– Então, o que é que sobrou da festa? Ainda tenho de dar de comer à minha filha! – A tia, com uma avidez preocupada, examinava a mesa.

– Então, o que é que sobrou da festa? Preciso de dar de comer à minha filha! – A tia, com uma ansiedade gananciosa, examinava a mesa.

Miguel olhou para a irmã da mãe, Graça, e mal se conteve para não responder de forma brusca. Os convidados ainda estavam sentados à mesa, e ela já tinha tirado três tupperwares da mala.

No prato grande restavam alguns pedaços de carne assada, ao lado estavam as saladas e um bolo quase inteiro.

– Tia Graça, ainda nem bebemos o chá – lembrou Miguel. – Espere ao menos até ao fim da noite.

– Ó, estou-vos a atrapalhar? Bebam o vosso chá à vontade. Eu vou levando um pouco, para a Inês comer depois do trabalho. Ela hoje só sai às nove, coitada, nem tempo tem para fazer o jantar, a minha pobre menina.

A Inês tinha vinte e nove anos. Vivia sozinha e ganhava bem.

Graça esticou a mão para a carne, mas o Paulo empurrou o prato para os convidados.

– As pessoas ainda estão a comer. Quando todos se forem, logo vemos o que sobra.

– Paulo, estás assim tão agarrado a um pedaço de carne? – indignou-se a tia.

Miguel reparou que a mãe desviou o olhar. A Júlia sempre tentava ignorar os hábitos da irmã mais nova.

Bastava alguém da família reclamar, e ela logo pedia para não serem mesquinhos, para não estragarem a relação por causa de comida.

Isto acontecia em quase todas as festas de família. A tia Graça chegava com uma caixa barata de bombons ou mesmo de mãos vazias, mas era a primeira a sentar-se à mesa. Escolhia os melhores nacos, pedia para lhe passarem as saladas, e depois do jantar tirava os tupperwares.

Uma vez, a tia levou metade do bolo ainda antes de os donos da casa o terem cortado. Noutra ocasião, exigiu que lhe embalassem quatro porções de comida quente – dizia que a filha Inês queria oferecer às amigas.

O Paulo ficou furioso na altura, mas a mulher puxou-o rapidamente para a cozinha.

– Paulo, não comeces à frente dos convidados, por amor de Deus! A Graça ofende-se, e depois passa um mês sem ligar.

– Deixa lá estar um ano calada! Porque é que temos de alimentar também a filha adulta dela?

– Ó, deixa-te disso, a comida vai sempre sobrar! Não é por causa disso. Deixa-a levar.

Miguel só se calava por causa da mãe. O irmão mais novo, Artur, também tentava não se meter, embora depois de cada almoço de família resmungasse que a tia levava no saco mais do que três convidados juntos comiam.

Aproximava-se o sexagésimo aniversário da mãe. Miguel decidiu dar-lhe algo a sério – juntou dinheiro durante meses.

Na ourivesaria escolheu uns brincos de ouro com pedras claras delicadas. O Artur viu a foto no telemóvel e entusiasmou-se: encontrou no catálogo um colar da mesma colecção.

Enquanto ela, com os dedos a tremer, colocava os brincos, o Artur ofereceu-lhe o colar. Ao ver que era um conjunto, a mãe emocionou-se, abraçou os filhos e começou a lastimar como de costume, que eles tinham gastado demasiado.

– Deixa cá ver – a tia Graça arrebatou as caixas sem cerimónia. Examino o contraste, espetou a unha no fecho. – Devem ter gasto uma fortuna, não? As pedras ao menos não são vidro?

– É ouro, está tudo na etiqueta – cortou Miguel. – O que importa é que a mãe gostou.

A tia desviou o olhar para a irmã, depois voltou-se para o sobrinho com um sorrisinho:

– Então, Miguel. Daqui a três meses é o meu aniversário. Espero um conjunto igual. Só que as pedras quero verdes, qualquer coisa como esmeraldas! Ficam a combinar com os meus olhos.

Fez-se silêncio à mesa. Miguel pensou primeiro que era uma piada de mau gosto, mas a tia estava a falar a sério, a rodar a caixa alheia nas mãos.

– Porque é que eu hei-de comprar ouro para si? – perguntou ele directamente.

– Como assim, “porquê”? – a tia arqueou as sobrancelhas, surpreendida. – Sou a irmã da tua mãe! Também mereço presentes caros.

Miguel fez mentalmente a conta dos seus aniversários de infância. Da tia, recebia normalmente meias, uma caneca ou um pacote de bolachas Maria.

No seu décimo oitavo aniversário, ela apareceu com um postal vazio e depois pediu-lhe que a levasse ao outro lado da cidade – a gasolina na altura ficou mais cara do que o seu “parabéns”. Mas agora ela falava com um desplante, como se tivesse patrocinado os estudos dele.

– A senhora não é minha mãe – disse Miguel com calma. – Presentes para si, que os dê a sua família.

– A Inês está com dificuldades agora – retorquiu a tia num instante. – Não vou exigir ouro à minha menina. Tu és um rapaz com posses, podias mostrar respeito pelos mais velhos.

A mãe tentou aliviar a tensão, embora se visse pela cara como estava constrangida:

– Graça, pronto, já chega de brincadeiras. Vamos antes pedir o chá, que estão a trazer o bolo.

– Brincadeiras, Júlia? Então a mãe leva ouro, e a tia fica sem nada? Espero o conjunto no meu aniversário! E o Artur também contribui, já que são todos tão ricos.

O Artur largou o garfo e resmungou:

– Desde quando é que temos de patrocinar os seus caprichos?

– Desde que família trata todos por igual! A Júlia recebeu brincos e colar! Ora, se não querem dar, então fico com o colar! Júlia, com uns brincos chega-te!

A tia Graça esticou a mão descaradamente para o pescoço da mãe. A mãe recuou. O Miguel sentiu um clique – toda a revolta que acumulara durante anos transbordou de uma vez.

– A senhora está a tentar tirar o presente da minha mãe a sério? – Miguel segurou-lhe o braço. – Já alguma vez lhe ofereceu algo mais caro do que aqueles panos de cozinha?

– Não me faltes ao respeito! – rosnou a tia. – Eu tenho outros rendimentos. E além disso, o que interessa é a atenção!

– Ao menos a contar o dinheiro dos outros é perita. Vem a todas as festas de mãos vazias, é a primeira a encher a barriga, e depois leva a comida em tupperwares!

– E está sempre a desculpar-se com a Inês, que já é uma mulher feita e capaz de comprar o próprio jantar!

O rosto da tia encheu-se de manchas vermelhas. Empurrou a cadeira com estrépito e virou-se para a irmã:

– Júlia! Estás a ouvir como o teu fedelho me fala? Cala-o! Ele está a envergonhar-te à frente de toda a gente!

A mãe olhou confusa do filho para a irmã. Miguel ficou parado, à espera do habitual:

– Miguel, pronto, não te metas…

Mas então o pai falou.

– O Miguel tem razão – disse com firmeza. – Eu só me calei por causa da Júlia. Tu vens aqui não como família, mas como a um restaurante gratuito com take-away.

– Ah, é assim? Combinaram-se? – Graça virou-se para o sobrinho mais novo. – Tu também vais começar a contar quantos nacos comi?

– Posso lembrar-lhe como levou a comida do meu aniversário antes de os convidados se sentarem – resmungou o Artur. – E depois ainda fez beicinho porque não lhe deram o bolo inteiro para levar.

– Ingratos! – guinchou a tia. – Júlia, que filhos criaste? Nenhum respeito pelos mais velhos!

Ela puxou bruscamente a mala, tirou os tupperwares e começou a encher com raiva as fatias de enchidos.

– Já que vos incomodo, ao menos levo comida para a Inês! Ela não tem culpa!

Miguel aproximou-se calmamente, agarrou no tupperware e despejou o fiambre de volta para o prato.

– Hoje é o aniversário da minha mãe, não é um posto de distribuição de ajuda humanitária! Não leva nada daqui.

– Dá cá, seu mal-educado! – gritou Graça. – Humilharam-me, tiraram-me o presente, e agora querem-me passar fome? Devolve a carne, que era para a Inês!

Os convidados estavam paralisados, alguém mal disfarçava o riso. Miguel olhou para a mãe – tinha medo que ela começasse a chorar.

Mas a mãe, devagar, desapertou o fecho do colar, guardou-o na caixa de veludo e ergueu os olhos para a irmã.

– Sabes, Graça… Estou cansada. Cansada de em cada festa calcular quanta comida conseguiste esconder nos bolsos.

– Cansada de mandar calar o meu marido e os meus filhos para aturarem os teus disparates, só para não nos zangarmos. O Miguel tem razão! Confundiste a nossa bondade com fraqueza.

A tia hesitou. Não esperava aquela resposta da irmã sempre tão complacente.

– Tu… tu estás do lado deles? Sou a tua irmã!

– Eles não são estranhos, Graça. São o meu marido e os meus filhos! Arruma as tuas coisas e vai-te embora.

– Então deem a comida quente para a miúda! – exigiu a tia, já mais baixo, mas ainda com rancor.

O pai, em silêncio, tirou o telemóvel, chamou um táxi, e depois empurrou para ela o saco com os panos.

– Leva a tua mala e essa tralha de volta. O resto fica na mesa.

– Nunca mais ponho os pés nesta casa! Uns sovinas! – cuspiu a tia, agarrando nas coisas.

A porta do restaurante bateu com estrondo. A mãe ainda olhou para a saída durante uns segundos, suspirou fundo.

– Mãe, desculpa – disse Miguel baixinho, sentando-se ao lado dela. – Não queria estragar-te a festa. Mas, pronto, já não aguentava.

– Não estragaste nada, filho – ela sorriu débilmente e passou-lhe a mão pelo braço. – Fui eu a ingénua, devia tê-la posto no lugar há mais tempo.

… Passados uns dias, a tia apareceu como se nada tivesse acontecido. Miguel estava na cozinha quando o telemóvel da mãe tocou, e ouviu-se pelo altifalante uma voz alta:

– Júlia, olá. Aí em casa sobrou comida do aniversário?

A mãe fechou os olhos, expirou, mas desta vez a voz nem tremeu.

– Graça, mesmo que tenha sobrado, não te dou nada. Virás a minha casa quando aprenderes a respeitar os donos da casa, e não a tratar o nosso lar como um restaurante gratuito.

No dia de anos da tia, Miguel limitou-se a enviar uma sms de manhã. Ouro, claro, ninguém mandou.

A tia Graça ainda esperou muito que a convidassem para a próxima festa de família, mas a mãe simplesmente riscou-a da lista de convidados. E, provavelmente, foi para durar…

O que acham, fizeram bem os familiares? Deixem a vossa opinião nos comentários, e carreguem no gosto!

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