— Senhor, hoje é o aniversário da minha mãe… Quero comprar flores, mas não tenho dinheiro suficiente… Comprei um buquê para o menino. Mais tarde, ao visitar o túmulo, encontrei o mesmo buquê lá.

Quando Tiago ainda não tem cinco anos, o seu mundo desaba. A mãe, Inês, desaparece. Ele fica encostado num canto da casa, confuso o que se passa? Por que há estranhos por todo o lado? Quem são? Por que todos falam em voz baixa, evitam olhar nos olhos?

O menino não entende por que ninguém sorri. Por que lhe dizem fica firme, filho, abraçamo como se tivesse perdido algo valioso, mas ele simplesmente não viu a mãe partir.

O pai, Júlio, está fora o dia inteiro. Não se aproxima, não abraça, não diz nada. Sentase afastado, distante, vazio. Tiago chega ao caixão e encara a mãe por longos minutos. Ela já não tem o calor de antessem sorriso, sem canções de embalar. Pálida, fria, como uma estátua. O medo o impede de chegar mais perto.

Sem a mãe, tudo fica cinzento. Dois anos depois, o pai casase novamente. A nova mulher, Catarina, não se integra ao seu universo; ao contrário, sente irritação por ele. Resmunga tudo, procura defeitos como quem procura desculpas para se zangar. O pai fica calado, não defende, não intervém.

Todos os dias Tiago carrega uma dor que esconde. A dor da perda, da saudade. A cada amanhecer, deseja mais voltar ao tempo em que a mãe ainda vivia.

Hoje é um dia especialo aniversário da mãe. De manhã, Tiago acorda com um pensamento único: tem de ir ao seu túmulo. Levar flores. Líriosdapaz brancos, os favoritos dela. Lembrase das fotos antigas, onde ela segura os lírios ao lado do sorriso.

Mas como arranja o dinheiro? Resolve pedir ao pai.

Pai, posso ter um pouco de dinheiro? Preciso muito

Antes que consiga explicar, Catarina dispara da cozinha:

Que é agora isto?! Já pides dinheiro ao teu pai?! Sabes o quanto é difícil ganhar um salário?

Júlio levanta a cabeça e tenta intervir:

Catar, espera. Ele ainda não disse o porquê. Filho, dizme o que precisas?

Quero comprar flores para a mãe. Líriosdapaz brancos. Hoje é o aniversário dela

Catarina faz um suspiro, cruza os braços:

Ah, sério? Flores! Dinheiro para elas! Talvez queiras ir a um restaurante também? Pegalhe umas flores do canteiro que será o teu buquê!

Não estão ali responde Tiago, calmo mas firme. Só vendem no loja.

Júlio olha pensativo para o filho, depois lança o olhar para a esposa:

Catar, vai preparar o almoço. Estou com fome.

Catarina rosna e desaparece na cozinha. O pai volta ao jornal. Tiago percebe: não vai receber dinheiro. Nenhuma palavra é dita depois disso.

Silencioso, sobe ao seu quarto, tira o cofrinho antigo. Conta as moedas. Poucas. Mas talvez sejam suficientes?

Sem perder tempo, corre para fora da casa em direção à florista. À distância, vê os líriosdapaz brancos na vitrine, luminosos, quase mágicos. Prende a respiração e entra.

O que queres? pergunta a vendedora, fria, a encarar o menino com desconfiança. Talvez estejas no sítio errado. Não temos brinquedos nem doces aqui. Só flores.

Não sou assim Quero comprar. Líriosdapaz Quanto custa um buquê?

A vendedora indica o preço. Tiago entrega todas as moedas que tem. Falta quase a metade.

Por favor implora. Posso trabalhar! Vir todos os dias, limpar, tirar o pó, lavar o chão Só emprestame este buquê

És louco? rosna a mulher, irritada. Achas que sou milionária para dar flores de graça? Sai daqui! Ou chamo a polícia aqui não se aceita mendigar!

Tiago não desiste. Precisa das flores hoje. Continua a suplicar:

Vou pagar tudo! Prometo! Vou ganhar o que for preciso! Por favor, entende

Olha esse pequeno ator! grita a vendedora tão alto que os passantes se viram. Onde estão os pais? Talvez seja altura de chamar os serviços sociais? Por que estás aqui sozinho? Último aviso sai antes que eu chame a polícia!

Nesse instante, um homem entra na loja. Vê a cena, sentese indignado.

Por que gritas assim? pergunta ao vendedor, firme. Estás a tratar o menino como se tivesse roubado algo. Ele só é uma criança.

E quem és tu? corta a vendedora. Se não sabes o que se passa, não te metas. Ele quase roubou o buquê!

Ah, quase roubou, ele eleva a voz. Atacasteo como predador! Ele precisa de ajuda e tu ameaças. Onde está a tua consciência?

Ele volta-se para Tiago, que está encolhido num canto, a secar as lágrimas.

Olá, pequeno. Chamome Rui. Dizesme o que se passou? Queres comprar flores mas não tens dinheiro?

Tiago soluça, limpa o nariz com a manga e responde, a voz trémula:

Queria os líriosdapaz Para a mãe Ela adoravaos Mas ela se foi há três anos Hoje é o aniversário dela Queria levar flores ao cemitério

Rui sente o coração apertar. A história tocao profundamente. ajoelhase ao lado do menino.

Sabes, a tua mãe ficaria orgulhosa de ti. Nem todos os adultos lembramse de trazer flores numa data assim; e tu, com oito anos, já o fazes. Vais tornarte num bom rapaz.

Então voltase para a vendedora:

Mostrame os lírios que ele escolheu. Quero comprar dois buquês um para ele, outro para mim.

Tiago aponta para a vitrine, onde os lírios brancos brilham como porcelana. Rui hesita um instanteeram exatamente os que ele ia comprar. Silencioso, pensa: Coincidência ou sinal?

Logo Tiago sai da loja com o precioso buquê nas mãos, como se fosse um tesouro. Mal acredita que tudo terminou bem. Aproximase de Rui e, tímido, oferece:

Tiago Posso darte o meu número? Vou pagarte de volta, prometo.

Rui ri, descontraído:

Nunca duvidei que fizesse isso. Mas não precisas. Hoje é um dia especial para uma mulher que muito me significa. Já esperava o momento de lhe confessar os meus sentimentos. Então, estou de bom humor. Além disso, parece que temos gosto parecido a mãe da Inês e a minha Irene adoravam esses lírios.

Ele fica pensativo, os olhos vagando ao longe, lembrandose da Irene. Irene era a vizinha, morava no prédio ao outro lado. Conheceramse por acaso, num dia em que ela foi cercada por matadores, e Rui interveio. Levou um olho roxo, mas não se arrependeu; foi aí que a simpatia floresceu.

Os anos passama amizade transformase em amor. Tornamse inseparáveis. Todos dizem: São o casal perfeito.

Quando Rui completa dezoito anos, é chamado ao serviço militar. Para Irene, é um golpe. Na noite antes de partir, vivem a primeira noite juntos.

Tudo corre bem no exército até Rui sofrer uma grave lesão na cabeça. Acorda no hospital sem memória, nem o próprio nome.

Irene tenta telefonarlhe, mas o telefone está mudo. Ela pensa que Rui a abandonou. Com o tempo, muda o número e tenta esquecer a dor.

Meses depois, a memória volta aos poucos. Irene volta aos seus pensamentos. Rui tenta ligar, mas ninguém atende. Ninguém sabe que os pais dele esconderam a verdade, dizendo à menina que ele a tinha deixado.

De volta à sua terra, Rui decide surpreender Irenecompra líriosdapaz e dirigese a ela. Chega à porta e vê Irene a caminhar de braço dado com outro homem, grávida, feliz.

O coração de Rui parte. Não entende como pode ser. Sem esperar explicações, foge.

Na mesma noite, parte para outra cidade, onde ninguém conhece o seu passado. Começa uma nova vida, mas não consegue esquecer Irene. Casase, na esperança de curarse, mas o matrimônio falha.

Oito anos se passam. Um dia, Rui percebe que não aguenta mais viver na vazia. Precisa encontrar Irene, contar tudo. E está novamente na sua terra natal, com um buquê de líriosdapaz nas mãos. É então que encontra Tiagoum encontro que pode mudar tudo.

Tiago Tiago! exclama Rui, como se acordasse. Está à porta da florista, e o menino ainda espera ali, paciente.

Filho, queres que te leve a algum lado? oferece Rui, amável.

Não, obrigado responde Tiago educadamente. Sei apanhar o autocarro. Já fui ao túmulo da mãe Não é a primeira vez.

Com essas palavras, abraça o buquê contra o peito e corre para a paragem de autocarro. Rui o observa partir, por longos momentos. Algo naquele menino desperta memórias, cria uma ligação inexplicável, quase de parentesco. Os seus caminhos cruzamse por uma razão. Tiago lhe parece dolorosamente familiar.

Quando o menino parte, Rui dirigese ao prédio onde Irene vivia. O coração bate como tambor enquanto se aproxima da porta e pergunta a uma senhora idosa que ali mora se sabe onde está Irene.

Oh, meu filho suspira a vizinha, olhandoo com tristeza. Ela já não está aqui Faleceu há três anos.

O quê? Rui recua, como se fosse golpeado.

Depois de casarse com Vasco, nunca mais voltou. Mudouse para lá. Por sinal, um bom homem cuidou dela quando estava grávida. Não é comum. Eles amavamse, cuidaramse. Depois nasceu o filho. E… acabou. Essa é a minha informação.

Rui sai devagar, sentindose como um fantasma tardiotarde, solitário, sempre atrasado.

Por que esperei tanto? Por que não voltei antes?

E então as palavras da vizinha ecoam: grávida

Espera. Se ela estava grávida quando casouse com Vasco será que o filho era meu?!

A cabeça roda. Talvez, em algum lugar desta cidade, o seu filho esteja a viver. Um fogo acendese dentro de Ruitem de encontrálo. Mas primeiro tem de achar Irene.

No cemitério, encontra rapidamente a sua sepultura. O coração apertaamor, perda, arrependimento inundamo. Mas o que realmente o choca é o que está sobre a lápide: um buquê fresco de líriosdapaz brancos. Os mesmos que Irene adorava.

Tiago sussurra Rui. És tu. O nosso filho. O nosso menino

Olha a foto da mãe na pedra, que lhe devolve o olhar, e diz baixinho:

Perdoame por tudo.

As lágrimas correm soltas dos olhos, mas ele não as segura. De repente, virase e correprecisa voltar à casa que Tiago apontou quando estavam na florista. É a sua chance.

Chega ao quintal. O menino está no baloiço, balançando pensativo. Quando Tiago chega a casa, a madrasta repreendeo por ter demorado tanto. Ele não aguenta e sai correndo para fora.

Rui se aproxima, sentase ao seu lado e abraçao apertado.

Nesse momento, surge o homem da porta. Ao ver um estranho ao lado do menino, hesita, depois reconheceo.

Rui diz, quase sem surpresa. Já não esperava que viesse. Acho que percebeste que Tiago é o teu filho.

Sim confirma Rui. Vim por ele.

Vasco suspira fundo:

Se ele quiser, não vou impedir. Nunca fui realmente marido da Irene. Nem pai do Tiago. Ela amavate sempre. Antes de morrer, confessou que queria encontrarte, contarte tudo: sobre o filho, sobre os sentimentos, sobre ti. Mas não teve tempo.

Rui fica em silêncio. A garganta aperta, os pensamentos martelamse na cabeça.

Obrigado por o aceitares, por não o entregares. diz, exausto. Amanhã levo-lhe os documentos. Mas agora vamos embora. Tenho muito a aprender. Oito anos do meu filho perdidos. Não quero perder outro minuto.

Ele segura a mão de Tiago e dirigemse para o carro.

Perdoame, filho nem sabia que tinha um menino tão maravilhoso

Tiago o olha sereno e responde:

Sempre soube que o Vasco não era o meu pai de verdade. Quando a mãe falava de mim, mencionava outro homem. Sabia que um dia nos encontraríamos. E aqui estamos finalmente.

Rui ergue Tiago nos braços, chorandode alívio, de dor, de um amor que quase se despedaça.

Perdoame por ter demorado tanto. Nunca mais te deixarei.

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— Senhor, hoje é o aniversário da minha mãe… Quero comprar flores, mas não tenho dinheiro suficiente… Comprei um buquê para o menino. Mais tarde, ao visitar o túmulo, encontrei o mesmo buquê lá.
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