Sempre acreditei que, ao ter o meu próprio apartamento, tudo se encaixaria. Fui criada a pensar que uma mulher deve ter segurança, um teto seu, algo que lhe pertença.

Acreditei toda a vida que, se tivesse um apartamento meu, tudo se encaixaria. Assim fui criada que uma mulher deve ter segurança, um teto próprio, algo que seja só dela. Cresci de casa alugada em casa alugada, mudávamo-nos constantemente e ouvia a minha mãe ralhar com senhorios. Fiz uma promessa: a minha filha nunca iria viver assim.

Quando casei com o João, decidimos pedir um crédito ao banco. Era assustador, mas naquela época os juros pareciam suportáveis e nós jovens e cheios de esperança. Assinámos os papéis de mãos trémulas, mas com o coração cheio de sonhos. Comprámos um T2 modesto, no fim da Amadora. Não tinha elevador, mas era nosso.

Os primeiros meses foram uma festa. Pintávamos as paredes com as próprias mãos, montávamos móveis até altas horas e dormíamos num colchão no chão. Sentia uma felicidade simples. Mas depois vieram as prestações. Todos os meses, no mesmo dia, o que devia ser rotina tornou-se pesadelo. Passei a contar os euros ao cêntimo, a fazer contas sem parar, sempre preocupada se chegava para tudo.

Trabalhava em dois sítios de dia num escritório em Carnaxide, à noite aceitava encomendas online. O João fazia horas extra. Quase não nos víamos. A Maria ficava muitos dias com a avó. Acreditava piamente que era só uma fase, que bastava aguentar uns anos e tudo aliviaria.

Mas o desgaste foi corroendo tudo aos poucos. Fiquei nervosa, irascível. O medo de perdermos tudo não me largava. Quando o frigorífico avariou, entrei em pânico, como se o mundo tivesse acabado ali. Não era pelo aparelho em si, mas porque sentia que não havia margem para nenhum erro.

O golpe mais forte veio quando um dia ouvi a Maria contar à avó que a mãe anda sempre cansada. Disse-lhe baixinho que estou sempre com pressa e que já não me rio tanto. Essa frase abalou-me mais do que qualquer extrato bancário.

Sentei-me sozinha na cozinha, no apartamento que conquistei à força. Olhei para as paredes, para o sofá novo, para os móveis onde investi tantas horas. E perguntei-me: para quê? Por segurança. Por tranquilidade. E naquele lar não havia nem segurança, nem paz. Só medo.

Foi aí que, pela primeira vez, duvidei. Será que o apartamento se tinha tornado o fim, e a família apenas o meio para o alcançar? Falei muito tempo com o João. Estávamos os dois esgotados. Percebemos que nos tínhamos tornado meros colegas de casa a trabalhar para o banco.

Foi uma escolha dura. Vendemos o apartamento. Pagámos o crédito. Ficámos com muito menos do que pensávamos, mas sem dívidas. Voltámos a arrendar. Ao assinar o contrato de aluguer, senti-me derrotada, como se admitisse que falhei.

Demorou até largar a vergonha. Cá, toda a gente pergunta logo se tens casa própria, como se isso definisse quem és. Eu também pensava assim. Hoje sei que é só uma ilusão.

Agora temos menos coisas, mas mais tempo. As noites são tranquilas. Vamos passear depois de jantar, cozinhamos juntos. A Maria voltou a ver-me sorrir. E compreendi uma verdade simples casa não é escritura. Casa é a atmosfera que se cria entre as paredes.

Não digo que ter casa própria não preste, só que não vale a pena perder quem somos só para a conquistar. Nada material deve ser mais caro que a tua saúde, a tua ligação com quem amas, o teu descanso.

Procurei a segurança em tijolos e dívida durante demasiado tempo. Só no fim percebi: a maior segurança é estarmos juntos sem vivermos presos ao medo. Tudo o resto são apenas paredes.

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Sempre acreditei que, ao ter o meu próprio apartamento, tudo se encaixaria. Fui criada a pensar que uma mulher deve ter segurança, um teto seu, algo que lhe pertença.
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