— Tu nunca me amaste de verdade. Casaste-te comigo sem amor. E agora, quando adoeci, vais-me deixar… — Não te deixo! – disse Mariana, abraçando o Ivo. – És o melhor homem do mundo! Nunca, jamais te abandono… Ele mal podia acreditar que era verdade. O ânimo de Ivo estava em baixo… Mariana foi casada durante vinte e cinco anos e, durante esse tempo todo, continuou a fazer sucesso entre os homens. Já em jovem era das raparigas mais cobiçadas. Pois, até no tempo da escola! Quase todos os rapazes andavam atrás da Mariana. E, no entanto, ela nunca foi propriamente uma beleza. Mesmo assim, não se separou do marido, embora ele fosse uma personagem bastante controversa. Não, Mariana ficou com o Rui até ao fim. Criaram a filha juntos, casaram-na. O genro levou a Dalila para Itália, agora mandam sempre belas fotos e convidam Mariana a visitá-los. Ela ainda deve lá ir um dia. Já o Rui… já cá não está. O marido de Mariana morreu num acidente de carro. Uma tragédia sem sentido… mais tarde disseram-lhe que provavelmente o Rui se sentiu mal ao volante. Talvez tenha desmaiado, não conseguiu controlar o carro. — Talvez tenha perdido os sentidos? – arriscou ela. — Nunca saberemos ao certo – suspirou a amiga médica, Helena. – A causa: múltiplos ferimentos, incompatíveis com a vida. Mariana ficou em choque. Helena ajudou a organizar tudo. Foi ela quem soube dos pormenores pelos seus contactos. Rui foi a enterrar e Mariana ficou sozinha na casa grande que ela e o marido construíram ao longo da vida. Sozinha, sim, porque para uma só pessoa a casa era grande demais e sentia-se pesada. Casa é casa. E faz sempre falta a mão de um homem… Dalila veio ao funeral do pai. Conversou com a mãe sobre vender a casa, comprar um apartamento, e a possível vinda de Mariana para Itália. — Nem pensar! – exclamou Mariana. – Não foi para isto que construí esta casa! E à vossa Itália, não quero ir. Já lá pus os olhos… — Ó mãe… — És tão ingénua, Dalila! – sorriu Mariana entre lágrimas. – Estou a brincar. — Se brincas, pode ser que não esteja tudo assim tão mal. Tudo era ambíguo. Assim como o falecido tinha sido. Por um lado, Rui era um marido dedicado e carinhoso. Por outro, dependia muito do humor. Quando andava maldisposto, era capaz de deixar Mariana de cabeça em água. Depois arrependia-se e pedia desculpa, e Mariana nunca se prendia a isso. Vinte e cinco anos assim! Dá que pensar… Dalila ficou uns dias e voltou para Itália. O marido tinha muito trabalho, e ela queria manter o seu lar acolhedor. Mariana ficou sozinha. Embora, conhecendo-se, Mariana sabia que não seria por muito tempo. E assim foi. Uns meses de tristeza e, mal secou as lágrimas, já tinha à sua volta uma pequena legião de pretendentes. Até a mãe de Mariana, em tempos, se admiração com tanto assédio. — O que é que eles vêem em ti? Caem todos a teus pés! E tu nem és assim uma beleza… será que não percebo nada disto? — Oh mãe, tu és boa pessoa – ria Mariana, pintando os lábios. – Beleza é só fachada. O que importa é o charme, a personalidade, aquele je ne sais quoi. — Vai lá, mulher, anda divertir-te – respondia a mãe a rir. – Senão o noivo farta-se de esperar e vai-se embora. — Então arranjo outro – encolhia os ombros Mariana. Passaram-se quase trinta anos desde essa conversa com a mãe, e nada mudou. As mulheres queixam-se de que não há homens livres, que depois dos quarenta é impossível casar. Mariana nunca entendeu esse problema. Aos quarenta e seis, tinha dois pretendentes – e ambos muito bons. O seu coração puxava pelo Daniel. Gostava mesmo dele, tanto pela aparência como pela conversa. Simpático, inteligente, era bom para conversar e era um orgulho sair ao lado dele. No entanto, Daniel era mestre a falar e pouco a fazer. Mariana, com a idade e experiência, sabia: não era homem para partilhar a casa grande da sua vida. Já o outro pretendente, o Ivo, era um homem simples e de mãos de ouro. Daqueles que num instante consertam tudo. Verdadeiro homem, bom de coração, mas com personalidade forte por dentro. Com a mulher, era manso como um cachorrinho, mas se fosse preciso, virava o mundo por ela. Ainda assim, agradava menos a Mariana – coisa de mulher. Ele não fazia discursos bonitos. Sóbio, era calado. Só se bebesse um pouco, é que contava histórias engraçadas ou animava a conversa. Por falar nisso, Ivo até bebia bem, mas no dia seguinte já estava despachado, com banho frio e prontos para a vida. Não falava muito, mas fazia tudo. Mariana escolheu Ivo. Daniel ficou magoado, com as belas palavras ignoradas, e afastou-se. Mariana casou com Ivo, e este ficou nas nuvens. No casamento, bebeu demais, cantou e dançou sem parar. — Tu não perdes tempo – sorriu Helena. – Mal fez um ano que Rui se foi, e já voltaste a casar! Não há mulher que te apanhe – outras procuram e não encontram, e tu só precisas de sair de casa! — Não venhas com isso de “nem és uma beleza”… — Claro que não! Mas sempre foste suspeitamente requisitada, é verdade. — Eu própria não sei. Pergunta à minha mãe. Mariana piscou à amiga e foi dançar com o marido, que a tinha acabado de vir buscar. Enquanto dançava, dissipava as últimas dúvidas que tinha. Que importava se Ivo era simples? Pelo menos era forte, habilidoso e até bem parecido! E aquele silêncio, às vezes, nem era mau. Se tivesse escolhido o Daniel, que seria? Palavras bonitas não alimentam ninguém. Em poucos meses, Ivo transformou o jardim de Mariana num paraíso. Arrancou árvores a mais, nivelou o terreno, construiu canteiros, fez uma pérgola. Dentro da casa, também se notava a mão de um homem. Mariana sentiu que tinha feito a escolha certa. Ivo ainda por cima ganhava dinheiro, tentava sempre agradar à esposa com pequenos presentes. Comparando os últimos tempos do novo casamento com os vinte e cinco anos do primeiro, Mariana sentiu pena de não ter conhecido Ivo antes. Homem de ouro! Nos tempos quentes, faziam churrascos à noite e jantavam na pérgola. Mariana, saciada, sorria como um gato, Ivo olhava-a a sorrir. — Que foi, Ivo? — Nada. Estou feliz. A primeira mulher de Ivo era aborrecida. Já pensava que nunca ia encontrar uma mulher tão boa. Viveram quatro anos felizes. Até que Ivo começou a sentir-se mal. Cansava-se, perdia peso. E, se bebesse, piorava logo. — Ivo, tens de ir ao médico! – Mariana alarmou-se. – A sério, algo não está bem. — Que exagero, Mariana! Passa já. — Que é isso? O medo dos homens de médico? — Nem por isso. Ivo tinha apenas medo duma coisa: que Mariana o deixasse se caísse doente. Ele sabia que Mariana tinha casado por razões práticas, não por amor. Mas ele amava-a! Contra tudo. Viu-a perdida numa loja à procura da carteira na mala, e apaixonou-se. Aquela hesitação tocou-lhe fundo. Quis logo protegê-la para sempre. Mesmo que a mãe, ao conhecer Mariana, dissesse: — Não percebo o que vês nela. Nem é bonita, nem nova. E tu ainda tens tempo, podias arranjar uma rapariga nova! Mas Ivo só precisava da Mariana. E, se ficasse doente, será que ela ia querer ficar com ele? Ela não conseguiu convencê-lo a ir ao médico. Ao jantar de sábado, estavam os amigos – Helena e o marido, Bruno. Ivo e Bruno assavam carne e bebiam uma cerveja. Na cozinha, Helena perguntou: — O Ivo está doente? — Não sei! – desabafou Mariana. – Insisto, mas ele não vai ao médico! Tu és médica, diz-lá: ele está doente ou não? — Está pior, emagreceu. E a pele pareceu-me a ficar amarela. — Ai, meu Deus! Helena, convence-o! Talvez a ti te ouça! Helena olhou para ela. — Mariana… tu amas o Ivo, mesmo? Lembro-me das tuas dúvidas… Mariana mordeu o lábio, não respondeu. Helena nem chegou a convencer Ivo. Ele desmaiou durante o jantar, tiveram de chamar o INEM. Mariana foi com ele. Operaram-no logo. — Tumor no fígado. — Cancro?! – Mariana assustou-se. — Estamos à espera dos resultados. Era benigno, mas já estava grande quando entrou no bloco. Os médicos proibiram quase tudo a Ivo, avisaram que a recuperação ia ser longa – e não certa. Afinal, já tinha idade. Ivo entrou em depressão. A mãe foi visitá-lo. Mariana estava no trabalho, a mãe foi durante o dia. Levou comida permitida – a lista era curta. — Meu filho, não te reconheço! Sobreviveste. Não tens cancro. Devias era estar feliz! Come, vá. — Não tenho fome. — Mas tens de comer! É por causa da Mariana? Ela vem cá? — Vem… por enquanto. — Tens medo que te deixe? Ela seria parva. — Agora já fui. Não sirvo para nada. Nem trabalhar posso. Não passo de um inválido. Quem é que quer um inválido? Mariana entrou naquele momento. — O que se passa por aqui? Ouve-se a gritos. Olá, D. Teresa! — Vou-me embora. Olá, Mariana. Adeusinho. — Que se passa? A mãe encolheu os ombros e saiu. Mariana lavou as mãos e foi junto do marido. — Mas que invalidez qual quê? Braços e pernas no sítio, o resto cura-se. Sabes o que li sobre o fígado? — O quê? — O fígado regenera-se, sabias? Se ficares com pelo menos cinquenta e um por cento, regenera-se. E tu ficaste com sessenta! Dá tempo ao teu fígado. Vai correr bem! — E tenho esse tempo? — O quê? – não percebeu Mariana. — Tempo. — Ivo, o que queres dizer? Esconderam-me alguma coisa? Pediste aos médicos que me escondessem algo? — Não é isso… Ivo teve alta. Começou a pior parte da vida. Qualquer esforço deixava-o exausto. Isso custava-lhe imenso. E o aniversário de cinquenta anos estava a chegar, mas aquela alegria já não era nada. Mariana parecia não notar que ele se cansava e acompanhava-lhe na dieta. — Mariana… – ganhou coragem. – E agora, como vai ser connosco? — Em que sentido? — Eu demoro-me a recuperar. Vais-me deixar, é isso? Diz-me já. — Deixar-te? Porquê? Contigo é que me sinto bem. — Quando eu fazia tudo, ainda. Agora não faço nada, nem eu gosto de mim. — Deixa-te disso. Tens é de reagir! — Estou a tentar. Mas nem duas marteladas posso dar que já estou de rastos. Mariana abraçou-o por trás, encostou o rosto ao cabelo dele. — Amo-te. Nunca te deixo. Recupera sem pressa. Aos bocadinhos. — Amas mesmo? — Juro que sim. Mariana não deixa Ivo. Ele está a recuperar, devagar mas sempre a melhorar. O aniversário foi sem bebidas, para não o tentar. Chegaram alguns amigos, comeram no jardim, jogaram cartas. — Tens sorte com a mulher, Ivo – disseram os amigos ao sair. — Agora vão mas é beber à minha saúde? – ironizou ele. Riram-se todos. Depois, já só os dois, sentados à entrada, olharam as estrelas. Felizes. E Ivo, pela primeira vez em meses, sentiu-se melhor. Acreditou que se ia recuperar. E que, afinal, Mariana não o abandonaria. Abraçou-a com força. — Que foi, Ivo? — Está tudo bem! — Finalmente – sorriu Mariana, beijando-o na face. E foram felizes… 💬 Amigos, se gostam das nossas histórias, deixem comentários e não se esqueçam de pôr um gosto. Isso inspira-nos a continuar a escrever!

Achas mesmo que me casaste sem amor? Vais-me largar agora que fiquei doente

Só se for naquela vida, Joaquim! respondeu Amélia, abraçando o marido. Tu és o melhor homem do mundo, não te largo nem por um prato cheio de pastéis de nata!

Joaquim, a tentar disfarçar, olhou com cara de quem tinha batido com o dedo mindinho na esquina da mesa, mas bem lá dentro, duvidava de tudo.

Amélia tinha passado vinte e cinco anos casada, e em todo esse tempo continuava uma sensação entre os homens da aldeia. Nem quando era miúda, descendente dos mais respeitados padeiros de Tavira, passava despercebida.

Até na primária, todo o rapaz que sabia amarrar as botas ia atrás da Milinha. E nem era grande beleza, verdade seja dita.

Mas nunca se separou do marido, mesmo que o António fosse, digamos, uma peça difícil de engolir com ou sem vinho.

Sim, senhoras e senhores, Amélia ficou casada com António até ao fim da vida dele. Criaram a filha, deram-lhe educação, e ainda a casaram direitinha. A pequena Beatriz, agora já grande e doutora, foi viver para a França com o marido, todo elegante e cheio de ideias. Mandam fotos de Paris, chamam os pais para visitar, mas ó, nunca dava jeito a senhora sempre a adiar, ele então, já foi.

O marido de Amélia morreu num acidente de carro. Desculpem, morreu de uma daquelas casualidades mesmo à portuguesa: dizem que provavelmente teve um fanico ao volante o coração trocou-lhe as voltas e pronto, foi-se.

Achas que desmaiou? perguntou Amélia à Ana, a amiga médica dela.

Agora já é tarde para descobrirmos. suspirou Ana, com o jeito de quem já viu de tudo nos hospitais. Motivo: danos múltiplos, incompatíveis com continuar a ressonar neste mundo.

Foi tudo um choque. Ainda bem que Ana ajudou a organizar o enterro, porque Amélia parecia mais perdida que GPS sem satélite.

Ficou sozinha na casa grande, aquela onde António sempre dizia que ainda faltava um puxador de porta para ficar pronta.

Para dois vá, vá, com uns petiscos para os amigos, ainda se compunha. Agora, sozinha ali casa grande pesa como dívida de empréstimo ao banco.

Uma casa precisa de mão de homem

Beatriz veio a correr a Portugal para se despedir do pai. E logo começou a sugerir vendas, apartamentos, vida nova em Lyon tudo muito francês. Amélia, mais teimosa que burro velho, atirou logo:

Está quieta! Eu não passei a vida a juntar tijolos para vender isto tudo e ir para a terra dos queijos que cheiram a meias. Vi aquela França, já me chegou!

Ó mãe! meio indignada.

Deixa-te disso, Biazinha! sorriu Amélia, apertando a filha com força. Vá, não faças essa cara, estou a brincar.

Não recomeces tu

Tudo era meio trapalhão, como o próprio falecido. Ora António era um doce, ora era um pão amanhecido conforme lhe batia a ventania. No mau humor, era um campeonato da marreta. Pedir desculpa sabia ele; Amélia era daquelas pessoas que deixam passar: vinte cinco anos! Já viste?

Beatriz deu um pulinho e voltou para a vida dela, mantendo o altar aceso para o marido francês. Amélia ficou a cuidar do feudo sozinha.

Mas conhecendo-se, sabia: não ia durar muito tempo assim.

E não durou. Passaram-se seis meses de choramingas e saudades. Quando deu por si, já tinha uma fila de candidatos à porta. Num ápice, formou-se uma liga de aspirantes à mão da viúva da padaria.

Até a mãe de Amélia antigamente não percebia aquele sucesso todo.

Ó filha, mas o que é que eles vêem em ti? Não és miss universo, que eu veja Não entendo, nem com óculos novos.

Isso é porque tu és boa mãe, não percebes nada de caras. Beleza é barulho de fundo. Mulher tem de ter charme, segredo e pimenta q.b.

Vai lá, que ainda ficas solteira por contradizer a sorte!

Olha, mamã, por cada um que vai, aparecem dois. dava de ombros Amélia, pintando o batom.

Trinta anos passaram daquelas conversas, mas olhem, nada mudou. As senhoras da vila continuam a lamentar que os homens bons evaporam depois dos quarenta.

Amélia, problema desses, não conhecia. Quarenta e seis anos e calculem, dois pretendentes na calha. E ambos de valor.

O coração puxava para o Diogo. Um daqueles tipos com ar digno, um pouco poeta, que podia falar da humidade do pão até à política e nunca aborrecia.

Só que Diogo era um ás no falar. Amélia gostava de o ouvir, mas de experiência sabia bem: homem a dar à língua para viver não lhe enchia o barril de azeite, nem arranjava a torneira a pingar.

O outro pretendente, Joaquim, era daqueles homens com jeito para tudo: com um copo no sangue era festa garantida, mas capaz de pôr o jardim todo a render, da poda à grelha do churrasco. Firme, decidido, mãos de ouro, feitio tranquilo mas espinha direita.

Um patudo com a mulher, mas, se preciso, capaz de atravessar o Guadiana a nado para proteger a família. Só que a Amélia achava-o menos interessante lá está, a lógica feminina, indecifrável.

Sóbrio, Joaquim era bicho calado. Mas dava-lhe duas canecas de cerveja e já contava anedotas, histórias da tropa, até fazia malabarismos se fosse preciso.

Além de tudo, Joaquim era incansável podia passar a noite ao copo, no dia seguinte já estava a lavar o carro e a desencravar a porta da garagem. É verdade, senhoras: homem de acção, poucas palavras. Foi esse que Amélia escolheu.

Diogo ficou sentido, foi pregar para outra freguesia. Amélia casou com Joaquim e ele ficou tão feliz que até cantou Grândola Vila Morena no casamento, desafinando e dançando até cair para o lado.

Ena, Amélia! gozava a Ana. Nem um ano passou desde que o António bateu as botas e já vais de novo à igreja. Há mulheres que passam o ano inteirinho a rezar por homem e tu, basta saíres para comprar pão e há logo fila.

Vá, não me digas: O que é que eles vêem em ti? Nem és um espanto de mulher!

Não digo nada. Mas sempre achei estranho tanto requebro à tua volta!

Sei lá eu, Ana Vai perguntar à minha mãe.

Amélia piscou-lhe o olho e correu para dançar, agarrada ao novo marido, que já se abanava ao ritmo da música dos UHF. E foi dançando que ela afugentou as últimas dúvidas.

Pronto, Joaquim era simples, mas era forte. De mãos hábeis. Até tinha charme, ali entre o português rústico e o clássico. E se calava-se muito talvez até fosse bom.

Se tivesse escolhido Diogo, para quê? Não se faz omeletes só com conversa fiada.

Passaram-se alguns meses e Joaquim pôs o jardim da Amélia em ponto de revista: arrancou árvores velhas, fez canteiros, construiu uma pérgola e dentro de casa tudo respirava ordem e brio masculino.

E além de trabalhador, ainda era generoso nunca vinha de mãos a abanar, trazia sempre um miminho com o troquinho do mês.

Amélia pensou para com ela: epá, podias ter conhecido o Joaquim antes, mulher! Homem de ouro!

No verão, passavam noites nos grelhados, a jantar na pérgola que ele próprio tinha erguido. Amélia, com a barriga cheia de entremeada, lambia os beiços, igual a gato depois de sardinha, e Joaquim sorria, encantado.

Que foi, Joaquim?

Nada, minha querida, só estou feliz.

A primeira esposa dele era um rebuçado mas daqueles que colam nos dentes. Nunca pensou que ia encontrar uma mulher assim, cheia de vida, farra e piada.

Os anos passaram, quatro de verdadeira felicidade. Até ao dia em que Joaquim começou a sentir-se desenxabido.

Ficava cansado a escavar o canteiro, emagreceu sem explicação. E se bebia um copo de aguardente, sentia-se logo às portas de Fátima.

Joaquim, tens de ir ao médico! Amélia protestava. Olha que não andas nada certo!

Isso não pega nada, Amélia. Já passa.

Olha-me este, século XXI e ainda acredita em bruxas. E se não passa, hã? Vais morrer de medo dos médicos feito os outros?

Claro que não.

Só que Joaquim tinha outro medo: se estivesse mesmo doente, Amélia mandava-o ao galheiro. Para ela, amor era prático, nunca fogo e paixão. Mas ele amava-a, com todos os neurónios e moléculas do corpo.

Apaixonou-se quando a viu na mercearia, perdida à procura do porta-moedas no fundo do saco. Quis logo pegar nela ao colo e protegê-la para sempre. A mãe dele, ao ver a escolhida, só disse:

Ó filho, compreendo lá tu. Nem jovem, nem bombom. Podias arranjar uma melhor.

Joaquim não queria saber de mais ninguém. Mas e se adoecesse?

Nem a insitência de Amélia servia. Veio um sábado, receberam em casa a Ana e o marido, o velho Borges. Os homens a grelhar bifanas, as senhoras na cozinha a picar cebola.

O Joaquim está doente, não está? perguntou Ana.

Não faço ideia! desabafou Amélia. Já lhe pedi, quase de joelhos, para ir ao médico. E nada!

A verdade é que está com peor cara. E eu diria que já tem a pele amarelada

Santa paciência! Ó Ana, faz-lhe entender, tu és médica! Pode ser que a ti dê ouvidos.

Ana olhou para Amélia:

Amélia gostas mesmo dele? Lembro-me que sempre tiveste dúvidas

Amélia mordeu o lábio e calou-se.

Não houve tempo Joaquim caiu redondo no jantar. Ambulância, hospital, drama e aflição. Amélia seguiu com ele até ao bloco.

Foi logo operado.

Tumor no fígado.

Cancro? gelou Amélia.

Vamos esperar as análises.

Tumor benigno, mas de senhora dimensão. O médico proibiu-lhe quase tudo: aqui, até água só depois da autorização e um arrozinho a cada três dias.

Joaquim ficou em baixo. Mãe dele foi visitar, taparuê da comida permitida debaixo do braço.

Ó filho, nem pareces tu! Sobreviveste, não tens cancro. Acredita em ti, e come lá as almôndegas!

Nem me apetece.

Tens de comer! A Amélia vem ver-te?

Vem ainda vem suspirou Joaquim.

Ainda? Tens medo que te largue? Era o que faltava!

Eu agora não sou homem, mãe. Nem trabalhar posso. Vou já para os cinquenta e sou um trambolho. Quem quer trambolhos?

Nesse momento, Amélia entrou no quarto.

Que gritaria é essa no hospital, valha-me Deus? Olá, D. Teresa!

Vou andando. Olá, Amélia.

O que foi, Joaquim?

D. Teresa encolheu os ombros e saiu. Amélia lavou as mãos, sentou-se ao lado do doente.

Que conversa de inválido é essa? Tens braços, pernas, cabecinha no lugar. O resto cura. Olha, sabes o que eu li sobre o fígado?

Que foi?

O fígado regenera. Se ficares com cinquenta e um por cento do bicho, recupera tudo. Tu tens sessenta! Vai com calma e ganhas uma nova!

E eu tenho tempo?

De quê?

Tempo, Amélia.

Mas que dramas! Estamos a esconder-me alguma coisa? Disseste aos médicos para não me contar a verdade?

Não é isso

Joaquim teve alta. O mais difícil veio depois fazer pouco cansava-o, e isso roía-lhe o orgulho.

E eis que o aniversário dos cinquenta se aproximava: nem vinho, nem rojões, nem nada. Uma alegria.

Amélia não parecia incomodada, comia a papinha saudável com ele como se fosse arroz de marisco.

Amélia o que vai ser de nós?

Que queres dizer?

Eu estou a recuperar devagar. Vais-me largar, não vais? Diz-me agora, é melhor.

Mas porquê? Eu gosto de ti, homem.

Era bom quando eu fazia tudo. Agora não me aguento. Nem eu me aturo.

Tolices! Agarrem-se lá com essas desculpas parvas.

Eu tento! Mas trabalhar duas vezes já fico morto.

Amélia abraçou-o pelas costas, encostou-lhe o rosto ao ombro.

Amo-te. E não te largo. Vais recuperar ao teu ritmo, com calma.

Estás a falar a sério?

Palavra de honra.

Amélia não largou Joaquim. Ele recuperava, devagar, mas recuperava.

No aniversário, Amélia organizou-lhe uma festinha sóbria: nada de aguardente, muita conversa, petiscos às riscas e jogos de cartas.

Tens uma santa em casa, Joaquim! disseram-lhe os amigos ao despedirem-se.

Aposto que vão beber um copo por minha causa, seus marotos! atirou ele.

Riram-se. Foram-se embora. Enquanto isso, Amélia e Joaquim sentaram-se na entrada de casa, a ver as estrelas e a saborear um silêncio feliz.

E naquela noite, Joaquim sentiu-se finalmente melhor. Acreditou que ia recuperar. E o mais importante que a mulher dele jamais o deixaria. Abraçou Amélia.

Que foi, Joaquim?

Está tudo bem! respondeu.

Já não era sem tempo. sorriu Amélia, e deu-lhe um beijo na bochecha.

Estavam felizes com toda a simplicidade e ironia da vida à portuguesa.

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— Tu nunca me amaste de verdade. Casaste-te comigo sem amor. E agora, quando adoeci, vais-me deixar… — Não te deixo! – disse Mariana, abraçando o Ivo. – És o melhor homem do mundo! Nunca, jamais te abandono… Ele mal podia acreditar que era verdade. O ânimo de Ivo estava em baixo… Mariana foi casada durante vinte e cinco anos e, durante esse tempo todo, continuou a fazer sucesso entre os homens. Já em jovem era das raparigas mais cobiçadas. Pois, até no tempo da escola! Quase todos os rapazes andavam atrás da Mariana. E, no entanto, ela nunca foi propriamente uma beleza. Mesmo assim, não se separou do marido, embora ele fosse uma personagem bastante controversa. Não, Mariana ficou com o Rui até ao fim. Criaram a filha juntos, casaram-na. O genro levou a Dalila para Itália, agora mandam sempre belas fotos e convidam Mariana a visitá-los. Ela ainda deve lá ir um dia. Já o Rui… já cá não está. O marido de Mariana morreu num acidente de carro. Uma tragédia sem sentido… mais tarde disseram-lhe que provavelmente o Rui se sentiu mal ao volante. Talvez tenha desmaiado, não conseguiu controlar o carro. — Talvez tenha perdido os sentidos? – arriscou ela. — Nunca saberemos ao certo – suspirou a amiga médica, Helena. – A causa: múltiplos ferimentos, incompatíveis com a vida. Mariana ficou em choque. Helena ajudou a organizar tudo. Foi ela quem soube dos pormenores pelos seus contactos. Rui foi a enterrar e Mariana ficou sozinha na casa grande que ela e o marido construíram ao longo da vida. Sozinha, sim, porque para uma só pessoa a casa era grande demais e sentia-se pesada. Casa é casa. E faz sempre falta a mão de um homem… Dalila veio ao funeral do pai. Conversou com a mãe sobre vender a casa, comprar um apartamento, e a possível vinda de Mariana para Itália. — Nem pensar! – exclamou Mariana. – Não foi para isto que construí esta casa! E à vossa Itália, não quero ir. Já lá pus os olhos… — Ó mãe… — És tão ingénua, Dalila! – sorriu Mariana entre lágrimas. – Estou a brincar. — Se brincas, pode ser que não esteja tudo assim tão mal. Tudo era ambíguo. Assim como o falecido tinha sido. Por um lado, Rui era um marido dedicado e carinhoso. Por outro, dependia muito do humor. Quando andava maldisposto, era capaz de deixar Mariana de cabeça em água. Depois arrependia-se e pedia desculpa, e Mariana nunca se prendia a isso. Vinte e cinco anos assim! Dá que pensar… Dalila ficou uns dias e voltou para Itália. O marido tinha muito trabalho, e ela queria manter o seu lar acolhedor. Mariana ficou sozinha. Embora, conhecendo-se, Mariana sabia que não seria por muito tempo. E assim foi. Uns meses de tristeza e, mal secou as lágrimas, já tinha à sua volta uma pequena legião de pretendentes. Até a mãe de Mariana, em tempos, se admiração com tanto assédio. — O que é que eles vêem em ti? Caem todos a teus pés! E tu nem és assim uma beleza… será que não percebo nada disto? — Oh mãe, tu és boa pessoa – ria Mariana, pintando os lábios. – Beleza é só fachada. O que importa é o charme, a personalidade, aquele je ne sais quoi. — Vai lá, mulher, anda divertir-te – respondia a mãe a rir. – Senão o noivo farta-se de esperar e vai-se embora. — Então arranjo outro – encolhia os ombros Mariana. Passaram-se quase trinta anos desde essa conversa com a mãe, e nada mudou. As mulheres queixam-se de que não há homens livres, que depois dos quarenta é impossível casar. Mariana nunca entendeu esse problema. Aos quarenta e seis, tinha dois pretendentes – e ambos muito bons. O seu coração puxava pelo Daniel. Gostava mesmo dele, tanto pela aparência como pela conversa. Simpático, inteligente, era bom para conversar e era um orgulho sair ao lado dele. No entanto, Daniel era mestre a falar e pouco a fazer. Mariana, com a idade e experiência, sabia: não era homem para partilhar a casa grande da sua vida. Já o outro pretendente, o Ivo, era um homem simples e de mãos de ouro. Daqueles que num instante consertam tudo. Verdadeiro homem, bom de coração, mas com personalidade forte por dentro. Com a mulher, era manso como um cachorrinho, mas se fosse preciso, virava o mundo por ela. Ainda assim, agradava menos a Mariana – coisa de mulher. Ele não fazia discursos bonitos. Sóbio, era calado. Só se bebesse um pouco, é que contava histórias engraçadas ou animava a conversa. Por falar nisso, Ivo até bebia bem, mas no dia seguinte já estava despachado, com banho frio e prontos para a vida. Não falava muito, mas fazia tudo. Mariana escolheu Ivo. Daniel ficou magoado, com as belas palavras ignoradas, e afastou-se. Mariana casou com Ivo, e este ficou nas nuvens. No casamento, bebeu demais, cantou e dançou sem parar. — Tu não perdes tempo – sorriu Helena. – Mal fez um ano que Rui se foi, e já voltaste a casar! Não há mulher que te apanhe – outras procuram e não encontram, e tu só precisas de sair de casa! — Não venhas com isso de “nem és uma beleza”… — Claro que não! Mas sempre foste suspeitamente requisitada, é verdade. — Eu própria não sei. Pergunta à minha mãe. Mariana piscou à amiga e foi dançar com o marido, que a tinha acabado de vir buscar. Enquanto dançava, dissipava as últimas dúvidas que tinha. Que importava se Ivo era simples? Pelo menos era forte, habilidoso e até bem parecido! E aquele silêncio, às vezes, nem era mau. Se tivesse escolhido o Daniel, que seria? Palavras bonitas não alimentam ninguém. Em poucos meses, Ivo transformou o jardim de Mariana num paraíso. Arrancou árvores a mais, nivelou o terreno, construiu canteiros, fez uma pérgola. Dentro da casa, também se notava a mão de um homem. Mariana sentiu que tinha feito a escolha certa. Ivo ainda por cima ganhava dinheiro, tentava sempre agradar à esposa com pequenos presentes. Comparando os últimos tempos do novo casamento com os vinte e cinco anos do primeiro, Mariana sentiu pena de não ter conhecido Ivo antes. Homem de ouro! Nos tempos quentes, faziam churrascos à noite e jantavam na pérgola. Mariana, saciada, sorria como um gato, Ivo olhava-a a sorrir. — Que foi, Ivo? — Nada. Estou feliz. A primeira mulher de Ivo era aborrecida. Já pensava que nunca ia encontrar uma mulher tão boa. Viveram quatro anos felizes. Até que Ivo começou a sentir-se mal. Cansava-se, perdia peso. E, se bebesse, piorava logo. — Ivo, tens de ir ao médico! – Mariana alarmou-se. – A sério, algo não está bem. — Que exagero, Mariana! Passa já. — Que é isso? O medo dos homens de médico? — Nem por isso. Ivo tinha apenas medo duma coisa: que Mariana o deixasse se caísse doente. Ele sabia que Mariana tinha casado por razões práticas, não por amor. Mas ele amava-a! Contra tudo. Viu-a perdida numa loja à procura da carteira na mala, e apaixonou-se. Aquela hesitação tocou-lhe fundo. Quis logo protegê-la para sempre. Mesmo que a mãe, ao conhecer Mariana, dissesse: — Não percebo o que vês nela. Nem é bonita, nem nova. E tu ainda tens tempo, podias arranjar uma rapariga nova! Mas Ivo só precisava da Mariana. E, se ficasse doente, será que ela ia querer ficar com ele? Ela não conseguiu convencê-lo a ir ao médico. Ao jantar de sábado, estavam os amigos – Helena e o marido, Bruno. Ivo e Bruno assavam carne e bebiam uma cerveja. Na cozinha, Helena perguntou: — O Ivo está doente? — Não sei! – desabafou Mariana. – Insisto, mas ele não vai ao médico! Tu és médica, diz-lá: ele está doente ou não? — Está pior, emagreceu. E a pele pareceu-me a ficar amarela. — Ai, meu Deus! Helena, convence-o! Talvez a ti te ouça! Helena olhou para ela. — Mariana… tu amas o Ivo, mesmo? Lembro-me das tuas dúvidas… Mariana mordeu o lábio, não respondeu. Helena nem chegou a convencer Ivo. Ele desmaiou durante o jantar, tiveram de chamar o INEM. Mariana foi com ele. Operaram-no logo. — Tumor no fígado. — Cancro?! – Mariana assustou-se. — Estamos à espera dos resultados. Era benigno, mas já estava grande quando entrou no bloco. Os médicos proibiram quase tudo a Ivo, avisaram que a recuperação ia ser longa – e não certa. Afinal, já tinha idade. Ivo entrou em depressão. A mãe foi visitá-lo. Mariana estava no trabalho, a mãe foi durante o dia. Levou comida permitida – a lista era curta. — Meu filho, não te reconheço! Sobreviveste. Não tens cancro. Devias era estar feliz! Come, vá. — Não tenho fome. — Mas tens de comer! É por causa da Mariana? Ela vem cá? — Vem… por enquanto. — Tens medo que te deixe? Ela seria parva. — Agora já fui. Não sirvo para nada. Nem trabalhar posso. Não passo de um inválido. Quem é que quer um inválido? Mariana entrou naquele momento. — O que se passa por aqui? Ouve-se a gritos. Olá, D. Teresa! — Vou-me embora. Olá, Mariana. Adeusinho. — Que se passa? A mãe encolheu os ombros e saiu. Mariana lavou as mãos e foi junto do marido. — Mas que invalidez qual quê? Braços e pernas no sítio, o resto cura-se. Sabes o que li sobre o fígado? — O quê? — O fígado regenera-se, sabias? Se ficares com pelo menos cinquenta e um por cento, regenera-se. E tu ficaste com sessenta! Dá tempo ao teu fígado. Vai correr bem! — E tenho esse tempo? — O quê? – não percebeu Mariana. — Tempo. — Ivo, o que queres dizer? Esconderam-me alguma coisa? Pediste aos médicos que me escondessem algo? — Não é isso… Ivo teve alta. Começou a pior parte da vida. Qualquer esforço deixava-o exausto. Isso custava-lhe imenso. E o aniversário de cinquenta anos estava a chegar, mas aquela alegria já não era nada. Mariana parecia não notar que ele se cansava e acompanhava-lhe na dieta. — Mariana… – ganhou coragem. – E agora, como vai ser connosco? — Em que sentido? — Eu demoro-me a recuperar. Vais-me deixar, é isso? Diz-me já. — Deixar-te? Porquê? Contigo é que me sinto bem. — Quando eu fazia tudo, ainda. Agora não faço nada, nem eu gosto de mim. — Deixa-te disso. Tens é de reagir! — Estou a tentar. Mas nem duas marteladas posso dar que já estou de rastos. Mariana abraçou-o por trás, encostou o rosto ao cabelo dele. — Amo-te. Nunca te deixo. Recupera sem pressa. Aos bocadinhos. — Amas mesmo? — Juro que sim. Mariana não deixa Ivo. Ele está a recuperar, devagar mas sempre a melhorar. O aniversário foi sem bebidas, para não o tentar. Chegaram alguns amigos, comeram no jardim, jogaram cartas. — Tens sorte com a mulher, Ivo – disseram os amigos ao sair. — Agora vão mas é beber à minha saúde? – ironizou ele. Riram-se todos. Depois, já só os dois, sentados à entrada, olharam as estrelas. Felizes. E Ivo, pela primeira vez em meses, sentiu-se melhor. Acreditou que se ia recuperar. E que, afinal, Mariana não o abandonaria. Abraçou-a com força. — Que foi, Ivo? — Está tudo bem! — Finalmente – sorriu Mariana, beijando-o na face. E foram felizes… 💬 Amigos, se gostam das nossas histórias, deixem comentários e não se esqueçam de pôr um gosto. Isso inspira-nos a continuar a escrever!
Uma mulher chegou até mim e disse: “Sou a noiva do filho da senhora. Mas ele desapareceu há duas semanas”.