Tamara Inês descobriu que o marido andava a encontrar-se com a vizinha da casa de campo, quando foi lá pedir sal emprestado para conservar os pepinos.

Diário de José Manuel, Algarve, agosto

Hoje foi um daqueles dias em que a vida dá uma volta que ninguém espera. Descobri a traição da minha mulher, Leonor, com o nosso vizinho da casa de campo quando fui à casa dela pedir um pouco de sal para os tomates em conserva. A porta abriu-se e, para meu espanto, era o Afonso, o meu próprio Afonso, com a sua típica camisa de alças e boxers, iguais aos que usa em casa há anos.

Ó Afonso? só consegui murmurar, o coração aos pulos.

Ele ficou branco como a cal da parede, depois ficou vermelho, e de novo pálido.

Leonor… espera, deixa-me explicar…

Atrás dele surgiu Filomena, a vizinha do lado, viúva já há muitos anos, com uma bata apressadamente vestida sobre o corpo ainda despido.

Afonso, quem está aí? perguntou ela, até que me viu. Ai, Leonor…

Os três ficámos ali parados, cada um a olhar para o outro sem saber o que dizer. Depois saí porta fora em passo apressado quase a correr rumo ao portão.

Leonor! Espera! gritou Afonso atrás de mim, esquecendo-se que estava de boxer na rua.

A rua, onde há doze casas de campo alinhadas, virou palco de espetáculo. Afonso Soares, tão respeitado, presidente da associação do aldeamento, corria atrás da mulher, de cuecas à mostra.

Grande circo este ano, murmurou o Joaquim do terreno ao lado.

Tranquei-me em casa com embaraço e raiva. Ele martelava à porta:

Leonor, abre! Deixa-me explicar!

Há quanto tempo? gritei-lhe de dentro.

O quê?

Quanto tempo andam nisto?

Ele calou-se. Depois respondeu baixinho:

Dezoito anos.

Despenhei-me até me sentar no chão. Dezoito anos. O nosso filho mais novo, Miguel, fez dezoito agora mesmo.

O portão rangeu e a Filomena entrou já composta, vestida e penteada.

Leonor, vem cá. Temos de conversar.

Vai-te embora, serpente!

Somos adultos. Não vale a pena fazer uma cena.

Respirei fundo e lá fui, sentando-me nos degraus da entrada. Filomena sentou-se ao lado e Afonso andava nervoso pelo jardim.

Dezoito anos… murmurei.

Lembras-te quando tiveste aquele problema nas costas? Duas operações, quase três meses de cama?

Como esquecer? O Afonso deixou tudo secar: tomates, pepinostudo perdido. Sempre me perguntei como teria dado conta de tudo.

Eu ajudei-o, continuou ela. Na horta e na cozinha… e pronto…

E foi daí, interrompeu Afonso.

Dezoito anos! levantei-me num rompante. Dezoito anos fizeram troça de mim!

Tu vivias a tua vida, Leonor. Nós a nossa, retorquiu Filomena, também de pé.

A nossa? Ele é meu marido! Pai dos meus filhos!

E deixou de o ser? Os filhos estão alimentados? O campo tratou?

Afonso segurou-me o braço ao ver que já ia para a agressão.

Leonor, não vale a pena.

Não me toques!

Afastei-me, entrei apressada em casa e tranquei-me. Da rua já se juntava um grupo curioso. As novidades ali correm depressa.

Vão trabalhar! gritou Afonso. O espetáculo acabou!

Claro que ninguém arreda pé. A Cristina lá do terceiro lote reclamava alto:

Eu sempre soube! Via-os juntos!

Não viste nada, rebateu-lhe o marido. Só inventas.

És tu que não vês! Eu vejo tudo!

À noite, sentada sozinha na varanda, enquanto o Afonso dava voltas pelo quintal:

Leonor, diz lá qualquer coisa.

O quê? Divórcio?

Divórcio agora, aos sessenta…?

E porquê não? Depois dos sessenta não há divórcios?

Leonor, não sejas miúda… Quarenta anos juntos!

Dezoito deles com a Filomena ao lado.

Sempre vivi contigo! Só… às vezes ia até ela.

Às vezes?

Bem… duas vezes por semana.

Duas vezes… durante dezoito anos não é de vez em quando, Afonso. É rotina.

Sentou-se de frente para mim.

Leonor, amo-te. Mas a Filomena… é diferente.

Melhor?

Não… diferente. Contigo é casa, filhos, compromissos. Com ela, descanso um pouco da vida.

Queres descanso? Também eu precisava, mas sou eu que curo os tomates!

Pois! Nunca páras: tomates, compotas, netos! Às vezes só quero estar de conversa com alguém.

E comigo não falas?

Contigo falo de família, hortas, contas. Com ela, falamos da vida, dos livros…

Ela lê? surpreendi-me.

Conhecia a Filomena só de vista, parecia tão simples.

Lê. Sabe até poesia. Gosta dos clássicos.

Quase me ri. Afonso e poesia.

E então, agora?

Não sei. Como tu quiseres.

Eu? E tu?

Tenho sessenta e dois, Leonor. Decisões? Quero é terminar a vida em paz.

Com quem? Comigo ou com ela?

Afonso calou-se. Finalmente diz:

Não posso ficar com as duas?

Atirei-lhe com o frasco dos tomates. Errei. Quebrou-se na parede.

Vai-te embora daqui!

E ele foipara casa da Filomena.

Nessa noite não dormi. Pensei nos quarenta anos juntos, nos filhos, nos netos, na casa e no pomar que juntos fizemos.

E nos dezoito anos de mentira. Mas será mesmo mentira? Ele nunca prometeu fidelidade ou amor eterno. Foi vivendo. Comigo. E com ela.

De manhã, a Margarida do lote cinco bateu à porta com um bolo.

Leonor, força, sim?

Obrigada.

Se precisares, o meu Armando até lhe parte a cara!

Não é preciso. Não somos crianças.

E tu, o que vais fazer?

Por agora, nada.

Eu já lhe tinha dado com a porta. Traidor!

Mas o Armando nunca foi lá ao terceiro viver com a Cristina?

Margarida corou até às orelhas.

O quê? Onde ouviste isso?

Vi-os no meio das framboesas.

Não é nada disso!

Então?

Falavam das batatas!

Aos abraços?

Margarida saiu, porta a bater.

Ao meio-dia apareceu Joaquim.

Dona Leonor, posso lavrar a terra ali do lado para ajudar?

Não, obrigadinha.

O Afonso pediu para dizer que, ao final da tarde, vem buscar as coisas dele.

Quais coisas? As cuecas velhas?

Não sei, faço só o recado.

Joaquim arrastou os pés e afastou-se.

À tarde, Afonso chegou, cabeça baixa.

Venho buscar as coisas.

Vai.

Entrou. Fui atrás.

Afonso, porquê a Filomena? O que ela tem?

Parou.

Não sei. Sinto-me leve.

E sou um peso, é isso?

Não. Mas tu sabes sempre de tudosalgar tomates, plantar batatas, quanto se dá aos netos. Ela não sabe. Pergunta-me.

Fazes-te homem sábio.

Talvez me sinta preciso.

Sentei-me na cama.

Afonso, eu também não sei tudo. Não sei como viver depois disto.

Leonor…

Não sei como olhar para os filhos, nem explicar aos netos porque o avô mora com a vizinha.

Não expliques nada!

Tenho de explicar! O João chega amanhã com a mulher e o pequeno. O que digo?

Diz que nos chateámos.

Sentou-se ao meu lado.

Leonor, não dá para esquecer?

Como assim?

Fingir que não aconteceu.

Com a Filomena ali mesmo ao lado, fingimos o quê?

Que sugeres então?

Cheguei à janela; vi Filomena a regar tomates, no mesmo fato de casa.

Olha, vive onde quiseres. Mas és tu que vais explicar aos netos.

Leonor!

E os tomates deste ano vais curtir tu. Com a tua amante culta.

Afonso saiu com um saco de roupas. A rua toda a mirar.

Nessa noite, ouço barulho lá fora. Afonso andava perto da estufa.

Que fazes?

Vou ver os tomates. Amanhã vai estar um calor desgraçado.

Foste embora…

Fui, mas os tomates são meus! Não os deixo morrer!

Abriu a estufa e saiu, saltando o muro.

De manhã, João e família chegaram.

Mãe, o pai?

Está na vizinha.

A dormir?

Vive lá.

João sentou-se.

Como assim?

Expliquei-lhe, sem rodeios.

Dezoito anos? Quando o Miguel nasceu já…

Já sim.

João foi lá. Ouvi as vozes altas, depois o portão. Voltou aborrecido.

O pai disse que vos ama às duas.

Olha que sorte!

Mãe, não fiques assim. E se ele ama mesmo?

João, conseguirias amar duas mulheres?

Eu? Não. Mas eu não sou o pai. O pai é especial.

Pois é.

O neto veio correndo.

Avó, porque está o avô a viver na casa da tia Filomena?

Porque ajuda na horta dela, respondi.

João soltou uma gargalhada.

Ó mãe, essa está boa!

De noite, barulho outra vez. Afonso a regar as couves.

Estás maluco? Não tens a tua nova família?

O campo é meu; não posso deixar morrer!

Vai regar o outro lado.

O da Filomena é outro! Mas este é meu também!

Peguei no regador.

Anda, ajudo-te. Senão ainda ficas até ao almoço.

Regámos em silêncio. Depois sentámo-nos no banco do jardim.

Afonso, a sério: quem gostas mais?

Leonor, que perguntas são essas?

São perguntas normais. Então?

Afonso ficou a pensar.

Gosto das duas. Mas de forma diferente.

Como assim?

Tu para mim és a mão direita. Sempre aí, firme. Sem ti fico perdido. Ela, é festa, é alegria. Raro, mas especial.

E se eu desaparecesse?

Credo, não digas isso!

E se acontecesse? Casavas com ela?

Acho que não. Porque aí, ela seria a mão direita, e já não era festa.

Portanto, precisas das duas.

Pelos vistos.

Ficámos a olhar as estrelas em silêncio.

Olha, Afonso, e se eu também tivesse direito a uma festa?

Ele sobressaltou-se.

O quê? Algum homem?

O Joaquim até se ofereceu para ajudar.

O Joaquim?! Vou-lhe dar!..

O quê? Agora moras com a Filomena, já não podes dizer nada.

Não é a mesma coisa!

Não? Porquê?

Leonor, tu não és assim!

Como sabes o que sou? Se calhar também leio Camões.

Não lês.

Então vou começar.

Afonso levantou-se.

Leonor, a sério. O que queres?

Queria voltar atrás? Não dava. O tempo não anda para trás.

Só quero paz. Curtir tomates, tratar dos netos.

E?

E nada. Vive onde quiseres.

Mesmo?

Se quiseres a Filomena, vai. Se quiseres casa, volta. Só não voltes a mentir.

E se o Joaquim vier?

Não vem. Tem a Andreia do lote dez.

Como sabes?

Afonso, não sou cega. Só calada. Como toda a gente.

De manhã ele voltou com a mala.

Leonor, posso mesmo voltar?

Tens colchão no celeiro. Enche o insuflável e dorme lá. Hás de caber.

Largou o saco e foi procurá-lo.

Os vizinhos espreitavam e cochichavam. Filomena regava tomates, como se nada se passasse.

O João saiu à varanda.

Mãe, o pai voltou?

Anda a montar o colchão no celeiro.

Deixaste? Perdoaste?

Sou burra, não santa. E já não é altura de mudar.

Um mês depois, Afonso voltou ao nosso quarto. Com o tempo, deixei de reparar que ia duas vezes por semana à vizinha. Um ano depois, ninguém já lembrava esse escândalo lá na aldeia.

Já havia outros falatórios. Cristina do terceiro passou-se para casa do Pedro do quinto e Margarida foi viver com o marido da Cristina.

Eu continuei a curtir tomates. Afonso montava nova estufa. Filomena lia livros do outro lado da cerca.

No fundo, o amor é isto: viver juntos quarenta anos, criar filhos e netos, levantar casa, plantar árvores.

E depois aceitar que não existe perfeição. Nem sequer no amor.

Principalmente no amor.

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Tamara Inês descobriu que o marido andava a encontrar-se com a vizinha da casa de campo, quando foi lá pedir sal emprestado para conservar os pepinos.
Dlho som mlčala a znášala svoju mamu. No jeden zážitok všetko obrátil naruby.