O Guardião Misterioso da Casa Portuguesa

Diário de José, 12 de outubro

Francisco, foste tu que arrumaste o pátio? perguntei, tocando de leve no ombro do meu filho.

O rapaz sobressaltou-se e tirou os auscultadores. No monitor, monstros continuavam a lutar, mas o Francisco já nem lhes prestava atenção.

O quê, pai?

Estava a perguntar se já chegaste da escola há muito?

Agora mesmo.

Então quem foi que arrumou lá fora?

Sei lá! Talvez a Madalena?

Sorrio. A minha filha de três anos é desenrascada, mas fazer limpezas a sério ainda está longe das suas capacidades.

És engraçado!

Então foi o duende da casa!

Ah, pois, deve ter sido mesmo ele! Anda, rapaz, vai à casa da avó buscar a Madalena. Já lá está tempo demais. Eu entretanto preparo o jantar. Tens fome?

Muita! Comi um pãozinho na cantina, mas isso foi logo a seguir à segunda aula, pai. Quando é que vamos passar para o horário da manhã?

Não sei, filho. Ninguém diz nada. A escola está a abarrotar.

Ora, pelo menos dá para dormir até mais tarde tenta sempre ver o lado bom das coisas, o meu Francisco.

Dou-lhe um beijo rápido no cabelo escuro, igual ao do pai, e dou-lhe a habitual festinha na orelha quando se esquiva ao carinho, seguindo depois direto à cozinha.

Adolescentes!

Treze anos. E já pensa que é crescido, mas, no fundo, ainda Cada vez que me aproximo dele, o coração amolece. O Francisco é a cara chapada do pai, António alto, olhos azuis, cabelo preto. Não é só de aparência: também no feitio vejo o mesmo. Obstinado, responsável, generoso… Nem sempre é ele quem arruma o quintal, mas sei que nunca foge a lavar a loiça. E o chão da cozinha ainda brilhava húmido do que ele lavara há pouco. Onde encontraria eu um ajudante assim? Só se a pequena Madalena crescer depressa.

A Madalena é o meu milagre. Quase dez anos à espera, depois de complicações nos primeiros partos quase me tirarem até essa esperança. Bastou-me esse bocadinho de fé para vir ao mundo a nossa menina loira, com caracóis de linho, olhos azuis como os do irmão. É calma como um gatinho. Quando vem encostar-se a mim ou ao irmão, a casa ilumina-se com o seu sorriso. Ninguém no mundo sorri como a minha filha; disso tenho a certeza. Só que aquele sorriso traz-me tanta alegria quanto dor. É a mesma do António. E já lá não está.

Por vezes só me apetecia gritar de saudade, mas não posso. Os filhos chamam-me à responsabilidade.

O António era bombeiro, salvava vidas. Salvou uma família inteira num incêndio pai, mãe, três crianças e foi buscar a avó deles. Ela não quis sair, preocupada com os animais, e depois foi tarde demais. A armadilha de fogo fechou-se.

Soube que ele não voltaria antes de me dizerem. O coração deu sinal, inquieto. Levantei a Madalena do meu colo, chamei pela minha mãe, que tinha vindo ajudar uns dias com o bebé:

Mãe, segure nela! Preciso de telefonar!

Depois acelerei pela estrada até ao quartel dos bombeiros na vila ao lado, nem sentindo como o leite me molhava a blusa ou como os braços me tremiam de nervosismo.

Como me segurei naquela altura, como não desabei? Foram os filhos. O Francisco não me largava um minuto.

Francisco, anda, vou-te deitar! a minha mãe, dona Rosa, mal conseguia levantar-se, mas nunca me deixou sozinha. Obrigava-me a comer, trazia a Madalena para mamar.

Eu fico com a mãe! ele teimava, colando a sua pequena mão à minha. Avó, porque é que a mãe tem as mãos tão frias?

Pouco me lembro desses dias, só momentos soltos. A arrumar coisas apressada, a enfiar brinquedos e roupa deles nos sacos.

Não aguento mais esta casa. Parece-me sempre que o António vai entrar e gritar: Cheguei!

Tens razão, Zé. Vamos lá para a minha. Ficas comigo enquanto não arranjas outra solução.

Não desculpa, também não quero ir aí. Também só penso nele. Parte-me o coração. Vou para a casa da avó.

Mas José! Aquela casa está abandonada há anos! Como vais levar lá as crianças?!

Não faz mal. Com um bocado de limpeza aquilo vai ao sítio. E vocês ficam por perto. Sozinho já não consigo.

Onde é que eu havia de ir? Só me faltam vocês

Não se vá abrandar de novo com lágrimas, mães. Tome conta da Madalena enquanto eu acabo isto. E o Francisco que coma alguma coisa. Não pega em nada a não ser se for eu a sentar-me também, mas não tenho vontade nenhuma

Isso não pode ser! ouvi a voz firme da minha mãe. És mãe! Se estiveres bem, os filhos também vão estar. Se te deixares ir abaixo, que será deles? Já não aguento mais muito tempo. Toma cuidado contigo!

Peguei nas mãos dela, beijei-lhe os dedos e continuei a arrumar. Fugir dali, era isso que queria. O que era já não voltava, e andar naquelas divisões era sufocante.

A casa da minha avó não me acolheu com festa. Eu sabia porquê abandonei-a e esqueci. Andei pelos quartos, toquei nas paredes, sacudi o pó do móvel antigo ainda com a toalha bordada por ela e abri as janelas ao ar frio do outono.

Mãe, leve os meninos. Já venho dar de mamar à Madalena.

Vais conseguir sozinho?

Claro…

Sozinho nunca fiquei. Passada meia hora, vi bater a porta de trás e aparecer a Rita. A minha irmã de infância, amiga de sempre.

Nem avisas que vinhas! És sempre o mesmo, rapaz! Onde tens os panos para limpar?

A Rita sempre foi despachada. Uma tagarela, capaz de rir horas seguidas mas capaz de virar o mundo pelos seus.

Limpei as mãos e abracei-a atrapalhado.

Olá…

Olá! E as crianças?

Ficaram com a minha mãe.

Boa! E então, estás à espera de quê? Ou ficas hoje em casa dela?

Queria mesmo era passar a noite aqui.

E então vamos a isto ou quê?

Desfez o abraço, procurou o alguidar.

Rita! exclamei, percebendo-lhe finalmente a barriga.

O quê? Ah, isto? Já viste! São coisas

Quando?

Em fevereiro. Qual é o espanto? Estou grávida, não estou doente.

De quem?

Então não sabes? pegou na esfregona e atirou-se ao parapeito. Credo, quanta porcaria!

O Ricardo? Mas ele

Foi-se embora, foi. Vou ser mãe solteira. Mas deixa lá, logo te conto tudo noutro dia.

Ele vai voltar?

O Ricardo? Não. A liberdade era mais importante. Azar o dele. Eu agora só quero saber do meu bebé filho ou filha, pouco importa!

Eu compreendo bem a Rita. O primeiro marido largou-a porque supostamente não podia ter filhos. Toda a família dele a crucificou. Teve de ser ela a pôr fim à relação. Ele pouco depois casou de novo e logo perceberam que afinal o problema era dele. Fez tratamento, tiveram dois filhos.

Ao menos a Rita ficou em paz e grata pelo recomeço. Se não se tivesse divorciado, não teria agora o filho que tanto desejava. O Ricardo fugiu quando soube do bebé, mas já não importava. Já não era aquela menina insegura.

A limpeza levou-nos até ao anoitecer, mas valeu a pena. A casa até parecia ter respirado as janelas velhas, o cheiro do sabão, a madeira viva. Quase um renascimento.

Sentámo-nos, cansados, enquanto eu ponho água a ferver para o chá. Como é tudo tão fugaz, penso eu. Parece ontem que vínhamos aqui roubar bolinhos acabados de sair do forno e fugíamos para o rio, a minha avó a abanar um pano e a ralhar:

Malandros! Nem almoçam como deve ser!

Depois, quando o calor baixava, apanhávamo-la no quintal e íamos ajudá-la. Tudo feito a correr, a rir, a tentar dar conta da quinta e da lida. A avó, já viúva, criava-me sozinha a minha mãe tinha morrido ao dar-me à luz, o meu pai foi para Lisboa, com nova família. Um dia, quando nasceu outra criança dessa família, a avó resolveu voltar à cidade comigo, só para logo depois voltarmos ao campo. Não sei porque nunca explicou as lágrimas no regresso.

Quando perdi a avó, tinha acabado de conhecer o António. Fiquei tão cego de paixão e distraído que só me percebi do quanto ela já estava doente muito tarde. Restaram-nos só três meses. Foi pouco, muito pouco. Mas antes de falecer, ainda chamou a minha mãe, a dona Rosa, e eu nunca soube o que lhe disse. Daí em diante, sempre a tratei por mãe. Foi ela o ombro amigo nessa nova vida.

Nem uma vez briguei com a minha sogra. Só me deu carinho. Se dava conselhos, era sempre com doçura. Essas coisas aprendi com ela: família é muito mais do que sangue.

Após a morte da avó, apareceram quase vindos do nada o meu pai, a madrasta e a mãe dela.

Boa casa esta. Rija. Deve valer uma boa quantia dizia a velha, a medir o terreno.

Está tudo tão deixado. Deviam ter arrumado melhor. Os compradores gostam de ver as coisas limpas.

Que compradores? finalmente desperto do luto, tremia de raiva.

Os que vão comprar a casa!… respondeu a madrasta, quase com despeito. Senti um aperto, fui vomitar pelos fundos. Quando regressei, já lá estava a minha mãe, de braços abertos.

Ponham-se daqui para fora! Já! disse ela.

Quem é a senhora para dar ordens?

A casa é do José. Passou em escritura, e também tem direito ao dinheiro do banco. Os papéis estão em dia. Portanto, rua! Queriam tirar o pouco a um órfão!

A tempestade à porta foi só barulho de fundo. A minha mãe arrastou-me para o quarto, enfiou-me o seu robe e deitou-me.

Não chores! Não deixo ninguém fazer-te mal. Vai dormir, filho. Eu trago chá.

O meu pai só o vi de novo no meu casamento.

Nunca lhe enviei convite apareceu simplesmente. Todos a rir, enquanto brincavam com o António a tentar enrolar um boneco como se fosse um bebé. Senti-me tocar no ombro, virei-me ainda a rir.

Olá, filho…

Fiquei sem fala. Ele pegou-me na mão, deixou umas chaves e apertou-me os dedos.

Desculpa! Os papéis ficam com a tua mãe. Ela explica tudo. Sê feliz!

Logo se foi, quase sem eu me aperceber.

O apartamento que me deixou era pequeno, mas acolhedor. Duas divisões e uma cozinha espaçosa. Não percebia porque trocar a casa da avó por aquilo.

Zé, aqui vai ser mais fácil. Ao menos estás na vila. Tens de estudar explicou a minha mãe, sentada com ar satisfeito por ter conseguido convencer o meu pai de que ser pai não acaba com a infância.

Tenho. Só não sei quando esbocei um sorriso.

Olha que sim. Ainda tens pouco tempo. Nem disseste ao António.

Ajuda-me, mãe. Eu quero estudar e criar a cabeça para algo mais. Ele vai perceber.

Claro que percebo, rapaz! Vai em frente.

Terminei o curso na extensão universitária local. Não foi fácil, mas a minha mãe ajudou com tudo, até a cuidar do Francisco.

Respirámos finalmente mais à vontade quando arranjei emprego e o Francisco entrou na creche.

Vamos ao Algarve! gritou o António, tapando os ouvidos enquanto ríamos como crianças.

Foi a nossa primeira e única viagem de férias. Andávamos à nora na água, a vigiar o Francisco a brincar com a avó, e passeávamos os quatro pelo paredão junto ao mar, quando o céu já prometia estrelas.

Uma noite, enquanto o António ficou com o miúdo no carrossel, fui com a minha mãe passear pelo cais, conversando sobre tudo e nada. Vimos um casal a discutir. Gritavam, choravam, depois afastaram-se juntos, ainda danados.

Para quê discutir assim? suspirou a minha mãe. Não percebem que perdem tempo? Que provavelmente ainda se vão reconciliar mas o dia já não volta? Dá pena.

E se não se entenderem?

Só discute quem sente, Zé. Ainda se olhavam, a rapariga fugia a chorar, o rapaz ia-se embora mas olhava sempre para trás Mas perderam uma noite por birra.

Agradeço-lhe tanto por aquele conselho. Valorizámos sempre o tempo juntos, eu e o António.

No regresso ao presente, estava quase a entornar a chaleira, tal foi o susto. Uma sombra passou à janela. O meu primeiro pensamento foi trancar a porta, mas logo despertei. Estavam para chegar as crianças e a mãe. Não podia ficar ali um estranho no pátio!

A pega do bule aquecia-me a mão, mirei a janela. Estava escuro no quintal esqueci-me da luz.

Quem está aí?

A porta do anexo rangeu. Senti um pânico gelado.

O que quer? Eu grito!

Vi finalmente a sombra avançar.

Calma, José, sou eu. O Alexandre.

Suspirei de alívio, largando o bule e saltando com a dor do metal quente na perna. Coloquei-o na mesa do alpendre, murmurando impropérios.

Porque estás tu a rondar o meu pátio, Alexandre? E não entraste sequer em casa!

O Alexandre, baixo e forte, olhou para o chão, envergonhado. O meu Francisco fazia o mesmo quando partia vidros nos treinos de futebol.

Não te zangues A porta do anexo estava a cair. Fui ver se a endireitava. Amanhã vou para a apicultura, não sei quando volto Só queria ajudar.

Comecei a perceber. O pátio arrumado, as tábuas do banho de fora consertadas, tudo a bater certo.

Afinal és tu, o meu duende doméstico! brinquei.

Eu?!

Sim! Sempre achei estranho onde arranjava tanta ajuda. O Francisco quer arranjar um gato para companhia diz que o duende deve andar aborrecido sozinho.

Vi o Alexandre corar à luz fraca.

Devia ter dito antes

Obrigado, Alexandre. Mas porquê?

Encolheu os ombros e saltou a vedação, ignorando a mãe à porta e os miúdos.

Finalmente! disse a minha mãe ao entregar-me um garrafão de leite. Mete isso já no frigorífico.

Então sabias, mãe?!

Claro. Toda a vila sabia. O Alexandre gostou de ti desde sempre, mesmo quando eras do António. Nunca reparaste?

Não…

Não pode ser! a minha mãe ficou pasmada. Não estás a brincar?

Não, juro. Nunca percebi

Vai lá falar com ele Mas primeiro deitemos as crianças, que a conversa vai ser longa.

Estivemos até de madrugada. A minha mãe a beber chá, eu a ouvir.

Ele veio ter comigo há um ano pedir a tua mão. Disse que eu era como mãe para ti e que fazia sentido pedir a minha bênção. Espertalhão! Bem me lisonjeou. E aceitei, pois claro! Zé, mereces ser feliz outra vez. Os filhos vão crescer e sair, vais ficar sozinho comigo, velha e rabugenta? Era isso que a tua avó queria para ti? Não! A vida dá segundas oportunidades a quem as merece. O António foi único. Mas também mereces conforto e um companheiro. O Alexandre já é amigo do Francisco há muito. Sabias que lhe ensina a conduzir?

Não

De certeza que nunca to disse. Tem respeito por ti, receia magoar memórias. Mas tens de falar com o Francisco. Ele gosta do Alexandre mas não diz nada receia ser mal interpretado. O mesmo contigo…

Comigo? senti-me a corar.

Pois é! sorriu a minha mãe, puxando-me a chávena. Dá-me mais chá!

Eu e o Alexandre casámos passado um ano. Logo depois, nasceu mais um filho meu.

Olha lá bem, mãe, que juba é esta? ao despir o recém-nascido vejo-lhe caracóis loiros como a Madalena.

Parece o duendinho da casa! ri a minha mãe ao pegar-lhe. Bem-vindo, rapazinho. Podes chamar-me avó Rosa.

Mãe…

Sim, digo por hábito. Anda lá, vai alimentá-lo, eu trato da cozinha! O que queres para jantar?

O grande gato ruivo, presente do Alexandre ao Francisco, espreita de soslaio, salta para a janela, observa-me a dormir ao lado do recém-nascido. O silêncio sente-se, aconchega-se ao gato e observa. Eis a felicidade Tão frágil, tão suave Há que guardá-la com zelo e cuidado.

Ao longe ouve-se o tilintar de um chávena, a gargalhada cristalina da Madalena, e o silêncio desliza suavemente do parapeito, despedindo-se com uma festa na orelha ao gato. O bichano lambe-se, indiferente, e prepara-se para receber o novo membro da família.

Siga, que por aqui não faltam guardiões de felicidade.

Hoje dormi em paz. Se algo a vida me ensinou, é que devemos manter o coração aberto: a verdadeira família é feita daqueles que nunca desistem de cuidar de nós mesmo que tenham chegado tarde.

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O Guardião Misterioso da Casa Portuguesa
Não quero convidar os meus pais para o meu casamento.