-na para casa. Só lhe restava recorrer às mezinheiras e às ervas do povo. A mais famosa dessas curandeiras morava longe. Não podia levar uma criança imóvel. Todos os sábados, o velho pedalava até lá, voltando com chás, tisanas, ungentos. Assim tratava a neta.
Passou mais de um ano e a menina continuava igual: não mexia braço nem perna, estava calada como um tronco sob o cobertor. Só vez em quando murmurava sons indistintos. E, sob o olhar atento do avô, escorria uma lágrima pela sua bochecha. Nesses momentos, o coração do velho rachava. Achava que ela saudosa da mãe e do pai. O avô lia histórias, conversava horas, mas nunca veio resposta. Era duro para ambos.
Numa noite, o inesperado aconteceu. Enquanto Manuel Vicente velava ao lado da neta, uma horda de jovens bêbados irrompeu pela porta, que o velho esquecia aberta. Voltavam da festa no salão de baile, viram luz na janela. Sabiam que ali estava uma rapariga imobilizada. Alguém propôs entrar só por troça “Com paralisia, deve agradecer qualquer coisa. E se tentar resistir, nem pode!” empurraram a porta que cedeu sem defesa.
Ó velho, descobre a menina e abre-lhe as pernas bem abertas! Vamos tirar à sorte quem começa primeiro… berrava o mais embriagado.
Por piedade! Ela só tem quinze anos! desesperava Manuel.
Esperem só que vá escovar os dentes, já volto! disse o velho, correndo para a cozinha. Abriu apressado a porta da adega e gritou:
Ataca!
Dali saltou um imenso Cão da Serra, chamado Gualdim, que ninguém imaginava existir ali. Entre dentes e patas, apanhou canalhas pelas calças, quase arrancando “partes” do líder da turba. Aos outros rasgou as calças pelo traseiro. Fugiram em desespero pelas ruas da aldeia, de rabo ao léu, rindo a vizinhança; Gualdim saltou pela janela atrás deles, perseguindo até à entrada do povoado.
Manuel voltou ao quarto, e, de repente, a neta estava sentada, gritando para o cão pela janela:
Gualdim! Gualdim! Agarra-o, avô, não o deixes fugir!…
O velho deixou cair as lágrimas. Desde então, pouco a pouco, a neta recuperou. Primeiro falou, depois caminhou. Talvez os chás da curandeira, talvez o susto, ou apenas a alegria de ver o cão, mas começou a conversar sem parar, recuperando o tempo perdido sem voz. E perguntam de onde veio o cão? Pois é fácil: Gualdim era o cão do filho de Manuel. Na tragédia, a mulher dispensou não só a filha, mas também o animal. Trouxe-o com a menina, mas nada disse ao avô. Quando partiu, o velho foi fechar o portão, e ali estava o cão: magro, sofrido, com olhos mais tristes que os de uma vaca doente. Chorava lágrimas verdadeiras. Manuel nunca soubera desse cão; mas não podia rejeitar o bicho do filho.
O cão serviu fielmente, mas estando o verão tórrido, Manuel guardava Gualdim na adega fria durante o dia, soltando-o quando o calor abrandava. Naquela noite, o cão estava fechado ainda, e só por isso os vândalos entraram. Se Gualdim estivesse solto, nunca teriam passado pela porta.
Mais tarde, a neta contou ao avô: quando chorava, era de saudades do cão. O avô guardava o bicho no quintal, nunca na casa, e ela não conseguia dizer quanto o desejava junto de si.
Gualdim, ao regressar, lambeu o rosto da pequena dona, tão emocionado quanto ela. E assim passaram a viver juntos Manuel Vicente, a neta, e Gualdim. Da mãe da menina, nunca mais houve notícia.







