Ana, leva-a daqui! Já não aguento mais! Até tocar-lhe me causa repulsa!

Rita, leva-a contigo! Eu já não aguento mais! Até tocar-lhe me causa repulsa!
Maria tremia. O bebé nos seus braços gritava a plenos pulmões.
Rita pegou a sobrinha ao colo e assentiu com a cabeça.
Está bem. Mas é assim mesmo o teu desejo? Não te vais arrepender depois?
Não, que arrependimentos?! Leva-a, não a quero!
A pequena tinha vindo ao mundo há apenas um mês. Desde o início da gravidez, já algo estranho se passava com Maria. Rita, ao princípio, justificava as mudanças bruscas de humor com o avançar da gravidez. A irmã era viúva havia mais de sete anos. Os filhos mais velhos já tinham crescido e viviam longe. Uma ida à Praia da Nazaré, um romance fugaz e uma gravidez inesperada apanharam toda a família de surpresa. Maria nunca fora dada a arroubos nem impulsos. De início parecia feliz com o novo bebé, mas depois Rita começou a notar comportamentos estranhos: ora Maria corria a comprar roupinhas, a procurar berço, ora se fechava em silêncio semanas inteiras, como se estivesse atrás de uma muralha invisível.
Mal antes do parto, Maria cortou contacto com todos. Não ligava à mãe, nem à irmã, nem aos filhos. Rita suspeitou e foi procurá-la ao hospital, onde a irmã se preparava para assinar a renúncia à filha.
Maria, o que se passa contigo? Porquê?
Nem eu sei. Não sinto nada. Sinto-a estranha.
Estranha? Como assim, mulher? Olha que é tua filha!
Não há de ser minha! Maria virou-se para a parede.
Rita recorreu ao recurso final: levou a mãe. Maria cedeu e trouxe o bebé para casa. A mãe insistiu que mãe e filha viessem morar com ela, para ajudar nos primeiros tempos embora, na verdade, todos deitassem o olho a Maria. Ela cuidava do bebé como quem faz tarefas obrigatórias, nunca ficando mais tempo junto à filha do que o indispensável. O nome foi dado pela avó, ao colo andava pela tia.
Maria, eu fico com ela. Vou criá-la. Mas daqui a uns tempos, quando ela procurar pela mãe?
Não me interessa. Só quero que não seja eu.
Passaram-se poucos dias, os papéis ficaram prontos e Rita tornou-se oficialmente tutora da sobrinha. Maria foi viver para outra cidade.
A pequena Inês crescia bailarina e risonha. Andou e falou cedo. Chamava “mãe” à Rita.
Doze anos depois.
Mãe, hoje tive três notas máximas na escola e amanhã vamos ao cinema com a turma! a voz de Inês encheu a casa de vida.
É ela?
Sim, Maria, é ela. Por favor
Olá! Eu sou a Inês, e a senhora quem é?
No limiar da cozinha, estava uma rapariga alta de olhos enormes, alternando o olhar entre a mulher sentada e a mãe, pálida junto à janela.
Eu Sou Maria. Tua mãe, Inês.
Eu avisei-te! protestou Rita, avançando para Inês. Inês! Eu explico tudo!
Não é preciso, mãe. Vamos ouvir. Então? Diz que é minha mãe. E?
Vim buscar-te. Quero que venhas viver comigo.
Porquê?
Porque és minha filha.
Não sou, não. Eu tenho mãe, está aqui ao meu lado. Outra não preciso! E você é a primeira e espero última vez que vejo na vida. Inês virou e saiu da cozinha.
Rita caiu, exausta, numa cadeira.
E agora, para que serviu tudo isto?
Por enquanto, para nada. Mas hei de conseguir, acredita. Se for preciso, mesmo pelo tribunal.
Para quê tudo isto, Maria? Foste tu que a deste, não a querias. Ninguém percebeu, nem tu explicaste. Agora, tantos anos depois… querias o quê? Que ela te abraçasse como mãe? Vai ter com a mãe, depois falamos, eu vou ter com a minha filha.
Com a tua sobrinha! Maria levantou-se.
Rita suspirou e foi ao quarto da Inês.
Inesita
Mãe, espera. Antes de explicares seja o que for, deixa-me dizer. Eu sei tudo. Lembras-te, há um ano, quando fizemos a limpeza na casa da avó? Eu encontrei os papéis da tutela. Primeiro fiquei furiosa por nunca me terem contado. Depois quis encontrá-la para perguntar porquê? Mas, no fim, percebi que não preciso de respostas. Tu és a minha mãe! Outra, não quero!
Inês, meu anjo! Não te vou dar a ninguém.
Nem eu me dou! riu-se Inês. Lembras-te do Tiago da minha turma? Liga à mãe dele, é advogada de família.
Olha que tu não tenhas pressa demais em crescer. Eu ainda sou a mãe aqui, não esqueças. Rita riu também, abraçando a filha. Mas claro, vamos resolver.
Vieram discussões, nervos, muitos papéis, mas no final o tribunal deixou tudo como estava, respeitando a vontade da Inês, que recusava-se a viver com a mãe biológica ou sequer reconhecê-la.
As irmãs estavam à porta do tribunal.
Finalmente acabou este pesadelo. Rita suspirou, aliviada. E agora, o que vais fazer?
Vou-me embora, Rita. Não te quero atrapalhar. Ajuda não te vou negar. Para a Inês deixei uma conta aberta há anos, os documentos estão com a mãe, já entreguei.
Para quê tudo isto, Maria? E porque a deixaste?
Não houve romance nenhum, Rita. Não houve nada disso. Foi o parque escuro, numa noite tardia.
Rita ficou sem ar.
E nunca disseste nada? Todos estes anos, calada?
Nada podia ser consertado. Por isso calei. Nem percebi logo que estava grávida, achei que era o início da menopausa, e quando vi já era tarde. Conta à Inês, não digas nada. Não é a vida dela, é a minha. Talvez um dia me perdoe.
Rita apertou-a num abraço. As duas olharam para a praça, onde Inês esperava com a avó.
Às vezes, o que mais medo mete, pode transformar-se em algo bonito. Ela é tão linda! Maria limpou as lágrimas. E, pela primeira vez em anos, Rita viu a irmã sorrir.

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