Resposta sem Falhas

Paulinha, já te despachaste? Vou chegar atrasada à escola! gritou Violeta, sacudindo a última camisa do Quim e pendurando-a na corda do estendal, no varandim. Não era fechado, claro, e as paredes mostravam a pintura a descascar, mas aquele recanto era o seu favorito.

Violeta foi até às grades e, pela milésima vez, ficou colada à vista. Do sétimo andar, via-se o Tejo a estender-se, a luz de Lisboa a acordar. O sol matinal explodia em amarelo pela cidade, promessas de um dia novo. Violeta apertou as grades com as mãos finas como se aquilo fosse impedir a vida de fugir-lhe. Isto sim, era viver: tudo brilhante e tão aberto! Só tinha de despachar uns assuntos lavar roupa, passar ferro, tratar dos irmãos e tudo correria como queria.

Uma nuvem atrevida passou à frente do sol. Violeta estremeceu, apanhada de surpresa pelo regresso à realidade. A vida era isto: sonho, corre-corre, depois, de repente, a rotina. Como dizia a Sónia: A realidade somos nós que fazemos. Depende de nós o que for. Realmente, a Sónia era uma mulher sábia. Tinha acabado o curso na Nova, dizia que Violeta tinha tudo para entrar também. Outra questão era se ela queria mesmo. Violeta suspirou. Querer não bastava; era preciso ter juízo. O pai sozinho não dava conta do recado, os mais novos ainda minúsculos, o dinheiro isso nem se falava. Portanto, restava-lhe escolher: ou a faculdade, ou começar a trabalhar para ajudar. Opções, para já, não havia.

Espiou o relógio de pulso, uma prenda do pai no segundo ano, e desatou a correr. Já estavam atrasadas! Pegou na bacia vazia, abriu a porta da varanda.

Paulinha dormia tapada até aos cabelos, uma mãozinha debaixo da face, tão serena que Violeta ficou a admirar a pequenina. Linda de morrer! Pestanas enormes de tocar na bochecha, caracóis dourados emaranhados na almofada. Era um filme pentear aquilo tudo, mas cortar? Nem pensar! Com tanta beleza, só dava vontade de proteger. Tal e qual como a mãe costumava ser. Mas em lembrar-se dela, Violeta fechava logo o semblante. Certos perdões, como o abandono, não nascem. A mãe foi embora, largou-os todos. Paulinha nem se lembra dela chegou a chamá-la mãe a Violeta, provocando olhares tortos no parque infantil. Violeta riu ao recordar o sururu que se armou das primeiras vezes.

Mudaram-se ali depois do falecimento da avó. Herdaram-lhe o T3, finalmente espaço para todos. Antes, era um T2 a rebentar pelas costuras.

A avó, temível, era professora universitária e desdenhava toda a vizinhança, pô-los em paz. Violeta, em miúda, via aquilo quase como excentricidade, mas com o tempo evitava aquela casa do julgamento. Só ia ajudar, mastigando respostas, esperando não ouvir os típicos comentários.

És igualzinha à tua mãe. Não te auguro grande futuro. Salva-te se for pela inteligência! Estuda, ou acabas como ela.

Violeta preferia calar-se, nem valia a pena argumentar. O pai nunca ralhava, mas ficava um pedaço calado de tão magoado, e a rapariga percebia logo que esse era o pior dos castigos. Evitava confusões, virava costas à avó o mais depressa possível. Só uma vez é que perdeu a cabeça.

O Quim e a Paulinha provavelmente nem são filhos do teu pai. Não tenho nada a ver com eles! Fica avisada, não os menciones na minha casa.

Então, também não me vês mais cá! e saiu, vermelha de raiva, só parou em casa quando o fôlego faltou. Agarrou Paulinha ao colo e sussurrou:
Tu és minha! E o Quim também! Somos todos família, nem que ninguém tenha nada a ver com isso.

O pai, com a roupa suja na mão, olhou para as filhas. Paulinha, surpreendida com as lágrimas da irmã, desatou ela própria a chorar. O Quim, da cozinha, espantou-se:

Que se passa agora?

Mulheres! resmungou, antes de as abraçar às duas. Vá, vinhamos jantar? Eu e o pai fizemos massa à moda da avó.

O telefonema da avó chegou uma hora depois. Violeta largou as loiças, prendeu-se à cadeira. Discussão iminente? Nada disso. O pai entrou na cozinha, deixou-lhe um beijo ternurento na testa e disse:

Não voltes lá.

Nem à avó?

Ninguém te trata mal na minha família.

Peso saiu-lhe dos ombros. Já podia respirar e fazer pela vida.

A avó acabou por morrer um ano e meio depois. Nos seus últimos meses, Violeta voltou, por dever, e porque as coisas estavam diferentes. A avó era agora só uma velhinha deitada que, mesmo assim, mantinha o mesmo mau-feitio. As enfermeiras respiraram de alívio ao perceber que tinham ali uma mediadora. Enquanto isso, Violeta equilibrava-se entre os turnos da escola do ciclo da tarde e as manhãs no hospital.

És uma miúda fenomenal! elogiava a chefe das enfermeiras. Não guardes mágoa, menina. Quem foi pequeno de coração, nunca foi feliz. Triste vida.

No último dia que se viram, a avó parecia leve, presa à janela e ao céu nublado de Lisboa.

Vou indo, avó.

Espera Desculpa, filha. Por tudo. Protege o teu pai.

Violeta saiu, mas antes voltou e depositou-lhe um beijo na face fria. Descansa, volto logo.

A avó partiu nesse dia. O pai ficou destroçado para ele, era a mãe. Violeta cuidou dos irmãos e deixou o pai no seu luto.

A mudança para o T3 foi dura. Paulinha sempre doente, Quim a armar-se em rebelde, o pai sempre na correria. Violeta, a encaixotar tralha, lançava rezas sussurradas a quem as quisesse ouvir, pedindo que tudo melhorasse.

Na nova casa, cada um ganhou um espaço teórica ilusão, pois no fim a cama de Paulinha apareceu ao lado da de Violeta, que nunca descansava antes de ter a irmã pequena aninhada com ela. O Quim colonizou logo a cozinha; era onde se sentia em casa.

Salga as batatas! Violeta tentava decifrar física.

O caldo já ferve, e agora?

Já vou e lá ia cortar a cebola.

Ó Violeta, isto dos números negativos?! O Quim, cabeça às voltas.

Ora mostra. O que é que te embrulhou agora?

Paulinha, de lápis na mão, lá imitava os grandes, desenhando também.

Ao princípio, Violeta andava à rasca. O pai fazia por tudo, mas o mundo estava sempre em cima dela. O infantário safava-a, mas Paulinha falhava muito por doenças. Mais faltas, menos aulas, até que apareceu a Sónia.

Conheceram-se à porta do prédio, acidentalmente. No primeiro domingo após a mudança, Violeta foi com a Paulinha ao parque infantil. Entre mães, avós e amas, começaram os olhares, as cochichices. Paulinha, impaciente para ir ao baloiço, chegou-se à frente:

Mãe!

Silêncio de cera. Violeta sentiu os olhares a perfurá-la. Até que alguém se aproximou:

O que se passa aqui?

Sónia elegante, destemida, voz de comando. As mulheres calaram-se na hora.

Esta é a minha vizinha nova. Veio abalar o nosso galinheiro.

Sónia ergueu uma sobrancelha.

Digam lá. Algum problema por ser tão nova mãe? Devia largar o miúdo a alguém e ir passear? Ou talvez pô-lo num lar de crianças? Realmente, só faltava sermos nós a decidir a vida dos outros Já se podem calar!

Olhou para Violeta, agora corada.

Como é que te chamas?

Violeta, e a Paulinha.

Sónia, só Sónia, nada de donas nem tias, que esses títulos só nos envelhecem! Queres vir lanchar um dia destes?

E sem saber como, Sónia tornou-se a sua espécie de confidente, amiga improvável. Jurista, despachada, metida em tudo o que era assuntos de família. Toda a gente lhe ia bater à porta para conselhos, mesmo aqueles que a temiam.

Nem imaginas o que sei desta gente toda! ria ela, entre panos e detergentes. Mas língua segura para não me meter em sarilhos. Todos querem parecer seres exemplares, mas depois Tu percebes?

Por isso é que o pai preferiu mudar de casa, para não haver línguas viperinas a relembrar o passado da mãe.

Sónia foi a primeira a quem Violeta se abriu de verdade. Nunca partilhava nada talvez porque não sabia, talvez porque doía.

Um dia, Sónia pediu-lhe para dar de comer ao seu gato, Serafim.

Audiência vai demorar, depois médico, depois reunião. Se não comeres à hora certa, deixa de maçar o juízo de noite!

Violeta torceu o nariz: É só um gato! Que drama

Drama? Drama é ele acordar-me à meia-noite só por vingança. Queres ver?

Fechou a porta da cozinha. Logo um murro, parecia o touro do Campo Pequeno.

Sempre assim! puxando pelo gato, que miava de dignidade ofendida. Às vezes acho que é ele que manda cá em casa

Violeta demorou com tudo, atrasou-se, e ainda foi passar pela casa de Sónia já de noite. Abriu-lhe a porta, comboiada com um pedido de desculpas ao Serafim.

De repente, Sónia entrou, atirando a mala e deixou-se cair na cadeira, exausta. Desatou a chorar como uma miúda. Violeta ficou sem saber o que fazer nunca a vira assim. Aproximou-se e sentou-se a seu lado, tocando-lhe o ombro.

Desculpa Tudo junto, o trabalho, eu Fico sem ninguém a quem contar. A minha mãe já não está cá

E eu? Não sou gente?

Sónia riu-se entre lágrimas, passando-lhe a mão nos caracóis.

Sempre quis ter caracóis As mulheres querem sempre o que não têm. E um filho.

Aqui calou-se.

Para os caracóis é fácil, mas filho?

Ousou perguntar. Sónia tirou uma pasta da mala.

O filho é este. Não vou poder ter. Culpa minha, mais ninguém. Cuidado com os erros, Violeta.

Tinha engravidado logo, era casada com o Márcio há anos, sonhavam com isso. Adiaram para juntar dinheiro, ver o mundo, comprar casa maior. Quando tudo se alinhava, lá veio a gravidez e também a viagem à Madeira. Viagem que acabou com um acidente, hospital, complicações. O bebé nunca chegou, e ela nunca voltou a engravidar.

O casamento azedou, nem chá de tília o salvava. Ambos ficaram presos ao que perderam e deixaram-se levar. Acabaram a rir, anos depois, num jantar, amigos mais uma vez, mas a mágoa nunca saiu de cena. Por isso, quando ele pediu para voltarem a casar, Sónia hesitou mas sopesou tudo. E decidiu não avançar.

Ele sempre quis filhos. Não lhe posso negar isso.

Mas e os médicos? Não há margem para erro humano?

Margem mínima.

E tu agora choras? Experimenta, e só depois te lamentas! Violeta provocou um sorriso em Sónia.

Obrigada por seres tão madura, miúda. Como é que és assim?

Óptimos professores, diria eu e foi pôr água na chaleira.

Agora a tua vez. Fala-me de ti. Porque só tens o teu pai? E a tua mãe? Vá, sinceridade por sinceridadeVioleta hesitou, ajeitou as mangas da camisa e olhou pela janela, onde os candeeiros começavam a acender as luzes na cidade.

Quando era pequena, achava que a mãe era feita do mesmo tecido que a avó. Duras, sempre apressadas mas com tempo para sorrir, às vezes. Um dia, a mãe já não voltou. O pai nunca explicou, mas acho que também nem ele percebeu bem. Cresci a preencher os vazios, Sónia. Acho que é isso. Quando falta alguém, a gente inventa uma maneira de caber no mundo.

Sónia acenou, olhos a brilhar.

Tu não sabes, mas ocupas mais espaço do que imaginas. No teu prédio, na tua família. Até aqui, comigo. Podias, um dia, estudar direito. Ou o que quiseres. O mundo é gente que encaixa onde é precisa.

Do outro lado, ouviu-se um miado e Paulinha correu para a cozinha, pijama aos tombos.

Mana, tenho medo dos trovões mesmo quando era só o barulho da chaleira.

Violeta abriu os braços.

Vem cá, cabemos todas.

E assim ficaram: três mulheres e um gato ansioso, debaixo da luz morna da cozinha. O mundo lá fora com pressa, mas ali adentro, o tempo parado, a certeza que, para cada perda, há laços novos, e cada recomeço pode ser uma família inventada feita de sorrisos, chá quente e promessas baixinho ao ouvido.

Vamos ser felizes, Paulinha?

Vamos, mano. E já agora, posso dormir contigo hoje?

Sempre. Dessas promessas, eu não fujo.

Sónia piscou-lhe o olho. Lá fora, o Tejo escurecia. E pela primeira vez, Violeta sentiu-se dona do próprio destino. Amanhã, Lisboa despertaria igual mas, no alto daquele varandim, tudo estava, finalmente, no seu lugar.

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