Apenas um Estranho

Apenas um estranho

Leonor não via a hora do noivo sair da casa. Assim que a porta se fechou atrás dele, ela virou-se com os olhos a brilhar para a mãe.

Então, o que achaste? Gostaste dele? Vá lá, confessa: ele é o máximo! Com ele ao meu lado, nunca vou ter chatices!

A rapariga ficou de pé no meio da sala, queixo ligeiramente erguido, já se imaginando como esposa daquele homem. Na voz, nota-se não só esperança, mas quase certeza absoluta de que a mãe ia partilhar do seu entusiasmo.

Manuela, a mãe, folheava uma revista sentada no sofá, na típica calma de quem já viu de tudo. Levantou o olhar para a filha, encolheu os ombros com aquele ar ponderado de quem escolhe bem as palavras:

Isso é contigo, filha. O rapaz é simpático, educado, e vê-se que tem ambição. Se ganha mesmo o que diz, não tenho razões de queixa. Mas a decisão é tua.

No instante seguinte, o rosto de Leonor iluminou-se com um sorriso tão largo que até parecia que lhe tinham ligado o interruptor da felicidade. Soltou um pulinho de alegria.

Eu sabia que tu me compreendias!

Virou-se então para o padrasto, António, que estava sentado na poltrona ao lado, agarrado ao telemóvel. Ele pousou calmamente o jornal e olhou para Leonor, já a adivinhar que vinha aí conversa.

E tu, o que achas? Quero ouvir a opinião de um homem! apressou-se ela, já a tentar sacar a aprovação do costume.

António só se riu com ironia, recostando-se de braços cruzados. A frase opinião de homem divertia-o como alguém que já conhece bem as teimosias da enteada. Sabia que Leonor só queria a opinião masculina se fosse igualzinha à dela.

O teu Gonçalo é um rapaz convencido, egoísta e só pensa na carteira, declarou ele em voz baixa e serena, lançando um olhar direto. Estás a idealizar um príncipe e a ignorar o óbvio. Se avanças, daqui a uns anos vais arrepender-te amargamente.

As palavras dele ficaram a pairar. Fez-se um silêncio só interrompido pelo tique-taque irritante do relógio da sala. António não se preocupou em adoçar o discurso; achava que Leonor precisava da verdade, mesmo que doesse.

A rapariga corou imediatamente, olhos a faiscar no velho estilo teimosia à portuguesa. Odiava que questionassem as escolhas dela, ainda mais vindas de quem, segundo pensava, não tinha voto na matéria.

Pois claro, tu é que és o grande psicólogo! atirou ela, braços cruzados, voz já a tremer. Deves ser o único iluminado que sabe com quem devo casar!

António nem pestanejou. Já estava mais do que habituado aos chiliques daquela idade. Respondeu, tranquilo e quase resignado:

Sei do que falo. Ainda és uma miúda, acabaste agora os vinte. Olhando para os teus amigos, não levas muito jeito a escolher companhia. Vê lá se não te arrepentes de fazer disparates.

E ele tinha razão. O histórico não deixava margem para dúvidas: qualquer amigo de Leonor acabava por lhe dar com os pés, pedir-lhe dinheiro emprestado ou desaparecer sem deixar rasto. Ela nem lhe conseguia notar os defeitos até já ser tarde. Só uma amiga ficou sempre fiel a tal que, curiosamente, concordava com António. E bem tentou alertar a Leonor para o feitio do Gonçalo, mas ela teimava sempre que não, Gonçalo era um sonho força, confiança e sucesso, como nos anúncios de perfume.

Não percebo de pessoas? A sério? Para que é que te perguntei então? És só mais um namorado da mãe que deu demasiado tempo à casa. Para mim, não és ninguém! Não tens direito a mandar em mim!

Disparou as palavras, à velocidade do pensamento e sem grande filtro emocional sentia-se obrigada a defender o seu terreno, custasse o que custasse.

António aguardou antes de responder. Baixou os olhos, pensativo, e depois olhou-a de novo. No olhar, não havia zanga, só tristeza profunda.

Criei-te desde os teus cinco anos, disse, sereno mas firme Ajudei-te nos trabalhos de casa, fui às festas da escola, dei-te conselhos. E agora não sou nada para ti? Porque é que então sempre me chamaste de pai?

A voz vacilou um instante, mas logo recuperou a compostura. Era notório que aquela conversa lhe custava. Detestava mexer no passado mas, naquele momento, não podia calar-se.

Leonor hesitou, pronta para ripostar, mas travou-se. O olhar fugiu para o chão, à procura de apoio nas coisas banais da casa.

Porque a mãe mandava! acabou por dizer, cerrando os lábios. E lembrou-se do pai biológico, um homem ausente, a quem era indiferente. Sim, ele tem as suas falhas, mas o pai é ele. Tu, para mim, és um estranho.

As palavras soaram duras e, logo a seguir, sentiu um nó no peito. Sabia que não era bem assim. António era, de facto, um pai para ela, mesmo sem laços de sangue. Mas a ofensa serviu de escudo para não admitir que as críticas à sua escolha lhe tinham doído.

À medida que crescia, as discussões tornaram-se mais frequentes. No início, eram coisas do dia a dia: Não chegues tarde, Esses amigos não te fazem bem, Faz os trabalhos, depois brincas. Com o tempo, as exigências multiplicaram-se e entornaram-se em vigilância: António marcava rotinas, queria saber com quem se dava, obrigava-a a estudar mais.

Leonor via aquilo como uma prisão. Que o padrasto queria era controlar tudo. Queixinhas à melhor amiga, e a amiga lá a defendia: Pais são assim, acredita, é só preocupação. Mas ela não engolia a desculpa. Para ela, António nunca teria o direito de mandar não era o pai.

Já a mãe, Manuela, nunca dava grande importância. À parte um ou outro aviso, nunca fazia grandes perguntas, nem ficava a regular horas ou trabalhos de casa. Isso, Leonor apreciava: gostava da mãe justamente por ela não sufocar, por a deixar escolher e errar.

No meio da discussão, António embranqueceu, os ombros caíram-lhe, o olhar geralmente seguro perdeu o brilho. Perguntou, magoado:

Portanto, sou um estranho?

Nenhum tom agressivo, apenas uma dor surda. António sentia Leonor como filha, sempre sentiu. Só estava ali por ela. Com a mãe, o casamento já tinha visto melhores dias. Pensou muitas vezes em sair, mas ficava por não conseguir abandonar a menina.

Tinha pena da miúda. Para Manuela, maternidade resumia-se a comida, roupa e livros escolares pouca ou nenhuma proximidade emocional. António tentava compensar, fazendo de pai como podia.

Sim, um estranho! gritou Leonor, mas hesitou de imediato. Viu o padrasto a empalidecer, as costas curvadas, os olhos apagarem-se. Sentiu-se mal, mas manteve-se rígida, já desconfiada do que poderia vir a seguir.

Manuela, até aí silenciosa, pousou a revista com uma calma impressionante e falou, entornada de indiferença:

Olha, não te aborreças. De certa forma, a Leonor tem razão. Podias ter-lhe dado o apelido, pedido guarda partilhada, mas nunca te mexeste. Não te podes ofender

Para António foi como um estalo. Virou-se, incrédulo, para a mulher. Ela demonstrava a mesma frieza de quem lê o folheto do supermercado.

Está bem. Se acham que sou um estranho e tão inútil, então faz pouco sentido continuarmos nesta casa. Eu avanço com o divórcio. Têm vinte e quatro horas para arrumar as coisas. A casa é minha.

Disse aquilo com dignidade, voz cansada mas firme. O silêncio gelou a sala. Leonor quis falar, mas a garganta falhou-lhe. António foi-se embora, trancou-se no quarto de hóspedes e fechou a porta à chave. O clique soou definitivo, como quem fecha um ciclo.

Ficando só, sentou-se na cama. A cabeça rodava. Não queria ver ninguém. Doía-lhe tudo principalmente o tempo perdido a tentar ser pai de quem lhe chamava estranho.

Manuela, ao dar-se conta, correu à porta e tentou convencê-lo do contrário:

Oh António, vá lá, não vale a pena isto. A miúda disse aquilo de cabeça quente. Não vais destruir tudo por causa de umas palavras, depois de quinze anos numa casa?

Implorou, enumerou razões, falou dos hábitos do dia a dia, das rotinas construídas. Mas arrependida, sinceramente, não estava. Só queria poupar-se ao incómodo de mudar de vida.

António permaneceu calado no escuro. Recordou o dia em que percebeu que já não amava Manuela. Não houve grande drama só uma certeza absoluta, camuflada por anos de espera por uma reconciliação que nunca vinha. Esperou pela Leonor. Aguentou, por ela.

Tinha sido bom padrasto. Ia às reuniões da escola, ensinou-a a andar de bicicleta, era o ombro amigo nos maus dias. Leonor sempre lhe chamou pai. Agora não era ninguém apenas um tipo a viver na mesma casa.

Na quietude do quarto, o relógio batia, lento. António fechou os olhos. Estava decidido ia partir. Para quê ficar num sítio onde ninguém lhe dava o lugar de pai?

***********************

O divórcio foi rápido, sem escândalos nem novelas televisivas. Em poucas semanas, tudo arrumado: papéis assinados, bens divididos pelas regras do costume. Manuela teve de regressar ao velho apartamento em Almada aquele onde viveu antes de conhecer António. A casa já precisava de obras: paredes a descascar, chão que rangia pior que portas de castelo e canalização a suspirar pelos tempos do Salazar.

A Leonor, aquilo caiu-lhe mal ao começo. Estava habituada à vivenda espaçosa, ao quarto dela, com espelho grande e roupeiro confortável. Na nova casa calhou-lhe um cubículo com cama afundada e cortinas cor de fumo. Ao início ainda fingiu estar otimista: Isto é só por um tempo, logo logo muda. Mas quanto mais o tempo passava, mais lhe pesava o desconforto. Falta de privacidade, barulho insuportável dos vizinhos, ambiente que não convidava à vida.

Foi aí que a ideia do Gonçalo começou a parecer mais apetitosa. Antes achava-o o parceiro ideal para uma vida sem sobressaltos. Não demorou muito: casaram-se à pressa, cerimónia civil modesta, jantar simples entre família e amigos próximos. Leonor ficou convencida de que a vida de sonho estava prestes a começar.

Bastou um ano para perceber que António tinha razão. Gonçalo mudou da noite para o dia. Acabaram as surpresas, os elogios e, pior, acabou o cartão multibanco partilhado. Pelo contrário, sempre a lembrá-la de que devia arranjar emprego, logo ela, ainda estudante.

Vê lá, Leonor, família são contas partilhadas! Aqui toda a gente trabalha. repetia ele, como se fosse gerente de supermercado.

A coisa agravou-se. A cada dia, novas discussões sobre dinheiro, tarefas domésticas e o futuro que ele pintava de cinzento. Leonor tentava desculpá-lo; talvez stress do trabalho, crise económica Assim se iludia, mas começou a cansar-se.

Achou que, se tivessem um filho, Gonçalo ia amolecer. Sonhava vê-lo dedicado, responsável, um pai à portuguesa. Quando sugeriu, ele cortou logo:

Agora não, mulher! Primeiro é preciso estabilizar, arranjar mais uns euros.

Mais valia discutir com uma parede. A gravidez veio na mesma. Nasceu uma menina. E não tardou o arrependimento.

A saturação instalou-se. Todos os dias traziam cansaço, solidão e dúvidas. Viu que já não aguentava. Ponderou, pesou as opções, e num belo dia, enquanto Gonçalo estava no escritório, Leonor arrumou umas mudas de roupa, papéis e uns brinquedos e saiu. Tremia, mas sentia-se, pela primeira vez, aliviada.

Voltou para a mãe, para a velha casa com cortinas amarelas e soalho penoso. Chegou com uma mala pequena, um carrinho de bebé e o essencial da bebé. Nos primeiros dias, Manuela manteve-se neutra: anotou o horário da menina, ajudava aqui e ali, mas não se metia muito. Depressa ficou impaciente.

Uma noite, a bebé irritada, chorava sem parar; Manuela pousou a chávena com força e virou-se:

Leonor, assim não dá. Não posso viver neste barulho. Tens de tratar da tua vida.

Mãe, vou para onde? Ainda agora arranjei emprego remoto, mas pouco ganho E para pagar renda assim

Problema teu, cortou Manuela, braços cruzados. Fiz o trabalho de mãe: dei-te educação e comida. Agora és adulta, arranja-te sozinha. Não tenho idade para criar mais ninguém!

Deixou umas notas em cima da mesa, cortou o discurso e foi embora. Nem perguntas sobre onde ir ou se precisava de ajuda.

E agora? Leonor fazia uns trabalhos online: textos, encomendazitas mas pagar casa era impossível. Não conseguia arranjar nada que coubesse no ordenado, e avó não estava para se ralar. Com saúde frágil e muito amor próprio, preferia a solidão.

Os dias tornaram-se todos iguais: cuidar da filha, trabalho no portátil quando podia, contas a somar, despesas a multiplicar. Pensava em António. Ele, talvez, a pudesse ajudar? Ele tinha sido família a sério, ao contrário dos outros.

Cheia de esperança, vestiu a filha com a melhor roupa, pegou nas fraldas e foi bater à porta dele. Na cabeça, António ia comover-se, pegar na neta ao colo e convidá-las a ficar.

A porta abriu-se e António apareceu, de chinelos e chávena de chá na mão. Ao ver as duas, não reagiu: nada de sorriso, nem surpresa.

Olá, murmurou Leonor, atrapalhada, alternando o peso de uma perna para a outra. Vim apresentar-te a tua neta.

Ofereceu-lhe a bebé com esperança.

António pousou devagar a chávena na mesa, olhou de relance para a menina, mas o olhar manteve-se gelado.

Percebo. O que queres de mim? Para quê esta visita? Não disseste tu que eu era só mais um estranho? ironizou, braços cruzados, voz que soava cansada, mas cortante. Também a tua filha me é indiferente.

A esperança de Leonor esvaziou de uma vez. Contava com reconciliação fácil, mas encontrou uma muralha. Cabeça baixa, quase sussurrando, tentou desculpar-se:

Fui injusta, António. Disseste a verdade, eu é que não quis ouvir. Sempre foste família

Tão família que durante anos nem te lembraste de mim, travou-a António. Se tivesses pedido desculpa na altura, ainda podia acreditar. Agora? Não. Não insistas.

Recuou, fincando bem a distância. Leonor agarrou o carrinho mais forte. Quis dizer qualquer coisa, implorar um tecto, mas percebeu que era inútil. Ele já estava irremediavelmente fechado.

Saiu devagar, sentindo que cada passo a enterrava ainda mais. Nem olhou para a casa, cheia de recordações. Só lhe vinha uma frase à cabeça: Isto podia ser tão diferente

António ficou parado junto à porta, sem se mexer. Só quando já não se ouviam os passos de Leonor no corredor voltou ao seu lugar, a olhar a rua pela janela.

Leonor saiu de lá de mãos a abanar, a empurrar pela rua uma carrinho de bebé e uma dose de arrependimento do tamanho dos Jerónimos. A culpa era toda dela percebeu isso. Afastou a única pessoa que realmente cuidou dela. Agora, quando precisava, já não havia volta a dar.

A filha mexeu-se e choramingou no carrinho. Leonor ajeitou-lhe o cobertor, recuperando a lucidez. Respirou fundo e fez-se ao caminho. Só tinha uma alternativa: cuidar da menina.

Secou as lágrimas à pressa, ajeitou o capuz da bebê e seguiu. A rua estava parada, as luzes dos candeeiros já acesas, carros a passar à distância. Caminhou em frente, sem saber para onde, já que ficar parada era pior.

Mil ideias fervilhavam-lhe na cabeça: Tenho mesmo de encontrar quarto onde arranjo dinheiro?… Pedir adiantamento ao cliente? Talvez um quarto num T3. Tentava opções fosse o que fosse, teria de sair daquela.

A bebé acalmou-se, e, ao olhar-lhe o rosto tranquilo, Leonor sentiu uma determinação nova invadir-lhe as veias. Não ia falhar agora.

No dia seguinte, sentou-se ao computador. Primeiro, pediu adiantamento aos clientes do costume um aceitou pagar em três dias, outro em uma semana. Depois, publicou anúncios à procura de quarto baratinho, nem que fosse na Amadora ou na Reboleira. Por fim, marcou uma ida ao Centro de Apoio Social para se informar de algum direito ou abono.

Uma semana depois, mudou-se para um quarto modesto, longe do centro. Só uma cama, móveis antigos, chão frio e paredes finas mas a casa estava aquecida e havia espaço para um berço.

Os primeiros meses custaram. Houve dias em que o dinheiro só dava para massa com atum, em que o cansaço quase fazia chorar. Mas, sempre que olhava para a filha, lembrava-se: já não estava sozinha. E isso chegava para continuar.

Com o tempo, as coisas melhoraram. Angariou clientes fixos, aprendeu a controlar despesas, arranjou uma senhora idosa do prédio para ficar de olho na bebé duas horas diárias e poder trabalhar. Ao fim-de-semana, iam ao jardim, davam migalhas aos pombos, apanhavam folhas ou só passeavam.

Leonor ganhou gosto por pequenas coisas: um chá quente, o sorriso da filha, ver os primeiros passos.

Um dia, ao passar num parque, viu António num banco de jardim, jornal na mão. Abrandou, mas não parou. Ele nem sequer olhou. E ela seguiu, apertando a mão à filha.

Já pouco importava. Já não precisava de aprovação ou ajuda. Desenrascou-se sozinha. Não foi fácil, ou bonito, mas conseguiu. E agora sabia: mesmo quando tudo parece perdido há sempre um caminho. Sobretudo quando temos motivos para não parar.

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