Uma amiga não celebra a Passagem de Ano, e eu compreendo-a. Partilho aqui o motivo.

A minha amiga Mafalda já não celebra a Passagem de Ano há cinco anos. Ela não compra árvore de Natal, não enfeita o apartamento com luzes coloridas e nem pendura aquelas típicas fitas cheias de brilho. Mafalda não se preocupa em preparar um jantar especial, nem entra na correria de comprar presentes para os muitos familiares ou amigos. Sempre que alguém descobre a sua postura em relação à festa, quase sempre fica boquiaberto. Mas Mafalda não sofre de depressão nem de qualquer outra doença: tem família, amigos, mas simplesmente decidiu, há uns anos atrás, que não queria mais festejar essa noite, e manteve-se fiel a essa decisão durante cinco longos anos. Para ela, 31 de dezembro é só mais um dia qualquer no calendário não tenta convencer ninguém das virtudes da sua escolha, mas tão-pouco pretende desistir dela.

No início, Mafalda tinha medo de passar sozinha a noite da virada. Não tinha namorado, os pais estavam fora na véspera de Ano Novo e o grupo de amigos festejava de forma barulhenta. Ela acabou por ficar em casa sozinha, mas nada de catastrófico aconteceu nessa madrugada. Telefonou antes a todos os seus queridos para dar os parabéns, preparou um jantar simples para si mesma e depois mergulhou numa banheira quente, deixando o tempo escorrer sem pressa. O velho ditado, como entras no novo ano, é como vais passá-lo, passou a ter um novo significado naquela noite. Mafalda não desperdiçou energias a cozinhar ou a limpar a casa, não entrou em stress, nem teve pressa para lado algum; conseguiu, assim, relaxar verdadeiramente, sem a companhia ruidosa dos amigos ou o apoio do vinho verde.

No fim da época festiva, Mafalda percebeu ainda outra vantagem do seu novo estilo: não gastou um tostão com festas. Nem árvore, nem decorações, nem brinquedos, nem iguarias próprias da época. Ao abdicar da celebração, conseguiu cortar estas despesas todas do orçamento mensal em euros.

Ganhou também tempo: nada de horas na cozinha, nem limpezas profundas, nem idas ao cabeleireiro e escolhas intermináveis de roupa para a ocasião. Quantas vezes as anfitriãs só se sentam à mesa às onze e tal, já exaustas do que o dia exigiu, sem ânimo para sonhar com o futuro ano?

Mafalda deixou de lado a febre das prendas. Agora já não tem de se acotovelar nas lojas apinhadas do centro de Lisboa, nem de esvaziar a conta à ordem para comprar lembranças para meia dúzia de tios e primos e amigos. Se fizeres as contas ao dinheiro gasto com prendas numa só festa grande, até parece mais barato comprar um voo para o Algarve e passar lá uns dias ao sol de inverno. Afinal, a diversão não depende de um calendário, e a reta final do ano pode servir apenas para fazer balanços e criar novos planos.

Mafalda faz todo o sentido. Quem realmente a ouve até ao fim, acaba por concordar com ela. Só que poucos param para escutar: a maioria julga-a logo, como se por trás da sua escolha só pudesse existir falta de dinheiro ou algum desgosto escondido.

Mas Mafalda não liga a comentários. Um dia, se tiver filhos, pensa celebrar para eles: montar a árvore, comprar presentes, reviver a magia. Mas para si, não pretende mudar nada. Cada um faz o seu próprio ritual de passagem de ano, à sua maneira e ao seu tempo. Se te apetecer, podes sempre transformar qualquer dia numa festa.

Na minha família, somos sempre muitos na Passagem de Ano; adoro preparar cada detalhe. Mas entendo perfeitamente Mafalda. Se algum dia me calhar ficar sozinho, não vou chorar agarrado à almofada talvez aproveite para descansar e para tirar finalmente um tempo para mim mesmo, na paz de uma noite muito sossegada.

Оцініть статтю
Додати коментар

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!:

8 + 7 =

Uma amiga não celebra a Passagem de Ano, e eu compreendo-a. Partilho aqui o motivo.
Брат покани у дома жена и обяви, че е стопанка. Но аз бързо ги поставих на мястото им.