A Quinta do Pai
Foi por um acaso inesperado que Leonor soube que a quinta que ela e o pai tinham fora vendida. Descobriu pelo telefone, enquanto ligava do posto de correios à mãe em Évora. Naqueles minutos pagos, os fios cruzaram mais que cidades: a telefonista, por engano, deixou Leonor ouvir sem ser vista, torná-la, por pura coincidência, confidente indesejada de um segredo que mudou tudo. Duas cidades, duas irmãs em conversa; a venda da quinta era tema principal, o negócio feito, e até sobrou dinheiro para ajudarem Leonor em Lisboa!
Almas familiares, vozes inconfundíveis de Maria José a mãe e da tia Filomena, separadas por quilómetros mas unidas por linhas elétricas transformadas em ondas de voz. Física era uma ciência ingrata para Leonor; o pai obrigava-a a saber da teoria dos átomos e das estrelas.
***
Pai, porque é que o sol em setembro tem este brilho?
Qual brilho, Leonorinha?
Não sei É diferente dos outros meses. Parece mais suave.
Tens que estudar física! O céu muda o seu traje em setembro. Vai, apanha a maçã! O pai riu, lançando-lhe uma maçã enorme, baixa e aveludada. Vermelha, lustrosa, cheirava a mel.
Bravo de Esmolfe?
Não, ainda estão verdes. Esta é Malápio, daquelas antigas.
Croque seco, a boca de Leonor enchida de sumo doce, espuma clara que retinha a memória das chuvas quentes de verão e o sabor da terra. Como os nomes das maçãs, física também era um mistério para ela. E esse era o problema! Aluna do 8º ano no Liceu Camões, Leonor estava apaixonada há dois anos! pelo professor de física. Difícil encaixar as leis e a matéria nos quadrados limpos do caderno. O pai percebia tudo pelos olhos baços e pelo pouco apetite da filha. Leonor contou-lhe tudo no ano anterior, numa noite de lágrimas e afagos no colo dele. A mãe estava no Algarve, em tratamentos. Filomena estudava na Porto.
Na quinta, o pai tornava-se outro homem. Cantava, assobiava, sempre feliz, coisa que nunca acontecia em casa, onde a mãe e a tia dominavam. A mãe era uma mulher deslumbrante, chefe da biblioteca militar, alta, senhora de cabelos ondulados cor de cobre, tingidos com raiz de urtiga e hena. A cada dois meses, Maria José emergia da casa de banho de turbante gigantesco, cheirando a erva e a chuva. A beleza da mãe era notória. O pai, baixo, dez anos mais velho, discreto. Uma vez, Maria José confidenciou à tia Filipe:
O António é apagado, mas homens não precisam de beleza!
Apagado perante a mãe com seus gestos dramáticos, feitos de pratos partidos e humores tempestuosos. Ela gostava de ordem e conforto, mas tolerava os “soldadinhos” assim chamava aos camaradas do pai que, depois do serviço militar, por vezes dormiam no chão da pequena casa de dois quartos. O pai fora major, dispensado pelas reformas do exército de Salazar. Assumiu o cargo de chefe de manutenção dos correios de Lisboa. Esses ex-militares ajudaram a erguer a quinta. Vieram trabalhar sem cobrar, cavaram a terra brava. A casa era pequena, com uma varanda onde Leonor gostava de ler; o pai passava-lhe uma tigela de groselhas ou cerejas. Felicidade simples. A mãe admirava as mãos: belas, polidas, com unhas grandes. O pai beijava-as, Leonor copiava o gesto.
Mãos assim são para livros, não para batatas! dizia o pai, rindo e piscando o olho a Leonor.
***
O primeiro chuvisco de setembro tamborilou no telhado da varanda. Festivo, sem tristeza alguma. Leonor fechou o livro.
Leonor, desce, a mãe vem com a tia Filomena, temos o almoço para preparar! O tom do pai, ali, era diferente, mais leve.
Mas Leonor ficou mais um pouco. O céu cinzento, pesado, mas não ameaçador, lavou-lhe o rosto. Abraçou-se, como se isso lhe desse calor. Da varanda via o sol furar nuvens, riscando outras quintas distantes. Física e seus princípios ficaram esquecidos; afinal, iria para faculdade noutra cidade e outras regras dominaram a vida.
Leonor instalou-se logo na residência estudantil, mas na primeira semana de setembro ficou num quarto alugado, partilhado com a proprietária; a outra também era ocupada por estudantes. As aulas trouxeram uma imersão nova, profunda, em língua e literatura. Professores de uma carismática inteligência, apaixonantes para toda a turma. Fora das aulas, uma tristeza sem nome. Amigos não havia ainda.
A cantina universitária matava a fome, e ela deambulava pelas ruas até anoitecer. Lisboa era bela, mas de uma beleza distante, fria, tornando o peito apertado. Sobrava a noite, os cães ladrando no Bairro Alto, tropeços nas ruas íngremes e sapatos apertados novos, que lhe magoavam os pés.
Na cozinha, o aroma das maçãs do pai, oferecidas à proprietária em gesto de gratidão, inundava tudo. Era doce, tostado, e Leonor chorava, sentindo-se perdida, presa no corpo.
Na residência, Leonor encontrou as colegas alemãs da RDA: Viola, Magda, Marion. Ao fim do dia, de tanto alemão, a cabeça latejava. Ia ao pátio tomar ar. As alemãs fumavam nos degraus, pediam cigarros e sempre pagavam, surpreendendo as portuguesas. Curiosas com as conservas que a mãe de Leonor preparava, adoravam os tomates com batatas fritas. Mas quando as conservas acabavam, sacavam dos seus enchidos e não partilhavam. Em maio voltavam à Alemanha, deixando montes de botas usadas junto ao caixote do lixo, calçado preparado para o rigor português… As restantes colegas apressavam-se a recolher em segredo.
***
Leonorinha, corta a couve, vou buscar cenouras. O caldo já está quase.
A pequena cozinha encheu de vapor. A couve verde clara desfolhou-se na tábua. Leonor provou uma folha, sabia à terra, sabia bem. As lâminas do facalhão batiam com ritmo alegre. Abriu a janela, deixou entrar o cheiro do outono, as folhas podres e as maçãs. Via o pai de costas: a pá enterrava-se com esforço, e ela sabia do sofrimento das costas dele. Largou o facalhão e correu a abraçá-lo. Ele virou-se, calado, aconchegou-a, beijou-lhe o vértice do cabelo.
A tia Filomena veio só. A mãe ficou em casa, exausta, dor de cabeça.
***
Depois, vieram os anos da faculdade, o casamento de estudante, o trabalho no “Jornal do Aeródromo”, o primeiro enfarte do pai, o nascimento da pequena Mafalda, o divórcio. Tantos acontecimentos em cinco anos. O marido de Leonor trocou-a por outra, e ela viveu com Mafalda num quarto alugado. O pai visitava-as de quinze em quinze dias, trazendo comida, cuidando da neta.
Leonor, não fiques magoada com a mãe, ela sofre demais nas viagens E acredito que agora ela tem um novo pretendente.
Pai! Mas tu achas normal um namorado nesta idade!?
O pai riu, mas era um riso amargo. Ficou em silêncio. Leonor viu-o envelhecido, cabelo todo branco, abatido. Até o assobio lhe abandonou.
Pai, e se eu tirar uns dias de férias? Vamos à quinta ainda antes do frio chegar, com a Mafalda, os três juntos?
***
A quinta estava coberta de folhas, últimos dias quentes de outubro, verão de São Martinho. Acenderam o fogão, chá com folhas de groselhas. Leonor fritava batatas à pressa; o pai ajuntava folhas e Mafalda ajudava, depois ria espalhando-as de novo. O óleo chiava. Do fundo do jardim ouviu-se o assobio do pai.
À noite, fizeram fogueira. As outras quintas estavam vazias. O pai espetava pedaços de pão em varas de cerejeira e ajudava Mafalda a torrar. Leonor estendeu as mãos ao fogo, hipnotizada.
Lembrou-se do primeiro grupo de trabalho rural no Alentejo, das noites de guitarra nas estevas, da sensação febril de paixão pela própria vida, sem destinatário. O encanto da planície sob estrelas, acordes falhados, faces iluminadas pela fogueira, todas com um segredo. Ali conheceu o marido futuro. No trabalho, Leonard foi chamada à reunião do sindicato para a aceitar no Partido Comunista. Decorou o regulamento, os textos dos congressos. De repente, perguntaram-lhe sobre o divórcio, quem era moralmente fraco. Leonor respondeu tremendo, quase em lágrimas. Um colega interveio, nervoso:
Isto é uma reunião de malcriados, não de comunistas!
Anos depois, Leonor ria ao recordar
Com a noite cerrada, apagaram-se as últimas brasas. Uma viatura parou à porta. Batida seca de porta. Mãe! Linda, num casaco chamativo, explicando que o colega a trouxe do trabalho. Mafalda correu. O pai, sombrio, beijou a mãe com estranheza.
Mas quem é esse colega?
António, não te irrites Foi só boleia!
Durante o jantar, a conversa não fluía. Mafalda ficou rabugenta. Maria José perguntava sobre o emprego, sem atenção no olhar. O pai calado, fixo na mãe, os ombros cada vez mais caídos. O serão desabou…
***
Um ano depois, perdeu o pai. Um grande enfarte, foi-se em dois dias no início de outubro quente. Após o funeral, Leonor tirou férias e refugiou-se na quinta; Mafalda ficou com a avó paterna.
Nada dava certo. As macieiras estavam carregadas como nunca. Enchia baldes de maçãs que distribuía aos vizinhos, fazia compotas, como o pai gostava: com hortelã e canela. Um amigo do pai, senhor Manuel, veio ajudar; juntos iam ao viveiro de Torres Vedras buscar novas mudas.
Fico por uns dias, Leonorinha, preparo a terra, podo as árvores, se deixares.
Senhor Manuel, nem seja preciso! Obrigada.
Do “Leonorinha” do senhor Manuel veio a certeza da orfandade. Pela primeira vez, caiu-lhe uma dor definitiva, irreversível. Antes disso, fingia que o pai voltaria, que tudo era um pesadelo. Nos primeiros dias, ao acordar, não conseguia entender aquele vazio, depois tudo ficava claro: pai já não estava.
Veio a culpa por não poder retê-lo neste mundo.
Mas vendei a quinta, não faças isso! Eu venho cá sempre ajudar, prometo. Lembra-te, esta macieira escolhemos juntos, eras miúda ainda. No caminho para Torres Vedras, o António só falava de ti, não da Filipa. As árvores vão durar mais que nós Ele sempre demorava a escolher as mudas, eu irritava-me
Manuel ficou três dias, cavou a terra, podou as macieiras, adubou. Planteou três arbustos de crisântemos amarelos à porta com permissão de Leonor.
Devia ter plantado antes, mas o outono permite! Em memória do António As roseiras vão precisar de proteção, mas faço isso na próxima visita.
Abraçaram-se na despedida. A chuva caiu suave. Leonor, parada ao portão, observou Manuel afastar-se. Ele olhou para trás, acenou: vai para dentro, rapariga! A chuva engrossou, batendo na chapa do telhado, o portão rangendo forte. O alpendre enchia-se de pétalas amarelas dos crisântemos. Tudo ali era do pai, e sempre seria. Chuva, árvores, aromas de outono, a própria terra. Ele andava ali, de alguma forma. E ela, Leonor, aprenderia tantas coisas. Voltaria com Mafalda até às geadas, o autocarro só levava duas horas. Depois viria na primavera, quem sabe instalar aquecimento. Havia de poupar dinheiro, aos poucos. E ir, sempre com Manuel, encontrar novas groselhas o pai sempre quis as brancas
***
Seis meses depois, em abril, com o último nevão, a quinta foi vendida. Leonor soube por puro acaso, ao telefonar para casa de regresso de Torres Vedras, no cubículo do correio, onde pousava aos pés da cabine, numa sacola, a muda de groselha branca, envolta em uma camisola infantil molhada, pronta para plantar.







