Achas mesmo que me casaste sem amor? Vais-me largar agora que fiquei doente
Só se for naquela vida, Joaquim! respondeu Amélia, abraçando o marido. Tu és o melhor homem do mundo, não te largo nem por um prato cheio de pastéis de nata!
Joaquim, a tentar disfarçar, olhou com cara de quem tinha batido com o dedo mindinho na esquina da mesa, mas bem lá dentro, duvidava de tudo.
Amélia tinha passado vinte e cinco anos casada, e em todo esse tempo continuava uma sensação entre os homens da aldeia. Nem quando era miúda, descendente dos mais respeitados padeiros de Tavira, passava despercebida.
Até na primária, todo o rapaz que sabia amarrar as botas ia atrás da Milinha. E nem era grande beleza, verdade seja dita.
Mas nunca se separou do marido, mesmo que o António fosse, digamos, uma peça difícil de engolir com ou sem vinho.
Sim, senhoras e senhores, Amélia ficou casada com António até ao fim da vida dele. Criaram a filha, deram-lhe educação, e ainda a casaram direitinha. A pequena Beatriz, agora já grande e doutora, foi viver para a França com o marido, todo elegante e cheio de ideias. Mandam fotos de Paris, chamam os pais para visitar, mas ó, nunca dava jeito a senhora sempre a adiar, ele então, já foi.
O marido de Amélia morreu num acidente de carro. Desculpem, morreu de uma daquelas casualidades mesmo à portuguesa: dizem que provavelmente teve um fanico ao volante o coração trocou-lhe as voltas e pronto, foi-se.
Achas que desmaiou? perguntou Amélia à Ana, a amiga médica dela.
Agora já é tarde para descobrirmos. suspirou Ana, com o jeito de quem já viu de tudo nos hospitais. Motivo: danos múltiplos, incompatíveis com continuar a ressonar neste mundo.
Foi tudo um choque. Ainda bem que Ana ajudou a organizar o enterro, porque Amélia parecia mais perdida que GPS sem satélite.
Ficou sozinha na casa grande, aquela onde António sempre dizia que ainda faltava um puxador de porta para ficar pronta.
Para dois vá, vá, com uns petiscos para os amigos, ainda se compunha. Agora, sozinha ali casa grande pesa como dívida de empréstimo ao banco.
Uma casa precisa de mão de homem
Beatriz veio a correr a Portugal para se despedir do pai. E logo começou a sugerir vendas, apartamentos, vida nova em Lyon tudo muito francês. Amélia, mais teimosa que burro velho, atirou logo:
Está quieta! Eu não passei a vida a juntar tijolos para vender isto tudo e ir para a terra dos queijos que cheiram a meias. Vi aquela França, já me chegou!
Ó mãe! meio indignada.
Deixa-te disso, Biazinha! sorriu Amélia, apertando a filha com força. Vá, não faças essa cara, estou a brincar.
Não recomeces tu
Tudo era meio trapalhão, como o próprio falecido. Ora António era um doce, ora era um pão amanhecido conforme lhe batia a ventania. No mau humor, era um campeonato da marreta. Pedir desculpa sabia ele; Amélia era daquelas pessoas que deixam passar: vinte cinco anos! Já viste?
Beatriz deu um pulinho e voltou para a vida dela, mantendo o altar aceso para o marido francês. Amélia ficou a cuidar do feudo sozinha.
Mas conhecendo-se, sabia: não ia durar muito tempo assim.
E não durou. Passaram-se seis meses de choramingas e saudades. Quando deu por si, já tinha uma fila de candidatos à porta. Num ápice, formou-se uma liga de aspirantes à mão da viúva da padaria.
Até a mãe de Amélia antigamente não percebia aquele sucesso todo.
Ó filha, mas o que é que eles vêem em ti? Não és miss universo, que eu veja Não entendo, nem com óculos novos.
Isso é porque tu és boa mãe, não percebes nada de caras. Beleza é barulho de fundo. Mulher tem de ter charme, segredo e pimenta q.b.
Vai lá, que ainda ficas solteira por contradizer a sorte!
Olha, mamã, por cada um que vai, aparecem dois. dava de ombros Amélia, pintando o batom.
Trinta anos passaram daquelas conversas, mas olhem, nada mudou. As senhoras da vila continuam a lamentar que os homens bons evaporam depois dos quarenta.
Amélia, problema desses, não conhecia. Quarenta e seis anos e calculem, dois pretendentes na calha. E ambos de valor.
O coração puxava para o Diogo. Um daqueles tipos com ar digno, um pouco poeta, que podia falar da humidade do pão até à política e nunca aborrecia.
Só que Diogo era um ás no falar. Amélia gostava de o ouvir, mas de experiência sabia bem: homem a dar à língua para viver não lhe enchia o barril de azeite, nem arranjava a torneira a pingar.
O outro pretendente, Joaquim, era daqueles homens com jeito para tudo: com um copo no sangue era festa garantida, mas capaz de pôr o jardim todo a render, da poda à grelha do churrasco. Firme, decidido, mãos de ouro, feitio tranquilo mas espinha direita.
Um patudo com a mulher, mas, se preciso, capaz de atravessar o Guadiana a nado para proteger a família. Só que a Amélia achava-o menos interessante lá está, a lógica feminina, indecifrável.
Sóbrio, Joaquim era bicho calado. Mas dava-lhe duas canecas de cerveja e já contava anedotas, histórias da tropa, até fazia malabarismos se fosse preciso.
Além de tudo, Joaquim era incansável podia passar a noite ao copo, no dia seguinte já estava a lavar o carro e a desencravar a porta da garagem. É verdade, senhoras: homem de acção, poucas palavras. Foi esse que Amélia escolheu.
Diogo ficou sentido, foi pregar para outra freguesia. Amélia casou com Joaquim e ele ficou tão feliz que até cantou Grândola Vila Morena no casamento, desafinando e dançando até cair para o lado.
Ena, Amélia! gozava a Ana. Nem um ano passou desde que o António bateu as botas e já vais de novo à igreja. Há mulheres que passam o ano inteirinho a rezar por homem e tu, basta saíres para comprar pão e há logo fila.
Vá, não me digas: O que é que eles vêem em ti? Nem és um espanto de mulher!
Não digo nada. Mas sempre achei estranho tanto requebro à tua volta!
Sei lá eu, Ana Vai perguntar à minha mãe.
Amélia piscou-lhe o olho e correu para dançar, agarrada ao novo marido, que já se abanava ao ritmo da música dos UHF. E foi dançando que ela afugentou as últimas dúvidas.
Pronto, Joaquim era simples, mas era forte. De mãos hábeis. Até tinha charme, ali entre o português rústico e o clássico. E se calava-se muito talvez até fosse bom.
Se tivesse escolhido Diogo, para quê? Não se faz omeletes só com conversa fiada.
Passaram-se alguns meses e Joaquim pôs o jardim da Amélia em ponto de revista: arrancou árvores velhas, fez canteiros, construiu uma pérgola e dentro de casa tudo respirava ordem e brio masculino.
E além de trabalhador, ainda era generoso nunca vinha de mãos a abanar, trazia sempre um miminho com o troquinho do mês.
Amélia pensou para com ela: epá, podias ter conhecido o Joaquim antes, mulher! Homem de ouro!
No verão, passavam noites nos grelhados, a jantar na pérgola que ele próprio tinha erguido. Amélia, com a barriga cheia de entremeada, lambia os beiços, igual a gato depois de sardinha, e Joaquim sorria, encantado.
Que foi, Joaquim?
Nada, minha querida, só estou feliz.
A primeira esposa dele era um rebuçado mas daqueles que colam nos dentes. Nunca pensou que ia encontrar uma mulher assim, cheia de vida, farra e piada.
Os anos passaram, quatro de verdadeira felicidade. Até ao dia em que Joaquim começou a sentir-se desenxabido.
Ficava cansado a escavar o canteiro, emagreceu sem explicação. E se bebia um copo de aguardente, sentia-se logo às portas de Fátima.
Joaquim, tens de ir ao médico! Amélia protestava. Olha que não andas nada certo!
Isso não pega nada, Amélia. Já passa.
Olha-me este, século XXI e ainda acredita em bruxas. E se não passa, hã? Vais morrer de medo dos médicos feito os outros?
Claro que não.
Só que Joaquim tinha outro medo: se estivesse mesmo doente, Amélia mandava-o ao galheiro. Para ela, amor era prático, nunca fogo e paixão. Mas ele amava-a, com todos os neurónios e moléculas do corpo.
Apaixonou-se quando a viu na mercearia, perdida à procura do porta-moedas no fundo do saco. Quis logo pegar nela ao colo e protegê-la para sempre. A mãe dele, ao ver a escolhida, só disse:
Ó filho, compreendo lá tu. Nem jovem, nem bombom. Podias arranjar uma melhor.
Joaquim não queria saber de mais ninguém. Mas e se adoecesse?
Nem a insitência de Amélia servia. Veio um sábado, receberam em casa a Ana e o marido, o velho Borges. Os homens a grelhar bifanas, as senhoras na cozinha a picar cebola.
O Joaquim está doente, não está? perguntou Ana.
Não faço ideia! desabafou Amélia. Já lhe pedi, quase de joelhos, para ir ao médico. E nada!
A verdade é que está com peor cara. E eu diria que já tem a pele amarelada
Santa paciência! Ó Ana, faz-lhe entender, tu és médica! Pode ser que a ti dê ouvidos.
Ana olhou para Amélia:
Amélia gostas mesmo dele? Lembro-me que sempre tiveste dúvidas
Amélia mordeu o lábio e calou-se.
Não houve tempo Joaquim caiu redondo no jantar. Ambulância, hospital, drama e aflição. Amélia seguiu com ele até ao bloco.
Foi logo operado.
Tumor no fígado.
Cancro? gelou Amélia.
Vamos esperar as análises.
Tumor benigno, mas de senhora dimensão. O médico proibiu-lhe quase tudo: aqui, até água só depois da autorização e um arrozinho a cada três dias.
Joaquim ficou em baixo. Mãe dele foi visitar, taparuê da comida permitida debaixo do braço.
Ó filho, nem pareces tu! Sobreviveste, não tens cancro. Acredita em ti, e come lá as almôndegas!
Nem me apetece.
Tens de comer! A Amélia vem ver-te?
Vem ainda vem suspirou Joaquim.
Ainda? Tens medo que te largue? Era o que faltava!
Eu agora não sou homem, mãe. Nem trabalhar posso. Vou já para os cinquenta e sou um trambolho. Quem quer trambolhos?
Nesse momento, Amélia entrou no quarto.
Que gritaria é essa no hospital, valha-me Deus? Olá, D. Teresa!
Vou andando. Olá, Amélia.
O que foi, Joaquim?
D. Teresa encolheu os ombros e saiu. Amélia lavou as mãos, sentou-se ao lado do doente.
Que conversa de inválido é essa? Tens braços, pernas, cabecinha no lugar. O resto cura. Olha, sabes o que eu li sobre o fígado?
Que foi?
O fígado regenera. Se ficares com cinquenta e um por cento do bicho, recupera tudo. Tu tens sessenta! Vai com calma e ganhas uma nova!
E eu tenho tempo?
De quê?
Tempo, Amélia.
Mas que dramas! Estamos a esconder-me alguma coisa? Disseste aos médicos para não me contar a verdade?
Não é isso
Joaquim teve alta. O mais difícil veio depois fazer pouco cansava-o, e isso roía-lhe o orgulho.
E eis que o aniversário dos cinquenta se aproximava: nem vinho, nem rojões, nem nada. Uma alegria.
Amélia não parecia incomodada, comia a papinha saudável com ele como se fosse arroz de marisco.
Amélia o que vai ser de nós?
Que queres dizer?
Eu estou a recuperar devagar. Vais-me largar, não vais? Diz-me agora, é melhor.
Mas porquê? Eu gosto de ti, homem.
Era bom quando eu fazia tudo. Agora não me aguento. Nem eu me aturo.
Tolices! Agarrem-se lá com essas desculpas parvas.
Eu tento! Mas trabalhar duas vezes já fico morto.
Amélia abraçou-o pelas costas, encostou-lhe o rosto ao ombro.
Amo-te. E não te largo. Vais recuperar ao teu ritmo, com calma.
Estás a falar a sério?
Palavra de honra.
Amélia não largou Joaquim. Ele recuperava, devagar, mas recuperava.
No aniversário, Amélia organizou-lhe uma festinha sóbria: nada de aguardente, muita conversa, petiscos às riscas e jogos de cartas.
Tens uma santa em casa, Joaquim! disseram-lhe os amigos ao despedirem-se.
Aposto que vão beber um copo por minha causa, seus marotos! atirou ele.
Riram-se. Foram-se embora. Enquanto isso, Amélia e Joaquim sentaram-se na entrada de casa, a ver as estrelas e a saborear um silêncio feliz.
E naquela noite, Joaquim sentiu-se finalmente melhor. Acreditou que ia recuperar. E o mais importante que a mulher dele jamais o deixaria. Abraçou Amélia.
Que foi, Joaquim?
Está tudo bem! respondeu.
Já não era sem tempo. sorriu Amélia, e deu-lhe um beijo na bochecha.
Estavam felizes com toda a simplicidade e ironia da vida à portuguesa.







