Então, olha só como foi o meu fim de ano. A Leonor passou o dia todo numa azáfama a preparar o réveillon: limpou a casa de cima a baixo, fez comida, pôs a mesa bonita. Era o primeiro Ano Novo que não ia passar com os pais, mas sim com o namorado.
Já fazia três meses que ela vivia com o Rui, no apartamento dele lá em Benfica. Ele era quinze anos mais velho, tinha sido casado, pagava pensão de alimentos, e gostava de beber uns copos de vez em quando Mas pronto, quando se gosta mesmo de alguém, essas coisas acabam por parecer pequenas, né? O encanto dele ninguém percebia muito bem: não era bonito aliás, era mesmo feiote, e simpático também não era, resmungão, forreta como tudo, e nunca tinha dinheiro. Se algum lhe chegava às mãos, era só para ele. Mesmo assim, a Leonor gamou-se toda ao Rui.
Durante três meses, ela esperou que o Rui percebesse como ela era dedicada e despachada, e quem sabe lhe fizesse o pedido. Ele dizia sempre: Temos de viver juntos um bocado, para eu ver se és mesmo dona de casa como deve ser. Não vá seres igual à minha ex. Quem era exatamente a ex, ela nunca chegou a perceber, porque ele nunca explicava direito. Por isso, ela fazia tudo para mostrar o seu melhor: nunca levantava a voz mesmo quando ele chegava bêbedo, cozinhava, lavava, limpava, fazia compras com o dinheiro dela (não fosse o Rui dizer que ela era interesseira). Até a ceia de Ano Novo ela tratou sozinha e ainda lhe comprou um telemóvel novo como prenda.
Enquanto a Leonor tratava das coisas para o réveillon, o súper-Rui também foi preparando a festa ao jeito dele. Resumindo: esteve na tasca a beber com os amigos. Chegou a casa já meio torto e anunciou que os amigos dele vinham passar o Ano Novo ali em casa. Amigos de Rui, claro, que a Leonor nunca tinha visto. Faltava uma hora para a meia-noite, a mesa estava posta, mas o ambiente já azedara, e Leonor engoliu as palavras orgulhava-se de não ser como a ex-mulher dele.
Meia hora antes das doze, entrou uma cambada de homens e mulheres, todos já bem bebidos. O Rui ficou logo animado, pôs toda a gente à mesa e a festa-garrafa continuou à grande. A Leonor? O Rui nem a apresentou e ninguém lhe ligava peva estavam todos entretidos nos brindes e nas piadas internas. Quando, a dois minutos da meia-noite, a Leonor sugeriu encher os copos de espumante, olharam para ela como se fosse a empregada que entrou ali por engano.
Então mas quem é esta? perguntou com voz fanhosa uma das raparigas do grupo.
Ah, é inquilina da minha cama! respondeu o Rui a rir-se, e os outros todos gozaram a valer com ela.
Comiam, bebiam, tudo feito pela Leonor, e gozavam com ela. Quando soaram as badaladas e o relógio do Rossio dava o ano novo, riam da ingenuidade dela, elogiavam o Rui pela boa escolha ter arranjado cozinheira de borla e quem lhe limpasse a casa. E ele? Nada, ria-se à grande, nem uma palavra para a defender. Enchia-se com a comida e passava completamente por cima dela.
A Leonor saiu de fininho, foi buscar as coisas e foi-se embora para casa dos pais. Nunca tinha tido um Ano Novo assim tão horrível. A mãe limitou-se a dizer: Eu bem te avisei , e o pai só suspirou de alívio. Chorou tudo o que tinha a chorar e, naquela noite, percebeu o quão tapada tinha sido.
Passou uma semana. Quando o Rui ficou sem mais um tostão nos bolsos, apareceu feito dono da verdade em casa dos pais dela, e sem grande cerimónia perguntou:
Então e tu? Ficaste sentida? e, vendo que ela não queria conversa, ainda virou o jogo Olha lá, tu também és engraçadinha, está-se ótima na casa dos papás, não? E eu aqui com o frigorífico vazio! Estás a ser igualzinha à minha ex!
A Leonor ficou de boca aberta. Durante semanas ensaiara na cabeça o discurso para aquele momento, mas de repente só lhe apetecia mandá-lo passear em bom português e fechar-lhe a porta na cara.
E pronto, foi assim que a vida nova da Leonor começou mesmo a sério logo com a chegada do Ano Novo.







