Ao menos podias olhar-te ao espelho antes de te sentares à mesa ouviu-se a voz, crítica e gélida. Esse roupão sem forma, o cabelo todo despenteado Será assim tão difícil arranjares-te, pelo menos para o teu marido?
Leonor ficou parada, com a concha do caldo suspensa no ar, sem chegar a deitar a sopa no prato. Ergueu lentamente o olhar para Rui. Ele estava sentado à mesa da cozinha, focado no ecrã do seu telemóvel topo de gama, sem sequer pensar em encará-la. Vestia uma camisa nova num tom moderno, impecavelmente engomada, o cabelo cuidadosamente penteado com gel e o perfume caro enchia o ar à sua volta.
Há meses que Rui parecia outra pessoa. Depois de quase trinta anos de casamento e de terem educado um filho, que já vivia noutra cidade com a própria família, Leonor agora sentia ao lado dela alguém quase estranho. Rui inscreveu-se no ginásio, renovou o guarda-roupa, tornou-se obcecado com a alimentação e pôs um código complicado no telefone. Claro que o pior era a crítica constante: nada do que Leonor fazia estava bem a comida, a conversa, a aparência, até o ar que respirava parecia incomodá-lo.
Acabei de chegar do trabalho respondeu Leonor, esforçando-se por manter a calma. Fiz o turno na farmácia, passei no supermercado, trouxe sacos pesados e vim logo cozinhar para teres um jantar quente. Devia ter vestido um vestido de noite e feito maquilhagem só para te servir sopa?
Lá estás tu a fazer-te de coitadinha Rui largou o telemóvel com irritação. Todas as mulheres trabalham, mas conseguem estar elegantes, não parecem peixeiras. Olha lá no escritório, as mulheres da tua idade andam de saltos altos e todas arranjadinhas. Tu estás cada vez mais desleixada. Dá vergonha sair contigo.
Leonor pousou-lhe o prato da sopa acabado de fazer, sentou-se à frente dele e ficou em silêncio. Dava-lhe vontade de gritar, mas não ia ceder a lágrimas já tinha chorado demasiado, tantas noites virada para a parede, ouvindo o marido a mandar mensagens silenciosas a outra pessoa.
Se tens assim tanta vergonha, o que fazes aqui? perguntou, com voz baixa mas decidida.
Rui sorriu de lado, pegando numa fatia de pão escuro, cheio de autoconfiança. Aos cinquenta e cinco, considerava-se no auge: era chefe de logística, admirado e elogiado por todos.
Se calhar nem vou continuar aqui disse, a voz carregada de segundas intenções, enquanto levava a colher à boca. Tu achas que ninguém me quer? Tens sorte. As miúdas mais novas olham para mim com admiração. A Vera, do marketing, tem vinte e seis anos. Vê-me com outros olhos. Como tu nunca me olhaste, nem em jovem.
Sentindo um arrepio na espinha, Leonor percebeu: era uma coisa suspeitar de traição, outra era ouvir assim, às claras, na sua própria casa.
Então o que te prende aqui? conseguiu perguntar, sem desviar o olhar.
Rui interpretou o tremor como sinal de medo. Tinha a certeza de que Leonor temia, acima de tudo, a solidão. Ela, sem ele, era, aos olhos dele, só mais uma mulher apagada, sem graça.
O que me prende é hábito, Leonor. E pena. Mas não tenho paciência ilimitada. Ou mudas a tua atitude, ou começo a fazer a mala e vou para onde sou apreciado. Eu, que sou alguém na vida. A Vera só sonha que eu vá viver com ela. Por isso, pensa bem. Ou mudas, ou vou-me embora para uma mais nova.
Levantou-se, endireitou o colarinho com pose teatral e foi para a sala, aumentando o volume da televisão. Esperava que Leonor viesse atrás dele, a implorar desculpas e a prometer dieta e cabeleireiro. Imaginava já o seu momento de glória.
Na cozinha reinava o silêncio.
Leonor ficou parada, olhando para a sopa a arrefecer. O eco das palavras do marido soava-lhe na cabeça: um ultimato. Tinha de se esforçar, suportar humilhação, saltar em bicos de pés apenas para não perder Rui para uma Vera de vinte e seis anos.
Desviou o olhar para a janela, onde o lusco-fusco cobria Lisboa, depois contemplou a sua cozinha acolhedora. Aquele apartamento não foi comprado com crédito nem foi fruto de anos de economias. Tinham-no adquirido com o dinheiro que os seus pais angariaram ao vender a velha casa em Aveiro para se mudarem para o Sul, devido à saúde fragilizada do seu pai. A maior fatia do valor deram-na a Leonor.
Homem previdente, o pai insistiu que tudo ficasse legal. Assinaram escritura e, segundo a lei portuguesa, uma casa comprada com doação de familiares é propriedade pessoal, não faz parte da comunhão. Rui não contestou: nunca tivera um cêntimo na poupança, sempre gastava além das possibilidades. Apenas ficou a viver ali, à grande.
E agora, esse hóspede ameaçava-a de abandono.
Por dentro, Leonor ouviu qualquer coisa a quebrar-se. A mágoa de meses diluiu-se, dando lugar à clareza: não o temia perder. O medo era viver em constante tensão, a sentir olhares de nojo e a lavar camisas cheias do perfume alheio. Ficar sozinha no seu próprio espaço não era um terror, era alívio.
Levantou-se devagar, despejou o resto da sopa do Rui no lava-louças, lavou a loiça, secou as mãos e foi até à sala.
Rui estava estendido no sofá, braços atrás da cabeça, com sorrisinho de quem manda e controla. Quando ouviu passos, nem se virou.
Já tirei as minhas conclusões, Rui disse Leonor, parada junto ao braço do sofá.
Ah sim? respondeu ele, trocista. Amanhã já te marcas no cabeleireiro? Ou vais ao ginásio comprar cartão mensal?
Não. Decidi que não vou estragar a tua vida. Um homem da tua posição merece quem o admire. Vai viver com a Vera.
O sorriso esbateu-se, transformando-se numa expressão confusa. O tom de Leonor não era de vítima, mas de gelada indiferença.
Estás a falar a sério? Queres mostrar que tens coragem? Olha que não repito duas vezes: pego nas minhas coisas e vou-me embora. Vais dar-te conta do que perdes quando estiveres sozinha com as panelas!
Não acho. Tens razão. O nosso casamento acabou. Está na altura de ires.
Rui endireitou-se, uma fúria surda fervilhando dentro, o seu guião a desmoronar-se. Leonor não devia estar a despedi-lo, mas a agarrar-se a ele!
É assim? Ótimo! gritou, de forma teatral. Amanhã estou fora! Fica com o teu orgulho. Achas que fico mal sozinho? Vão ver se me deixam em paz!
Não me demores com mudanças. Amanhã depois do trabalho não estou, vou ao teatro com a Teresa. Tenta levar as tuas coisas até à noite.
Rui, indignado, não respondeu. Estava convencido de que a esposa, passadas umas horas, viria chorosa pedir perdão. Foi dormir para o sofá, para acentuar o castigo.
No dia seguinte, a casa amanheceu em silêncio. Leonor tomou o café, vestiu-se e saiu para a farmácia sem sequer olhar para ele. Quando Rui acordou ao som da porta, sentiu-se ainda mais irritado. Mas estava confiante: à noite, tudo mudaria.
No escritório, enviou mensagens à Vera. Era lisonjeado pelo seu olhar apaixonado, por elogiar o relógio, o fato. Ela vivia num pequeno T0 nos subúrbios e queixava-se sempre da senhoria e do barulho. Rui dava-lhe a entender que o casamento era uma formalidade, que iria divorciar-se em breve.
Às cinco e meia, arrumou tudo e aproximou-se da secretária de Vera:
Tenho uma surpresa para ti disse com voz sedutora. Saí de casa. Hoje levo as minhas coisas para o teu apartamento. No fim de semana, festejamos num restaurante à tua escolha.
A jovem arregalou os olhos, primeiro de alegria, mas logo hesitou:
Rui que bom! Só que… para minha casa? Lá mal cabes, é uma cama pequena Pensei que íamos para tua casa… ou então tu arranjavas um T2. Tu tens um bom cargo, não precisas de viver mal.
Rui hesitou. Não queria gastar o salário a alugar um novo apartamento preferia roupa elegante, ginásio, relógios. Tinha esperança que Leonor não resistisse à separação e acabasse por o chamar de volta; só precisava dum sítio onde ficar uns tempos.
Amor, é só até resolvermos. Duas semanas de sacrifício, depois vejo isso. Vou lá a casa buscar as minhas coisas, logo lá para as oito apareço.
Saiu do escritório com a mente leve, ansioso pelo confronto com Leonor e certo do seu domínio.
Estacionou no bairro, subiu ao andar e foi direito à porta. Meteu a chave.
A meio, parou. O mecanismo não rodava, era outro. O canhão era novo, brilhante.
Tentou forçar, puxou pela maçaneta, nada. Só então olhou bem: junto à parede, três enormes sacos de compras cheios e, por cima, a sua velha mala de couro e, num saco transparente, os ténis e sapatos. Um papel A4 colado com fita destacava-se no topo.
O coração acelerou. Puxou-o e leu o letreiro, com a caligrafia precisa de Leonor:
“As tuas coisas estão aqui. Os novos canhões custaram-me 170 euros, considera o meu presente de despedida. Os papéis do divórcio seguem para tribunal para a semana. A tua saída de casa iremos discutir em tribunal, se não o quiseres fazer de livre vontade. Boa sorte, Rui. Felicidades com a Vera.”
O mundo vacilou-lhe sob os pés. Leonor não só não o segurou, como o pôs literalmente na rua. Nem o deixou fazer a mala!
Sentiu-se invadido de raiva, bateu furiosamente à porta, tocou sem parar.
Leonor! Abre imediatamente! O que é isto?! Esta casa também é minha! Estou aqui inscrito! Não podes fazer-me isto!
O trinco deu um estalido, a porta abriu na limitação da corrente de aço. Apareceu-lhe a ex-mulher, calma, de cabelo apanhado, um vestido elegante. Radiante de autoconfiança, mais estrangeira para ele do que nunca.
Queres acordar o prédio inteiro? perguntou-lhe, serena.
Estás maluca? Que história são estas malas? E o canhão? Também tenho direitos aqui!
Ela ergueu uma sobrancelha:
Rui, és adulto, devias saber: a inscrição não é posse. A casa foi comprada com dinheiro doado legalmente pelos meus pais. Pertence-me só a mim. E já que querias sair para viver com outra, limitei-me a facilitar. Leva tudo, até os teus halteres estão lá em baixo.
Não podes fazer isto! Foram trinta anos juntos! Também pus dinheiro nesta casa! Também pintei e arranjei isto!
Obras não fazem de ti dono de casa, Rui. Eram pequenas despesas. Foste tu que disseste que ias embora. Só te poupei trabalho. Tens uma jovem que te espera. Eu amanhã acordo cedo.
Começou a fechar a porta.
Leonor, espera! a voz de Rui soava agora frágil. E agora, para onde vou com isto tudo a estas horas?
Já não é comigo. Adeus.
O trinco fechou-se. O hall mergulhou na penumbra.
Rui ficou parado, sentado na mala, a olhar para os sacos. O orgulho e a certeza ruíram de súbito: agora era um homem sem casa, sentado sobre as recordações encaixotadas.
Pegou no telefone, procurou o número de Vera. Chamou uma, duas, três vezes. Até que ela atendeu, ao som de música alta.
Olá, Rui, já vens a caminho? perguntou risonha.
Vera, olha, aconteceu uma coisa: a Leonor fez uma cena, mudou os canhões, pôs as minhas coisas na rua. Preciso mesmo de ficar em tua casa, vai ser muita tralha.
Do outro lado, a música baixou. O silêncio pesou.
Espera mudou os canhões? Mas e a casa? Disseste que era dos dois e que ias receber parte para alugar apartamento nosso!
Está só em nome dela, foi oferta dos pais não vou receber nada. Mas eu ganho bem, Vera! Podemos pensar nisso mais tarde. Vou apanhar um táxi e já te apareço.
Outra pausa. Depois um suspiro.
Sabe uma coisa, Rui? Estive a pensar Não vale a pena trazeres os problemas para a minha casa minúscula. Preciso dum homem que resolva, não dum problema para abrigar. Telefone noutro dia, está bem? Quando arranjares casa. Tchau.
E desligou.
Rui olhou, incrédulo, para o telefone a jovem admiradora evaporava-se, tal como o fumo de um cigarro, assim que percebeu que por trás do cargo não havia fortuna nem casa.
Olhou o prédio, paredes cinzentas, cheiro a lixo, os seus pertences ensacados junto às escadas. Não tinha para onde ir. Ir dormir aos pés de um amigo? Nem pensar. O dinheiro não chegava para hotel o salário só caía na próxima semana, e o cartão estavam estoirado com prendas para Vera e mensalidade do ginásio.
Com um suspiro resignado, começou a pesquisar hostels baratos onde passar a noite.
No outro lado da porta reforçada, na sua casa acolhedora, aquecida e, acima de tudo, só sua, Leonor serviu-se de um chá de lúcia-lima e mel. Sentada à sua mesa, escutava o movimento da cidade de Lisboa lá fora e sorria para si própria. Há muito não se sentia tão leve. O ar parecia limpo, fresco, sem tristeza. Pela frente tinha uma nova vida, sem medo, humilhação ou mágoa.






