Meias
Oh, meu docinho! Meu menino lindo! Ai, Senhor, por que será que as crianças pequenas são tão doces, hein? Dona Teresa exclamava, fazendo todas as delicadezas ao neto, orgulhosa diante da câmara.
Os seis meses do Martim foram celebrados em grande. Animadores, balões, um bolo enorme e maravilhoso. Os avós deram tudo de si. Filipa não apoiava muito esta ideia. Claro que ficava contente pelo entusiasmo dos pais em agradar-lhe e ao pequeno, mas, tal como quando era miúda, rapidamente se cansava da confusão das festas. Martim, parece, saíra à mãe, pois meia hora depois do início já chorava tanto que Filipa teve de levá-lo para dentro de casa. Fechou bem as janelas, sentou-se com o filho numa poltrona e, passado pouco, Martim dormia profundamente.
Já chega de festa por hoje, meu amor. Tu ainda és muito pequenino para estas andanças.
Teresa subiu ao quarto das crianças, trazendo da entrada o seu presente.
Já está a dormir?
Está exausto, mãe. Eu disse-te que era cedo demais para tanta euforia.
Não faz mal, habitua-se! Filha, podemos permitir-nos dar este mimo ao nosso neto. O quanto esperámos por este menino! Olha só o que lhe comprei! Não é mesmo uma ternura?
Ao ouvir o rasgar do papel, o bebé agitou-se inquieto.
Mãe, deixa isso para depois, pode ser? Filipa levantou-se e passeava, embalando o filho.
Ora bem! Escolhi com tanto carinho, pensei tanto e nem queres saber! Teresa depositou a caixa na mesa, com alguma birra.
Ai, mãe querida, claro que quero! E tenho a certeza que vais acertar em cheio como sempre! Filipa sorriu, conciliadora. Podias trazer-me um copo de água? Estou morta de sede.
Então põe o menino na cama e desce.
Ele acorda.
E não faz mal! Depois voltas para a festa!
Mãe, se ele acorda agora, chora tanto que vai ser um problema para todos. Não é boa ideia, achas?
Filipinha, é preciso educar a criança desde cedo. Que é isso de começar a chorar? Crianças bem-educadas não fazem birra!
Filipa hesitou, ficando imóvel um segundo, depois continuou o seu ritmo descansado. Movia-se com tanta graça, de um lado ao outro, que parecia ter ensaiado aquele pequeno bailado a vida toda. Crianças bem-educadas não fazem nada que desagrade aos adultos. Meninas bem-educadas têm de ser perfeitas em tudo. Costas direitas, queixo erguido, posição primeira! E nem uma reclamação!
Eu vou lá ter com os convidados. E tu, trata de pôr o menino a dormir e depois desce, que não é bonito deixar a casa sem anfitriã.
Substitui-me tu, por favor, mãe.
Teresa afastou-se, e Filipa voltou a sentar-se na poltrona, apertando o filho contra o peito. Todo o seu percurso até ali vinha-lhe à memória: quão difícil tinha sido até Martim nascer!
Filipa crescera numa família de bem. O avô era académico, a avó, uma cirurgiã famosa em Lisboa. O pai, respeitando a tradição, também se fez médico. Filipa nunca entendeu como é que aquele homem tão inteligente e seguro se tornou uma sombra moldada pela sua mãe. Teresa sempre estivera longe do mundo académico. Com esforço acabou a faculdade, pôs o diploma numa prateleira e pôs-se à procura de marido. Na verdade, foi a avó de Filipa, D. Beatriz, quem tratou disso como ninguém. Os pais conheceram-se num aniversário de Teresa, o resto fluiu. Bem-disposta e elegante, Teresinha rapidamente conquistou o António e depressa houve casamento e uma casa nova comprada pelos pais. Filipa nasceu dois anos depois e ficou logo sob o domínio da avó. D. Beatriz controlava a ama e ela própria escolhia as atividades a condizer: dois idiomas, escola de ballet e professora particular de piano.
Uma senhora tem de ser completa!
Os fins de semana eram passados sob a vigilância da avó, em museus e teatros de Lisboa. Pouco via os pais: o pai enterrado no hospital, a mãe presente só o suficiente para uns beijinhos rápidos antes de sair para outra festa.
O esforço da avó deu frutos: Filipa entrou no conservatório e foi depois contratada por uma companhia de dança respeitada. A carreira corria bem, até conhecer o futuro marido. O Pedro nunca agradou à família, exceto ao pai.
Ai, que disparate! D. Beatriz, deitada no sofá, apertava as fontes. Filha, dá-te conta! Para quê isso? O que vais fazer com um bruto desses? Ele nem sabe dizer duas frases seguidas!
Oh, avó, convosco ao lado, quem é que consegue falar de jeito? Filipa, enroscada na poltrona, coisa que por norma lhe valia um sermão, agora escapava ilesa pois a avó tinha outros pensamentos.
Queres insinuar o quê?! D. Beatriz olhou a neta com espanto.
Só digo que pouca gente consegue estar à altura do teu nível.
A avó olhou-a com desconfiança.
Quero que saibas, avó, que não gosto apenas do Pedro. Amo-o. Não discutimos que o amor é o que faz vibrar a arte?
Arte, arte e como pensas viver com ele?
Durante muitos anos, espero eu, e feliz.
Filipa defendeu o seu destino não sem dificuldade, ouvindo acusações e apelos sem fim. Olhando o Pedro nos olhos, o sim dela foi tão certo que silenciou todos. Para o Pedro, Filipa era uma epifania: frágil, doce, mas com uma força indomável e uma vulnerabilidade que o fazia querer protegê-la do mundo inteiro.
Eu não tenho nada de valioso a oferecer, além do amor. Mas prometo lutar para te ver feliz. Se posso dar-te algo, é o meu amor inteiro.
E foi mais do que suficiente. Filipa sentiu, pela primeira vez, que era aceite exatamente como era. Que ninguém lhe exigiria mais perfeições.
A vida não foi fácil, nem para um nem para outro. Pedro não tinha influências nem família abastada. O pai morrera há muitos anos, criado pela mãe, D. Helena, uma senhora que dedicou a vida à escola primária, sempre adorada pelos alunos, respeitada pelo filho. A mãe encontrou sempre as palavras certas, por ela ele entrou no Técnico e ali se destacou. Com o apoio de D. Helena, vendeu o antigo apartamento, deu-lhe parte do dinheiro e Pedro criou o seu negócio, que depois de uns anos deu lucro e, uma década mais tarde, já era dos maiores da área. Até a implacável D. Beatriz reconheceu, ao fim de anos, o mérito de Pedro, especialmente quando nasceu o bisneto.
Filipa sempre quisera ser mãe. Na sua ideia, não ia fundar nada de grandioso, queria apenas aquela felicidade simples. Porém, parecia que a natureza não estava do seu lado. Anos de exames, duas operações, resultado nenhum. Nas noites, chorava baixinho para ninguém dar por isso. Achava justo Pedro ter opção de ser pai, já que não podia dar-lhe um filho. Ao partilhar o pensamento, Pedro só se riu com ternura.
Perdoa-me, Filipa! Mas achas mesmo que o sentido da nossa vida juntos se resume a criar descendência? Tu és a minha vida!
As lágrimas foram de alívio e de dor. Entender que ser mãe lhe estava vedado foi fácil; aceitar isso já custou bem mais. Tentou resignar-se, mas o vazio persistia. As amigas com filhos, a mãe a lembrar que todas as conhecidas já eram avós menos eu, livre e desimpedida, tudo agitava as suas inseguranças. A costela maternal acabou por lhe abrir uma escola de ballet.
Se não fizer nada, dou em doida!
Pedro não percebia bem, mas D. Helena foi clara:
Tens de entender, filho. Para uma mulher apaixonada, dar um filho ao marido é a maior felicidade. Dá-lhe apoio, o que ela quiser fazer, deixa-a.
Ele arranjou o espaço, Filipa encantou-se com a sala luminosa.
Perfeito! És incrível!
O início foi intenso e ela mergulhou no trabalho. Nem reparou nos primeiros sintomas, atribuindo tudo a cansaço. Maria Helena suspeitou primeiro.
Posso perguntar, Filipa? Não tens de responder se não quiseres Estás à espera de bebé?
Filipa bloqueou de ódio: sabia bem como aquilo doía. Mas Maria Helena só pediu para não se chatear. Ao levantar-se, cambaleou, quase caiu no sofá do café do bairro, onde tinha por hábito encontrar-se com a sogra. Nem o cheiro a café e doces lhe agradava naquele dia.
Maria Helena mandou vir um copo de água, depois de um tempo voltou com uma caixinha.
Para quê adivinhar?
Os empregados, intrigados a ver duas mulheres de mãos dadas a rir e chorar ao mesmo tempo, sorriam sem perceber a razão daquele espectáculo feliz.
Martim veio ao mundo saudável e robusto, os médicos até elogiaram será bailarina? perguntaram à Filipa, que respondeu que sim, mas era um rapaz encantador.
Agora Filipa acordava todas as manhãs tomada de uma felicidade tão plena que até estranhava. Podia alguém ser tão feliz assim? Achava exagero.
Não estás sozinha, amor. Divide comigo, somos dois! Pedro contemplava o rostinho a dormir nos braços da mãe, no roupão de renda comprado por Teresa para a saída da maternidade.
O regresso a casa foi para Filipa um pesadelo. Pedro tentou evitar, mas Teresa foi irredutível. Fotógrafos em volta, toda a gente à porta, mesa posta em casa. Filipa, dorida, só sonhava com um banho e silêncio.
Mãe, para quê tudo isto?
Tens de fazer tudo como mandam as regras! É uma festa para mim, por me fazeres avó! Estou tão orgulhosa!
Filipa percebeu que não adiantava discutir. Subiu as escadas com dificuldade e quase desesperou ao ver a multidão que os aguardava. Nem todos foram ao hospital.
Filhinha, são os nossos mais chegados!
Olhou para Maria Helena, já a notar a expressão de cansaço. Custava-lhe estar de pé, mas os convidados não paravam.
Com licença, vou roubar a mãe e o neto por uns instantes! anunciou Maria Helena, levando Filipa para o quarto.
Deita-te. Eu trato de tudo, no fim vais ao duche. Tens fome?
Filipa acenou, observando Pedro deitar o filho no berço com todo o cuidado, mas logo se irrequietou.
Tenho de descer
Quem disse? Sossega. Dez minutos já deste à praxe.
Filipa suspirou aliviada e, quase sem dar por isso, adormeceu, observando a sogra a andar pelo quarto.
Queres dormir? Maria Helena cobriu-lhe as pernas com uma manta suave. Dorme, que eu olho pelo Martim.
Pelo Martim… e adormeceu, nem sequer viu o sorriso terno da sogra. Martim, nome igual ao do pai de Pedro.
Teresa subiu pouco depois, escandalizada por Filipa dormir enquanto os convidados estavam em baixo.
E isto agora?
Chama-se uma mãe a amamentar! Precisa de paz, senão o neto fica sem leite.
Não faz mal! Eu nunca amamentei a Filipa mais de dois dias! Ela cresceu saudável! quis entrar, mas Maria Helena foi firme e desviou-a.
Vamos ali conversar, já esperámos tanto por este dia! Achas melhor sermos chamadas de avó ou pelo nome?
Pedro fechou a porta atrás das mulheres e agradeceu mentalmente à mãe. Com a sogra era sempre mais difícil. Usava tudo quanto ele podia oferecer-lhe, mas nunca lhe dava crédito em nada. Homem pacato, Pedro esforçava-se para se conter sempre que a mãe de Filipa era tema. Com o sogro rapidamente se entendeu. António apreciava-lhe o valor, mas, quanto ao matriarcado da casa, preferia não comentar.
Mudar aquela mulher é impossível, mas gerar conflito também não interessa.
Quando Filipa acordou, já tinha passado uma hora e meia; estava perdida, só o choro do Martim a trouxe de volta. Depois de alimentar o bebé, foi tomar banho enquanto a sogra preparava um prato de sopa delicioso e lhe ia explicando truques para cuidar do pequeno.
Claro que no hospital diz-se muita coisa, mas é sempre pouco, assusta tanto! Filipa confessou.
Come, não ligues a medos! Filipa, os bebés são mais fortes do que pensamos. Tu és mãe, confia no teu instinto. Quando nasceu o Pedro, não tive quem me ajudasse. Fiz tudo bem e mal, mas fiz. Tu vais saber sempre o que é preciso. Acredita!
O tempo deu razão à sogra. Rapidamente Filipa ganhou segurança, os medos esmoreceram.
O meio ano passou num instante. Maria Helena ia a casa duas vezes por semana, para ajudar o que acabava sempre com ela de volta da cozinha a limpar ou a cozinhar. Filipa primeiro aborreceu-se, depois aprendeu a aceitar.
Filipa, este tempo voa. Cada sorriso novo é um presente. Não desperdices o agora. Vai, aproveita. Eu fico a lavar o chão enquanto puder!
Teresa visitava menos vezes, mas todas se tornavam um espetáculo.
Olha a carrinho extraordinário que descobri! Vamos sair e testar!
Mas mãe, já temos um carrinho ótimo!
Nada disso! Vamos lá passear!
Recusou-se a chamar o neto de Martim durante muito tempo.
Onde foram buscar esse nome? Não havia qualquer outro? Martim! Tão estranho!
Ora, mãe! É um nome de reis. Qual é o problema?
O miúdo vai ser gozado na escola!
Se for, muda-se de escola! E afinal, não deviam ser os pais a escolher o nome do filho?
Não. O teu foi a avó que escolheu. Eu teria dado outro.
Ainda bem que decidi o nome do meu filho. Assim não me arrependo.
Teresa torcia o nariz, pegava no Martim e saía para a rua. Orgulhava-se de ouvir: Que bebé lindo! E que mãe tão bonita! Fazia-lhe bem ser confundida com a mãe do bebé. Sorria enigmaticamente ao ajeitar o cobertor. Só que, na vila, todos rapidamente perceberam a verdade e ela deixou de sair com o neto, limitando-se a uma visita ocasional para um café, beijar o menino e ir embora tratar de assuntos.
Serei a avó-festa dele! E lá ficava mais uma prenda vistosa na prateleira do quarto.
As funções familiares definiram-se e tomou-se acalmia.
A festa dos seis meses do Martim, organizada por Teresa, quase causou um escândalo.
Filipa sorriu ao filho desperto, indo buscar a caixa trazida pela mãe. Um maravilhoso chocalho de prata fez-lhe soltar um ai.
Martim, olha só! Que presente tão bonito!
O bebé abanava o chocalho, sorrindo com o primeiro dente.
E o que terá trazido a avó Maria Helena? Filipa abriu o saco deixado pela sogra antes da festa.
Um conjunto branco feito à mão, tão delicado, macio, que Filipa nem resistiu a encostá-lo à face.
E meias! Que lindas! A avó é mesmo habilidosa, Martim!
Teresa entrou nesse momento e soltou um suspiro:
Valha-me Deus! Que mimo! É de marca?
Não, mãe. Foi a Maria Helena que fez.
Teresa revirou a camisola nas mãos.
Mas não conseguia pensar em melhor prenda? Primeira data do menino e não foi capaz de comprar nada? Uma poupança que ninguém entende!
Mãe!
O quê, filha? Não tenho razão?
Filipa não sabia onde se esconder, vendo Maria Helena à porta, ouvindo tudo. A sogra apenas assentiu, colocou o copo de sumo que trouxera, e saiu em silêncio. Filipa demorou algum tempo a acalmar o Martim e, ao descer, viu que Maria Helena já tinha ido embora.
Pedro, que chatice! Sinto-me envergonhada!
Não foste tu que disseste nada. Porquê esse peso?
Por não a ter defendido logo! Foi horrível!
Não penses mais nisso. A minha mãe percebeu tudo.
Filipa pensou em várias formas de uma reconciliação. Tentou várias vezes abordar o assunto, mas Maria Helena cortava sempre.
Filipa, deixa estar. Não guardo ressentimento nenhum.
Mas Filipa sentia, no íntimo, que se tinha quebrado algo. Queria tanto consertar
Ficou mal-disposta num dia em que em casa só estava Martim, que dormia no andar de cima. Procurou Pedro, mas o telefone estava desligado estaria em reunião ou nalguma obra. Sabendo que o pai estava de serviço, ligou à mãe.
Olá, filha! Está tudo bem? E o Martim? Já não vos vejo desde a festa! Grande festa que foi, não te disse? Todos adoraram!
Mãe
Ora, não agradeças! Sou avó! Oh, espera, tenho outra chamada! e desligou. Por mais tentasse, só apanhava desculpas e linhas ocupadas.
A dor crescia, apertando-lhe o ventre. Aflita, ligou para o INEM e a seguir para Maria Helena.
Filipa?
Por favor tudo rodava, Filipa sentiu-se a desmaiar. O Martim
Maria Helena nunca se recordou de ter corrido tanto. Dirigiu-se à rua em chinelos, mala de mão ao ombro, fez sinal ao táxi à pressa.
Quer morrer, senhora?! gritou o motorista quase atropelando-a.
Por favor, é urgente! A minha nora sente-se mal!
Entre!
Maria Helena só suspirava, apertando a mala, enquanto voavam pelas ruas de Lisboa.
Não se preocupe! Tenho trinta anos de volante e zero acidentes! Vai correr tudo bem!
A ambulância chegou à porta pouco depois.
Aqui, aqui! chamou Maria Helena aos médicos.
Filipa ganhou consciência ao fim de alguns minutos.
Vamos levá-la connosco.
Para onde, porquê? tentava perceber.
Filipa, tem de ser. Não temas! Eu fico com o Martim. O Pedro já vem a caminho.
A operação correu bem, e após duas semanas teve alta. Queria muito ir para casa, mas o pai insistiu.
Filha, isto não é brincadeira. Recupera primeiro. O Martim precisa de uma mãe forte!
Ao regressar, a primeira coisa foi abraçar o filho, depois ligou à mãe.
Mãe!
Filipa! Como estás?
Ainda às voltas… Vou precisar de ti.
De mim? a voz de Teresa soou estranha.
Preciso que fiques cá uns dias. Não posso pegar peso. Preciso mesmo de ajuda com o Martim.
Sim, sim Mas, olha, não esperava Tenho viagem marcada. O voo é já depois de amanhã e não dá para cancelar. Ando a sonhar com isto há tanto tempo…
Filipa fechou os olhos por um momento, depois desligou, em silêncio. Seria sozinha. Amamentou o bebé, deitou-se e adormeceu com dificuldade. Quando aquela dor iria passar? Médicos e o pai diziam que já devia estar boa, mas ainda sentia os pontos.
Acordou ao ouvir passos.
Oh! Não queria acordar-te! Maria Helena pegou em Martim e sorriu-lhe. Com fome? Fiz sopa da tua preferida, há ainda compota e uns bolinhos. Agora levo o Martim até ao Pedro e trago-te tudo. Descansa. Se for preciso, fico aqui em casa convosco até ficares mesmo boa.
Filipa olhou para a sogra e não conseguiu conter as lágrimas.
Então, vá, chega de choro! O médico disse que precisavas de boas emoções! É nisso que vamos apostar, sim? Olha só o que temos para te mostrar.
Maria Helena colocou o neto de pé no tapete e largou devagar. As lágrimas secaram de imediato ao ver o Martim correr para si com passinhos bamboleantes. Filipa abriu os braços, ergueu-o ao colo e olhou para a sogra.
E então? Boas emoções? Pois claro! Maria Helena riu. Agora anda, que está na hora de comer. Precisas recuperar, que assim que esse rapaz desatar a correr, vais precisar de toda a tua energia.





