– Quarenta anos debaixo do mesmo teto e, aos sessenta e três, decides mudar de vida? A história de Maria, que preparava o jantar esperando por José, seu marido regressar da pesca. Ele não trouxe peixe, mas sim a notícia do divórcio: «Quero separar-me, os filhos já são crescidos e vão compreender», disse ele, já com tudo decidido – Maria ficaria no apartamento da cidade, José mudaria-se para a casa de campo, e o património acabaria por ser dividido entre as filhas, Vica e Irina. As vizinhas comentam: «Tantos anos juntos e, no fim, o marido foge com outra – será mais nova ou mais rica?» Maria decide ir à casa de campo, fingindo querer buscar as conservas, para conhecer a rival extravagante, que logo se mostra arrogante: «José, não disseste que a tua ex vinha cá?», atira ela, enquanto Maria, magoada, escuta tudo. O consolo vem da irmã, Ana: «Maria, não te preocupes, a nova mulher dele nem é bonita nem inteligente. No nosso século já não faz sentido vestir lycra de leopardo ou mini-saia, a verdadeira beleza é saber estar». Com o apoio de Ana e das filhas, Maria redescobre a vida: teatro, passeios, concertos – até há quem tente cortejá-la, mas ela prefere a companhia dos amigos. José, agora com a nova companheira Tatiana, percebe o erro: sente falta da tranquilidade de Maria e das rotinas de antes. Após discussões e comparações, conclui que perdeu um lar ao seguir uma paixão passageira. Quando visita Maria, ela mantém-se firme: «Só vim buscar as minhas coisas, não quero conversa». No final, José fica na casa de campo, Maria segue a vida no apartamento, rodeada de filhas, netos e novas experiências culturais. O ex-marido já não tem lugar na nova história de Maria. – Quarenta anos juntos e, ao entardecer da vida, cada um segue o seu caminho…

Vivemos juntos sob o mesmo teto há quarenta anos e agora, aos sessenta e três, decides mudar de vida?

Leonor estava sentada na sua poltrona favorita, olhando pela janela num esforço de afastar os acontecimentos do dia. Algumas horas antes, preparava apressada o jantar, aguardando a chegada de Manuel da pesca. Ele regressou não com peixe, mas com a notícia há muito guardada, esperando coragem para a revelar.

Quero divorciar-me e peço que compreendas disse Manuel, com o olhar desviado. As nossas filhas já são crescidas, vão entender, os netos estão ocupados com a própria vida. Podemos terminar isto sem discussões.

Quarenta anos debaixo do mesmo teto, e agora resolves mudar tudo? Leonor não compreendia. Tenho direito a saber o que vem depois.

Ficas com o nosso apartamento no Porto, eu mudo-me para a casa de campo em Ponte de Lima declarou Manuel, evidenciando que já tudo estava decidido. Não há nada para dividir, depois, de qualquer forma, tudo fica para as nossas filhas.

Como se chama ela? perguntou Leonor, quase sem esperança.

Manuel ficou vermelho, começou a arrumar-se e fingiu não ouvir. Leonor percebeu, então, que havia mesmo outra mulher. Nunca pensou, na juventude, que aos seus anos ficaria só e o marido partiria para outra.

Talvez tudo se componha tentavam consolar Leonor as filhas, Clara e Matilde. Não ligues às atitudes do pai.

Não vai alterar nada suspirava Leonor. Mas não faz sentido mudar o que resta, vou viver sossegada e alegrar-me com a vossa felicidade.

Clara e Matilde foram até Ponte de Lima para conversar com o pai. Voltaram ainda mais tristes, evitando contar toda a verdade à mãe. Mudaram de discurso, convencendo-a que seria melhor viver só, sem precisar de cuidar de mais ninguém. Leonor compreendeu, mas evitou questionar e procurou seguir adiante. Não era fácil, pois tanto familiares como vizinhos vinham sempre com perguntas e comentários sobre o sucedido.

Pois, tantos anos juntos e agora ele fugiu para outra diziam as vizinhas, pouco delicadas. Ela é mais nova ou tem dinheiro?

Leonor não sabia o que responder, embora pensasse frequentemente em conhecer a rival. Por curiosidade e desejo de desmistificar imaginários, foi à casa de campo sob pretexto de pegar algumas conservas feitas no verão. Não avisou, para ver se encontrava a tal mulher, e foi mesmo isso que aconteceu.

Manuel, tinhas dito que a tua ex-mulher não viria cá reclamou a extravagante senhora com maquilhagem excessiva. Pensei que já tinham resolvido tudo e não tinha de a ver aqui.

Trocas-me por isto? perguntou Leonor, fitando a figura ousada da rival.

Vais permitir que me fale assim?! gritava a outra. Por acaso sou só uns anitos mais nova e muito melhor parecida.

Se ela acha mesmo que aparência é tudo nesta idade murmurou Leonor, tentando captar o olhar envergonhado de Manuel.

Até à paragem de autocarro, ouviu ainda os gritos da mulher demasiado pintada, esforçando-se para não chorar. Só em casa se permitiu sentir e telefonou à irmã, Teresa, a pedir companhia.

Deixa lá isso disse Teresa, preparando chá de hortelã. A mulher do Manuel nem é bonita. E parece pouco esperta.

Talvez esteja certa e eu pareça velha para a minha idade duvidou Leonor.

Tu estás ótima afirmou Teresa. O erro é tentar parecer jovem à força, roupa curta ou calças às pintas não te darão dignidade. Mulher bonita é aquela que sabe estar, em qualquer idade.

Leonor olhou-se no espelho e concluiu que a irmã tinha razão. Estava em boa forma, de saúde e apresentava-se com elegância; as filhas davam-lhe sempre bons cremes e máscaras. Nunca foi espalhafatosa, nem tencionava sê-lo como a rival.

Ora, és uma mulher livre agora continuou Teresa. As filhas independentes, e há possibilidades de lazer e cultura à nossa idade. Não te deixo ficar parada.

Teresa cumpriu a promessa, levando Leonor a teatros, passeios, exposições. Formaram um grupo de amigos contemporâneos, até com direito a um senhor atencioso que tentou cortejar Leonor, mas ela recusou e evitou encontros a sós.

Agora andas aí em teatros e com amigos novos, será que ainda voltas a casar? provocou Manuel, numa coincidência no supermercado.

Vieste cá por compras? Não há nada perto da casa de campo? Ou a tua nova companheira não cozinha? perguntou Leonor, com ironia.

Sempre fiz compras aqui, custa mudar hábitos nesta idade resmungou Manuel.

Leonor não prolongou o assunto, despediu-se e foi para casa. Manuel sentiu vontade de a ir atrás, confessando o arrependimento pela separação. Sentia falta, não do velho costume, mas da paz e do aconchego que só tinha com Leonor.

Trouxeste alperces e eu pedi ameixas. O queijo está demasiado gordo e esqueceste o azeite reclamou a nova companheira, analisando as compras.

Antes comprávamos juntos, ou a Leonor tratava disso, mas tu queres que faça tudo sozinho reagiu Manuel.

Sempre a comparar-me com a tua ex berrava a mulher. Vai ver se não te arrependes de teres largado a velha por mim.

Na verdade, Manuel arrependia-se, mas sabia que nada adiantava confessar. Leonor nada forçou, apenas continuou digna e fiel ao que era, e ele sofria pela saudade de uma vida tranquila.

Sabia que não haveria perdão e, mesmo desejando conversar ou pedir desculpa, acabava por desistir, sentindo o peso das escolhas. Nunca imaginou, quando começou o romance com a nova companheira, que perderia tudo o que lhe era fundamental.

Agora, Manuel existia na casa de campo, e Leonor vivia na cidade, cercada pelas filhas, netos e nova alegria com as amigas. Não havia mais espaço para o ex-marido nesta vida renovada.

Aqueles caminhos mostraram a Leonor que a vida nunca termina com um capítulo fechado; cada recomeço pode ser uma oportunidade de encontrar forças que nem sabíamos que existiam. O verdadeiro valor nasce quando aprendemos a cuidar de nós, a aceitar quem somos, e a abrir espaço para novas alegrias independentemente da idade ou das voltas do destino.

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– Quarenta anos debaixo do mesmo teto e, aos sessenta e três, decides mudar de vida? A história de Maria, que preparava o jantar esperando por José, seu marido regressar da pesca. Ele não trouxe peixe, mas sim a notícia do divórcio: «Quero separar-me, os filhos já são crescidos e vão compreender», disse ele, já com tudo decidido – Maria ficaria no apartamento da cidade, José mudaria-se para a casa de campo, e o património acabaria por ser dividido entre as filhas, Vica e Irina. As vizinhas comentam: «Tantos anos juntos e, no fim, o marido foge com outra – será mais nova ou mais rica?» Maria decide ir à casa de campo, fingindo querer buscar as conservas, para conhecer a rival extravagante, que logo se mostra arrogante: «José, não disseste que a tua ex vinha cá?», atira ela, enquanto Maria, magoada, escuta tudo. O consolo vem da irmã, Ana: «Maria, não te preocupes, a nova mulher dele nem é bonita nem inteligente. No nosso século já não faz sentido vestir lycra de leopardo ou mini-saia, a verdadeira beleza é saber estar». Com o apoio de Ana e das filhas, Maria redescobre a vida: teatro, passeios, concertos – até há quem tente cortejá-la, mas ela prefere a companhia dos amigos. José, agora com a nova companheira Tatiana, percebe o erro: sente falta da tranquilidade de Maria e das rotinas de antes. Após discussões e comparações, conclui que perdeu um lar ao seguir uma paixão passageira. Quando visita Maria, ela mantém-se firme: «Só vim buscar as minhas coisas, não quero conversa». No final, José fica na casa de campo, Maria segue a vida no apartamento, rodeada de filhas, netos e novas experiências culturais. O ex-marido já não tem lugar na nova história de Maria. – Quarenta anos juntos e, ao entardecer da vida, cada um segue o seu caminho…
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