Lembras-te, Svetinha…? Ele já se habituara a espreitar pela janela deles, porque moravam no rés-…

E lembraste, Benedita
Ele já estava acostumado a espreitar pela janela deles, porque moravam no rés-do-chão. No início queriam viver mais alto, mas depois habituaram-se. A pessoa mais feliz era a avó, não precisava subir escadas eternas. Aos sábados, Dona Amélia, avó da Benedita, preparava bolos, filhós ou algum outro petisco, mas sempre perfumado, sempre delicioso.
O aroma escapava pela janela da cozinha, provocando os rapazes a jogar futebol no pátio. O Tomás, bem sabido, aproximava-se não pela cozinha, mas pela lateral do prédio, punha uma caixa velha por cima das ervas e, apoiando-se nela, espreitava à Benedita. Ela, já adivinhando a visita, corria ao ouvir os passos dele a trepar.
Vou já buscar os bolinhos, a avó acabou de os fazer. O laço cor-de-rosa dela, amarrando o cabelo dourado em rabo-de-cavalo, soltava-se e agitava-se no ritmo dos seus passos.
Que maravilha, Tomás mastigava com gosto, espiando para dentro do quarto. Fizeste mesmo à portuguesa? Perguntava, confiante.
Já fiz, sim.
Deixas-me copiar?
Benedita entregava-lhe o caderno com alegria. Só não te esqueças, amanhã de manhã levas antes das aulas, eu preciso dele.
Tomás nunca foi mau aluno, mas, como tantos rapazes, era preguiçoso, apesar de inteligente. Percebia de matemática, mas as correrias no quintal roubavam-lhe tempo dos estudos. Nos anos noventa ainda não havia telemóveis, os miúdos podiam brincar até tarde, sem querer voltar para casa.
No oitavo ano, Tomás carregou pela primeira vez a mochila da Benedita, balançando-a enquanto contava sobre um filme novo. No nono, a delicada, olhos-castanhos Leonor, por decisão tácita dos rapazes, era a mais bonita da escola. E Tomás apanhou paixão. Não tirava os olhos dela, girava à volta, seguia-a até casa. Benedita pensava que aquilo passaria. Agora era ela quem o esperava, ou espreitava pela janela, à espera do toque no vidro: Beni, deixa-me copiar.
Leonor sabia manter distância, mas amarrava forte. Tomás oscilava entre Leonor, ora lhe sorria, ora se afastava, e Benedita, que esperava sempre.
Ele continuava a espreitar-lhe pela janela e ela colocava na borda uma chávena de chá fumegante, apanhava bolachas quando não havia bolinhos.
Ouviste? Os nossos perderam. Disse ele, sobre futebol. Benedita sabia sempre tudo que Tomás queria saber: via os jogos, lia as notícias desportivas, suportava filmes de terror só para poder conversar com ele depois.
Ela era o apoio dele, em tudo, sempre. Tomás procurava-a como um amigo, um refúgio de compreensão. Leonor… com Leonor, ele suspirava, sonhava, sofria, até se queixava à Benedita, que o Vítor andava a acompanhar Leonor.
Depois da escola os três entraram em universidades diferentes. Tomás já não chegava à Benedita para copiar cadernos, seguia sempre Leonor. Ainda assim, de vez em quando passava na casa da Beni, por saudade antiga. Às vezes iam ao cinema e Tomás falava sem parar, precisava desabafar.
Tomás, sábado é o meu aniversário. Queres vir? Olhava para ele com os seus olhos cinzentos, apaixonados.
Ele hesitou: Sábado? Sim, acho que dá, vou, claro. Quem vai estar?
Os meus pais, a avó, a Vera com o Vasco, a Olívia tu conheces todos.
Ficou combinado, apareço.
No sábado, Tomás não apareceu. Só veio na semana seguinte, triste, aborrecido. Tomás, o que foi? Estás tão em baixo.
Queixou-se que Leonor foi para estágio e nem se despediu. Benedita confortava (embora lhe doesse). Estava à tua espera no sábado, sabes?
O que houve no sábado?
O meu aniversário
Ah! bateu na testa, Benedita, esqueci-me, não te chateias
Claro que não, acontece.
Aproximou-se da janela. E lembras-te quando me servias bolinhos no verão? Bem ali fora, tinha uma caixa no quintal, eu subia e no parapeito já estava chá e doce.
Benedita sorria, aquecia-lhe o coração aquela memória, gostava de saber que Tomás lembrava. Recordaram juntos o grupo do bairro, colegas, como fugiram de uma aula e a professora os apanhou no jardim e mandou de volta para História.
No quinto ano universitário, Tomás andava nas nuvens: Leonor aceitou casar com ele. Trouxe a notícia à Benedita. Ela aguentou, mordendo o lábio para não chorar. Ouvia-o, ainda como amiga de confiança.
Um mês chorou de madrugada, zangada consigo por nunca lhe confessar o amor.
Depois ele veio. Avó e pais estavam fora. A casa estava estranha. Benedita, enrolada no velho xaile, via televisão. Custou a acreditar que o som à porta era Tomás.
Abriu, viu-o, abatido, olhar apagado, encostado à parede. O que se passa? Assustou-se.
Entrou. Sentaram-se no quarto dela. Parecia prestes a chorar. Tomás, diz lá, conta-me.
Ela não vai haver casamento disse que ama outro. Benedita nunca o viu assim vazio. Aproximou-se, pousou as mãos nos ombros dele: Tomás, calma pode ser que ainda se resolva.
Não dá, ela disse, retirou o pedido acabou, lágrimas no olhar. Encostou a cabeça no colo dela, escorregou do sofá, abraçou a saia de Beni. Não dá, Benedita, não dá
Tomás, querido, acalma-te, faço-te chá de hortelã lembras-te dos nossos chás no parapeito?
Lembro, Beni, só tu me compreendes, tu és especial, beijou-lhe os joelhos, primeiro hesitante, depois mais, como se tentasse expulsar a dor. Levantou-se, envolveu-lhe a cintura, murmurando baixinho.
Tomás, para, que se passa
Benedita Benedita
Tomás, eu amo-te! Sempre amei, desde o sexto ano, meu querido
Saiu já era noite, desviando os olhos, evitando encarar Beni. Então, até logo, voltarei
Vou esperar, olhou-o até ouvir fechar a porta.
Tomás não voltou, como se aquela noite também fosse sonho. Pouco depois defendeu o mestrado e foi para o Algarve.
É preciso fazer alguma coisa! murmurava indignado o pai. Podemos ir falar com os pais dele, enfim.
Entendes que ela não quer! E está nervosa, pode prejudicar o bebé, dizia a mãe. Tomás sabe da gravidez, ela contou-lhe. Ele reagiu como estranho talvez tenha partido por isso
Não, não podemos deixar assim é revoltante, insistia o pai.
Avó distraía-se com as agulhas, enxugando lágrimas. Doía-lhe ver a neta: menina inteligente, bondosa
Ao nascer a filha, Benedita conseguiu o número de trabalho de Tomás através de um colega, e telefonou: Tomás, nasceu uma filha nossa. Chamei-a Tomasina.
Ele murmurou algo incompreensível, só se ouviu: Parabéns.
Quando Tomasina fez ano e meio, os pais anunciaram finalmente a quitação do apartamento novo e iam mudar-se com avó, no bairro ao lado, dois quartos também. Iremos ajudar, cada um por vez, disse a mãe.
Benedita chorou.
Oh filha, não é motivo para lágrimas! Eu venho todos os dias, vou tratar da Tomasina, vamos levá-la connosco, tu tens trabalho em casa
Só estou habituada a viver com todos juntos, confessou.
Filha, tens de seguir a vida, vai ser mais fácil sozinha organizar tudo, consolava a mãe.
Nos últimos tempos, todos diziam: avó, pais, amigas, tens de arranjar vida, és jovem hoje mulheres com filhos casam-se também.
Em uma semana, Benedita ficou dona de dois quartos. Tomasina ria, mexendo os pés, tentando andar. Conseguia, embora caísse no tapete, levantava e estendia braços à mãe. Benedita acolhia-a, abraçava, ria com ela.
Tomás apareceu sem aviso. Sempre surgia de repente. Como daquela vez, o casamento cancelado com Leonor.
Pensava ser o pai dela, prometera passar, mas era Tomás à porta, com uma enorme camioneta vermelha de brinquedo, dos bombeiros.
Olá! Estás sozinha? Não incomodo? Posso entrar?
Estava mais maduro, magro, rosto mais afilado.
Entra.
Olha, deixou o brinquedo no chão.
O choro da bebé soou, Benedita voltou ao quarto, pegou Tomasina: É minha filha, disse, apontando à camioneta.
Tomás bateu na testa: Desculpa
Leva o brinquedo, dá a alguém, disse Benedita.
Tirou o casaco, foi à cozinha. Quase tudo igual, nada mudou. Ao menos, serves um chá?
Ela ligou o fervedor, sem largar a filha. Tomás sentia-se perdido, sem saber o que dizer.
Olhou-a: cabelo claro, solto, vestido longo até aos tornozelos, a segurar a filha. Pareces a Senhora de Fátima, murmurou, sem tirar os olhos.
Benedita não respondeu.
Bem me lembro, a tua avó fazia bolos maravilhosos. E lembras-te dos chás no parapeito, no teu quarto? E mais: a avó regava flores, deitava água pela janela, eu por baixo, ela nem reparava, Tomás tentou sorrir. E lembraste, Beni
Não me lembro, cortou Benedita, natural, até indiferente. Tomás ficou calado. A resposta dela não era vingativa pelo erro ao pensar que Benedita tinha um rapaz, era sincera. Já se esquecia dos detalhes das antigas tardes. Agora tinha uma filha, dedicava-lhe o tempo, admirava-a, ficava surpresa com as primeiras palavras, notava como dormia, acordava, como brincava
Bebe o chá, que eu vou preparar papa para a Tomasina.
Tomás sentiu, pela primeira vez, que ali já não era esperado. Vestiu o casaco. Fica para outra vez. Vou indo, tens coisas para fazer. Demorou ainda uns segundos, esperando que Benedita o chamasse, mas ela não o fez.
Fechando-lhe a porta, Benedita sussurrou: Outra vez não haverá, chá aqui já não se serve. Nem café.
Voltou para a filha, pegou-a, beijou-a e foi preparar a papa.

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