Falha no Sistema

Falha do sistema

Patrícia, estás em casa?

Hugo, sabes perfeitamente que ao domingo de manhã estou sempre em casa.

Então abre a porta.

Espiei pelo óculo durante três segundos. O meu irmão estava no corredor, casaco aberto, duas malas grandes aos pés, e uma expressão de quem acabou de perder um debate importante. Atrás dele, dois vultos um mais alto, outro mais baixo. Fechei os olhos, inspirei fundo, tornei a abrir. Continuavam ali.

Rodei o fecho da porta.

Bom dia, disse o Hugo, com aquele sorriso que lhe conheço desde criança. Sorriso de quem vem pedir um favor.

Nem penses, atirei eu.

Ainda não disse nada.

Estás a sorrir dessa forma. Portanto, não.

O Martim esgueirou-se por entre o pai e postou-se à minha frente, a olhar de baixo para cima. Tem seis anos, cabelo despenteado e um atacador todo sujo a arrastar-se pelo chão. Ao lado, a Matilde agarrava um coelhinho de peluche já só com uma orelha e encarava-me com a serenidade curiosa típica das crianças de quatro anos sem ponta de receio.

Olhei de relance para o soalho: carvalho claro, acabamento Nórdico da Lusomadeira, instalado havia três meses por um daqueles mestres que só aparecem ao fim de mês e meio de espera. O atacador do Martim trazia qualquer coisa castanha. Preferi não perguntar o quê.

Entrem, cedi. Mas tirem logo os sapatos.

O apartamento, oitavo andar do condomínio Coroa do Norte, era o meu verdadeiro troféu. Não era o título de diretora comercial na Design & Espaço, nem o carro, nem sequer o saldo bancário; era o apartamento. Cento e quatro metros quadrados, tetos a três metros, janelas do chão ao teto, vista para o parque da cidade. Passei dois anos a decorá-lo, a experimentar candeeiros, experimentar cortinas até descobrir o azul-pó certo, que ao fim da tarde ficava quase cinzento. O sofá largo e cinzento, de encosto alto, era da Lusomadeira. A mesa de centro, maciça, tinha uma fissura subtil que o vendedor elogiou como personalidade da madeira, e que ao início me incomodou mas aprendi a gostar. Nada estava a mais. Nenhum tralha nos parapeitos. Os cremes organizados por altura na casa de banho, as toalhas todas iguais, cabides de madeira, tudo de propósito.

Esta era a vida que escolhi, detalhe a detalhe. O silêncio era absoluto só se ouvia o funcionamento do exaustor Briosa na cozinha e, de vez em quando, a chuva murmurando no vidro.

O Hugo largou as malas no hall. Os miúdos tiraram os sapatos. O Martim não tardou a pôr a mão nua na parede branca.

Martim, avisei.

O quê?

As mãos.

O miúdo olhou para a mão, depois para a parede, de volta para mim.

O que é que se passa com as mãos?

Inspirei e expirei durante três segundos cada, exercício estratégico que aprendi num workshop de gestão de stress.

Hugo, despacha-te.

O meu irmão foi para a cozinha, sentou-se no banco alto do balcão, entrelaçou as mãos. Tinha ar de capitulação.

Eu e a Inês vamos para um turismo rural, oito dias. Precisamos conversar. Mesmo. Mas com crianças é impossível.

E não tens alternativa?

A mãe está nas termas até sexta-feira, sabes. Os pais da Inês estão na aldeia, em isolamento por causa de um vírus qualquer, não podemos levar miúdos. Patrícia. Só te peço isto. Oito dias.

Oito dias… repeti.

Ou nove, vá. Voltamos no próximo domingo.

Da sala veio um som. Discreto, mas inconfundível. Algo caiu.

Matilde, não toques em nada! gritou Hugo, já habiutado, nem virou a cabeça.

Hugo. Falei baixinho, que aprendi que tem mais efeito. Trabalho em casa. Na quarta tenho uma apresentação online para clientes de três cidades. Não entendo nada de miúdos. Não sei o que comem, nem o que querem ouvir, nem como os deitar.

Comem tudo menos cebola. O Martim não come tomate, mas adora sopa de tomate se não lhe disseres o que leva. Falam de tudo, não são esquisitos. A Matilde adormece com o coelho, o Martim precisa de ouvir uma história tem um livro na mala.

Hugo…

Patrícia. Olhou-me nos olhos. E fui atingida por algo que não era pena. Um peso, cansaço, resignação. Se não formos agora, não sei o que será de nós. Não sei.

Fiz silêncio. Um, dois, três. Olhei o parque lá fora.

Oito dias, disse.

Obrigado.

Não agradeças já. É bem capaz de te ligar daqui a três horas.

Estou sempre contactável. A Inês também.

O Hugo saiu rápido demais, de quem teme ser travado. Beijou os filhos, disse-lhes que a tia era a melhor do mundo, deixou instruções manuscritas na bancada. Quinze minutos depois, a porta fechou atrás dele.

Fiquei no hall.

O Martim e a Matilde encaravam-me.

Reparei que me olhavam com expectativa.

Então… disse eu.

Então, devolveu o Martim.

Têm fome?

Quero sumo, disse a Matilde.

De quê?

Cor-de-laranja.

De laranja?

Não. Cor-de-laranja. O que é cor-de-laranja.

Abri o frigorífico. Havia duas águas minerais, tupperware com legumes cortados, iogurte natural e meia garrafa de vinho branco. Nunca existira sumo para crianças naquele frigorífico nunca me tinha sequer passado pela cabeça que pudesse ser necessário.

Vamos ao supermercado, anunciei.

Boa! gritou o Martim, de estalo. O eco percorreu toda a sala três metros de altura fazem maravilhas à acústica.

Fiz uma careta.

O supermercado ficava no prédio ao lado, cinco minutos a pé. Nesses cinco minutos, a Matilde deixou cair o coelho quatro vezes, o Martim carregou todos os botões do elevador, incluindo o de emergência, e contou-me a história do Tiago da sua sala, que sabia cuspir a dois metros. Descobri mais sobre o Tiago do que queria.

No supermercado comprei quatro tipos de sumo, leite, pão, iogurtes de morango, massa, hambúrgueres de frango embalados, maçãs, bananas e bolachas coloridas que o Martim enfiou no cesto quando eu via os queijos. Não as tirei. Foi uma pequena concessão, coisa que há uma semana não me teria permitido.

O primeiro dia correu relativamente calmo. Tirando quando a Matilde derramou sumo cor-de-laranja na mesa de centro e o Martim se magoou no ombro ao correr e chorou cinco minutos. Não sabia bem como acalmar miúdos. Dei-lhe um copo de água e disse que ia passar era o que sempre dizia a adultos, e funcionou. O Martim bebeu, fungou, e foi ver desenhos animados no tablet que o pai trouxe.

Recusaram-se a dormir às nove, às dez e às dez e meia. Às onze menos meia li ao Martim, quase a dormir, o livro do urso que procura framboesas duas vezes, porque pediu. A Matilde já dormia profundamente no sofá, com o coelho abraçado. Fiquei a olhar quinze segundos, depois levei-a ao quarto de hóspedes. Era leve, quente, como um solzinho pequeno. Não acordou.

Na cozinha, preparei chá de camomila, sentei-me ao computador. Faltavam três dias para a apresentação. Precisava de acabar dois slides e ensaiar o início.

Bebi o chá sem conseguir concentrar-me.

De manhã, acordei exactamente às seis e trinta e sete. Sei porque olhei para o telemóvel Briosa nesse preciso momento ouvi estrondo na sala.

O Martim levantou-se primeiro e quis construir uma muralha com todas as almofadas do sofá Lusomadeira. Quatro estavam no chão, a manta também; o Martim sentado no meio da fortaleza, a comer bolachas que não sei como apanhou na segunda prateleira do armário. Migalhas por todo o lado.

Bom dia, disse ele, cheio de vida.

Bom dia.

Sabes fazer panquecas?

Fritas?

Sim, aquelas redondas, com xarope de ácer.

Não tenho xarope.

Que pena.

Acabei por fazer papas de aveia. O Martim comeu sem reclamar. A Matilde acordou às oito, veio para a cozinha com olhar sonolento, sentou-se:

Quero papas como o Martim.

Pensei: não está a correr mal.

A cheia foi na terça-feira, às duas da tarde.

Sentada à secretária, montava a apresentação. Os miúdos brincavam na casa de banho, a lançar barquinhos de papel feitos de contas velhas que o Martim encontrou na mesa-de-cabeceira. Pareceu-me seguro. Banheira com água, portas abertas.

A paz durou vinte minutos.

Não estranhei de imediato. Acabei o slide, fui buscar água e então vi algo brilhoso a sair da casa de banho e alastrar pelo corredor.

Ai não… murmurei, naquela voz que aparece quando já é tarde.

A torneira da banheira soltava água ao máximo. Qualquer distração, e, segundo o Martim, foram ver TV. Os barquitos entupiram o ralo, mas o navio maior ficou mesmo ali a fazer barreira. A água escorria pelo chão já há uns bons dez minutos.

Fechei a torneira, inspirei fundo.

Toquei à porta vinte minutos depois. Justo quando torcia uma toalha ensopada com esperança de salvar as pantufas de lã Natural.

Quem é?

Sou o vizinho de baixo. Sétimo andar.

Abri. Um homem de uns quarenta, alto, cabelo rebelde, jeans e camisola azul-escura. Rosto sereno. Tinha na mão o telemóvel a mostrar a foto do teto húmido, mancha a espalhar-se junto ao candeeiro.

Sou o Renato, do setenta e dois.

Patrícia, oitenta e quatro. Suspirei. Já sei o que foi. Os miúdos, claro.

Percebi. Guardou o telefone. Precisa de ajuda?

Olhei-o, esperando a tradicional conversa: que aquilo não se faz, que ia chamar o condomínio, inaceitável, ia para tribunal. Estava pronta.

Disse… ajudar?

Pelo barulho, ainda tem água. Tenho uma esfregona decente, daqueles de rosca, e secador industrial.

O Martim apareceu atrás de mim:

És o vizinho de baixo? Foi por nossa causa que ficaste com água?

Foi, anuiu o Renato. Não disse nada de maldoso, só inclinou a cabeça e perguntou: E os barquitos navegaram bem?

Ótimo! exclamou o Martim. Até fiz um porta-aviões!

Isso é importante.

Entre, convidei, sem razões para deixá-lo no corredor.

O que se passou na hora seguinte é nebuloso. O Renato trouxe a esfregona, ajudou mesmo a tirar a água, sem pressa, sem críticas. Deixou o Martim espremer a mopa missão importante! A Matilde assistia da porta, apontando cantos húmidos, sempre com razão surpreendente para a idade.

O teu teto ficou mesmo estragado? perguntei, assim que acabámos.

Só um pouco. A pintura já andava velha. A mancha seca.

Pago-lhe o arranjo.

Logo se vê, deu de ombros, sem tom de ameaça um veremos de alguém prático. Está há muito com crianças?

Segundo dia.

São seus?

Sobrinhos. Não tenho filhos.

Acenou. Observou o Martim, já entretido a mexer nos botões do comando TV.

Pois, disse. Então um conselho: ponha uma tampa no ralo da banheira, vendem em qualquer drogaria. E feche melhor a torneira.

Anotado.

Boa sorte então. Pega na esfregona. Já à porta, parou. Se precisar, estou no sétimo. Não hesite.

Como consegue ser tão calmo?

Pensou um segundo.

Se gritasse, o teto não secava mais rápido.

Foi-se embora. Encostei-me à porta, exausta. Lá fora o pôr do sol. Na cozinha, a Matilde exigia metade das bolachas ao Martim. Ele embirrava.

Fui lá e dividi as bolachas, em silêncio.

Ambos olharam para mim com respeito.

Na quarta de manhã preparava-me para a apresentação. Miúdos na sala, tablet carregado, pratos com maçã cortada e bolachas na mesa. Tudo parecia controlado.

A apresentação começou às onze. Secretária, portátil, auriculares, blazer por cima da t-shirt. Sete pessoas, três cidades distintas. Primeiros minutos, tudo bem. Novidades da Lusomadeira, preços, questões respondidas.

Na décima sexta minuto, a porta abriu-se.

Tia Patrícia! gritou a Matilde, numa voz que se ouviu no prédio todo. O Martim roubou o meu coelho!

Matilde, estou a trabalhar.

Ele disse que o coelho era feio!

É feio! ecoou.

Desculpem, um segundo só, disse aos colegas, sorrindo forçado.

Parei a reunião, fui à sala. O Martim segurava uma orelha, a Matilde o corpo do coelho. Puxavam cada um para seu lado.

Deixem o coelho, pedi.

Largaram-no. A Matilde agarrou-o e abraçou-o.

Martim, consegues ver desenhos em silêncio?

Aqueles acabaram.

Mete outros.

Qual?

O próximo.

Está com anúncios.

Olhei-o. Ele olhou-me. Peguei no comando, pus o canal infantil onde algum bicho falante animava. Voltei ao gabinete.

Oito minutos depois, nova interrupção. O Martim entra calado, fica do lado.

Enquanto falava, lançava olhares; ele ali parado.

Preciso ir à casa de banho, declarou, para junto da câmara.

O gestor de Lisboa riu alto. Os outros seguiram-lhe o exemplo. Corada, continuei, como não ficava há quinze anos.

Martim, sabes onde é, não sabes?

Sei. Só queria avisar.

Então vai.

Seguiu. Voltei aos clientes. A formalidade morreu, mas o interesse aumentou. O colega de Coimbra confessou ter três filhos e saber bem como era. O representante de Aveiro gostou da nova coleção. Marcámos novo encontro.

Fechei o portátil, deixei-me estar uns minutos, passiva.

Não estava zangada, estranhamente. Esperava aborrecimento e nada.

Fui fazer sandes de queijo para os dois. O Martim gostou; a Matilde comeu metade, a conversar com o coelho.

Toquei à porta pelas quatro.

Trouxe a tampa, disse o Renato. Para a banheira.

Mostrou-me o saco com a peça.

Trouxe-a de propósito?

Ia comprar pão.

Entre.

Não planeei. Mas saiu-me. Entrou, tirou os sapatos no hall. O Martim apareceu logo, entusiasmo genuíno:

Ah, é o senhor que ajudou!

O mesmo, anuiu o Renato.

Secou? O teto?

Quase. Mais uns dias.

Então está bem. O Martim sorriu orgulhoso. Sabe jogar Jenga? Tenho na mala.

Sei.

Então venha.

O Renato sentou-se na mesa de centro, com uma torre de blocos de madeira entre o Martim e a Matilde (que só fazia de guarda-redes, coelho ao colo.) Jogava com seriedade, respeito, e os miúdos sentiram isso.

Estava na cozinha, a fingir que cozinhava só observava.

Com jeito, ensinava o Renato, puxa aqui à esquerda.

Como sabes?

As torres têm sempre pontos fracos. Só é preciso encontrar.

Na vida também é assim? lançou o Martim, surpreendentemente filosófico.

O Renato ficou a pensar.

Parecido, respondeu.

Jantámos juntos. O Renato ficou sem dar por isso, ajudou a fritar os bifes e cortou o pão, de forma exata, porque percebeu que eu ia fazer pior e ficou mais bonito.

Está cá há muito?

Três anos. Vi quando mudaste. Entregas de mobília e tal.

Atento.

Coincidiu, ia sair para o trabalho.

Trabalhas em quê?

Gabinete de arquitetura. Projetos estruturais, coisas chatinhas.

Porque chato?

Ninguém pergunta se ficou bonito. Só se aguenta.

Mas isso é o mais importante, disse.

Olhou-me como quem não esperava.

É, sim.

Os miúdos adormeceram às nove, sem birra. O Renato acabou o chá, agradeceu, levantou-se.

Boa noite, despediu-se no hall.

Obrigada. Pela tampa. Por terça-feira.

Olhou-me, com uma pausa.

Tens-te saído bem, disse. Para quem é a primeira vez.

Como sabes?

Se não fosse, não tinhas ar de quem transporta cristal a medo.

Ri-me. Com vontade autêntica.

Foi-se embora. Fiquei no hall. O casaco azul-marinho da Matilde pendurado. O do Martim ao lado. O meu uns centímetros afastado, como a medo.

Quinta e sexta correram diferente. Relaxeio, deixei de estremecer com cada barulho. O ritual do pequeno-almoço tornou-se familiar. A Matilde gostava de desenhar sentada ao pé de mim, a usar o meu bloco de notas. Desenhava famílias de coelhos, todos com nome.

Esta é a mãe coelha, dizia baixinho. Este o pai coelho. Este o pequeno, chama-se Botão.

Botão porquê?

Porque é pequeno e redondo.

Faz sentido.

Na sexta, o Renato apareceu outra vez. Trouxe um daqueles jogos antigos Cidades do Mundo. As crianças não conheciam nenhuma, mas jogavam como se soubessem.

De onde veio isso?

Da infância. Vim com tralhas, não sei porquê.

Ainda bem.

Jogámos no chão mal recordava desde quando não fazia isto. O soalho liso, fresco, Matilde a encostar-se a mim e adormecer no processo. Dei por mim a segurá-la.

O Renato percebeu, mas não disse nada.

No sábado, fomos ao parque. Ideia do Renato e deixei. Era o parque que via das janelas. O Martim meteu-se na lama, apesar dos avisos. Trouxe os sapatos a pingar no saco, o Martim a andar de meias molhadas e feliz.

Não te incomoda?

O quê?

Sapatos molhados.

Secam.

És como o Renato, saiu-me.

O Renato é fixe, anuiu o Martim. Tia Patrícia, é teu amigo?

É meu vizinho.

É igual?

Não.

Porquê?

Não soube responder.

Atrás de nós, o Renato levava a Matilde ao colo e falava com ela de árvores, didático, e ela ouvia como quem aprende.

Domingo de tarde, o Hugo telefonou. A voz diferente, menos cansada.

E eles?

Vivos. O Martim foi à lama. A Matilde desenhou quarenta coelhos.

Riu-se.

Estás a safar-te.

Mais ou menos. E vocês?

Pausa.

Muito melhor. Obrigado.

Ainda bem. A sério.

A segunda semana correu tranquilo. Já sabia que o Martim não tocava tomate, mas adorava sopa se nada dissesse. Que a Matilde queria sempre a janela entreaberta para dormir. Que às sete e meia rebentava a birra, hora de oferecer sesta. Pequenas sabedorias, nasciam sozinhas.

O Renato vinha sempre ao fim do dia. Às vezes trazia coisas; outras, só vinha. Falávamos sobre o trabalho, a cidade, livros. Lia muito surpreendente para um engenheiro. Eu lia pouco tempo.

O que está a ler?

Nada. Só papéis de trabalho há meses.

Isso não conta.

Eu sei.

Trago-lhe um livro?

Traga.

Trouxe um romance japonês, mulher a arrumar coisas da mãe falecida e a descobrir uma vida desconhecida. Lia-o nos primeiros trinta minutos depois das crianças adormecerem. Eram os melhores minutos do dia.

Quinta-feira, o Martim pediu, curioso:

Mostra-me onde trabalhas.

Não percebi.

Aqui, no gabinete.

Mostra.

Mostrei. Ele observou o portátil, as revistas da Lusomadeira, o cato na janela.

És feliz?

Em que sentido?

No trabalho.

Sim, acho que sim.

O pai diz que é preciso trabalhar para ser feliz. Senão para quê?

O pai é esperto.

É. Tia Patrícia, porque moras sozinha?

Porque acabou assim.

Não querias companhia?

Habituei-me sozinha. Era bom.

Era?

Era.

O último dia chegou sem dar por ele. O Hugo chegou ao domingo à uma, com a Inês, de rosto sereno. Abraçou os filhos longa e demoradamente. A Matilde não a largava.

Patrícia, não sei como agradecer.

Não precisas.

Portaram-se bem?

Portaram-se como crianças, sorri. Está tudo certo.

A Inês olhou-me, surpresa.

A despedida demorou. A Matilde choramingou, abracei-a e garanti-o que voltaria. O Martim despediu-se de mão séria enternecedor depois atirou-se a mim, abraço dos bons, e fugiu para o pai.

A porta fechou.

Fiquei no hall.

O casaco da Matilde já não estava. O meu, pendurado sozinho.

Quarto em silêncio.

Fui à sala. A almofada do Martim na manhã estava amarrotada no sofá. No chão, ao pé da mesa, ficou um dos desenhos esquecidos pela Matilde. Uma família de coelhos: pai, mãe, o pequeno Botão. Ao lado, uma tia Patrícia de cabelo amarelo. Assim mesmo, escrito à mão infantil.

Peguei e segurei-o, vários minutos.

Depois fui à cozinha. Enchi o fervedor de água filtrada, chávena preferida. Tudo limpo, impecável, silencioso. Como sempre gostei.

Esperei pelo alívio que vinha sempre depois de visitas barulhentas, ou viagens, ou qualquer coisa que destruísse a rotina. Alívio de regressar a mim.

Desta vez, não veio.

Apenas o desenho na mão. Apenas o silêncio, agora diferente. Não paz, mas uma pausa de música. Quando a música termina, e ainda não decidimos o que sentir.

Sentei-me na cozinha, chá na mão, a olhar o parque em frente.

Pensava.

O Martim a perguntar se era feliz. A Matilde, adormecida a meu lado. O gabinete antes e depois de lhe mostrar. E o Renato.

A maneira como cortava o pão direito. O seu sossego que era mais do que indiferença era estabilidade, como uma viga. Ia lá todas as noites, nunca exigiu nada. Apenas estava.

Pensei que em nove dias, nunca acordei preocupada com o trabalho. Estranho. O stress fora sempre uma constante.

Às seis, levantei-me, lavei o rosto. Vesti o meu casaco azul-marinho estava bonita nele, achava eu. Peguei no telemóvel, larguei, voltei a pegar.

Não liguei. Fui até ao sétimo andar, toquei à campainha do setenta e dois.

O Renato abriu rápido. Viu-me. Não parecia surpreendido, só atento.

Foram-se embora, disse.

Ouvi a porta.

Ficou um silêncio enorme.

Talvez.

Quer vir beber um chá? Acabei de fazer, já deve estar frio, mas faço de novo.

Pausa.

Quero.

Subimos. Pus de novo o fervedor. Sentou-se no banco de bar, igual ao Hugo no primeiro dia. Era outro homem, outro momento.

Sabia que hoje não tenho obrigações pela primeira vez em nove dias? Não faço ideia o que fazer com isto.

Isso é bom ou mau?

Não sei. É diferente, estranho.

Vai-se habituar ao novo estranho.

O que é o novo estranho?

Primeiro estranho foi viver só. Agora, o novo estranho. Habituamo-nos.

Fala como quem já passou por isso.

Levantou os olhos.

Fui casado. Seis anos. Depois, não. Há três anos que não.

Lamento.

Não. Já estava na direção certa. Eramos bons, mas não juntos. O pior foi o silêncio a seguir. É diferente silêncio sem alguém e silêncio com alguém.

Olhei para a chávena.

Sempre pensei que silêncio era liberdade. Que estar só era escolha.

É, mas também se pode rever a escolha.

Reveram a sua?

Estou a rever. Sorriso de lado. Com ajuda dos miúdos vizinhos e das suas inundações.

Ri-me. De coração.

Renato.

Sim.

Eu Parei. O momento certo para recuar. Ou não recuar. Habituada a mudar de assunto. Mas não desta vez. Gosto de si. Quero que saiba.

Olhou-me.

Ainda bem, disse, quente. Porque eu também gosto de si. Pensei nisso.

Há muito?

Desde o dia em que perguntou porque era tão calmo. Ninguém tinha perguntado.

É uma razão estranha.

Tenho razões estranhas.

Ficámos a conversar até às onze. Sobre o trabalho de ambos; como é a cidade vista do oitavo, do sétimo; sobre os miúdos, o silêncio, os coelhos no desenho. Não saiu depressa, nem eu apressei.

Ao sair, apertou-me a mão, só por um instante.

Boa noite, Patrícia.

Boa noite.

Fechei a porta, encostei-me, como na primeira noite. Mas agora era outro silêncio. Quente.

Na sala, peguei o desenho da Matilde e pus na estante, encostado à jarra. A família coelho olhava para mim. A tia Patrícia também, de cabelo amarelo.

Passou um ano.

A casa mudou, mas subtilmente. Na prateleira de baixo da estante estavam livros de criança, restos das visitas dos sobrinhos. No parapeito, além do cato, três vasos novos um torto, que a Matilde ajudou a regar. No cabide, dois casacos: o meu, azul; um masculino, cinzento.

Na mesa da sala, ainda com o veado na madeira, estava um catálogo do Renato, aberto em projetos. A chávena de café, meio bebida, e um livro com marcador.

Eu observava o parque agora outonal, matizado. Adorava o parque no outono.

O ventre já se notava, ainda pequeno. Cinco meses. Habituava-me devagar, cada dia um pouco como a tudo que parecia impossível e depois se torna o mais normal e o mais importante.

A porta abriu.

Estão a chegar, disse o Renato, entrando na cozinha. O Hugo mandou mensagem.

Meia hora, aí estão.

O Martim ligou-te?

Três vezes. Disse que queria ver desenhos antes de sairmos ou se íamos já ao parque.

Dá para os dois.

Disse-lhe isso.

O Renato pôs a chaleira no fogão. Olhou para mim.

Estás bem?

Estou. As pernas pesam. Mas estou.

Senta-te.

Estou.

Patrícia.

Já me sento.

Sentei-me no sofá. Sabes, pensei hoje: há um ano, domingo, foram embora. Fiquei na cozinha com o fervedor, à espera que me sentisse aliviada pelo silêncio.

E?

Nunca aconteceu.

Vieste cá.

Estavas à espera?

Pensou um pouco.

Não sei. Talvez esperançoso.

Toquei à porta. Forte, persistente só crianças pequenas conseguem assim, carregando no botão como se de entusiasmo se tratasse.

É o Martim, ri-me.

Claro que é.

Vai lá abrir. Custa a levantar.

Renato foi ao hall.

Tia Patrícia! ouvi-se Martim Chegámos! Vamos ao parque? Está cheio de folhas? A tua barriga cresceu?

Martim, a voz do Hugo, deixa-nos entrar!

Eu já entrei!

A Matilde veio discreta, correu os olhos, procurou-me, veio abraçar-me em silêncio, firme, quase adulta. Depois afasta-se um pouco.

Tia Patrícia, o coelho ficou?

Ficou. Lá na prateleira da sala de hóspedes.

Bem. Sabia.

No hall, havia bulício. O Hugo abraçava o Renato, a Inês conversava comigo sobre a viagem, o Martim andava pela casa, barulho e queda pelo caminho. Depois voltou com o livro do urso e da framboesa na mão.

Guardaste o nosso livro!

Guardei.

Vais ler ao bebé?

Vou.

Bem. Assentiu, satisfeito, como quem confirma se está tudo nos eixos. Renato, vamos ao parque? Tem folhas?

Tem.

Então vamos.

Primeiro chá, disse. Depois parque.

Dizes sempre o mesmo.

E hei de dizer.

Pronto, aceitou. E olhou diretamente para mim, com aquela sinceridade fiel a mesma de sempre. Patrícia, agora és feliz?

A casa cheia de vozes, a Inês a rir, a Matilde a chamar o coelho no quarto, a chaleira ao lume, o bulício do mundo lá fora, o outono do parque, e o bebé, tão pequeno e ainda desconhecido, a mexer-se.

Olhei para o Martim.

Sim, respondi.

Оцініть статтю
Додати коментар

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!:

20 + 3 =