Aparição Triunfal de Margarida Antunes
Mariana! Isso não é caldo verde, é uma miscelânea estranha! Minha querida, és uma advogada brilhante! Ocupa-te dos teus casos, deixa a cozinha para quem tem menos engenho que tu!
Magda, mas eu nem sou mulher? Mariana estava à beira de desatar num pranto frustrado.
Porque seria que nem os pratos mais simples lhe saíam bem? Aliás, nunca lhe ocorrera tentar algo elaborado. Na família já tudo estava definido desde sempre.
A Verinha era a dona da casa, Mariana a cabeça e Clarinha, a tempestade ambulante, aquela que conseguia pôr qualquer roda a girar numa direção improvável. Por isso, normalmente era Vera quem cozinhava nas reuniões familiares, e Mariana e Clara organizavam o resto: limpeza, compras, atividades para os miúdos tarefa da Clara. Só ela conseguia liderar o Clube dos Antunes, garantindo que, após cada encontro, a casa da Vera e jardins sobreviviam à arruaça sem um incêndio e sem precisar de obras. Crianças eram adoradas entre os Antunes, mimadas sem limites, mas a educação era tida como coisa séria ainda que os resultados fossem duvidosos.
Todos os sete netos da Dona Margarida, amores eternos da avó, tinham em si algo de Clara. Ela, que já era mãe de dois entre os pequenos selvagens lá fora no relvado, parecia pouco afetada pelo título. Sentada nos degraus, Clara mexia numa travessa de ameixas destinada ao próximo compota de Margarida Antunes e ponderava juntar-se à brincadeira das crianças. Só os olhares rigorosos de Vera a detinham. Vera, triturando tomates para outra salada, murmurava objeções entre dentes:
Não és mulher, és um furacão! Clara, será que um dia vais sossegar? Olha a Mariana, tão distinta! Eu também faço por merecer E tu, sempre a saltar de moto, a suspirar pela vida Mas pensa, os miúdos crescem! Como hão de olhar para ti? Agora têm seis, mas daqui a dois anos? Vão esconder o rosto com vergonha?
Oh, Vera, não exageres! Mariana, relanceando nervosa para o tacho do caldo verde (pelo menos tentava, hoje de manhã inteira), assentou a tampa. Há de tudo para se orgulhar. Que mais mãe lhes desmonta e monta uma motorizada? Tu consegues? Eu não Mal se faço uma sopa decente! Não mereço orgulho?
Mereces. Não és de sopas, mas és de tribunais.
Vês? Isso é?
O quê?
Cada coisa no seu lugar.
Lindo dito! Dona Margarida, tendo apanhado apenas fragmentos da conversa, atravessou a varanda e as mulheres suspiraram frente ao seu esplendor; as crianças gelaram, olhos fixos na avó, rainha absoluta.
Ena! Os gémeos de Clara encaixaram as línguas num estalar tão sincronizado que pareceu um trovão, assustando Dona Margarida, que quase saltou.
Está criado o efeito!
Ela rodou lentamente, vestida de novo, saltos altos, aqueles reservados a ocasionalidades sérias. Hoje era um desses dias.
Meninas, acham aceitável uma senhora de meia-idade apresentar-se assim para um encontro com um homem que não a via há quarenta anos?
Magda, estás um espanto! Ele cairá rendido!
Não preciso de ninguém rendido a meus pés! Margarida deu duas voltas à varanda em modo desfile e firmou-se com mãos nas ancas, nariz ao vento. O que faço com um homem prostrado? Preciso saber ao que venho, passadas tantas décadas. Que proveito ele pode querer de mim agora?
Avó, se calhar quer algum proveito comentou a neta mais velha de Vera, a quinze anos, Inês, sentando-se ao lado da tia, ameixa fresca à boca. O quê?!
Da risota que rebentou, os gatos que dormitavam à janela refugiaram-se, e a pobre caniche criada por Vera há um ano lançou um guincho de desatino digno de circo.
Inês, tu matas-me! Vera limpou lágrimas, foi à despensa buscar um pano e Mariana foi consolar a abalada cachorrinha.
Magda, o que houve entre vocês? Mariana enxotou as crianças e estas, captando que o assunto era de crescidos, sumiram para longe.
Oh, Marianinha, foi um romance!
Margarida pronunciou romance com tal arfar que Inês, pronta a sair a correr, chocou-se outra vez nos degraus, suspirando tão fundo que Clara se dobrou de riso.
Inês, ainda tens tempo para esses abalos!
A sério? Quando será a altura? Inês tomou o pano, limpou a poça e tornou a suspirar. Nem um namorico! E tu, Magda, quantos tinhas no teu romance?
Dezasseis! Magda abriu os braços, enfrentando o olhar da Vera. O que esperavas? Era tolinha e verde como o limoeiro! A tua filha é toda esperta e prudente! Mas é justo prepará-la para as adversidades do amor, não achas?
Magda! Conta logo! Clara limpou as lágrimas. Não vais despachá-la daqui agora. Que escute e aprenda!
Inês agradeceu o gesto da tia, aninhando-se mais nos degraus, olhos verdes de nenúfar como os de Margarida, traço notado por quem conhecia os Antunes: Magda e Inês não eram parentes consanguíneos; tal como Vera, Mariana e Clara não o eram em relação à mulher que já lhes era mãe.
Dona Margarida Antunes apareceu na vida dos Antunes logo após a mãe biológica partir. O pai, perdido e despedaçado, não sabia mover-se. O mundo ruiu, tragado pelo desaparecimento súbito da esposa.
Vera, malfeita dona de oito anos, viu-se chefe de irmãs. O pai, a cada apelo, replicava:
Verinha, era perguntar à mãe. Ela saberia
E Vera gelava de medo diante dessas palavras, sentindo que o pai mergulhava noutras realidades, pelo que deixou de perguntar e tudo resolveu só.
Com Mariana ainda era suportável; Mariana, com cinco anos, era composta. Já com Clara, a bebé de dois, impossível. Metia-se por todo o lado.
A avó, chamada para ajudar, rapidamente se declarou vencida.
Desculpa, genro, não consigo mais! A idade, a saúde as miúdas andam que voam. Vou antes, tenho casa, terras. Se quiseres, levo a Vera. Fica tu com as pequeninas.
Vera ouvia a conversa, temendo perder tudo o que conhecia e amava.
Até Clara, num rasgo de lucidez, chorou de medo, agarrada à irmã.
Não vou! Vou esconder-me! Ela não me encontra! Eu sei para onde!
Por sorte, nem teve de se esconder. O pai, murmurando, abanou a cabeça, e a avó partiu com a certeza de missão cumprida.
Semanas depois, chegou Magda.
Clara ardia em febre há dois dias e Vera solicitou o pai, fechado no escritório, que chamasse o médico.
Verinha, não posso! Algo urgente? a voz assustou Vera, a ponto de querer fugir.
O medo passou a ser sua companhia. Seria capaz de chegar à escola? E cozinhar papas que Mariana aceitasse? Aguardar que Clara não lhe fosse arrancada quando estivesse ausente? Temia tudo.
Agora percebia que não havia espaço para medo. Clara gemia de febre, chamando ora por Vera, ora pela mãe.
Sim, pai! É urgente! A Clara está à morte!
Se foi a frase, se a urgência no tom, não se sabe, mas o escritório abriu-se, o médico foi chamado, e Vera, por fim, sentiu-se livre dessa solidão que fazia de si a mãe forçada.
Dona Margarida era pediatra no centro de saúde. Atendeu ao chamado porque substituía colega. Era já fim de tarde; pensava nos gatos famintos, no frango a descongelar na cozinha, na noite longa a chegar. Resmungando dos serviços camarários que abririam buracos em Lisboa toda, passou a ponte enlameada do prédio. Cumprimentou as vizinhas:
Os Antunes?
Bastou a entoação à moda de quem sabe. Em minutos soube da família, o que se passava.
Está bom!
Agradecendo o falatório com aceno, Magda subiu ao apartamento. E foi ali que se fez a muralha de que Vera precisava.
Prontamente, Dona Margarida chamou ambulância, foi ao hospital com Clara, enfrentou o pai: um confronto épico, de que ele saiu a gritar, sem saber reagir:
Mas que querem de mim afinal?
Sê pai, homem, pelo santo Cristo! Ou as tuas filhas ficam sem mãe e sem pai? A vida foge-te e tu não vês? Onde está o teu juízo?
Magda sabia fazer chegar a mensagem alto e claro. Então Vera acalmou-se, sentindo que podia confiar no adulto.
Logo, soube que teria uma madrasta.
A vinda de Magda teve reações díspares. Vera gostou. A mulher cheia de decisão impusera ordem e estabilidade. Após convocar as três pequenas, Magda esclareceu:
A vossa mãe é única, ninguém toma esse título. Chamem-me só Magda.
Para Vera, foi um alívio. Mas não para todas. Mariana, ligada de modo especial à mãe, não aceitou facilmente a nova figura.
Não quero saber! Quero só a mãe!
Vera tentou evitar conflitos, mas quando viu Clara repetir as birras, explodiu.
Mariana! Não sei que faço contigo! És egoísta! A mãe não volta! Compreendes? Eu também gostava dela! Mas acabou. Não quero ser a vossa mãe! Não posso!
Magda entrou na altura certa: as três muito chorosas, ela abraçou-as todas, ignorando protestos. Deixou lágrimas e dores escorrerem, sem censura.
Não vos posso ser mãe, mas serei amiga e escudo! Mais ninguém há de vos tocar. Perceberam?
Dessa vez choraram sem vergonha, e Clara adormeceu finalmente nos braços de Magda. O entendimento viria mais tarde. Mesmo com muitas atribulações, Margarida Antunes, sonhadora de filhos que não os podia ter, virou a mãe de facto das três.
O pai faleceu um ano após o novo casamento distração fatal, foi atropelado. Magda, passando o choque, correu ainda de sapatos leves até à escola, interceptou a diretora, ofegante:
Eu mesma digo!
Apanhou as miúdas, levou-as para casa e foi direta:
Miúdas O pai Nada disso. Têm a mim, não vos largo!
A orfandade nunca foi total. Magda cuidou de legalizar a adoção antes do desastre. Saiu do serviço público e empregou-se em dois consultórios privados. Contas fizeram-se, e foi assim que cuidou do seu bando de pardais.
E que pardais! Cada qual com sonhos únicos, que Magda nunca cortava. A Mariana quis ser atriz? Magda fez uns telefonemas, levou-a a audições. Dois anos de teatro depois, Mariana preferiu o tribunal e Magda, aliviada, aceitou. Clara? Magda vendeu o chalé de família para comprar-lhe motorizada e proteções, arranjando um duplo profissional que a formasse, só para a filha não se magoar. O dinheiro que sobrou deu um dia para abrir a sua oficina.
Que é uma profissão, ora! Quem define a norma? O importante é que seja feliz!
A Vera, calada e responsável, nunca deu trabalho. Magda, por vezes, apertava-a num abraço e sussurrava:
Respira, amor! Estou contigo!
Para Vera, era regressar à infância, a uma segurança absoluta.
Assim Magda viveu, dedicada, até ao telefonema de há três dias. De repente, uma voz antiga, quase esquecida, pronunciou-lhe o nome e Margarida deixou cair a chávena de chá, afastando Inês, com quem estudava matemática nas tardes de terça, e tentou sentar-se mas falhou o alvo. Deitada no chão, não respondeu a perguntas de Inês.
Liga à tua mãe! Preciso de amparo! Já!
Vera chegou meia hora depois, despenteada, a acelerar por todo o lado, tentado avisar Clara e Mariana pelo telemóvel.
Magda, o que foi?
Acho que enlouqueci…
Não é novidade! Vera sacou da jaqueta, rindo, quando Clara entrou bufando, capacete na mão, afugentando os gatos do sofá. Magda, olha o desenho que pintei no depósito: bonito?
Fora de série! Mas o que é?
Um dragão!
Tipicamente teu Magda afastou os olhos do teto. Meninas! Posso ir a um encontro?
Para onde?!
Vendo as caras de espanto, Inês fugiu para a cozinha e pôs a chaleira ao lume. Adeus matemática! Não faz mal, de certeza passa.
E a Magda, oh Magda, ter um encontro aos setenta! Com quem seria?
Debateu-se dias quanto ao evento. E, ao juntar família toda no fim de semana, rendeu-se.
Que vos hei de contar? Foi o meu primeiro amor! Rapaz bonito, altíssimo, um cabelo, uma voz que me deixava sem chão!
Avó, amaste-o?
Loucamente! Magda gargarejou os olhos. Sofri que nem uma fadista!
Porquê?
Porque, filha, foi amor não correspondido, e isso trouxe-me grandes perdas. Perdi-me Oh, dito profundo!
Conta, avó, conta!
Era para ser cantado, amor, como uma balada dos troubadoures. Mas a voz falha, conto-vos em prosa. Bem, minha paixão não deu casamento. Tinha dezasseis, ele dezassete, e ela, a que se meteu no meio, dezoito!
Mais velha? Inês calou-se ao olhar de Clara.
Hoje nem parece diferença, mas àquela época, uma eternidade! Ela estudante universitária e vizinha. Mães amigas, claro, todos juntos. E aqui fica o teu primeiro ensinamento, Inês: nunca dês demasiado a saber à amiga, sobretudo sobre namoro. A inveja é um bolor começa-se por pouco e, de repente, há onde não devia.
Acabei a sofrer calada. Não me abri, lamentei Ponderei se valeria confessar-lhe, mas temi. Planeava emigrar, ser mergulhador; eu sonhava ser médica. A única vez que ousei, escrevi-lhe confessei numas cartas.
Que bom! Inês quase caiu do degrau, a tia impediu que fosse ao chão.
O tom de Magda gelou as conversas. Seguiu-se silêncio pesado, mas ela, voltando do transe, prosseguiu:
Na segunda carta, recusei…
Porquê, avó?!
Porque, meu amor, nada mais lhe podia dar que o sentimento. E ao homem, às vezes pede-se mais.
O quê?
Filhos, querida. Descobri cedo que não poderia ser mãe biológica, e não quis prendê-lo a isso. Amar é pensar primeiro no outro, não só no que queremos. Segundo ensinamento: se algum dia alguém se preocupar contigo mais do que consigo próprio, segura-lhe a mão e não largues!
Inês girava a ameixa entre os dedos, desfazendo a película.
E depois? ergueu os olhos para a avó, e viu lágrimas a escorrer. Inês correu a abraçá-la.
Não chores! Chega de histórias, já percebi, avó! Faz mal à maquilhagem!
Tens razão! Vou preparar-me, tenho de estar fresca para logo! e saiu, enquanto as irmãs a seguiram em silêncio.
O tempo não volta. Magda sempre ensinara: se a página virou, não se lê para trás. Clara lavou as ameixas, Vera pôs-se a organizar a cozinha, Mariana deixou-se embalar no baloiço do quintal, adormecendo em poucos minutos, inquieta com o silêncio sobre a casa, mas o sono venceu.
Mais tarde, uma carrinha parou junto ao portão e dele saiu um senhor baixo, boné fashion, papel na mão, batendo à grade.
Boa tarde, posso ver Dona Margarida Antunes?
Vera, abrindo, piscou-lhe o sobrolho, mas não negou entrada a um idoso. Faltavam ainda horas ao encontro. Ele apresentou-se; Vera quase se desmanchou: era o tal, o do romance.
Não tinham combinado encontrar-se na baixa?
Pois, mas acabei antes, quis vir mais cedo.
Entendi. Siga, vou chamar a Magda.
Vera dirigiu-se à varanda, mas parou, estática. O que viu, deixou-a boquiaberta.
E logo Margarida emergiu, triunfante! E que efeito! Os olhos realçados pelas mãos criativas dos netos gémeos com marcadores indeléveis, tão pretos que Inês foi direta buscar o pano e a caniche se escondeu arrepiada.
O penteado, elaborado pelas pequenas, era uma torre de molas e flores, mais digno de uma escultura de artista louco.
Santo Deus, Magda! Vera, petrificada, rebentou em riso. Deslumbrante!
Mas foi ao ver o convidado, pernas trémulas de tanto pasmo, remover o boné e o sol refletir-lhe a careca que Vera caiu no chão de tanto rir e ouviu as irmãs juntarem-se ao festival.
O cabe O cabelo!
O senhor, sem perceber muito, olhou ao redor e riu também.
Em tempos fui belo e revolto! Agora sou deste tempo careca Magda, prazer enorme rever-te!
Magda, já desperta do choque, fugiu para dentro. Soou primero um uivo sufocado, depois tal gargalhada que Clara disparou para a casa-de-banho, gritando:
Eu primeiro! fechando a porta atrás de si.
Quando acalmaram, Margarida lavou-se de todos os adornos involuntários. Uma vez recomposta, a varanda encheu, o serão alongou-se, nova página se abriu na história desta estranha e luminosa família.
As irmãs Antunes concluíram, sem dizer, o óbvio: gente boa nunca é demais.
Quanto ao senhor tão distinto do herói das memórias da Magda manteve-se, brincou, quis saber tudo das maquiagens e dos autores das diabruras, rindo-se com eles, provando talvez que merecia lugar entre os seus. Se calhar, sim. Se calhar, não. O tempo o revelaria. O importante, sabiam, era dar tempo a quem o pede. E, disso, todos viam nos olhos do visitante, e, claro, nos grandiosos, cintilantes olhos de Margarida.
Vera, colocando-lhe uma chávena de cevada, apertou-lhe o ombro e sussurrou:
Então? Não tenhas medo. Estamos sempre aqui. Vai, arrisca!







