Cuidei da minha sogra com todo carinho, mas ela deixou o apartamento para outra pessoa

Dá-me um copo de água, está tudo seco aqui na garganta! Já estou a gritar há uma hora e tu aí, a barulhar com as panelas, parece de propósito para não me ouvires!

A voz irritada e trémula da sogra, vinda do fundo do corredor, fez Leonor estremecer e quase deixar cair a concha de inox. Respirou fundo e contou até dez gesto automático, herança dos últimos três anos naquele purgatório. A cozinha cheirava a frango cozido e medicamentos o aroma entranhado nas paredes, nos cortinados. Leonor desligou o fogão, serviu água morna num copo, nem fria nem quente, e encaminhou-se para o quarto da senhora Augusta.

Augusta Sousa estava semi-estendida em cima de almofadas grandes, parecendo um pássaro velho e rabugento. Os seus olhos escuros e miúdos seguiam Leonor com uma atenção inquietante. Na mesa de cabeceira, entre frascos de gotas, blisters de comprimidos e montes de caça-palavras, estava agora um envelope grosso de papel pardo, que Leonor não recordava de ter visto antes.

Aqui está, dona Augusta. Beba devagar, Leonor falou tranquila, sem deixar transparecer irritação. Não ouvi, a ventoinha estava ligada. O caldo de frango está pronto, vou passar os legumes, como o médico pediu.

A sogra sorveu um pouco da água, fez uma careta, como se fosse vinagre, e afastou o copo.

Sempre tens desculpas! resmungou ela, enxugando os lábios com o lençol. Se não é a ventoinha, é o aspirador, ou então estás ao telefone. E a mãe do teu marido aqui a morrer de sede.

Não fale assim, estou sempre perto, Leonor já não dava importância aos lamentos. Ao endireitar o cobertor, reparou no envelope misterioso. Um canto de papel oficial espreitava.

O que é isso? Receitas novas? perguntou ela, apontando para o envelope. Preciso passar pela farmácia?

A mão da Augusta voou sobre o envelope, com uma energia nada própria de quem há meia hora mal levantava uma colher.

Não mexas! gritou. São coisas minhas, particulares.

Leonor ficou surpresa. Habitualmente, Augusta gostava que Leonor estivesse a par das receitas, facturas de luz e até cartas da Segurança Social. Aquela súbita reserva era estranha.

Só ia perguntar… começou Leonor, mas ouviu-se a porta de entrada e passos pesados no corredor.

É o António! Augusta rapidamente mudou de expressão, sorrindo com doçura fingida. Filho, vem cá, salva-me desta carcereira!

António, o marido de Leonor, entrou. Tinha um ar cansado, o casaco amarrotado, a gravata pendurada. Era chefe de vendas, passava os dias no escritório, fugindo do ambiente hospitalar e das discussões em casa.

Olá mãe. Olá Leonor, murmurou, beijando a bochecha da velha e ignorando a esposa. O que é desta vez? Que carcereira? Leonor anda atrás de ti como se fosses uma criança.

Anda, anda… Augusta apertou os lábios. Só anda porque quer que me vá embora rápido. Acha que não vejo? Nem carinho, só obrigação.

Leonor sentiu o nó apertar na garganta. Três anos atrás, quando Augusta teve o AVC, colocaram-se dúvidas: cuidadora ou lar de idosos? Não havia dinheiro para uma cuidadora, António nunca aceitaria o lar “O que diria a família, meter a mãe num lar?”. Então Leonor despediu-se da biblioteca onde era feliz, trouxe Augusta do seu T2 para o T3 deles, e puseram a antiga casa a arrendar para custear a medicação e fisioterapia.

Vou preparar a mesa, disse Leonor, fugindo para a cozinha.

Durante o jantar, António mexia na comida com pouca vontade.

Está bom? Leonor tentou um pouco de afecto.

Está, respondeu, sem levantar os olhos do telemóvel. Leonor, a mãe pediu para convidar a Sara amanhã. Diz que tem saudades.

Sara era sobrinha de Augusta, filha da irmã falecida. Mulher barulhenta, na casa dos quarenta, sempre maquilhada em excesso, completamente inútil nas lides domésticas. Aparecia meia dúzia de vezes por ano, trazia um bolo barato, sentava-se a falar das suas desilusões amorosas durante uma hora, e no fim só deixava cheiro de perfume e louça suja.

Para quê? Leonor estranhou. Augusta não devia ter agitação, e a Sara é um furacão. Vai deixá-la nervosa de novo.

É o que a mãe quer. Diz que tem um assunto a tratar. Aguenta uma hora, vá.

Sara chegou exactamente ao meio-dia. Entrou de sapatos, pisando o tapete limpo e anunciou:

Leonor, olá! Estás mais gorda ou o robe engorda-te? Onde está a tia Augusta? Trouxe-lhe docinhos!

Um saco de marshmallows, proibidos pela diabetes de Augusta.

Leonor apontou silenciosamente para o quarto. Sara desapareceu lá dentro, logo seguido por murmúrios animados e gemidos emocionados da velha. Leonor foi para a cozinha arrumar a despensa, mas a ansiedade não largava. O envelope não lhe saía da cabeça.

Uma hora depois, Sara saiu radiante, segurando o envelope pardo. Enfiou-o casualmente na mala colorida.

Não te preocupes, Leonor! Tenho que correr, trabalho e negócios, percebes. Tia Augusta dorme, não a acordes. És uma excelente cuidadora, muito limpo cá em casa, só acho que devias trocar as cortinas, estas são tão antiquadas.

Desapareceu apressada.

À noite, Leonor trocava os lençóis da sogra um procedimento duro, Augusta era pesada e nunca ajudava e resolveu perguntar:

Dona Augusta, que papéis entregou à Sara? Precisa de cópias? É algo para a Segurança Social?

Augusta semicerrava os olhos com um ar de triunfo.

É a minha gratidão, Leonor. A Sara é a única alma que me ama desinteressadamente. Não é pelas casas, nem pela herança, só pelo sangue. Sangue não é água.

Leonor gelou por dentro.

Falamos de que casa? O T2 está alugado, o dinheiro vai para o seu tratamento. Combinámos que, no futuro, seria para os nossos filhos, a sua família.

Augusta riu-se, seco e agreste.

Vocês combinam! Mas gostam é de dividir a pele do urso antes de o matarem. Eu decidi: hoje veio o notário enquanto foste ao supermercado. Fiz uma doação. Para a Sara.

Leonor congelou, lençol entre as mãos. O mundo girava.

Como assim, uma doação? sussurrou. Para a Sara? Ela nunca lhe deu um copo de água, não sabe que comprimidos toma!

Mas ela não me culpa sempre! Augusta gritou. Tu andas sempre com cara de quem faz um favor! Achas que não noto? Esperas que eu morra para ficar com a casa! Pois, vai-te lixar! Agora a dona é a Sara, legalmente. Código Civil, artigo 888. Doação. Não tem volta.

Leonor sentou-se cansada. Três anos. Três anos perdidos. Injecções, fraldas, caprichos, noites sem dormir. O abandono de carreira. Tudo para ser tratada como interesseira.

E o António? apenas conseguiu perguntar.

Ele saberá quando for hora. As minhas coisas são para quem eu quiser. Vai lá aquecer a sopa, estou com fome. E troca a fralda, está apertada.

Leonor levantou-se. Sentia um zumbido. Apanhou o casaco, a mala e saiu. Não conseguia respirar ali. Precisava de ar.

Vagueou pelas ruas de Lisboa até ficar completamente gelada. Só pensava em traição não só da sogra, que nunca esperou carinho, mas do marido. O notário não apareceu do nada: alguém lhe abriu a porta, providenciou os papéis.

Quando voltou, António já estava em casa, comendo sopa directamente da panela.

Onde estiveste? perguntou aborrecido. A mãe está a gritar, a fralda está suja, e tu nada. Sou eu que tenho de limpar-lhe o rabo? Sou homem!

Leonor olhou para ele. Pela primeira vez, viu-o sem ilusões. Não era o marido amado, o apoio, mas um egoísta aconchegado.

António, disse suavemente. A tua mãe doou a casa à Sara. Sabias?

António engasgou-se com a sopa, tossindo.

Doou? Estás doida?

Não estou. Ela contou-me. A Sara levou os papéis. O notário veio e tu abriste-lhe a porta, não?

António desviou o olhar, nervoso.

Sim… Passei lá. A mãe pediu, disse que era para autorização na pensão. Eu deixei o senhor entrar, era advogado. Não pensei, Leonor! Tinha de ir trabalhar.

Não pensaste? Leonor tremeu. A tua mãe privou os teus filhos do futuro, deu a casa a uma estranha, e tu “não pensaste”? Quem vai agora pagar os remédios? O arrendamento vai acabar, Sara vai vender a casa. Como sustentas? Com o teu salário? Achas que vou trabalhar de novo, para cuidar de quem me desprezou?

Cala essa histeria! António bateu com força na mesa. Ela deve estar maluca, já vamos pedir para declarar incapaz e recuperar!

Incapaz? Leonor riu carregada. Tu dizes que ela é lúcida quando te convém. O notário não é burro, pediu exames, de certeza. Sara organizou tudo.

Do quarto, Augusta gritava:

Leonor! Estou molhada! Vem lavar-me!

António fez uma careta.

Leonor, vai lá. Depois falamos. Não posso deixar a mãe assim.

E aí, Leonor sentiu algo quebrar dentro de si a linha que segurava o sacrifício, paciência e sentimento de dever. Olhou para as mãos, vermelhas e ásperas da limpeza constante. Lembrou-se de quando foi ao cabeleireiro pela última vez. Lembrou-se das férias no Algarve que nunca teve.

Não vou, disse ela.

Como assim, não vais? António não percebeu.

Não vou cuidar dela. Não vou fazer sopa, nem ouvir insultos. Quem tem o bem, tem também o encargo. Telefona à Sara ela ganhou a casa, que ganhe o trabalho.

Estás doida! António levantou-se. Sara nem atende o telefone a estas horas! E nem sabe fazer! Leonor, é a minha mãe!

É tua mãe, não minha. E a casa está entregue à tua prima. Para mim, sou só uma “carcereira”.

Leonor foi para o quarto conjugal, abriu o guarda-fatos, tirou uma mala.

Que fazes? António ficou junto à porta, pálido.

Vou embora. Vou para casa da minha mãe. Não é grande, mas há ar puro.

Leonor, pára! A velha teve um capricho, foi um disparate! Vamos recuperar tudo! Não me deixes! Como faço? Eu trabalho!

Contratas alguém. Ah, não tens dinheiro… a casa está perdida. Então, fazes tu. Sentes o que eu senti durante três anos.

Leonor arrumou roupa, livros, tudo apressada, lágrimas nos olhos. Mas só queria sair depressa.

Não te deixo ir! És minha mulher! Devias estar no bem e no mal!

No mal já estive, António, durante três anos. E a alegria, nunca vi. Ah, e mais uma coisa: vou pedir o divórcio.

Por causa da casa?! Quanto orgulho, Leonor!

Não é por causa da casa, parvo! gritou ela. É porque me fizeste escrava, porque abriste a porta ao notário e me traíste! Porque pensas mais em fraldas do que em amor!

Deixou as chaves na mesa e saiu. Augusta gritava do quarto:

António! Ela quer matar-me! Dá-me água!

António corria entre a esposa e a mãe.

Leonor, nem uma noite ficas?

Deixo as chaves. Adeus.

Apanhou o elevador. Lágrimas, mas eram de alívio.

A primeira semana na casa da mãe foi surreal: dormia muito, comia bem, passeava no jardim. Desligou o telemóvel, só falou com filhos e bons amigos. Soube as novidades por uma vizinha: António tentou falar com Sara, que recusou cuidar de Augusta, disse que venderia a casa, deu dois meses para os inquilinos saírem. Sugeria que Augusta fosse para um lar público.

António meteu férias, depois baixa médica, depois telefonou aos filhos em Coimbra e Porto. Tentou convencer a filha e o filho a tratar da avó. Eles ligaram a Leonor.

Mãe, o pai diz que és traidora, disse o filho, Tiago. Mas nós sabemos tudo. Não vamos ajudar. Temos exames. E a avó escolheu a Sara.

Leonor orgulhava-se dos filhos.

Um mês depois, voltou à antiga biblioteca. Salário pequeno, mas o cheiro dos livros curava. Pediu o divórcio. António faltou às audiências.

Certa noite, ao chegar, encontrou António à porta. Parecia mais velho, mal lavado, a cheirar ao ácido da velhice.

Leonor… aproximou-se. Ajuda-me. Não aguento. Ela grita, Sara vendeu a casa a uns tipos suspeitos. O dinheiro da renda acabou. Não posso contratar cuidadora. Perdi o trabalho…

Leonor só sentiu repulsa.

O que é que eu tenho a ver, António?

Sabes cuidar, tens jeito. Volta. Perdoa tudo. Vendemos a nossa casa, arranjamos uma pequena, pagamos ajuda.

“Perdoas tudo”? Está enganado. Sou eu quem podia perdoar. Mas não quero.

Ela chora, Leonor. Diz que só tu fazias papas como ninguém.

Era antes que devia lembrar-se. Quando chamou o notário.

Sara enganou-nos! É uma vigarista!

Sara fez o que foi permitido. Augusta quis comprar amor com metros quadrados. Fez negócio. Não há devolução.

Ficaste fria, murmurou António.

Fiquei livre, corrigiu Leonor. Vai-te embora. O tribunal será rápido.

Abriu a porta.

Leonor! E se meter a mãe num lar estatal? Como faço? Preciso de papéis, eu não sei!

Leonor virou-se.

Tens internet. Tu eras chefe, não eras? Resolves. A minha vigília acabou.

Fechou a porta.

Lá em cima, fitou da janela António. Pequeno, esmagado pelo peso da responsabilidade que sempre empurrou para Leonor. Fechou as cortinas.

Na cozinha, fervia o bule. A mãe fazia empadas de couve.

Quem era, Leonor? perguntou a mãe.

Era engano, mãe. Só engano de morada.

Leonor sentou-se, pegou numa empada, mordeu. Era saborosa. Pela primeira vez em três anos, a comida tinha gosto. A vida continuava, e era só dela. Augusta recebeu exatamente o que merecia uma sobrinha rica e um filho a crescer à força. Justiça fria, mas alimenta bem.

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Cuidei da minha sogra com todo carinho, mas ela deixou o apartamento para outra pessoa
Тази вечер ресторантът беше пълен с гости: смях, наздравици и звън на чаши