Nora Desajeitada
Leonor, tu sequer leste a lista? Eu dei-te a lista, está tudo lá escrito, a voz de Dona Rosa soava como se falasse com alguém que nunca entende à primeira. Está lá, preto no branco: aspic de três carnes. De três, Leonor. Não de duas, nem de uma. De três.
Dona Rosa, eu li, sim. Mas era precisamente sobre isso que queria falar. O aniversário é já para a semana e eu pensava
Tu pensavas a sogra fez uma pausa dramática, deixando o verbo pensar suspenso, como uma reprovação. Tu pensavas, mas eu digo-te. Aspic de três carnes, empadas de couve e cogumelos, peixe em molho frio, salada Russos, salada de maionese, e aquela com delícias do mar, ovos recheados, crepes com natas, pato assado com maçãs reineta, rolos de batata, pudim de requeijão, bolo Padrão dos Descobrimentos e bolo Leite de Pássaro. Isto é o mínimo, Leonor. Mínimo. Vêm cá quarenta pessoas.
Leonor segurava o telefone e olhava pela janela. Lá fora, a chuva de novembro caía grossa e fria, tão fora de tempo e lugar quanto aquela conversa.
Percebi, Dona Rosa. Depois ligo-lhe, está bem?
Não te demores. Já quase não há tempo até sábado.
Pousou o telefone na mesa da cozinha e ficou alguns segundos a olhar para ele. Ali mesmo estava a folha de papel quadriculado com a lista, escrita com o traço imponente de Dona Rosa, presa debaixo do saleiro. Leonor pegou nela e voltou a ler: catorze pratos. Ao lado de cada um, fazia questão: caseiro, não de supermercado, como da última vez, só melhor.
Como da última vez. Da última vez, tinha sido o aniversário da cunhada Filipa. Leonor começara a preparar tudo três dias antes. Quase não dormiu. Ao fim do segundo dia, as pernas tremiam e as mãos estavam gretadas da água e das tábuas de cortar pão. João vinha a casa, petiscava o que encontrava no fogão e ia ver futebol. Uma vez perguntou se precisava de ajuda. Leonor disse: Consigo. Ele assentiu e saiu. Sem pressa, sem ressentimento. Apenas saiu.
No dia da festa, Dona Rosa provou o aspic, chamou Leonor de lado e murmurou, quase vazia de emoção: Está com sal a mais. Não disse mais nada. Os convidados elogiaram, pediram restos, alguém disse que não comia empadas assim desde pequeno. Dona Rosa acenava a cabeça: Isto é tradição cá em casa. Nem uma vez mencionou Leonor.
Agora, sentada à mesa na sua cozinha na Rua dos Operários, onde vivia com João há dezanove anos, Leonor percebia que tradição, para Dona Rosa, era sinónimo de: a nora cozinha. A nora limpa. E a nora agradece o lugar à mesa.
O telemóvel vibrou. Filipa.
Leonor, falaste com a mãe? Ela disse que estavas esquisita.
Não, estava normal. Só cansada.
Pois, mas olha que o aniversário já aí está. Temos de fazer compras. Posso ir contigo ao supermercado na quarta… Bem, quarta não dá, tenho manicure… Quinta?
Filipa, eu trato disso.
Óptimo, mas a mãe faz questão que o pato seja com maçã reineta, não de outro tipo. Sabes que a reineta é que dá aquele toque ácido.
Sei.
E não te esqueças que o aspic tem de ficar transparente. Da outra vez ficou turvo.
Leonor fechou os olhos. Aspic de três carnes, maçãs reinetas, dois bolos, quarenta pessoas.
Está bem, Filipa. Ouvi-te.
Guardou o telefone, ergueu-se e foi para o fogão. João chegaria pelas sete, de estômago vazio, e se não houvesse jantar, viria aquele olhar demorado e a pergunta: Hoje não fizeste nada? Não era um queixume, só um espanto genuíno, como quem espera o autocarro que nunca aparece.
Abriu o frigorífico, tirou frango, cebolas, cenouras. Pôs a panela ao lume. Os movimentos já eram automáticos. Dezanove anos do mesmo ritual.
Conheceu João aos vinte e seis. Era risonho, encantador, prendia a atenção de toda a gente nas conversas. No primeiro encontro, Dona Rosa disse logo: Nota-se que és despachada, Leonor. Levou aquilo como um elogio. Depois entendeu: despachada queria dizer que sabia não discutir.
Casou-se aos vinte e oito. O primeiro ano foi suave. Depois nasceu o André. Depois André cresceu e foi estudar para outra cidade. Ficou isto: o apartamento, a cozinha, a lista de pratos.
O caldo estava ao lume. Leonor baixou o gás e foi para a sala. Apeteceu-lhe ligar à mãe, só para ouvir a voz. Mas o telemóvel já tocava.
Leonor, a voz materna era suave, mas tinha um tom que logo lhe gelou o estômago. Podes vir cá hoje?
O que aconteceu?
O pai está mal. Chamámos a ambulância. Estamos no hospital agora.
Leonor já vestia o casaco quando se lembrou do caldo. Regresou à cozinha e desligou o fogão. Escreveu a João: O pai está mal, fui aos pais, tens jantar no fogão. Agarrou na mala e saiu.
Lá fora estava húmido e escuro. Apanhou um táxi e, pelo caminho, ficou a olhar as luzes a desfocar na chuva. O pai, António, setenta e dois anos, sempre saudável, sempre de riso fácil: Ainda vos enterro a todos, vais ver. Queria tanto acreditar nisso.
O hospital cheirava a desinfetante e os corredores eram longos, brancos. A mãe estava junto à janela da triagem, pequena, de sobretudo posto, com a mala apertada ao peito.
Mãe.
Ela virou-se. Os olhos estavam secos mas tão fundos que Leonor quase chorou.
Dizem que a tensão está altíssima, e a cabeça, qualquer coisa. Caiu no corredor. Eu estava na cozinha e, de repente, ele já estava no chão.
E agora?
Fazem exames. O médico disse para esperar.
Sentaram-se em cadeiras duras e esperaram. A mãe apertava a mão de Leonor, fria e pequenina. Leonor pensava há quanto tempo não visitava os pais. Três semanas, pelo menos. Nunca dava jeito. Compras, limpezas, tachos, conversas de listas com Dona Rosa.
Passada uma hora e meia, saiu o médico, novo, cansado, de óculos.
Conseguimos estabilizá-lo, anunciou. Mas parece haver um problema de circulação cerebral. Precisamos de mais exames e vigilância. Pelo menos uma semana internado.
Ele vai ficar bem? perguntou a mãe.
Só com o tempo poderemos avaliar.
Leonor levou a mãe a casa, fez-lhe chá, ficou com ela até adormecer no sofá. Depois, ficou algum tempo na cozinha dos pais: aquela paz acolhedora, aquele cheiro de lareira antiga, os vasos de sardinheiras da mãe sempre em flor. Na parede, uma foto antiga: Leonor, pequena, de mão dada com o pai, ambos a olhar em direções opostas.
Chegou a casa já passava da meia-noite.
João estava acordado, mexia no telemóvel mas pousou-o ao vê-la entrar.
E então?
Não está bem. Pensam que é um AVC.
A sério… murmurou ele. Jantaste?
Não.
Há frango na panela, aqueci-te.
Leonor comeu de pé, encostada ao lava-loiça. Não tinha ânimo para pôr mesa. Depois deitou-se, sem conseguir dormir, a pensar no pai, nas mãos da mãe, no aroma daquela casa.
De manhã, telefonema de Dona Rosa.
Leonor, soube que saíste ontem. O João disse que o teu pai está mal. Só espero que percebas que faltam seis dias para o aniversário?
Dona Rosa, o meu pai está internado.
Eu percebi. Mas o hospital é perto, não? Só o visitas, tu não estás internada. Quando pensas começar a cozinhar?
Leonor sentiu uma clareza invade-la, como água parada num copo transparente.
Não sei ainda.
Como assim não sabes?! agora a surpresa de Dona Rosa era genuína, como de quem ouve uma blasfémia. Leonor, é o meu aniversário de setenta. É especial. Percebes?
Percebo. O meu pai também é especial.
Silêncio.
Bem, espero que consigas fazer tudo. Não tens de passar o dia no hospital. Visitas e depois estás livre.
Leonor desligou, foi para a cozinha onde João tomava café.
A tua mãe falou contigo?
Sim.
E então?
Perguntou pela comida.
João anuiu, sorveu o café. Depois disse:
Olha, Leonor, é o aniversário dela. São quarenta pessoas, não dá para desmarcar tudo agora.
Não disse para desmarcar.
Pronto, então. Vais conseguir. Vais ao hospital, mas a cozinha também é preciso, não dá para falhar.
Leonor olhou-o. João já estava de olhos no telemóvel, franzido não pelas suas palavras mas pelo ecrã.
João, se fosse a tua mãe no hospital?
Ele olhou-a, incomodado:
Não tem nada a ver.
Porquê?
Porque era a minha mãe, disse ele, como se explicasse o mundo inteiro.
Leonor foi ao hospital. O pai estava numa enfermaria de quatro. Quando entrou, dormia; a auxiliar explicou que era sono. Leonor sentou-se ao lado, a ver-lhe o rosto, marcado, grisalho, as mãos largas com dedos nodosos. Aqueles dedos fizeram-lhe brinquedos de madeira; agarraram-na ao cair da bicicleta.
O pai acordou, sorriu-lhe.
Vieste.
Claro, pai. Como te sentes?
Melhor, só um pouco tonto.
Não é pouco, pai.
Enfim, encolheu os ombros, o mais que a cama permitia. Vamos andando.
Ficou duas horas com ele. Depois avisou a mãe: o pai está consciente, fala. Graças a Deus, respondeu ela, emocionada.
Foi a olhar pela janela do autocarro que percebeu o essencial: era aquilo que importava. O pai. A mãe sozinha. A lista da Dona Rosa? Não. Era irrelevante. Como nunca se permitira pensar assim?
João chegou bem-disposto, com pão fresco. Falou do trabalho. Leonor ouviu, anuiu. Depois anunciou:
João, não vou cozinhar para o aniversário.
Ele congelou.
O quê?
Não vou. O pai está no hospital. A mãe precisa de mim. Não vou passar três dias na cozinha.
Leonor, e usou o nome completo, só o fazia zangado, são quarenta pessoas, ela quer comemorar. É especial.
O meu pai está grave.
Compreendo, mas há médicos lá. O que é que tu vais lá fazer além de visitar? Podes cozinhar…
Não posso.
Não podes?
Não.
João andou de um lado para o outro, tenso.
Percebes que a minha mãe não pode simplesmente cancelar? Já está tudo marcado. A Filipa avisou toda a gente.
Encomenda-se comida.
Comida encomendada?! ficou chocado como se ela dissesse heresia. A mãe quer tudo caseiro, sabes como é.
Sei, disse Leonor. Sei perfeitamente.
João olhou-a, com uma estranha perplexidade de quem não reconhece o mundo.
Leonor, pensa bem. É um dia importante. O teu pai está doente, claro, mas…
Não.
Não?
Não, João.
Ele foi para o quarto. Minutos depois, telefonema de Filipa.
Leonor, que história é essa? O João disse que não cozinhas? São quarenta pessoas!
Sei disso.
A mãe faz setenta anos! Isto não significa nada?
Significa. E o meu pai estar no hospital também.
Mas o aniversário é inadiável!
Filipa, podem encomendar a comida. Ou fazer vocês. Dou-vos as receitas.
Silêncio. Depois:
A gente não sabe.
Aprendes.
Desligou. As mãos não tremiam, estranhamente. Esperava sentir medo, ou remorsos, mas só sentia aquela clareza inexplicável.
No hospital, o pai estava melhor. Já comia, resmungava das sopas. Trouxe-lhe caldo caseiro num termo, preparado pela mãe de manhã. O pai bebeu tudo.
À tarde, Leonor e a mãe estavam na cozinha familiar, com os cortinados floridos, o frigorífico antigo, a cheirar a pão e hortelã seca, colhida no verão do quintal. Pousada na mesinha, uma pequena andorinha de madeira, feita pelo pai há muitos anos.
E tu, filha, estás bem? perguntou a mãe.
Estou, mãe. Sigo.
E o João?
A mãe dele faz anos no sábado.
Vais?
Se calhar. Mas cozinhar não vou.
Olha, Leonor… tu és feliz aí?
Levantou o olhar.
Como assim?
Notas-se quando cá vens. Estás sempre cansada, sempre a despachar-te, nunca sentas com calma. Agora mesmo já olhaste para o telefone três vezes.
Leonor olhou o telefone. Era verdade.
É hábito…
Eu percebo, disse a mãe, enchendo-lhe outra chávena de chá.
Quarta-feira, telefonema de Dona Rosa, voz frágil.
Leonor, quero falar como gente crescida.
Estou a ouvir, Dona Rosa.
Compreendo os problemas do teu pai. Compadeço-me, sinceramente. Mas sabes que esperei vinte anos por esta festa? Faço setenta anos, já não volto a fazer. É o último.
Leonor calada.
Não te peço que abandones o teu pai, só que faças aquilo que sabes melhor. Cozinhar é o teu contributo para a família, não é?
Dona Rosa, falou lentamente, aprendi esta semana que a minha família precisa é de mim como filha, não de um aspic ou empadas. O meu pai está hospitalizado. Preciso de estar com ele.
Estás, mas também podes cozinhar à noite. Não peço milagres.
Para mim é. Não posso fazer de conta que está tudo normal.
Longo silêncio.
Sempre foste complicada, Leonor. Não era maldade. Era um diagnóstico.
Pode ser.
O João ficou desiludido.
Eu sei.
Diz que mudaste.
Talvez.
Despediu-se, desligou.
Na manhã seguinte, Leonor preparou uma mala pequena: troca de roupa, carregador, necessaire, documentos. Escreveu ao filho: André, o avô está melhor. Vou ficar uns dias com eles. Está tudo bem. Ele respondeu rápido: Ligo-te de noite. Estás mesmo bem? Sim. Um beijo.
Quando João foi trabalhar, deixou-lhe um bilhete na mesa da cozinha: Vou para casa dos pais. Ligo depois.
Ficou um pouco à porta; olhou a cozinha, o fogão, a mesa onde tudo acontecera em dezenove anos. Inspirou. Depois saiu.
A chuva já tinha parado. O céu estava limpo, cinzento-azulado, de um inverno português típico. Leonor caminhava até à paragem de autocarro e pensava como dezenove anos são muito tempo quase metade de vida. Metade da vida a aceitar o que lhe davam, a pensar que era só aquilo que merecia.
Em casa dos pais, acolheu-a o calor da entrada, o cheiro a hortelã. A mãe nem perguntou; só encostou-se para deixar passar, abraçou-a forte. Leonor sentiu algo ceder dentro do peito.
Vais ficar?
Uns dias, se for possível.
Se for possível? a mãe repreendeu-a com ternura. Esta casa é tua.
Ficou ali quatro dias. Todas as manhãs, acompanhava a mãe ao hospital. O pai melhorava, já reclamava da comida, já ria, queria voltar ao quintal. O médico disse que o prognóstico era bom, precisava apenas repouso e fisioterapia.
Dormiu nesses dias como já não fazia há uma década: sem horários, até acordar sozinha. Comia a comida simples da mãe: arroz com grelos, caldo verde, tarte de maçã feita com reinetas trazidas do campo em setembro. Doeu-lhe o peito de emoção ao provar.
O que foi? perguntou a mãe.
Nada. É só muito bom.
A mãe sorriu. Não insistiu.
João ligou na sexta à noite, tenso.
Quando voltas?
Ainda não sei.
Leonor, amanhã é o aniversário. Vai estar toda a família.
Eu sei.
A mãe está nervosa. A Filipa está a tentar fazer as empadas, queimou tudo.
Que encomendem ou façam o que conseguirem.
Sabes que a mãe ficou magoada.
Sei e lamento. Mas agora estou aqui.
Longa pausa.
Mudaste, disse ele. O mesmo que Dona Rosa, mas de modo diferente: entre mágoa e confusão.
Talvez.
No sábado não foi ao aniversário.
De manhã, levaram caldo ao pai e uma broa que a mãe fez ao amanhecer. O pai elogiou: Temos de te por a trabalhar na padaria! A mãe riu-se: Logo se vê. Leonor sentava-se a vê-los, percebia que aquela cumplicidade era o segredo: sabiam estar juntos, bem, ainda depois dos setenta.
Ao final do dia, lia sentada no cadeirão, a mãe tricotava. Chovia lá fora, agora um dezembro calmo. O telemóvel vibrou: mensagem de Filipa Isto foi uma desgraça, os convidados vieram e não havia comida, que vergonha. De Dona Rosa, nada. De João, só: E então?
Leonor pousou o telefone. Pegou no livro.
Dias depois, voltou ao apartamento na Rua dos Operários. Precisava dos papéis, dos pertences, do resto da vida. O pai estava a recuperar, a mãe resolvia tudo sozinha.
João estava já mudado, parecia ter envelhecido na última semana. Olhou-a ao entrar.
Falamos?
Falamos.
Falaram longamente, não discutiram. Pela primeira vez em muitos anos, conversaram a sério. Leonor explicou: estava esgotada de ser funcional, de não ser vista. Era cómoda demais, há quase vinte anos, e isso roubara-lhe algo que nem nome sabia dar. João dizia que não era de propósito, que as coisas foram acontecendo. Leonor não discutiu, só explicou como se sentia.
Queres divorciar-te? perguntou ele, direto.
Ela hesitou.
Quero viver diferente. Não sei como se chama isso.
Ele acenou. Foi buscar água.
Vou ligar ao André.
Faz isso.
Duas semanas depois, o filho apareceu sem avisar, carregado, cara séria.
Mãe, estás bem?
Estou, filho. A sério.
O pai disse… que está tudo estranho.
Está tudo verdadeiro, corrigiu. Coisas diferentes.
Ficou três dias. No início estava zangado, depois acalmou e ficou só presente. À despedida:
Há anos que não estavas assim tranquila.
Nota-se?
Muito.
O divórcio correu calmo, civilizado. João ficou no apartamento. Leonor foi provisoriamente para casa dos pais. A mãe nunca se queixou: arrumou-lhe o quarto, pôs roupa lavada, deixou na mesa de cabeceira o passarinho de madeira do pai.
O pai recebeu alta no início de dezembro, mais lento, de bengala, mas firme. Parou à porta de casa e olhou.
Já estamos todos outra vez.
O Ano Novo celebrou-se a quatro: Leonor, os pais, André. Montaram a árvore, viram filmes antigos, comeram salada russa, comeram empada de couve. Uma só, simples feita para quem estava presente. Leonor ajudou a mãe, sentia finalmente o sentido de cozinhar para pessoas, e não por causa de uma lista.
Em fevereiro alugou um pequeno apartamento, numa rua calma, vista para o jardim com duas bétulas. Quase vazio, cheiro a tinta fresca, leveza de liberdade. Quando levou as primeiras caixas, ficou de pé no meio do espaço, tranquila. Depois foi até à janela, observou as árvores.
Filipa ligou-lhe uma vez em março, entre mágoada e conciliadora.
Leonor, está tudo bem contigo? a mãe tem saudades, sabes. Não diz, mas tem.
Eu sei.
Podias vir cá de vez em quando, nos feriados ao menos. Sozinhas é mais difícil.
Leonor sorriu.
Logo vejo.
Bem, tu ao menos sabes fazer aspic. Nós tentámos, ficou sempre turvo.
Mando-te a receita. O truque é coar o caldo por duas camadas de gaze. Experimenta.
A sério?
Claro. Não tem nada que saber. Só fazendo.
Mandou a receita. Filipa respondeu com um emoji surpreendido. Não ligou mais.
O pai recuperava devagar. Na primavera já andava sem bengala, queixava-se dos médicos e queria ir ao campo. Finalmente, em maio, foram juntos, Leonor ajudou-o a abrir a casa, aquecer a lareira. Sentaram-se lá fora a beber chá das chávenas antigas. Ao fundo, floria a ameixoeira.
Lembras-te quando me fazias andorinhas de madeira?
Lembro. Perdiam-se todas.
Guardei uma. Está à cabeceira.
Sei, a tua mãe contou. És uma valente, Leonor.
Porquê?
Porque sim. E fixou-se na ameixoeira. A vida é longa. O mais importante é não a gastar no que não dá felicidade.
Leonor assentiu. Cheirava a terra húmida e primavera, estava sereno, só se ouvia o cuco ao longe.
Voltando, arranjou trabalho numa pequena empresa. Antes fazia contabilidade, mas deixara quase tudo nos últimos anos a família é mais importante, dizia Dona Rosa; João nunca se opôs. Agora, gostava do ritmo, sentia-se dona dos próprios dias.
Aos fins de semana, visitava os pais. Às vezes ficava. Cozinhavam juntas, sem obrigação, só porque sim. O pai dava palpites, a mãe replicava. Na mesa-de-cabeceira, a andorinha.
No verão, o André ligou só para conversar.
Mãe, está tudo bem?
Sim, filho. Verdade.
Sabes que gosto de ver-te assim. Estás diferente.
Diferente?
Melhor.
Riram.
E tu, André?
Falou do trabalho, dos planos, de visitar em agosto. Leonor ia ouvindo, a ver as bétulas pela janela, as folhas verdes a encherem o pátio de vida.
Então vem, disse. Faço sopa de beterraba.
A da avó?
A da avó. Não há melhor no mundo.
Combinado, disse André.
Naquele verão, Leonor sentiu finalmente que a vida era dela e que ser útil devia ser escolha, não obrigação. E que cuidar dos laços humanos vale sempre mais do que qualquer tradição cega.






