Não, não deves vir agora, mãe. Pensa bem. É uma viagem longa, passas a noite inteira no comboio, e tu já não és nova. Para quê esse incómodo? E estamos na primavera, deves ter muita coisa para tratar na tua horta disse-me o meu filho.
Ó filho, mas como assim? Já não te vejo há tanto tempo… E quero muito conhecer melhor a tua mulher. Sabes, é importante para mim conhecer bem a nora disse-lhe sinceramente.
Olha, faz assim: espera só até ao fim do mês, que nesta altura da Páscoa temos muitos feriados e assim vamos todos aí a tua casa tentou acalmar-me o meu filho.
Na verdade, já estava preparando tudo para ir vê-los, mas confiei nele e acabei por aceitar ficar quieta e esperar em casa.
No fim, ninguém veio visitar-me. Telefonei várias vezes ao meu filho, mas ele não atendia. Depois ligou de volta e disse que andava muito ocupado e que não valia a pena eu esperar por eles.
Fiquei mesmo triste. Estive a preparar tudo para receber o meu filho e a nora que ainda nem conhecia, apesar de já estarem casados há meio ano.
O meu filho, Tomás, foi um desejo do meu coração. Tinha já trinta anos quando decidi tê-lo, e acabei por nunca casar. Queria pelo menos ter um filho para mim.
Talvez tenha sido um erro aos olhos de alguns, mas nunca me arrependi. Muitas vezes foi difícil não havia dinheiro e a vida era uma luta diária. Trabalhei sempre em vários lados para nunca faltasse nada ao meu filho.
Ele cresceu e foi estudar para Lisboa. Para ajudá-lo nos primeiros tempos, fui trabalhar para o estrangeiro andei pela França a fazer limpezas e cuidar de idosos. O meu coração de mãe enchia-se de alegria ao poder ajudá-lo.
No terceiro ano da universidade já começou a ganhar algum dinheiro e, quando acabou o curso, passou a sustentar-se sozinho.
O Tomás vinha a casa, mas pouco, talvez uma vez por ano. E eu, em Lisboa confesso que nunca lá pus os pés.
Pensei que, quando ele casasse, era altura de ir finalmente. Até para isso guardei dinheiro, consegui juntar 7500 euros.
Há meio ano, o Tomás ligou e deu-me a notícia tão esperada ia casar.
Mas, mãe, não venhas agora. Vamos só ao registo civil, depois mais tarde fazemos festa, avisou-me.
Fiquei magoada, mas o que podia fazer? Conheci a nora por videochamada. A rapariga parecia simpática, bonita, e tinha dinheiro o pai é empresário, daqueles mesmo ricos. Senti-me feliz por ver o Tomás encaminhado.
Mas os meses passaram, e o meu filho nem vinha nem me convidava. Já não aguentava a vontade de os ver, então tomei uma decisão: comprei bilhete para o comboio, preparei umas comidas de casa até pão fiz e levei umas conservas. Liguei-lhe mesmo antes de entrar no comboio.
Ó mãe, porque vieste? Estou a trabalhar, não consigo ir buscar-te. Olha, deixo-te a morada, apanha um táxi, respondeu ele.
Cheguei a Lisboa de manhã e tive logo um choque com o preço do táxi. Mas Lisboa pelas janelas do carro parecia-me tão bela que quase esquecia isso.
Abriu-me a porta a nora. Nem sorriso, nem abraço só um pode entrar para a cozinha. O Tomás já tinha ido trabalhar cedo.
Comecei a desfazer os sacos: batatas, beterrabas, ovos, maçã seca, cogumelos em conserva, pepinos, tomates, uns frascos de doce. A nora olhava tudo em silêncio e depois disse, secamente, que só levei aquilo para nada, porque eles não comiam dessas coisas, e que ela nem sequer cozinhava.
Então, o que é que comem? perguntei, espantada.
Pedimos sempre comida de fora. Não gosto de cozinhar. Fica logo um cheiro horrível na cozinha e depois custa a sair, respondeu ela, a Marta.
Ainda estava a tentar processar o que ouvira, quando entrou na cozinha um menino, com uns 3 aninhos.
Este é o meu filho. Dinis, disse a Marta.
Dinis? perguntei, a pensar se teria ouvido bem.
Sim, Dinis, não é Daniel. Não gosto que troquem os nomes.
Como quiseres, Martinha.
Eu sou Marta, não Martinha. Aqui ninguém troca os nomes, mas compreendo que não saibas…
Vontade de chorar era o que sentia. E nem era por o filho casar com mulher de outro homem, era mesmo pela mentira nunca mo disse.
E não ficaram por aí as surpresas. Olhei para a parede e vi uma fotografia grande do casamento.
Olha, ao menos têm uma foto bonita, já que não houve festa, tentei ser positiva.
Como não houve? Houve, para duzentas pessoas. Só faltaste tu. O Tomás disse que estavas doente, disse-me a nora, olhando-me de cima a baixo.
Vai tomar o pequeno-almoço?
Vou.
Marta pôs-me na mesa uma chávena de chá e uns pedaços de queijo caro. Para ela, aquilo era pequeno-almoço.
Não estou habituada, gosto de comer bem de manhã, ainda por cima depois da viagem. Decidi fritar uns ovos levei o meu pão. Mas Marta proibiu, por causa do cheiro.
O pão nem o provou estão os dois em alimentação saudável.
Apetite tirei logo, fiquei sem vontade de comer; magoou-me que o meu filho tivesse vergonha de mim, de me levar à festa. Anos à espera disto, a juntar dinheiro, e afinal, foi tudo em vão.
Fui bebendo o chá. Silêncio pesado na cozinha. O pequeno Dinis correu para mim, colou-se às minhas pernas. Fui abraçá-lo, a Marta impediu logo: não sabia com que vinha eu, e era uma criança.
Sem lembranças para o menino, dei-lhe um frasco de doce de framboesa disse que era para comer com panquecas.
A Marta arrancou-o-me das mãos: Quantas vezes tenho de dizer? Não comemos açúcar!
Corei. Nem acabei o chá. Fui ao corredor buscar os sapatos. A Marta nem perguntou aonde ia.
Lá fora, sentei-me num banco e desatei a chorar. Nunca me senti tão triste.
Depois vi a Marta sair com o Dinis levou tudo o que eu trouxera para o lixo.
Quando ela se afastou, voltei atrás e recuperei as minhas coisas. Fui para a estação, arranjei bilhete porque alguém desistiu.
Perto da estação comi bem um prato de sopa de feijão, um bife, batatas e salada. Já morria de fome. Paguei bem, mas, por uma vez na vida, merecia.
Deixei as malas na consigna e, com as horas livres, fui passear nas ruas de Lisboa. Gostei da cidade. Fiz tempo até ao comboio.
No comboio, nem preguei olho. Chorei. Dói. O Tomás nem me telefonou, nem quis saber de mim.
Nunca achei que isto me pudesse acontecer. Sempre depositei toda a esperança no meu único filho, mas percebi afinal que para ele eu não sou ninguém.
Agora penso: o que faço com os 7500 euros que guardei para o casamento? Dou-lhos, para saber que a mãe sempre pensou nele? Ou fico com o dinheiro, porque simplesmente não merece?
Hoje percebi que, por mais amor de mãe que se dê, não há garantias do regresso. Amar é isso. Mas não se pode esperar nada em troca.







