Resolve Tu Mesma

Desenrasca-te

Rui, o carro parou. Mesmo na Avenida dos Aliados. O telemóvel está quase sem bateria, estou a ligar do de uma desconhecida.

Ela segurava o telefone com as duas mãos. Os dedos dentro das luvas de pele fina já mal se mexiam do frio. O vento da tempestade arrastava a chuva gelada pela calçada, embaciava vitrines, cortava os olhos. Mariana parou à porta de um cabeleireiro, na Baixa do Porto, cuja dona, ao vê-la de cara perdida e casaco caro, estendeu-lhe o telefone em silêncio, sem perguntas.

Rui, ouves-me?

Ouço. O tom dele era neutro, igual ao de quem dita um recado à secretária. Estou numa reunião, Mariana.

Eu percebo, mas preciso de ajuda. Pelo menos diz-me para que número ligar para o reboque. Estou sem contactos porque o telemóvel pifou.

Pausa de três segundos. Mas foi o suficiente para Mariana adivinhar o que ele fazia: olhar de lado, franzir o sobrolho, pensar em como despachar a chamada.

Mariana, não posso agora. Desenrasca-te. Já és uma mulher feita.

Desligou.

Ela ainda ficou de telefone no ouvido uns segundos, até o devolver à dona do salão, uma senhora de talvez cinquenta anos, baixa, enfiada num avental azul, cigarro apagado na mão.

Obrigada murmurou Mariana, devolvendo-lhe o telemóvel.

Conseguiu falar?

Sim.

Saiu de novo para o passeio. A chuva fria entrou pelo colarinho, pelas mangas, pela abertura entre o cachecol e a cara. O casaco era bom, daqueles comprados em saldos em Lisboa, mas o frio não respeitava etiquetas. O carro estava estacionado a uns metros. Telefone morto. Reboque não chamado. Ir a pé para casa dava quarenta minutos e isso se não estivesse a chover assim. Havia uma paragem de autocarro ali perto, ao virar da esquina.

Foi para lá.

Por dentro, algo encolheu. Nem era raiva, nem magoar. Só aquela certeza pequena e quieta de que não se pode contar com ninguém. Já conhecia aquela sensação. Aparecera devagar, com os anos camada a camada, como calcário num bule, até um dia perceber que já não sentia o mesmo sabor de antes.

Tinha estado com o Rui durante nove anos. Os dois primeiros foram diferentes. Depois veio a carreira dele, as reuniões, as viagens. Depois os silêncios ao jantar. Depois nem jantares havia, só sandes tiradas da cozinha a horas trocadas. Mariana seguia no seu emprego, num pequeno gabinete de arquitetura, a desenhar remodelações, a visitar obras. Ganhava o seu, coisa de que Rui gostava de gabar: É independente, sim senhora. Desenrasca-te. Já és crescida.

A paragem tinha abrigo pelo menos. Ficou para o canto, longe dos salpicos. Havia pouca gente: dois estudantes, um senhor velho de boina, e uma mulher a apertar a mala de supermercado cheia.

Mariana olhava a rua. A tempestade quase punha a chuva aos golpes horizontais. O candeeiro sobre a paragem oscilava, lançando sombras na calçada. Por trás, ouvia-se o trânsito, abafado.

E foi ali que a viu.

Primeiro foi o casaco. Não a mulher o casaco. Porque o conhecia de cor: até meio da canela, ligeiramente evasé, gola subida com três botões de madeira escura. O pelo era macio, denso, de um castanho quente com reflexos dourados, daqueles que aquecem só de olhar. Tinha sido feito numa oficina pequena em Braga, único, feito por medida.

Oferta do Rui, há um ano e meio.

Tinha sido numa noite estranha, depois de uma discussão feia, daquelas com portas a bater e palavras cortantes. Quando Mariana já achava que era o fim, ele apareceu em casa com uma caixa, fita encarnada. Sempre foi desajeitado para dar presentes: limitou-se a aguardar ao lado, a olhar para a janela, enquanto ela abria. Mas o casaco era perfeito bonito, quente, pensado para ela. Mariana vestiu-o logo ali, no hall. Algo lhe aqueceu por dentro. Pensou: Então ele lembra-se. Talvez ainda haja esperança de algum calor por baixo do gelo.

O casaco desapareceu seis meses depois. Do carro, no parque do Norteshopping. Mariana distraiu-se, deixou a mala em cima do banco de trás, com o casaco encaixado. Voltou dez minutos depois mala, documentos, telemóvel suplente, e o casaco sumidos. O Rui na altura só disse: Tinhas de ter mais cuidado. E ficou por aí.

E agora, ali na paragem, o casaco.

Vestido por uma mulher que Mariana nunca tinha visto.

Rapazinha dos seus vinte e oito anos, baixinha, robusta. Cara normal, sem pintar, com as bochechas vermelhas do frio. O cabelo apanhado sob um gorro de lã branca e azul. Luvas baratas, botas gastas. E nos ombros, sem combinar com nada do resto, o tal casaco.

Mariana ficou a olhar. Custa acreditar. Achava que era engano, que eles podiam fazer mais parecidos mas então viu as três botões na gola. A terceira, mais clara. Lembrava-se, porque uma vez a botoneira de cima estava riscada e o artesão trocou por outra de madeira, de tom diferente. Cinco centímetros de diferença. Ela via isso todas as manhãs.

Lá estava a tal terceira.

Onde arranjou esse casaco? perguntou Mariana.

A mulher virou-se. Olho direto, sereno, de quem foi abordada sem aviso.

Desculpe?

O casaco. Quero saber onde o conseguiu.

É meu.

Não respondeu Mariana, mais calma do que pensava. Era meu, foi roubado há um ano. Peço-lhe que me explique como lhe veio parar às mãos.

A mulher encarou-a. O senhor de boina desviou-se. Os estudantes fingiram que não ouviam.

Engana-se, comprei-o.

Onde?

No Mercado da Ribeira. Num stand de artigos em segunda mão.

E não lhe pareceu estranho venderem uma peça destas por meia dúzia de trocos?

A mulher mostrou uma crispação. Não medo. Mais o esforço de se conter.

Paguei o preço pedido. Foi uma compra honesta.

De um artigo roubado atirou Mariana.

Ficaram frente a frente. A mulher segurava um saco de supermercado.

Olhe disse ela após uma pausa. Percebo que esteja incomodada. Mas aqui não conseguimos provar nada, nem eu nem a senhora.

Posso chamar a polícia.

Faça-o então respondeu, já derrotada na voz. Chame.

O saco dela descaiu, deixando à vista um gorro pequenino, de criança, em lã azul com pompom.

Tem filhos? perguntou Mariana.

Um. Tem cinco anos. Está no infantário agora. Pausa. Se quiser continuar isto, ao menos vamos ali à pastelaria. Fala de lá para a polícia se preferir.

Mariana olhou o café do outro lado da rua, letreiro a dizer Convívio, as cortinas de renda, um calor convidativo que parecia faltar-lhe.

Entraram.

O café era pequeno, oito mesas, bancos corridos junto à janela, jarros com malmequeres falsos nos peitoris. Cheirava a bolo de canela acabado de sair. Só duas mesas ocupadas: um casal idoso, um homem ao computador de lado.

Sentaram-se ao pé da janela. O vidro quase opaco por causa do tempo, só se via o vulto dos prédios.

A mulher tirou o gorro, os cabelos castanhos presos num nó na nuca. Mãos calejadas, unhas lascadas, rachaduras vermelhas nos nós dos dedos. Mãos de quem trabalha mesmo.

Veio a empregada. Mariana pediu um café. A mulher pediu chá, e, quase envergonhada, uma torrada se houvesse.

Ficaram caladas até virem as bebidas. Depois, Mariana perguntou:

Como se chama?

Inês.

Eu sou Mariana. Conte-me desse mercado, do casaco.

Inês abraçou a chávena para se aquecer.

Vim para o Porto em setembro. Precisava de emprego e casa. Só trouxe o dinheiro que consegui poupar em uns meses. Arranjei vaga de auxiliar de ação médica no Hospital de Santo António. Um quarto pequeno, mas limpo e dono decente. O miúdo entrou ao fim de uma semana no infantário.

É o seu filho? Como se chama?

Sim. Martim.

E o pai dele?

Inês sorriu sem alegria.

Ficou. Já não estamos juntos.

Mariana assentiu e não forçou o tema.

E o casaco?

Em novembro passei naquele stand dos usados. Normalmente não olho não tenho dinheiro para luxos. Mas esse casaco… toquei-lhe, vi logo que era especial. O vendedor pediu cento e oitenta euros. Era muito barato. Nem quis saber de onde vinha. Sei que não devia, mas comprei-o. Não tinha casaco de inverno, só um de entremeio. Com o miúdo às costas, as madrugadas frias… Era quase graça.

E usou?

Usei. Depois, claro que fiquei a remoer. Mas na altura… só pensei que pelo menos não passava frio.

Mariana bebia o café devagar. Havia algo naquela honestidade crua de Inês, sem dramatismos, que não a deixava continuar irritada como antes.

Trabalha no hospital. Muito pesado?

Sim. Turnos, horários trocados. Mas o grupo é bom, isso conta muito. E o infantário é perto de casa.

E as noites?

Uma vizinha ajuda. Dona Rosa, reformada simpática, cuida do Martim.

Mariana ouvia, pensando que não havia nada de especial naquela história tantas mulheres no Porto passavam pelo mesmo. Mas aquela maneira de Inês falar, com dignidade, impressionava.

Veio de onde?

De Viana do Castelo. Pequeno, só umas fábricas e um hospital. Deixei lá tudo, mas não dava para ficar.

Aquela resposta seca, sem detalhes.

O Martim conheceu o pai?

Viu-o no verão. Já aqui, não. Não quero que cresça a pensar que é normal certas coisas. Tinha de sair de lá.

Tanto silêncio, só o ruído dos talheres, a música baixa do café. Mariana viu o casaco de Inês pendurado na cadeira. Impecável, pelo limpo, as três botões, a tal terceira de cor diferente.

Cuida bem dele comentou Mariana.

Cuido. É a coisa mais valiosa que já tive. Comprei uma escova própria, passo-o antes de arrumar.

Fica-lhe bem.

Inês não estranhou o comentário.

Fica. Não só porque é quente. Porque, quando chego ao hospital, sinto que sou tratada como igual. Não melhor, não pior. Não me sinto invisível.

Mariana pousou a chávena.

Percebo. Mesmo.

Inês olhou-a, mais branda.

E gosta do que faz, Mariana?

Mariana pensou tanto tempo a não pensar nisso. Fazia o seu trabalho bem, com atenção, mas sem levantar questões.

Sim. Gosto do que faço no gabinete. É o que me traz prazer ainda.

Inês acenou.

O meu trabalha não tem nada de leve, mas as colegas são boas. Isso segura.

Lá fora, só o recorte dos candeeiros, chuva obstinada. O tempo passava. Mariana não consultou o relógio raro nela, esse desprendimento.

De repente, perguntou:

E que vai fazer se ficar sem este casaco?

Tenho uma gabardina fina. Tanto faz, já passei por pior devolveu Inês.

Mariana olhou para o casaco. Estava a pensar não na posse, nem no princípio, mas na pergunta para quê?. Era mesmo para o reaver ou apenas para não perder nada do que já não tinha?

Pensou no telefonema a Rui. Desenrasca-te. Sentiu o silêncio do café, a honestidade de Inês a falar do filho. Lembrou-se de quando vestiu aquele casaco pela primeira vez, de todo o calor, ilusório como se veio a provar.

Inês, fique com ele.

Inês ficou a olhar, boca entreaberta.

Sério?

Sim. Não é por caridade. Precisa dele mais do que eu, faz-lhe melhor uso.

Não posso aceitar…

Já pagou. E foi honesta.

Silêncio. Inês baixou o olhar.

Porquê?

Porque para si significa o início de outra vida. Para mim, significava só o fim de algo que já não existe. Que o casaco fique onde tem mais valor.

Inês assentiu. Não agradeceu exaustivamente, mas sorriu um gesto pequeno, verdadeiro.

Ficaram mais algum tempo. Pediram outra chávena, conversaram sobre trabalho, sobre corredores escuros nos hospitais, sobre como a luz em determinadas salas muda tudo. Mariana explicou como o espaço pode influenciar quem lá está Inês riu-se, espantada, como quem descobre algo novo.

Enfim, era hora de sair. Inês ia buscar o Martim. Antes de saírem, ofereceu o telemóvel carregado a Mariana para ligar ao reboque.

Caminharam juntas até ao cruzamento, cada uma seguiu para o seu lado. Mariana olhou para trás e viu a figura de Inês, miúda, a avançar contra o vento, o casaco a aquecê-la. Estava como devia estar.

Dirigiu-se ao carro. O frio apertava, as luvas já não aqueciam nada, mas qualquer coisa por dentro dela estava finalmente em silêncio, não era conforto, era uma espécie de aceitação.

O reboque chegou. O condutor, simpático no jeito dos portuenses, deixou-a carregar o telefone, explicou-lhe o procedimento e deixou-a no serviço. Depois, ao táxi para casa.

No interior do carro, olhou o jornal, a avenida, a chuva que agora caía mais tímida. Em casa, silêncio. Rui ainda fora. Mariana tirou o casaco, pôs a água ao lume, sentou-se à mesa da cozinha a olhar pela janela.

Pensava em Inês: a caminho do infantário, levando o Martim pela mão. Imaginava as histórias do miúdo, o gorro de pompom, a energia que não falha. Não perguntou o número dela. Não era encontro que se repetisse. Há encontros assim, ficam como cicatriz discreta.

Ouvia o bule a chiar. Levantou-se, tirou o chá. Quando Rui chegasse, ia dizer-lhe que tinham de conversar. Não sobre o carro, nem contas. Mas a sério. Sabia que ele ia revirar os olhos, ia dizer que estava cansado; ela ia insistir. Já não ia deixar para depois.

Não sabia como seria, nem prometia finais felizes. Só sabia que precisava de falar verdade: isto é o que sinto. Isto é o que preciso.

Na verdade, não quer grandes coisas. Nem roupas caras. Quer alguém que atenda as chamadas. Que tenha um gesto de calor. Que haja jantar juntos de vez em quando, não só sandes esquecidas. Talvez nem seja possível. Talvez só precise de lembrar que merece reclamar isso.

Bebeu o chá devagar, olhando a noite. A chuva já caía menos. Lá fora, a cidade acalmava.

Cá dentro, pensou que naquela primavera queria fazer algo novo. Nada radical, mas seu. Talvez voltar a pintar a aguarela há quanto tempo não punha a mão à cor? Talvez redesenhar o espaço do centro infantil, não só mudar a planta, mas mexer mesmo no conceito. Falar com vontade ao cliente. Ser ela, sem receio.

Acabou o chá, lavou a chávena, olhou o casaco na entrada. Bom casaco, quentinho.

Foi até ao quarto devagar não para esperar. Só para estar.

E isso, agora, bastava.

***

Semanas depois, já em fevereiro, num dia frio mas com o sol prometido, Mariana cruzou-se na Rua de Santa Catarina com uma mulher de casaco parecido. O coração tropeçou um instante, mas logo percebeu que não era Inês apenas uma mulher com casaco semelhante.

Mariana seguiu o caminho. Tinha uma reunião no gabinete do centro infantil. Na pasta levava novas plantas, mais luz, uma sala de brincar sem paredes a sufocar. O cliente ia torcer o nariz, mas ela ia saber explicar.

Ao atravessar as passadeiras, com a chuva finalmente desaparecida, pensou: a vida é isto encontres alguém uma vez, na tempestade, na paragem do autocarro, e essa pessoa não muda nada em ti, só te diz uma verdade por acaso. E tu percebes, finalmente, o que já sabias.

Às vezes basta. Mesmo.

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