“Se quiserem colocá-lo numa casa de acolhimento, vou compreender”, disse o meu marido.

Sabes, trabalhei durante uns anos como vendedora numa mercearia aqui em Lisboa. Lembro-me de um dia em que entrou uma senhora já de idade, fez as suas compras e, quando chegou ao balcão, ficou ali, meio perdida, a olhar para as sacas. Percebi logo que ela não ia conseguir levar tudo aquilo sozinha até casa.

Perguntei-lhe: Mora muito longe daqui?
Ela respondeu: São só três ruas daqui, filha.
Então, não se preocupe, eu ajudo-a.

Fechei o balcão por uns minutos e, olha, lá sacrifiquei a minha pausa para dar um jeitinho àquela senhora. E foi assim que comecei a conhecer a Dona Laurinda. Era mesmo simpática, muito conversadora, com aquelas histórias que só os mais velhos sabem contar. Tinha 78 anos, completamente sozinha. O filho tinha falecido de cancro quando era bastante novo e a filha, infelizmente, tinha-se perdido pelo caminho, nem se lembrava da mãe. A partir desse dia, ficámos amigas.

Passei a ir muitas vezes a casa dela. Bebíamos um chá, punhamos as conversas em dia e ajudava-a aqui e ali nas lides domésticas. Dava-me gosto fazer-lhe companhia e senti que, para ela, aquele bocadinho era também um bálsamo.

Mas, houve um dia em que não consegui ir ter com ela à hora do costume. Preocupei-me e decidi passar por lá ao fim do trabalho. Bati, insisti, até que finalmente ouvi uma voz estranha: Quem está aí?
Era a vizinha.
Perguntei: Por acaso é a Dona Laurinda? Sou a amiga dela, a Maria Inês.
Ela respondeu-me com carinho, mas com tristeza: Morreu, menina Antes de a levarem para o hospital, deixou-lhe um bilhete.

Trouxe o bilhete no bolso e só consegui abri-lo quando cheguei a casa e contei tudo ao António, o meu marido. Lemos juntos.

Maria Inês, tu foste o meu maior apoio. És a única a quem posso pedir um último favor. A minha neta, a filha da minha filha que perdeu os direitos, está num lar de crianças. Sempre que podia, ia vê-la aos fins-de-semana Se não te for pedir muito, visita-a quando puderes. Deixo-te aqui o número. Liga. Vais perceber

Liguei e marquei uma visita. O António fez questão de me acompanhar. Quando chegámos, afinal de contas, o responsável era um notário. E olha que me caiu tudo quando nos disse que a Dona Laurinda me tinha deixado o apartamento dela em Benfica.

No dia seguinte fomos conhecer a menina. Uma miúda ruiva, de dez anos, de uma doçura fora do vulgar. Eu e o António ficámos logo de coração cheio e decidimos avançar com a adoção. Os nossos filhos ficaram entusiasmados.

Três anos passaram num instante. Pelo meio, eu e o António tivemos uma discussão feia, ele acabou por ir viver uns tempos com a mãe. Mas mais tarde fizemos as pazes. A miúda cresceu, mas não tinha pressa nenhuma em sair do apartamento da avó. Assim, pusemo-lo a arrendar e sempre nos deu um rendimento extra em euros, sabes como é, dá sempre jeito.

Os nossos filhos também foram ficando por casa, ninguém parecia querer sair do ninho.

Um dia, o António chegou tardíssimo do trabalho. Ouvi a porta, fui recebê-lo ao corredor e vejo-o, não vinha sozinho trazia um miúdo pela mão.

Ele olhou para mim e disse logo: Deixa-me explicar tudo, pode ser?
Respondi: Anda jantar, acalmamos as crianças, depois falamos com calma.

Ficámos à mesa, à conversa até tarde. Ele explicou: Lembras-te daquele tempo em que estava em casa da minha mãe? Estava perdido, foi um erro, mas nunca deixei de te amar. Não sabia nada disto, mas hoje ligaram dos serviços sociais. Parece que daquela relação nasceu um menino, mas a mãe dele andou sempre à deriva, acabou por lhe retirarem a tutela. Se eu recusasse, ia diretamente para um lar. Se quiseres, diz-me já, que entrego a criança; eu compreendo-te.

Sabes, não consegui. O miúdo era a cara chapada do António. Decidi perdoar e criá-lo como nosso. E, olha, é assim que vamos levando a nossa vida por aqui, aquela confusão boa de uma família portuguesa.

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“Se quiserem colocá-lo numa casa de acolhimento, vou compreender”, disse o meu marido.
O Direito de Ser Quem Somos