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06
A Felicidade dos Outros Anna trabalhava no seu quintal, aproveitando a primavera que este ano chegou mais cedo—fim de março e já todo o nevão tinha desaparecido. Ainda ia voltar o frio, ela sabia, mas o sol aquecia tanto que Anna saiu para arranjar o que havia para fazer: endireitar a cerca caída, consertar o abrigo da lenha. Pensou que precisava arranjar umas galinhas, um leitão, talvez um cãozinho e um gato. Chega, já se divertiu muito, sorriu para os próprios pensamentos, já chega. Deu-lhe vontade de lavrar logo a horta, mexer nas plantações, sentindo o cheiro da terra da sua infância—queria logo tirar os sapatos e correr descalça pelo solo fofo e quente, afundando os pés até aos tornozelos, como fizera em miúda. “Ainda vamos viver muito”, disse Anna, para ninguém em concreto. — Bom dia. Anna sobressaltou-se; junto ao portão estava uma rapariga, ainda uma adolescente. De gabardina cinzenta—daquelas dos cursos profissionais lá da vila—botas fraquinhas e meias de lycra cor de pele. “Com este frio ainda, tão nova, vai constipar-se”, pensou Anna, “os sapatos são fracos, só têm cartão na sola—uma desgraça.” Reparou em tudo em segundos. A miúda estava meio inquieta, cruzando as pernas magrinhas. — Olá, — respondeu Anna, seca. — Desculpe, posso ir à sua casa de banho? — Ah sim, vai em frente, é já ali, depois vira ao fundo. Anna viu-a correr, curiosa, a rapariga quase já mulher. — Obrigada, salvou-me. Procuro casa para alugar, não sabe se aluga por acaso um quarto? — Nem pensava nisso, para quê? — Queria alugar um quarto, não gosto de viver em residência. Lá só há confusão, toda a gente fuma e bebe, entram rapazes a toda a hora. — É? E quanto tens para pagar? — Cinco euros… não tenho mais. — Então, entra, anda lá para dentro. — Posso só passar outra vez na casa de banho? — Vai lá… — Como te chamas? — perguntou Anna, a levá-la para casa. — Olívia… — saiu-lhe num fio de voz. — Olívia, então. Conta lá, para que vieste mesmo? — Anna olhava a rapariga como que a adivinhar-lhe a alma. — É que… — hesitou, com lágrimas — não consigo aguentar, é mesmo urgente. — Vai lá então… Anna foi atrás, intrigada. — Precisas mesmo? O que se passa? — É a bexiga, dói tudo cá em baixo, está a cortar… — Vamos já ver isso, agora diz-me, ao que vens mesmo? Roubar não vais, que aqui não há nada… — Ninguém me mandou, vim sozinha. Você… você chama-se Anna de Sá? — Sou eu… sim, sou… — Você… não me reconhece… mãe? Sou eu, Olívia… a sua filha. Anna ficou de pedra, nem um músculo do rosto endurecido pelo vento tremeu. — Olívia, — sussurrou, — filha… Olívia… — Sim, sim, mamã… sou eu. No orfanato nunca me davam o seu endereço, mãe, diziam que não podiam. Mas falei com a professora, dona Amélia, que me ajudou a descobrir o seu nome, e depois conseguimos o endereço… E aqui estou, mãe. Anna ficou sem palavras, as lágrimas escorriam-lhe pelo rosto. — Olívia, minha Olívia… minha filhinha… — Mãe… mamã, — gritou a miúda ao abraçá-la, — procurei tanto por si, mamã. Escrevi-lhe cartas, mas riam-se de mim, diziam que tinha sido abandonada, que a mãe me deixou como se eu fosse coisa velha… Mas eu sempre acreditei, mãe… Sempre acreditei… Anna abraçou-a, as mãos calejadas agarradas ao casaco da filha, sua menina, Olívia. Ficaram abraçadas, sem palavras, tudo dito pelo silêncio partilhado. Depois, lembrando o que aprendeu da avó, Anna aqueceu água, fez chá de funcho, preparou um banho atencioso para a sua menina, a sua Olívia. A partir daí a vida ganhou novo sentido para Anna. Era por Olívia, por aquela filha que ela tinha de viver… Tinha alguém, tinha tudo. A vida correu, Olívia apaixonou-se por João, rapaz do campo como eles, trabalhador, simpático. Anna viu ali um genro honesto, e já se imaginava a organizar a casa em redor da família. Tempos eram difíceis, mas desenrascavam-se. Olívia e João assentaram com Anna, e esta floresceu, quase rejuvenescida. Arranjavam o quintal, criaram animais, Anna costurava para toda a gente, feliz. Vieram os netos—primeiro António, depois a Maria. Anna não podia ser mais feliz: ensinava os miúdos, cuidava da casa, atenta e ternurenta. Tudo corria bem, mas o peito doía-lhe cada vez mais. — Mãe, estás bem? — Estou, filha. Estou. Mas não estava, e foi tarde demais. Na cama do hospital, Anna chamou Olívia. — Minha filha, Olívia… Está na hora, perdoa-me, já vivi demais. Foste tu que me salvaste, naquele dia triste, vieste até mim, minha querida… — Mãe, não digas isso… — Olívia, quero dizer-te… Não sou a tua mãe verdadeira, perdoa-me. Achavam que eu era, deram-me o teu nome e a tua vida, mas tudo isto é felicidade roubada… — Mãe! Não digas isso, nunca digas isso. Foste a única mãe que tive, a melhor, a única que me quis e me amou. Anna sorriu, a mão calejada agarrando a da filha. Depois, ficou só o caderno da mãe, com a vida inteira ali escrita—infância dura, amores impossíveis, tropeços da juventude, perdas e silêncios. Olívia sempre soube. Descobriu a mãe biológica, que não a quis, e fugiu de volta para quem sempre a amou de verdade. Anos passaram—e a casa, cheia de risos de netos, de memórias e flores, continuou firme como Anna a deixou. Num domingo de primavera, a bisneta foi ao cemitério com a mãe. — Avó, a bisavó Anna era boa? — Era a melhor de todas, querida. — E vai ver-me lá de cima? — Vai, minha linda, para sempre. A menina pôs uma coroa de flores na campa. — Gosto muito de ti, bisavó Anna. O vento soprou nas árvores—“E nós também, querida. Nós também.”
Felicidade Alheia Hoje, sentei-me no meu pequeno quintal cá em Tomar, a terra já seca do orvalho, embora
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015
Julgávamos Sempre a Mãe dos Cães: Só Descobri o Que Ela Carregava Quando a Vi Chorar na Igreja – Uma História Real de Julgamento, Solidão e o Sonho de Ter uma Família
TODOS NÓS A JULGÁVAMOS Beatriz estava parada na Sé de Lisboa e chorava. Já fazia uns bons quinze minutos.
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023
Olga passou o dia inteiro a preparar-se para celebrar o Ano Novo: limpou a casa, cozinhou e pôs a mesa. Este era o seu primeiro Ano Novo longe dos pais, ao lado do homem que amava. Já vivia com o António há três meses, no apartamento dele. Ele tinha mais 15 anos do que ela, já fora casado, pagava pensão aos filhos e gostava de beber de vez em quando… Mas isso tudo não importava quando se ama alguém. Ninguém percebia o que ela via nele: não era bonito, podia até dizer-se feio, tinha um feitio péssimo, era incrivelmente forreta e estava sempre sem dinheiro — e quando tinha, era só para ele. Mesmo assim, Olguinha apaixonou-se por este “tesouro”. Durante três meses, Olga esperou que António reconhecesse como ela era meiga e boa dona de casa, e que acabasse por pedir-lhe em casamento. Ele sempre dizia: “Temos de viver juntos primeiro, para ver como és a tratar da casa. Não vá seres igual à minha ex…”. O que a ex dele tinha de mal, Olga nunca percebeu — ele nunca explicava. Por isso, ela dava o seu melhor: nunca se chateava quando ele chegava bêbedo, cozinhava, lavava, limpava, fazia as compras com o próprio dinheiro (não fosse António achar que ela era interesseira). Até a mesa de Ano Novo montou com tudo pago por si. E ainda lhe comprou um telemóvel novo para lhe oferecer. Enquanto Olga preparava tudo para a festa, o seu António também se preparava à sua maneira — foi beber com os amigos. Chegou a casa animado e avisou que vinha aí malta para festejar a passagem de ano: amigos dele, que ela nem conhecia. Faltava uma hora para a meia-noite, a mesa estava posta, mas Olga já estava desanimada — mas não disse nada, afinal não queria ser “igual à ex”. Meia hora antes da meia-noite, entra uma cambada de homens e mulheres, todos bêbedos. O António ficou logo bem-disposto, pôs todos à mesa e a festa continuou. Nem apresentou Olga a ninguém, era como se ela não existisse — só se ouviam as piadas entre eles, ninguém ligava a Olga. Quando ela avisou que faltavam dois minutos para meia-noite e sugeriu servir o champanhe, olharam-na como se fosse uma intrusa. — E esta quem é? — perguntou uma das convidadas, já bastante alcoolizada. — É a vizinha da minha cama! — atirou o António, e todos se riram dela. Comeram tudo o que Olga tinha feito, gozaram com ela a noite toda, elogiando António pela “ideia genial” de arranjar uma cozinheira e empregada de graça. E António nunca a defendeu, só se ria com eles. Enchia a barriga à custa do trabalho dela e ainda lhe passava por cima. Olga saiu de fininho, arrumou as suas coisas e voltou para casa dos pais. Nunca teve um Ano Novo tão horrível. A mãe disse o habitual “eu bem te avisei”, o pai suspirou de alívio, e Olga chorou tudo o que tinha para chorar, tirando finalmente os óculos cor-de-rosa dos olhos. Uma semana depois, quando António ficou sem dinheiro, apareceu em casa dela e, como se nada fosse, perguntou: — Então, foste-te embora? Ficaste ofendida ou quê? — e, vendo que ela não cedia, tentou virar o jogo: — Bela atitude! Tu aí de papo para o ar em casa dos teus pais e eu aqui sem nada no frigorífico! Já te estás a portar como a minha ex…! Olga ficou sem palavras perante tanta lata. Tantas vezes ensaiou o que lhe queria dizer, mas ali só conseguiu mandá-lo dar uma volta e trancar-lhe a porta na cara. E assim, a partir daquele Ano Novo, Olga começou realmente uma nova vida.
Então, olha só como foi o meu fim de ano. A Leonor passou o dia todo numa azáfama a preparar o réveillon
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099
Fica longe de mim! Eu nunca te prometi casamento! E, afinal, nem sei de quem é essa criança! Ou será que nem é minha mesmo? – Por isso, vai tratar da tua vida, que eu vou-me embora – foi assim que o Vítor, que estava em serviço temporário na nossa aldeia, se despediu da estupefacta Valentina. Ela ficou a olhar, sem acreditar no que via e ouvia. Será este o mesmo Vítor que lhe declarava amor e a tratava como uma rainha? O mesmo Vítor que lhe chamava Valentina e prometia mundos e fundos? Agora ali estava ele, um homem estranho, ligeiramente perdido e, por isso, zangado… Valentina chorou durante uma semana, acenou um adeus definitivo ao Vítor, mas como já tinha 35 anos e se achava sem jeito nem esperança de encontrar a felicidade, decidiu ser mãe sozinha. Valentina deu à luz uma menina saudável, a quem chamou Maria. Menina tranquila e sem grandes problemas, nunca deu muito trabalho à mãe. Parecia que já sabia que, chorasse ou não, nada mudaria… Valentina cuidava da filha, alimentava, vestia e até comprava brinquedos, mas o verdadeiro carinho maternal, esse faltava. Era raro abraçar Maria ou brincar com ela. Estava sempre ocupada, cansada ou com dores de cabeça. O instinto nunca despertou. Quando Maria tinha sete anos, aconteceu o inesperado: Valentina conheceu um homem e levou-o para casa! Foi tema de conversa em toda a aldeia – “Que Valentina tão irresponsável!” O homem não era dali, não tinha trabalho certo, ninguém sabia de onde vinha. “Se calhar até vigarista é”, murmuravam. Valentina trabalhava no minimercado local, ele descarregava mercadorias. A paixão começou por ali. Em breve, Valentina convidou o novo namorado, Igor, a viver consigo. Os vizinhos não perdoaram: “Leva um estranho lá para casa… e a pobre da Maria?” Valentina ignorou as críticas – sentia que era a última oportunidade para ser feliz. Mas, aos poucos, a opinião da aldeia mudou. A casa da Valentina precisava de homem: Igor reparou a entrada, consertou o telhado, levantou a vedação caída. Todos os dias, arranjava alguma coisa e a casa transformava-se. Rapidamente, muitos vizinhos pediam-lhe favores, e ele oferecia a sua ajuda: “Se fores pobre ou idoso, ajudo de graça. Se não, paga em dinheiro ou com comida.” De uns, recebia dinheiro, de outros, compotas, carne, ovos e leite. No quintal só havia legumes, pois sem homem não se podia ter animais. Antes, Maria raramente via nata ou leite caseiro, mas agora havia tudo isso no frigorífico. Igor tinha mãos de ouro. E Valentina, que nunca fora bonita, mudou com ele – irradiava alegria, ficou mais doce, mais terna. Até com Maria se tornou carinhosa. Sorria, mostrando covinhas que ninguém conhecia. Maria crescia e já ia à escola. Um dia, enquanto sentada no alpendre via Igor trabalhar, decidiu ir brincar a casa da amiga. Regressou só ao fim da tarde e ficou pasmada: no meio do quintal, brilhava… um baloiço! Balançava-se com o vento, a convidar… – É para mim?! Senhor Igor! Fez um baloiço para mim?! – Maria não acreditava nos olhos. – Para ti, Maria! Aproveita! – riu Igor, pouco dado a sorrisos. Maria saltou logo para o baloiço e voou para trás e para a frente, o vento a assobiar nos ouvidos. Não havia menina mais feliz no mundo… Valentina levantava-se cedo para trabalhar e foi Igor quem começou a cozinhar para as duas. Fazia pequenos-almoços, almoços… e que tartes, que empadões! Foi ele quem ensinou Maria a cozinhar e a pôr a mesa. Tantos talentos naqueles silêncios… No inverno, Igor levava e trazia Maria à escola, carregava-lhe a pasta e contava histórias da sua vida: como cuidou da mãe doente, vendeu o apartamento para ajudá-la, e foi enganado e expulso de casa pelo irmão. Ensinou-a a pescar no rio ao amanhecer, a ser paciente e perseverante. No verão, ofereceu-lhe a primeira bicicleta e ensinou-a a andar, limpando-lhe os joelhos quando ela caía. – Magoa-se, Igor! – ralhava Valentina. – Não faz mal. Tem de aprender a cair e levantar-se, – respondia ele com firmeza. Num Ano Novo, Igor deu-lhe verdadeiros patins para gelo. Jantaram juntos à mesa posta por ele e Maria. À meia-noite, brindaram e riram. De manhã, Maria gritava de alegria: “Patins! Obrigada, obrigada!” e abraçava-os com lágrimas de felicidade. Depois, lá foram os dois ao rio gelado; Igor limpou a neve do gelo e ensinou-a a patinar. Se caía, ele ajudava-a com paciência, até conseguir ficar de pé sozinha e deslizar de verdade. Maria triunfou e gritava de contentamento. Quando voltaram, ela lançou-se ao pescoço de Igor: – Obrigada por tudo! Obrigada, papá… Foi a vez dele chorar – de felicidade. Escondia as lágrimas, mas não conseguia contê-las… Maria cresceu, estudou na cidade. Teve as suas dificuldades, como todos – mas Igor esteve sempre ao seu lado: levou-lhe sacos de comida, acompanhou-a ao altar, esperou notícias junto à maternidade quando nasceram os netos. E um dia Igor partiu – como todos partiremos. No funeral, Maria e Valentina, mergulhadas em dor, lançaram terra à cova e Maria murmurou: – Até sempre, papá… Foste o melhor pai do mundo. Nunca te esquecerei… No coração dela ficou para sempre, não como “tio Igor”, nem como padrasto, mas como PAI… Porque, às vezes, pai não é quem dá a vida, mas quem a constrói contigo, partilha a dor e a alegria e nunca te abandona. Uma história de vida emocionante, destas que nos mostram que o amor verdadeiro se constrói… Obrigada pelos comentários e pelos gostos! Siga a página e descubra mais histórias que aquecem o coração!
Sai daqui! Eu nunca te prometi casamento! E mais, nem sei se a criança é minha! Ou talvez nem seja mesmo
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068
“Não, agora não venhas cá, mãe. A viagem é longa, passas a noite toda no comboio, e já não és nova. Para quê esse incómodo? E com a primavera, deves ter imenso que fazer na horta,” diz-me o meu filho. “Filho, como para quê? Já não nos vemos há tanto tempo. E quero tanto conhecer a tua mulher, como se costuma dizer, é hora de eu me aproximar da nora,” respondi-lhe com sinceridade. “Então fazemos assim: espera até ao fim do mês, nós vamos aí os dois ter contigo, no fim de semana da Páscoa que há muitos feriados,” acalmou-me o meu filho. Sinceramente, já estava pronta para ir, mas acreditei e fiquei em casa à espera dele. Só que afinal, nunca vieram. Liguei algumas vezes ao meu filho, mas ele rejeitava as chamadas. Depois ligou-me de volta, disse que estava muito ocupado, que não valia a pena eu esperar. Fiquei mesmo em baixo. Estava a preparar-me para receber o filho com a nora. Ele casou-se já há meio ano, e eu ainda não conhecia a nora. O meu filho, o Alexandre, tive-o só para mim. Já tinha 30 anos, nunca me casei. Decidi ao menos ter um filho. Talvez seja pecado, mas nunca me arrependi desse passo, mesmo com todas as dificuldades, com pouco dinheiro, vivíamos, não sobrevivíamos. Trabalhava em vários sítios só para garantir ao meu filho tudo o que precisava. O filho cresceu e foi estudar para Lisboa. Para o ajudar, fui trabalhar para o estrangeiro, a enviar-lhe dinheiro para estudar e viver na capital. O meu coração de mãe alegrava-se por poder ajudar. No terceiro ano da faculdade, o Alexandre já se sustentava sozinho. Quando acabou os estudos e arranjou trabalho, deixou de precisar da minha ajuda. Ele vinha a casa, mas pouco, uma vez por ano, se tanto. E eu a Lisboa nunca pus os pés, tenho vergonha de dizer. Prometi a mim própria que quando o filho casasse, eu ia. E por isso fui poupando. Juntei sessenta mil euros. Há meio ano, o filho liga-me e conta a esperada novidade: “Mãe, vou casar.” “Mas não venhas agora, que só vamos ao registo, a festa fica para depois,” avisou. Fiquei triste, mas fazer o quê? O Alexandre apresentou-me à nora por videochamada. Boa rapariga, bonita, de família rica, o sogro é empresário abastado. Só me restou ficar feliz por ele. Passou o tempo e nem vão cá nem nos convidam lá. Ansiosa por os ver, comprei bilhete de comboio, preparei comida da terra, levei até pão caseiro e compotas e fui. Avisei o filho ao entrar para o comboio. “Mãe, o que foste fazer? Não te vou poder buscar, estou no trabalho. Deixo a morada, chama um táxi,” disse o Alexandre. Cheguei de manhã a Lisboa, chamei táxi e fiquei chocada com o preço, mas pelo menos a cidade pela manhã era linda, vi tudo da janela do carro. Foi a nora que abriu a porta. Nem um sorriso, nem um abraço. Apenas disse, seca, para ir para a cozinha. O filho já tinha saído para o trabalho cedo. Comecei a arrumar os meus sacos: batatas, beterrabas, ovos, maçã seca, cogumelos em conserva, pepinos e tomates pickles, vários frascos de doce. A nora olhava e disse que não valia a pena, que não comem dessas coisas, e nem cozinha em casa. “Então, o que comem?” perguntei. “Comida entregue todos os dias. Não cozinho por causa do cheiro.” Não tinha acabado de digerir essa quando entrou uma criança, um rapazito de uns quatro anos. “Apresento-lhe o meu filho, Daniel,” disse a nora. “Daniel?” perguntei. “Não, é Danyil, não gosto que troquem o nome.” Tudo bem, disse eu. “Também não sou Iloninha, é Ilona. Aqui na cidade ninguém troca nomes…” Apeteceu-me chorar, não tanto pelo filho casar com uma mulher já com filho, mas porque não me contou nada. Mas ainda não foi tudo: reparei numa grande fotografia de casamento na parede. “Ah, afinal houve festa, pelo menos têm belas fotos.” “Como assim não houve casamento? Houve para 200 pessoas. Tu é que não vieste. O Alexandre disse que estavas doente. Talvez tenha sido melhor assim,” olhou-me de alto a baixo. “Vai querer pequeno-almoço?” “Quero…” Ilona pôs-me uma chávena de chá e uns pedaços de queijo caro — para ela era isso pequeno-almoço. Eu não sou dessas, preciso de comida pela manhã, ainda por cima depois da viagem. Tentei fazê-los ovos mexidos e usar o pão que levei, mas ela proibiu-me, por causa do cheiro. Recusou-se a comer o pão, disse que só comem saudável. Deixei de ter vontade de comer. Custava-me principalmente o filho ter vergonha de me convidar para o casamento, eu que tanto esperei por isto e poupei. Bebi o chá. Silêncio estranho. O menino veio encostar-se a mim. Tentei abraçá-lo, mas Ilona gesticulou que não devia, não se sabia de onde eu vinha, podia pegar-lhe algo. Não tinha presentes para o menino, dei-lhe um frasco de doce de framboesa, para comer com panquecas. A nora arrancou-me o frasco das mãos: “Quantas vezes tenho de dizer que não comemos açúcar?” Senti as lágrimas a rebentar. Nem acabei o chá. Fui calçar-me, a nora nada me perguntou. Saí, sentei-me num banco à porta, a chorar. Nunca me senti tão triste. Depois venho ver a nora a sair com o menino, leva todas as minhas conservas para o lixo. Sem palavras. Quando elas saíram, fui buscar as coisas e encaminhei-me para a estação. Por sorte havia um bilhete devolvido, comprei para a noite. Ao lado da estação havia uma tasca. Comprei um prato de sopa, carne grelhada, batatas com salada. Estava cheia de fome. Paguei bastante, mas também mereço. Guardei as malas no cacifo e ainda tive tempo de passear em Lisboa. A cidade agradou-me, até me esqueci da tristeza. No comboio não dormi, chorei. O filho nem ligou a perguntar por mim. Nunca pensei que o meu único filho me recebesse assim. Agora penso o que fazer com o dinheiro que juntei para o casamento: dar-lho, para saber que a mãe sempre pensou nele? Ou não dar nada, porque não o merece?
Não, não deves vir agora, mãe. Pensa bem. É uma viagem longa, passas a noite inteira no comboio, e tu
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014
— Tu nunca me amaste de verdade. Casaste-te comigo sem amor. E agora, quando adoeci, vais-me deixar… — Não te deixo! – disse Mariana, abraçando o Ivo. – És o melhor homem do mundo! Nunca, jamais te abandono… Ele mal podia acreditar que era verdade. O ânimo de Ivo estava em baixo… Mariana foi casada durante vinte e cinco anos e, durante esse tempo todo, continuou a fazer sucesso entre os homens. Já em jovem era das raparigas mais cobiçadas. Pois, até no tempo da escola! Quase todos os rapazes andavam atrás da Mariana. E, no entanto, ela nunca foi propriamente uma beleza. Mesmo assim, não se separou do marido, embora ele fosse uma personagem bastante controversa. Não, Mariana ficou com o Rui até ao fim. Criaram a filha juntos, casaram-na. O genro levou a Dalila para Itália, agora mandam sempre belas fotos e convidam Mariana a visitá-los. Ela ainda deve lá ir um dia. Já o Rui… já cá não está. O marido de Mariana morreu num acidente de carro. Uma tragédia sem sentido… mais tarde disseram-lhe que provavelmente o Rui se sentiu mal ao volante. Talvez tenha desmaiado, não conseguiu controlar o carro. — Talvez tenha perdido os sentidos? – arriscou ela. — Nunca saberemos ao certo – suspirou a amiga médica, Helena. – A causa: múltiplos ferimentos, incompatíveis com a vida. Mariana ficou em choque. Helena ajudou a organizar tudo. Foi ela quem soube dos pormenores pelos seus contactos. Rui foi a enterrar e Mariana ficou sozinha na casa grande que ela e o marido construíram ao longo da vida. Sozinha, sim, porque para uma só pessoa a casa era grande demais e sentia-se pesada. Casa é casa. E faz sempre falta a mão de um homem… Dalila veio ao funeral do pai. Conversou com a mãe sobre vender a casa, comprar um apartamento, e a possível vinda de Mariana para Itália. — Nem pensar! – exclamou Mariana. – Não foi para isto que construí esta casa! E à vossa Itália, não quero ir. Já lá pus os olhos… — Ó mãe… — És tão ingénua, Dalila! – sorriu Mariana entre lágrimas. – Estou a brincar. — Se brincas, pode ser que não esteja tudo assim tão mal. Tudo era ambíguo. Assim como o falecido tinha sido. Por um lado, Rui era um marido dedicado e carinhoso. Por outro, dependia muito do humor. Quando andava maldisposto, era capaz de deixar Mariana de cabeça em água. Depois arrependia-se e pedia desculpa, e Mariana nunca se prendia a isso. Vinte e cinco anos assim! Dá que pensar… Dalila ficou uns dias e voltou para Itália. O marido tinha muito trabalho, e ela queria manter o seu lar acolhedor. Mariana ficou sozinha. Embora, conhecendo-se, Mariana sabia que não seria por muito tempo. E assim foi. Uns meses de tristeza e, mal secou as lágrimas, já tinha à sua volta uma pequena legião de pretendentes. Até a mãe de Mariana, em tempos, se admiração com tanto assédio. — O que é que eles vêem em ti? Caem todos a teus pés! E tu nem és assim uma beleza… será que não percebo nada disto? — Oh mãe, tu és boa pessoa – ria Mariana, pintando os lábios. – Beleza é só fachada. O que importa é o charme, a personalidade, aquele je ne sais quoi. — Vai lá, mulher, anda divertir-te – respondia a mãe a rir. – Senão o noivo farta-se de esperar e vai-se embora. — Então arranjo outro – encolhia os ombros Mariana. Passaram-se quase trinta anos desde essa conversa com a mãe, e nada mudou. As mulheres queixam-se de que não há homens livres, que depois dos quarenta é impossível casar. Mariana nunca entendeu esse problema. Aos quarenta e seis, tinha dois pretendentes – e ambos muito bons. O seu coração puxava pelo Daniel. Gostava mesmo dele, tanto pela aparência como pela conversa. Simpático, inteligente, era bom para conversar e era um orgulho sair ao lado dele. No entanto, Daniel era mestre a falar e pouco a fazer. Mariana, com a idade e experiência, sabia: não era homem para partilhar a casa grande da sua vida. Já o outro pretendente, o Ivo, era um homem simples e de mãos de ouro. Daqueles que num instante consertam tudo. Verdadeiro homem, bom de coração, mas com personalidade forte por dentro. Com a mulher, era manso como um cachorrinho, mas se fosse preciso, virava o mundo por ela. Ainda assim, agradava menos a Mariana – coisa de mulher. Ele não fazia discursos bonitos. Sóbio, era calado. Só se bebesse um pouco, é que contava histórias engraçadas ou animava a conversa. Por falar nisso, Ivo até bebia bem, mas no dia seguinte já estava despachado, com banho frio e prontos para a vida. Não falava muito, mas fazia tudo. Mariana escolheu Ivo. Daniel ficou magoado, com as belas palavras ignoradas, e afastou-se. Mariana casou com Ivo, e este ficou nas nuvens. No casamento, bebeu demais, cantou e dançou sem parar. — Tu não perdes tempo – sorriu Helena. – Mal fez um ano que Rui se foi, e já voltaste a casar! Não há mulher que te apanhe – outras procuram e não encontram, e tu só precisas de sair de casa! — Não venhas com isso de “nem és uma beleza”… — Claro que não! Mas sempre foste suspeitamente requisitada, é verdade. — Eu própria não sei. Pergunta à minha mãe. Mariana piscou à amiga e foi dançar com o marido, que a tinha acabado de vir buscar. Enquanto dançava, dissipava as últimas dúvidas que tinha. Que importava se Ivo era simples? Pelo menos era forte, habilidoso e até bem parecido! E aquele silêncio, às vezes, nem era mau. Se tivesse escolhido o Daniel, que seria? Palavras bonitas não alimentam ninguém. Em poucos meses, Ivo transformou o jardim de Mariana num paraíso. Arrancou árvores a mais, nivelou o terreno, construiu canteiros, fez uma pérgola. Dentro da casa, também se notava a mão de um homem. Mariana sentiu que tinha feito a escolha certa. Ivo ainda por cima ganhava dinheiro, tentava sempre agradar à esposa com pequenos presentes. Comparando os últimos tempos do novo casamento com os vinte e cinco anos do primeiro, Mariana sentiu pena de não ter conhecido Ivo antes. Homem de ouro! Nos tempos quentes, faziam churrascos à noite e jantavam na pérgola. Mariana, saciada, sorria como um gato, Ivo olhava-a a sorrir. — Que foi, Ivo? — Nada. Estou feliz. A primeira mulher de Ivo era aborrecida. Já pensava que nunca ia encontrar uma mulher tão boa. Viveram quatro anos felizes. Até que Ivo começou a sentir-se mal. Cansava-se, perdia peso. E, se bebesse, piorava logo. — Ivo, tens de ir ao médico! – Mariana alarmou-se. – A sério, algo não está bem. — Que exagero, Mariana! Passa já. — Que é isso? O medo dos homens de médico? — Nem por isso. Ivo tinha apenas medo duma coisa: que Mariana o deixasse se caísse doente. Ele sabia que Mariana tinha casado por razões práticas, não por amor. Mas ele amava-a! Contra tudo. Viu-a perdida numa loja à procura da carteira na mala, e apaixonou-se. Aquela hesitação tocou-lhe fundo. Quis logo protegê-la para sempre. Mesmo que a mãe, ao conhecer Mariana, dissesse: — Não percebo o que vês nela. Nem é bonita, nem nova. E tu ainda tens tempo, podias arranjar uma rapariga nova! Mas Ivo só precisava da Mariana. E, se ficasse doente, será que ela ia querer ficar com ele? Ela não conseguiu convencê-lo a ir ao médico. Ao jantar de sábado, estavam os amigos – Helena e o marido, Bruno. Ivo e Bruno assavam carne e bebiam uma cerveja. Na cozinha, Helena perguntou: — O Ivo está doente? — Não sei! – desabafou Mariana. – Insisto, mas ele não vai ao médico! Tu és médica, diz-lá: ele está doente ou não? — Está pior, emagreceu. E a pele pareceu-me a ficar amarela. — Ai, meu Deus! Helena, convence-o! Talvez a ti te ouça! Helena olhou para ela. — Mariana… tu amas o Ivo, mesmo? Lembro-me das tuas dúvidas… Mariana mordeu o lábio, não respondeu. Helena nem chegou a convencer Ivo. Ele desmaiou durante o jantar, tiveram de chamar o INEM. Mariana foi com ele. Operaram-no logo. — Tumor no fígado. — Cancro?! – Mariana assustou-se. — Estamos à espera dos resultados. Era benigno, mas já estava grande quando entrou no bloco. Os médicos proibiram quase tudo a Ivo, avisaram que a recuperação ia ser longa – e não certa. Afinal, já tinha idade. Ivo entrou em depressão. A mãe foi visitá-lo. Mariana estava no trabalho, a mãe foi durante o dia. Levou comida permitida – a lista era curta. — Meu filho, não te reconheço! Sobreviveste. Não tens cancro. Devias era estar feliz! Come, vá. — Não tenho fome. — Mas tens de comer! É por causa da Mariana? Ela vem cá? — Vem… por enquanto. — Tens medo que te deixe? Ela seria parva. — Agora já fui. Não sirvo para nada. Nem trabalhar posso. Não passo de um inválido. Quem é que quer um inválido? Mariana entrou naquele momento. — O que se passa por aqui? Ouve-se a gritos. Olá, D. Teresa! — Vou-me embora. Olá, Mariana. Adeusinho. — Que se passa? A mãe encolheu os ombros e saiu. Mariana lavou as mãos e foi junto do marido. — Mas que invalidez qual quê? Braços e pernas no sítio, o resto cura-se. Sabes o que li sobre o fígado? — O quê? — O fígado regenera-se, sabias? Se ficares com pelo menos cinquenta e um por cento, regenera-se. E tu ficaste com sessenta! Dá tempo ao teu fígado. Vai correr bem! — E tenho esse tempo? — O quê? – não percebeu Mariana. — Tempo. — Ivo, o que queres dizer? Esconderam-me alguma coisa? Pediste aos médicos que me escondessem algo? — Não é isso… Ivo teve alta. Começou a pior parte da vida. Qualquer esforço deixava-o exausto. Isso custava-lhe imenso. E o aniversário de cinquenta anos estava a chegar, mas aquela alegria já não era nada. Mariana parecia não notar que ele se cansava e acompanhava-lhe na dieta. — Mariana… – ganhou coragem. – E agora, como vai ser connosco? — Em que sentido? — Eu demoro-me a recuperar. Vais-me deixar, é isso? Diz-me já. — Deixar-te? Porquê? Contigo é que me sinto bem. — Quando eu fazia tudo, ainda. Agora não faço nada, nem eu gosto de mim. — Deixa-te disso. Tens é de reagir! — Estou a tentar. Mas nem duas marteladas posso dar que já estou de rastos. Mariana abraçou-o por trás, encostou o rosto ao cabelo dele. — Amo-te. Nunca te deixo. Recupera sem pressa. Aos bocadinhos. — Amas mesmo? — Juro que sim. Mariana não deixa Ivo. Ele está a recuperar, devagar mas sempre a melhorar. O aniversário foi sem bebidas, para não o tentar. Chegaram alguns amigos, comeram no jardim, jogaram cartas. — Tens sorte com a mulher, Ivo – disseram os amigos ao sair. — Agora vão mas é beber à minha saúde? – ironizou ele. Riram-se todos. Depois, já só os dois, sentados à entrada, olharam as estrelas. Felizes. E Ivo, pela primeira vez em meses, sentiu-se melhor. Acreditou que se ia recuperar. E que, afinal, Mariana não o abandonaria. Abraçou-a com força. — Que foi, Ivo? — Está tudo bem! — Finalmente – sorriu Mariana, beijando-o na face. E foram felizes… 💬 Amigos, se gostam das nossas histórias, deixem comentários e não se esqueçam de pôr um gosto. Isso inspira-nos a continuar a escrever!
Achas mesmo que me casaste sem amor? Vais-me largar agora que fiquei doente Só se for naquela vida, Joaquim!
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072
— Ó Dona Alzira! — exclamou Mateus. — Quem lhe deu permissão para criar um lobo aqui na aldeia?
Ó Avó Alzira! gritou Martinho. Quem lhe deu autorização para guardar um lobo cá na aldeia? Alzira Fernandes
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0574
Rita foi à casa da sua amiga Paula para regar as flores e alimentar a tartaruga dela. Paula e o marido tinham ido de férias. Ela abriu a porta com a chave que a amiga lhe deixou, entrou no corredor e ficou boquiaberta! Todas as luzes estavam acesas, a árvore de Natal brilhava com luzinhas e a televisão estava a tocar alto. Da casa de banho vinham uns sons estranhos. Rita abriu a porta e levou as mãos à cara de espanto!
Rita resolveu passar em casa da sua amiga Filomena para regar as plantas e alimentar a sua tartaruga.
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041
Vera regressava apressada para casa com sacos de compras pesados nas mãos, a pensar no jantar e nas tarefas dos filhos, quando se preocupou ao ver uma ambulância à porta do prédio – seria o marido, de saúde frágil? Aliviada ao saber que era a vizinha Dona Nina que precisava de ajuda, acabou por assumir o cuidado da gata desta e recebeu um pedido especial: caso algo corresse mal, avisar a filha afastada, Sónia, com quem não falava há anos. Entre decisões, conversas difíceis e desabafos emocionantes, Vera percebe o valor dos laços familiares e faz de tudo para reaproximar mãe e filha mesmo antes do Natal, provando que às vezes a verdade e a compaixão são os maiores presentes – uma história tocante de vizinhança, perdão e resistência, passada num típico prédio português às vésperas do Ano Novo.
Vera apressa-se a caminho de casa, carregando sacos pesados cheios de compras. Os seus pensamentos estão
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010
Igor, o porta-malas! Abriu o porta-malas, pára o carro! – gritava a Marina, mas já percebia que tudo estava perdido… As malas com presentes, iguarias e a manta para a avó caíram pela estrada durante a viagem para o interior, e os carros de trás nem viram. Entre o azar, a tristeza e a esperança, chegaram de mãos vazias para celebrar o Ano Novo com a família em Viseu – só para descobrirem que o destino dos seus presentes trouxe felicidade a quem mais precisava naquela aldeia esquecida, graças a um milagre de São Nicolau.
Ó Manuel, a bagageira! Abriu-se a bagageira, pára o carro gritava Filomena, mas já percebia que tudo