Olha, vou-te contar o que aconteceu comigo, porque ainda hoje me rio para não chorar. Então, o Miguel que tem quarenta e oito anos já andávamos juntos há uns meses e, há coisa de um mês, aceitei que ele viesse morar para minha casa, aqui em Lisboa. Depois de tantos anos sozinha, com o meu T2 pago, emprego estável, depois do divórcio, achei que já merecia arriscar outra vez. Mas, amiga nem imaginas!
No sábado de manhã, o Miguel vai ao frigorífico, tira o tupperware com o meu estufado de ontem, torce logo o nariz e diz: Marta, já sabes que não como comida do dia anterior. Faz qualquer coisa fresco, sim? Eu e a minha caneca de café ficámos a olhar para ele como quem vê um OVNI. O problema nem era o pedido da comida em si. Era o tom! Nem um por favor, nem um será que podes? Nada. Parecia que, por ser mulher ali em casa, lhe devia servir refeições quentes sempre que quisesse, e jantar de véspera era praticamente crime.
Olha, eu com quarenta e cinco anos e bem resolvida, não me meti noutra relação para ser criada de ninguém pensei eu. E não o trouxe cá para casa para ter quem me limpasse o pó, mas sim porque, por tudo, parecia um homem finalmente adulto. Afinal estava enganada.
Conhecemo-nos no Tinder, aquelas coisas modernas. O Miguel era educado nas mensagens, cheio de cabedal nos encontros, trazia flores, contava piadas secas, nunca me perguntou pelo salário nem se gabava do que tinha. Trabalhava como motorista de entregas, vivia num T0 ali em Benfica. Ainda pensei: Até que enfim um homem normal. Três meses de namoro, sempre tudo certinho: vinha aos fins-de-semana, cozinhávamos juntos, fazia questão de ajudar na loiça, mandava bocas simpáticas enfim, parecia saudável.
Até que ele disse que estava farto de pagar renda e que fazia sentido virmos morar juntos, já que praticamente dormia sempre cá. Achei natural, somos adultos, vamos a isso.
Na primeira semana cá em casa, não tenho queixa arrumava as coisas dele, até se aventurou no fogão, não deixava tudo espalhado. Mas olha, bastou passar uns dias para começarem os pequenos sintomas.
Primeiro, começou a deixar as chávenas sujas em cima da mesa. Perguntei uma vez porque não lavava, respondeu: Mas tu à noite lavas tudo, não vale a pena fazer duas vezes, não é? Depois fui ver meias usadas no chão da sala. Pedi para meter no cesto e ele ri-se: Ai pá, isso são coisas pequenas, relaxa.
E depois, cada vez mais, começou a pedir-me para lhe passar coisas ou fazer-lhe isto e aquilo. Marta, passa-me o comando, Marta, traz-me um copo de água, Onde é que puseste meu carregador? E repara: eu a trabalhar de casa, ele só aparecia à noite já estafado do dia. Cada vez me sentia menos namorada e mais governanta na minha própria casa.
E depois, nesse tal domingo à noite, senta-se à minha frente com cara séria, pega no telemóvel, e diz:
Ouve, estive a pensar, temos de alinhar as tarefas de casa para evitar mal-entendidos. Fiz aqui uma lista do que faz sentido numa relação.
Fiquei logo na defensiva, pensei aí vem ele pôr as cartas na mesa. Mas achei que ia propor dividirmos tarefas, tipo pessoas normais.
Ele saca das notas e começa:
Primeiro: Comida. A mulher deve cozinhar todos os dias, sempre comida diferente. Não como restos. Portanto, todos os dias tem de haver comida fresca. Quase engasguei, mas ele continuou sem se abalar.
Segundo: Roupa. Lavar e passar roupa é para as mulheres. As minhas camisas têm de estar prontas à segunda-feira. A minha cabeça já a fumegar.
Terceiro: Limpezas. Limpar o pó uma vez por semana, esfregar a casa sempre direitinho. Eu passo o dia fora, não tenho tempo para isso. Lê isto tudo como se fosse uma folha de excel, sem pestanejar.
Quarto: Intimidade. Duas vezes por semana, no mínimo. É importante para a relação. Já só me faltava bufar fogo.
Quinto: Despesas. As contas da casa metade-metade, mas as compras do supermercado ficam para ti, já que cozinhas. Eu só pago as minhas coisas. Fecha o telemóvel, sorri e diz: Então? Justo, não achas?
Fiquei uns segundos sem falar. Depois pergunto: Olha lá, mas quais são as tuas tarefas então? Ele, com ar de quem não percebe a pergunta: Mas eu trago dinheiro para casa, isso não conta? Eu também trabalho Miguel. Trabalho em casa, mas não ganho menos do que tu. Ele subestima logo: Mas estar em casa não é o mesmo. Eu ando na rua, no trânsito, reuniões e mais reuniões tu estás sentada no quentinho.
Levantei-me, olhei-lhe nos olhos e disse: Miguel, o que queres é uma empregada doméstica de borla, não é? Ele ficou ofendido: Nada disso, isto é o normal de um casal. O homem trabalha, a mulher cuida da casa. Sempre foi assim. Foi assim nos anos 50, agora estamos em 2024. Ele suspirou fundo, com aquele ar paternalista: Marta, homens não foram feitos para trabalhos domésticos. Nós somos os provedores, a mulher é que toma conta do lar.
Nessa noite não preguei olho. Vi-o dormir, todo contente, como se nada se passasse! Como se aquele papel do regulamento fosse a coisa mais normal do mundo.
Às cinco da manhã levantei-me, fiz dois sacos com as coisas dele, deixei-os à porta e deixei-lhe um bilhete:
Li o teu regulamento. Aqui vai o meu:
1) Procura outra dona-de-casa.
2) As tuas coisas estão à porta.
3) Deixa as chaves na caixa do correio.
4) Não ligues. Boa sorte a encontrar quem queira ser tua empregada por amor à harmonia no lar.
Saí antes dele acordar, fui tomar café com a Joana e contei-lhe tudo. Ela abanou só a cabeça: Marta, fizeste bem. Imagina o que seria daqui a um ano.
Três horas depois, ele manda mensagem: Estás mesmo a fazer um drama por causa disto? Pensei que eras mais madura Nem respondi, bloqueei logo o número.
O que é que isto tudo me ensinou? Olha, cheguei à conclusão que o Miguel queria era uma funcionária, não uma companheira: que fizesse tudo, que estivesse sempre disponível e nunca lhe exigisse nada. E isto para ele era normal! A mulher depois dos quarenta para ele não é pessoa, é alguém que tem de agradecer atenção e fazer o serviço da casa e pronto. E o pior é que há mais homens assim do que parece. Disfarçam-se bem, e só mostram a verdadeira cara depois de estarem instalados.
O mais importante que aprendi foi: prefiro estar sozinha e livre do que acompanhada a fazer de criada. Aos quarenta e cinco não vou tolerar listas de serviço nem homens que me veem como função, em vez de pessoa.
Se é para ficar sozinha, que seja. Pior é viver com alguém que me trata como empregada.
E tu, o que fazias no meu lugar? Saías ou ainda ias tentar arranjar um meio-termo? Porquê é que tantos homens da nossa geração acham que precisam de uma empregada e não de uma parceira? Já te aconteceu alguém mudar assim que entrou na tua casa?







