Aeroporto Secundário: O Seu Porto Seguro em Situações de Emergência

Aeroporto de Reserva

Ouves-me? O tom de voz dele era baixo, quase culpado. Quase. Beatriz, estou a falar contigo, ouves-me?

Eu ouvia. Sempre o ouvi. Mesmo quando não dizia nada, mesmo quando ficava semanas sem ligar, sentia sempre um eco da presença dele a pairar no ar da minha casa. Como se deixasse para trás qualquer coisa de invisível: o cheiro do café dele, a marca da chávena no parapeito, a cadeira da cozinha ligeiramente deslocada.

Ouço, António.

Então porque estás calada?

Estou a pensar.

Ele suspirou. Esse suspiro também eu conhecia de cor. Pesado, quase a assobiar, como se o ar tivesse de passar por algo apertado lá dentro. O António suspirava assim sempre que queria que lhe tivessem pena, mas não sabia pedir.

Não tenho para onde ir, disse ele. Percebes? Não tenho mesmo.

Estava à janela, a olhar para a rua. Março. Restos de chuva, pombos ensopados empoleirados, uma senhora com carrinho de bebé a tentar fintar uma poça. Era um março banal em Lisboa, nada de especial. E dentro de mim, qualquer coisa virava lentamente, como uma página, ou como a chave na porta.

Sobe, disse eu.

E pronto. Três sílabas. E tudo recomeçava.

O António tinha cinquenta e três anos. Eu, cinquenta e um. Conhecíamo-nos desde que ele andava de camisa de quadrados convictíssimo de que estava na moda, e eu tinha sempre o cabelo em trança, convencida de que passar despercebida era virtude. Apresentaram-nos uns amigos em comum, numa daquelas cozinhas de Lisboa onde se bebe vinho barato e se discute livros que ninguém terminou. O António em tempos era barulhento, a rir e a gesticular, ao ponto de deitar uma travessa ao chão (eu apanhei os cacos e pensei: eis alguém que enche a sala toda só por existir).

Eu era o oposto. Tímida. Daquelas mulheres que só reparas lá pelo fim da noite, mas depois já não esqueces. Ou queria acreditar nisso.

Ele apaixonou-se então claro está , mas não por mim. Pela Mónica. Isto foi tão inevitável como um aguaceiro depois de calor abafado. A Mónica era intensa, falava depressa, ria mais alto, entrava em salas e toda a gente virava. Ao pé dela eu sentia-me aguarela ao lado de óleo sobre tela. Não pior, só diferente.

Eles tiveram aquele romance fogoso, discutiram logo, fizeram as pazes, voltaram a discutir. Andaram nisto durante anos. Mónica fazia cenas, António batia com a porta, depois voltava, depois ia-se embora outra vez. Um ioiô interminável.

E entre um vai e-vem, estava eu. Quer dizer, era eu.

A primeira vez que me apareceu lá em casa, depois de um rompimento, teríamos uns trinta e tal anos. Ligou tarde: Posso ir aí? Eu disse: Claro. Fiz chá de lúcia-lima, enfiei-lhe uns biscoitos à frente, ficámos até altas horas da noite. Ele falava, eu escutava. Nunca foi difícil para mim escutar.

No dia seguinte, tomou café, agradeceu e desapareceu. Duas semanas depois, reconciliou-se com a Mónica.

Não me ofendi. Lavei a manta do sofá que ele usara. Guardei-a. Continuei a minha vida.

E assim se repetiu. Várias vezes ao ponto de perder a conta. Ele aparecia, pós-discussão, às vezes só para jantar, outras vezes a precisar de mais do que uma noite. Tomávamos chá, conversávamos, ele acalmava. Depois voltava para a Mónica.

Nunca chamei a isso amor. Não ousava chamar. Mas quando tocava à campainha, qualquer coisa apertava e soltava dentro de mim. Cá está. De novo. Vivo, verdadeiro, meu. Por pouco tempo, mas meu.

Pensava em mim como torre de controlo de aeroporto. Os aviões chegam, reabastecem, partem. A torre está sempre lá, pronta a receber voos perdidos.

Dessa vez apareceu no final de março, descaído por uma daquelas sacas de desporto enormes e muito batidas. Olhei para o saco e entendi logo: não vinha para um jantar ou dois. Era para mais.

Vais ficar muito tempo? perguntei enquanto ele pendurava o casaco.

Não sei, respondeu, honesto. Pelo menos isso nunca lhe faltou: frontalidade. Talvez uma semana. Logo verei.

Está bem. Vou pôr a água a ferver.

Fui buscar a infusão de lúcia-lima, hábito nosso. Ele sentou-se na cadeira que já era a dele, junto à janela. Pousando-lhe a caneca à frente, pensei: de novo. O mesmo. Mas desta vez nem felicidade nem amargura, apenas um calor morno, e uma certa melancolia.

A coisa correu mesmo mal? perguntei.

Pior era difícil, apertou a caneca entre as mãos (mãos geladas, como sempre). Ela disse que se fartou, que assim não dá, que acabamos a estragar a vida um ao outro.

E tu, o que respondeste?

Nada. Peguei naquilo, apontou para o saco, e saí.

Ficámos em silêncio a ouvir os pingos no beiral. Ritmados como um batucar de metrónomo.

Bea, olhou-me nos olhos pela primeira vez naquela noite. Não ficaste contente?

Fiquei, respondi. E era mesmo verdade. Uma verdade um bocadinho amarga e um tanto envergonhada, mas verdade.

Os primeiros dias foram estranhos. Não maus, apenas estranhos. Estava habituada à minha rotina de viver só. Acordava às sete, café, meia hora de leitura na janela, trabalho. Ao fim do dia, jantava algo simples, conversava com a minha grande amiga Leonor, deitava-me à mesma hora.

O António embaralhava tudo. Não era má vontade, apenas ritmo diferente. Acordava tarde, gostava de conversar logo de manhã, deixava as coisas fora do sítio, punha a televisão muito alto e demorava uma eternidade na casa de banho.

Mas também havia o outro lado. Ao jantar, estávamos juntos à mesa, o que era bom. Partilhava histórias cómicas, eu ria. Fiz uma lasanha de uma receita antiga e ele comeu duas vezes, dizendo ser o melhor que já comia em anos. Víamos filmes, discutíamos finais. Aos domingos passeávamos pelo Mercado da Ribeira, ele carregava o saco das compras, e isso era tão natural que me cortava a respiração.

Uma semana passou. Depois outra. Depois um mês.

Numa dessas noites não consegui dormir. Fiquei ali, no escuro, a ouvi-lo respirar no quarto ao lado, a pensar: E se isto é a sério? E se é mesmo para ser assim? Ambos já não novos, ambos a saber tão bem o que é solidão. Depois de tanto tempo, nada por mostrar ou esconder. Talvez isto seja felicidade talvez não aquela de fogo de artifício, mas uma estabilidade simples, como uma casa velha, onde se vive bem.

Comentei isto com a Leonor, no nosso café habitual, enquanto ela saboreava o seu galão. Escutou sem interromper e depois perguntou:

Bea, estás feliz agora? Agora, não amanhã, nem daqui a uns meses.

Parei e pensei, mesmo a sério.

Estou. Agora, sim.

Então vive o agora, riu e voltou ao galão. E deixa-te de futurologia.

Tentei. Juro que tentei.

Vivemos juntos quatro meses: abril, maio, junho, julho. Quatro meses que lembro quase dia a dia. O António apareceu-me com um ramo de jacarandás (Lisboa, claro!). Discutimos por parvoíce, duas horas sem falar, e depois veio à cozinha dizer: Eu portei-me mal. Um sábado passado em casa, livros e bricolage na varanda. Às vezes, o silêncio é a maior intimidade.

Comecei a pensar em nós. Não eu vou, mas nós vamos. Não preciso de, mas precisamos de. Não planeei, mas cresceu devagar, sem pedir licença.

O António também mudava: menos zangas, menos conversa sobre a Mónica. Por vezes, olhava para mim com uma ternura difícil de descrever. Talvez fosse, finalmente, aquele sentimento que eu procurava.

Pediu-me as chaves de casa. Entreguei-lhas logo. Fiz cópia, deixei na mesa. Uma coisinha fria e metálica que conseguiu aquecer-me por dentro.

Foi no início de julho.

A meio do mês, o telefone tocou.

Estava na cozinha, ele na sala, a ver Netflix no portátil. O telemóvel dele sempre demasiado alto. Não liguei, mas depois ficou um silêncio fora do normal.

Saí da cozinha. Ele estava no meio da sala, telefone na mão, a olhar para o chão.

António?

Aquela troca de olhares, e percebi tudo não com a cabeça, mas com outra coisa qualquer.

Mónica, murmurou ele. Está com problemas. A sério. Precisa de ajuda.

Nem grandes justificações, apenas Mónica.

Percebo, disse eu.

Bea…

Vai.

Espera, deixa-me explicar.

Não é preciso, disse baixo. Percebo. Vai.

Ficou mais um bocado. Olhou para mim. Eu olhei para ele. Pegou no saco azul, o tal, que nunca saiu da entrada.

Eu ligo, prometeu à porta.

Está bem, respondi.

A porta fechou. O trinco soou. Fiquei na sala, no mesmo silêncio, mas já sem nada naquilo. Só ausência.

Os primeiros três dias não chorei. Estranho, confesso. Achei que ia desabar, preparava-me para isso. Mas não. Era mais como quando tiras uma peça pesada de sitio, e sobra no chão aquela marca mais clara e um vazio. Ainda não dor, só vazio.

No emprego, mantive-me funcional. Trabalhava na contabilidade de uma empresa de construção civil, muita coisa para rever, números para conciliar. Números não querem saber se choraste à noite.

Ao quarto dia fiz a tal lasanha. Porquê, não faço ideia. Segui a receita daquela revista, por automatismo. Pus na mesa, cortei, pus uma fatia no prato. Estava deliciosa. Demasiado deliciosa.

Foi ali que vieram as lágrimas. Lavei a cara, terminei o chá e fui-me deitar.

No dia seguinte, a Leonor apareceu sem avisar, com pão alentejano e uma garrafa de vinho tinto. Entrou, abraçou-me silenciosa. Sem mais dramas, que aqui as reservas são para as emoções, não para o vinho.

Conta.

Não tenho nada que contar. Sabes mais ou menos tudo.

Mas tens de pôr em palavras, animou.

E eu contei. Sobre julho, telefonema, saco azul. Sobre o depois ligo (nunca ligou, já vai uma semana).

Vais ficar à espera? perguntou ela de frente.

Nem pensar, surpreendeu-me a facilidade com que saiu.

Mesmo?

Mesmo! Estou cansada de esperar. Sempre esperei que ele ligue, que volte, que decida. E nunca escolheu. Só voltava quando não restava mais nenhum sítio. Sabes o que isto se chama?

Diz.

Aeroporto de reserva. Sempre disponível, pista desimpedida, luzes acesas. E ele, a aterrar e descolar. Comigo sempre à espera, para quando fosse preciso.

A Leonor observou-me.

Sabias isto há muito?

Saber, sabia. Entender é diferente.

E é. Saber é uma coisa teórica, perceber de verdade é quando não dá mais para fazer de conta.

Agosto foi estranho. Não triste, só silencioso. Trabalhava, voltava, cozinhava, lia. Passeava ao fim da tarde pela beira-rio, até os pés pedirem descanso. Via as luzes a refletir-se no Tejo, pensava na vida.

Uma vez parei à frente de uma montra. Vi o meu reflexo: mulher de impermeável claro, cabelo arranjado, não jovem mas ainda longe do fim. Olhei bem: E tu, que queres? Não o António, não alguém. Tu.

Não veio resposta, mas a pergunta já era um princípio.

Em setembro, revolucionei a sala o sofá estava a tapar a luz, o móvel pesava em cima de tudo. Mudei tudo, sozinha, fiquei suada e cansada, mas a casa respirava melhor. E de repente pensei: Porque não fiz isto antes? Talvez medo de mexer, não fosse ele aparecer e dizer que estraguei tudo.

Agora, de medo só ficavam as memórias.

Comprei cortinas novas, de linho, creme, com um desenho miudinho. As outras, azul-escuro, guardavam demasiado sol. De manhã, o quarto enchia-se de dourado. Nunca tinha reparado nos bons detalhes do meu próprio lar. Vinte anos de Lisboa e só agora via.

Em outubro, decidi: italiano, finalmente! Sempre quis, nunca calhou. Medo do ridículo, do para quê, mulher com esta idade. Inscrevi-me. O grupo era pequeno, alegre, com um professor cheio de piadas e, sim, obrigou-nos a cantar em italiano (Torna a Surriento, claro). E eu cantei, em bom português, à vontade.

A Leonor, incrédula:

Italiano? Para quê?

Quero ir até Barcelona, brinquei.

Ó Beatriz, em Barcelona fala-se espanhol!

Oh, começa-se pelo parecido! ri.

Barcelona entrou nos planos por acaso. Vi fotos que não eram postais, só instantâneos: uma rua cedo de manhã, mercado, um senhor de boné no banco, um gato ruivo à janela. Soube logo: era ali que queria viver um pedaço. Não uma semana a tirar selfies, viver mesmo sentir aquele ar de rio misturado com cheiro a laranja.

Escrevi num bloco: Barcelona. Primavera. Colei ao frigorífico.

Em novembro, comprei passe no ginásio, ia nadar de manhã, antes do trabalho. Era o melhor começo de dia dentro de água, não há dramas, só braçadas para a frente. Boa prática, afinal.

O António vinha-me à cabeça, raramente. Esperaria que estivesse bem. Não desejava mal, agora via o passado como fotos numa caixa de sapatos: reconheces as caras, mas as emoções perderam força.

Em dezembro, a Leonor fez-me ir ao réveillon com amigos dela. Ia recusar, mas lá fui. Conheci gente nova, ri à mesa, e à meia-noite, entre abraços, senti uma leveza inesperada como quem largou um casaco pesado, que já fez a falta e já pode ficar pendurado.

Janeiro, fevereiro. Continuava as aulas, os mergulhos, devorava livros adiados há anos, finalmente esvaziei as prateleiras de tralha (entre outras coisas, reencontrei a manta do sofá a tal , lavei e pus para doação).

Março outra vez. Um ano desde o telefonema. Eu, na janela, com café português. Rua molhada, pombos resilientes, a rapariga do carrinho provavelmente outra.

O António ligou a um sábado, quase meio-dia. O número ali à frente, e senti qualquer coisa a saltar no peito não dor, nem alegria, apenas reflexo condicionado.

Bea, disse ele. Voz igual, mas longe.

Estou.

Como estás?

Bem. E tu?

Pausa.

Mal. Podemos encontrar-nos?

Podemos. À porta do prédio. Daqui a vinte minutos.

Outra pausa. Não estava à espera.

Está bem. Daqui a vinte minutos.

Vesti-me, vi-me ao espelho no hall. Mulher de casaco claro, calma, pronta.

Estava lá quando cheguei à entrada. Envelhecera nestes meses. Ou talvez eu agora olhasse de outro modo. Estava mais magro, menos cuidado. Olhou para mim com esperança e embaraço.

Olá, cumprimentou.

Olá, retribuí.

Seguimos um lado ao outro, sem pressa, sem preferirmos o destino à conversa.

Beatriz, quero dizer-te uma coisa. Mesmo importante.

Diz.

Este ano foi péssimo. Com a Mónica, acabou de vez. Desta vez foi ela a ir-se embora. O trabalho também foi pelo cano. Fiquei enfim, sem nada.

Eu não interrompi.

Pensei muito em ti. Fui parvo, não valorizei as coisas certas. Tu foste és a pessoa mais sincera da minha vida.

António

Espera. Quero tentar de novo. A sério, mesmo. Mudei, juro. Pensa só, dá-me uma hipótese.

Passámos junto de um jacarandá. Os gomos das folhas já a prometer nova cor. Daqui a pouco, flores.

Parei.

Ele parou. Olhou para mim.

Estás bonita, atirou de repente. Mais do que há um ano. Como é possível?

Sorri.

É assim.

Bea. Segurou-me a mão. Diz alguma coisa.

Olhei-lhe para a mão quente a segurar a minha, tão familiar. Depois, devagarinho, soltei-a.

António, vou dizer-te algo. Não para te magoar, mas para perceberes.

Diz.

Dizes que mudaste. Acredito. Um ano é muito tempo. Mas isto não se trata de ti trata-se de mim.

O que queres dizer?

Também mudei. Muito. Mas de maneira diferente. Perderes algo e quereres de volta é uma coisa. Eu, o que encontrei agora, não quero abdicar.

Vi nos olhos dele algo ansioso. E insistiu:

O que encontraste?

A mim própria. Não é conversa de livro, garantidamente. Foi-me aparecendo aos poucos.

Bea

Não estou zangada contigo, a sério. Mas há uma coisa que tens de ouvir: fui sempre o teu aeroporto de reserva.

Ia abrir a boca, mas continuei:

Só vinhas quando tudo corria mal. Pousavas, descansavas, abastecias. Voltavas ao teu destino favorito. Lá havia luzes, música, aventuras. Eu era a pista tranquila, boa, mas nunca principal.

Não é verdade.

É. Sabes que é. Mas aí está a diferença agora, esse aeroporto fechou. Fechei-o. Não é vingança, é só maturidade. Não quero ser a alternativa segura de ninguém, nem de ti, que até és um tipão.

Ficou calado, muito tempo.

E agora? lá soltou.

Agora, tenho planos. Na primavera vou para Barcelona. Estou a tirar italiano, embora lá se fale espanhol. Faço natação de manhã. Moro na casa com cortinas novas e móveis mudados. Leio os meus livros. É a minha vida. Não é extraordinária, talvez, mas é minha. Não há espaço para quem entra só porque não tem mais para onde virar.

E se eu vier porque quero mesmo estar contigo? Só contigo?

Fitei-o por um tempo. Talvez verdade ali, sim. Mas já não podia testar.

Talvez, disse-lhe. Mas já não posso testar. Aquela Beatriz, que esperava, já não existe. Esta agora vive de outra maneira.

Deu um passo na minha direção.

Dava-me uma hipótese, pelo menos?

Não. Não por crueldade ou para te punir. Só porque sei como isto acaba. Conheço de cor.

Frente ao meu prédio antigo, na mesma rua, mas tudo já mudado.

Não tens um chá para oferecer? perguntou, meio a brincar.

Não. O chá com lúcia-lima é outra coisa. É princípio. Não há mais princípios.

Baixou os olhos. Hesitou, depois levantou-os outra vez.

Estás feliz? só isso, sem drama.

Pensei mesmo, como naquele café com a Leonor.

Agora, aqui? Sim, estou.

Que bom, disse ele. Mesmo bom. Fico feliz por ti, Beatriz.

Pausa compartilhada.

Liga-me às vezes, pediu. Para conversarmos.

Abanei a cabeça, afetuosa.

Não é preciso. A cada qual, o seu caminho.

Acenou. Devagar, como quem aceita o que custa aceitar.

Barcelona?

Barcelona!

Belo sítio.

Já sei, sorri. Embora ainda não conhecesse.

Virou costas, não olhou para trás. Fiquei ali, a ver o homem que amei mais do que a mim, o homem que agora deixava ir, não por dor mas com serenidade.

Como quem solta um pássaro que devia há tanto tempo voar.

Subi as escadas, abri a minha porta com a minha chave. Cheiro a café, linho nas cortinas, sol de março a riscar o novo sítio do sofá.

Fui à cozinha. Pus o jarro a ferver. Não lúcia-lima. Agora, hortelã. Um novo hábito, meu.

Tirei do frigorífico o papel: Barcelona. Primavera. Faltava um mês. Acrescentei: Abril. Abril já quase chegava.

Aeroporto fechado. Torre de controlo apagou as luzes. E finalmente, chegou a minha vez de ser passageira.

***

Mas claro que nada disto aconteceu em três pancadas. Antes de chegar a este momento, passou um ano inteiro. Um ano que me transformou devagar, mês a mês.

Quando o António foi embora naquele julho, demorei a perceber totalmente o que se passava. Entendi de cabeça, sim, mas cá dentro ainda demorou.

Primeiros dias iguais aos anteriores. Levantar, trabalhar, jantar sozinha. Estranho, porque voltei a contar porções para um só. Tirei a caneca a tal, azul, com a asa lascada, que ele deixou (ou esqueceu?). Guardei-a.

Ao quinto dia, a minha mãe telefonou, fora do dia habitual. Tem um radar infalível para o mal-estar.

Bea, está tudo bem? O teu tom não engana.

Está, mãe. Só cansada.

Ele foi-se embora, não foi?

Não há como esconder da mãe.

Como sabes?

Sou tua mãe. Quero saber como estás.

Não estou mal, acredita. Cansaço e solidão, só.

Vens cá um fim de semana?

Não, preciso de ficar por aqui. Mas obrigada.

Pronto, aceitou, sábia como sempre. Se precisares, liga-me.

Não liguei. Não foi preciso nesse sentido de aflição. Tinha um vazio, um cansaço, mas não desespero nem vontade de o chamar de volta. Talvez porque, lá no fundo, sempre soube que esta era a realidade.

No fim de julho, fui à cabeleireira do bairro, que já me conhecia há anos.

O que fazemos hoje? perguntou.

Rápido e mais claro. Boa mudança.

Dois dedos de conversa depois, estava diferente: cabelo curto, mais leve como se juntamente com os centímetros levasse para o chão um pouco do passado.

Era sempre assim: quem nos conhece bem vê logo. A Dona Lurdes assentiu: Estás um mulherão. Pareces dez anos mais nova!

Convém, brinquei.

Ainda bem, menina, mexer na vida é saudável.

Agosto: calor infernal. Finalmente, férias completas. Não fui para parte alguma, queria aprender Lisboa só para mim. Descobri o Jardim Botânico, o tal que sempre fui adiando. Sentei num banco, li, não li, só fiquei. O simples facto de ali estar era viver, não vazio.

Um dia, uma senhora pediu licença para se sentar ao pé de mim. Cabelo grisalho, sorriso aberto Francisca. Conversámos por minutos, leu o jornal, ficou calada, voltámos a trocar duas palavras só quando se despediu. Não virou amizade, mas ficou-me o conforto de saber que há felizes em silêncio.

Setembro: reinício de colégios, cheiro a maçã e folhas molhadas. Gosto do mês. Fim de um ciclo, começo do outro. Movi móveis, mudei o meu mundo dentro de casa, como quem finge que a vida é só arrumar as coisas. Mas, às vezes, é mesmo.

Em outubro, além de italiano e sobrevivência de leão, conheci a Sónia, parceira na turma de línguas. Alegra, despachada, sem paciência para formalismos ajudava a rir à toa nos cafés pós-aula.

Italiano para quê? perguntou.

Ah para a alma!

Ela desatou a rir. Justiça seja feita, és mesmo diferente!

Em novembro, dezembro, janeiro: descrevi os dias, arrumei o passado, trouxe livros novos da livraria no Chiado (o senhor de óculos sempre a dormir ao balcão), comprei um guia de Barcelona, devorei-o em tardes calmas.

Reservei viagem para abril: casa simpática no Bairro Gótico, bilhete eletrônico na caixa de email. Senti euforia, sensação de finalmente ser dona do próprio roteiro.

A Leonor abraçou-me: Vai, minha amiga isto é só o início.

Vens?

Agora não. Desta vez é mesmo só tua.

Em março, contei à minha mãe. Reagiu como se eu fosse para a outra ponta do mundo, mas depois sossegou: Sabes o que fazes.

E fazia. Pela primeira vez, mesmo.

Não há idade para finalmente aprender a escolher por nós. Não é uma rejeição aos outros, é o melhor abraço a nós mesmas.

Neste ano, eu acolhi o que a vida me deu aos bocadinhos. Mudou-me.

Quando chegares lá, há sempre coisas para fazer: mudar móveis, experimentar receitas, tropeçar em saudades antigas. Ir à piscina, perder-te numa rua onde nunca entraste.

A tua história começa a ser tua quando deixas de esperar pelos outros para começares.

Quando já só tens aeroportos de destino, não de reserva.

O telefone tocou. A Sónia, Que filme, amanhã?

Combina hora, respondi. Sorriso sincero. Chá acabado, fui ao quarto preparar coisas para o dia seguinte.

No espelho, vi uma mulher tranquila. Despenteada, talvez, contente, de certeza. Não intensa, não teatralmente radiante, mas finalmente, dona do seu próprio agora.

Aeroporto de reserva fechado.

E o meu voo já a preparar-se para levantar.

*

No dia depois do cinema, depois do café com a Sónia, cheguei a casa, pendurei o casaco, e lembrei-me: a caneca azul-lasca ainda ali morava. Peguei nela, olhei, só era mesmo uma caneca. Não precisava de simbolismo.

Voltará ao armário, entre outras. Não como memória, só porque sim.

Li um pouco sobre vidas que mudam devagar, página a página, até que um dia acordamos diferentes.

Apaguei a luz.

A chuva caía mansamente. Lá fora, março em Lisboa. Mergulhei no sono tranquila como há muito não me sentia.

A vida segue.

Voo marcado: Abril, Barcelona.

Aeroporto fechado.

E lá fora, sobre os telhados de Alfama, a minha primavera já chama por mim.

Eu vou.

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Aeroporto Secundário: O Seu Porto Seguro em Situações de Emergência
Cesta k novému životu po ťažkých životných skúškach