A Lição da ConfiançaA Lição da Confiança

Recordando agora aqueles tempos distantes, Inês sorria ao pensar na chamada que mudou tudo na sua vida. Lembra-se como se fosse ontem de ter ouvido a voz desesperada da amiga ao telefone.

Beatriz! Preciso urgentemente da tua ajuda! exclamou Inês, mal a amiga atendeu. A voz tremia tanto que mal se reconhecia, com um zumbido surdo nos ouvidos como se alguém batesse num tambor, quase abafando as palavras. É uma questão de vida ou de morte! Em dois meses, preciso transformar-me de lagarta em borboleta! E numa borboleta tão bonita que ninguém consiga desviar o olhar.

No outro lado da linha, houve uma longa pausa. Inês fechou os olhos e imaginou Beatriz erguendo a sobrancelha, inclinando a cabeça e olhando para o telefone com perplexidade, abanando-a como se tentasse compreender o que acabara de ouvir.

Que declaração interessante! respondeu finalmente Beatriz, com genuíno espanto na voz. Nesse prazo… É viável em princípio, mas vais ter de suar a camisa. O que aconteceu aí?

Inês passou a mão nervosamente pelos cabelos longos mas sem brilho, com pontas bifurcadas que precisavam de corte há muito. Sorriu mentalmente, que ironia do destino. Durante cinco anos, Beatriz falava sempre do salão de beleza, do ginásio, propunha inscreverem-se juntas em ioga ou corridas matinais, mas Inês recusava, inventando desculpas. E agora era ela quem pedia ajuda desesperada, pronta para fazer o que tanto recusara.

Lembras-te daquele rapaz com quem falei no site de encontros? começou Inês, tentando falar calma, mas a emoção tornava a voz entrecortada. Inspirou fundo e continuou: Estivemos a conversar bastante tempo, tudo estava bem… Depois ele propôs encontrar-nos.

Com qual exatamente? sorriu Beatriz, e Inês imaginou o seu sorriso irónico. A amiga sempre brincava com as tentativas infinitas de encontrar o homem ideal pela internet, sem esconder o cepticismo em relação a encontros online, e perguntava em tom de brincadeira se Inês não planeava abrir uma agência de busca de príncipes. A foto no perfil estava editada, Beatriz sabia e insinuava que a verdade acabaria por aparecer, mas Inês descartava: Ora, não é certo que nos vamos encontrar algum dia.

O Pedro, alto, loiro de olhos azuis! explicou Inês apressadamente. Lembro-me que também te agradou. Disseste que ele tinha um sorriso agradável e um olhar inteligente.

Ah, esse a voz da amiga soou estranha, um pouco abafada, como se tivesse desviado o telefone. Mas Inês, tomada pela ansiedade, não deu importância. Lembro-me. E então?

Ele prometeu vir nas férias de fim de ano! desabafou Inês, palavras a saírem num fluxo como se guardadas por muito tempo. Dentro de dois meses! Imagina? Conversámos tanto… Não quero ver desprezo nos seus olhos quando me vir. Nas fotos pareço um pouco diferente. E a figura não é a mesma, e os cabelos não são tão brilhantes, e no geral…

Inês sentia os segundos arrastarem-se, cada momento sem resposta aumentava a ansiedade. Queria que Beatriz dissesse logo que tudo correria bem, mas o silêncio fazia o coração bater mais rápido.

E por que aceitaste o encontro? perguntou Beatriz ceticamente. Ela nunca escondia que via os encontros online de forma negativa. Quem sabe que tipo de pessoa se esconde por trás da foto?

Ele insistiu tanto… admitiu Inês baixinho, baixando os olhos embora Beatriz não a visse. Sentia vergonha por ter aceitado tão facilmente, sem pensar nas consequências. Conversámos durante muito tempo, ele era atencioso, fazia tantas perguntas… Depois escreveu que queria ver-me pessoalmente, que gostava muito de mim, e queria saber se era possível uma relação séria. Pensei durante vários dias, ponderei, mas no final simplesmente não consegui recusar.

Calou-se, mordendo os lábios nervosamente. Pedro escrevia que procurava há muito um interlocutor assim, que com ela era fácil e interessante. E quanto mais conversavam, mais Inês se apanhava a pensar se seriam feitos um para o outro.

Então prepara-te, suspirou Beatriz, captando uma mistura de determinação e leve preocupação. Beatriz sempre tomava as rédeas, mesmo quando parecia impossível. Vai ser difícil! Dois meses é curto, mas vamos tentar. Só vais ter de tirar férias durante algumas semanas primeiro os músculos vão doer muito após os treinos intensos.

Treinos? repetiu Inês, sentindo pânico subir. Queres dizer o ginásio?

Sim, o ginásio, e alimentação correta, e cuidados pessoais, listou Beatriz calmamente, como uma lista habitual. Sem abordagem completa, nada resulta. Não queres que dentro de dois meses ele veja a mesma Inês, apenas um pouco maquiada?

Inês ficou em silêncio a digerir. A ideia do ginásio causava sentimentos mistos: compreendia que era necessário, mas imaginava horas na passadeira e halteres pesados, e desconforto crescia.

E se eu não conseguir? perguntou baixinho, surpreendendo-se com o quão desamparadas soavam as palavras.

Vais conseguir, respondeu Beatriz com firmeza. Eu ajudo-te. Mas tens de estar preparada para trabalhar a sério! Não existe magia, Inês. Nada acontece com um estalar de dedos, é preciso fazer esforços.

Inês respirou fundo, fechou os punhos e disse a si mesma: Tudo bem. Vou tentar. Pelo menos por ele não ficar desiludido.

As primeiras semanas foram difíceis para Inês tanto que por vezes lhe parecia que não aguentaria e desistiria no dia seguinte. Cada manhã começava igual: o despertador tocava às 7:00, e a primeira sensação era relutância em levantar-se. Ficava deitada, olhando o teto, convencendo-se a levantar pelo menos cinco minutos mais cedo que no dia anterior.

No início, o aquecimento durava cinco minutos inclinações simples, balanços de braços, agachamentos leves. Inês fazia os exercícios em frente ao espelho, reconhecendo-se com dificuldade: rosto sonolento, cabelos despenteados, movimentos lentos. Mas Beatriz controlava: Amanhã dez minutos. Vamos aumentando a carga gradualmente.

Não era fácil: o corpo doía após cada treino, músculos ardiam no dia seguinte. Por vezes ao subir escadas as pernas tremiam, braços recusavam levantar uma chávena. Mas Beatriz não deixava relaxar, estava sempre por perto por telefone ou pessoalmente, voz firme sem dúvida:

Tu consegues mais, repetia, observando Inês suar a tentar o próximo exercício. Faz só mais uma série. Ainda temos um mês vamos conseguir melhorar o que é preciso.

Inês cerrava os dentes, respirava fundo e forçava-se a continuar. Às vezes queria desistir, voltar à rotina ficar mais na cama, comer algo saboroso, esquecer os exercícios. Mas recordava as mensagens de Pedro, a promessa de vir nas férias de fim de ano e isso impedia-a de ceder.

A alimentação também foi revista radicalmente. Antes o pequeno-almoço era um bolo aromático com café ou uma barra de chocolate se faltava tempo. Agora apareciam saladas com azeite, peito de frango cozido, arroz e batidos verdes que mal conseguia engolir. Nos primeiros dias estendia a mão para os biscoitos, mas parava sempre. Diante dos olhos surgiam os olhos azuis de Pedro, o sorriso na foto, as palavras: Estou ansioso pela nossa reunião.

São apenas dois meses, convencia-se, regando a salada com água sem gás. Apenas dois meses.

Gradualmente os novos hábitos entraram na vida. Inês aprendeu a preparar pratos saudáveis, encontrou receitas de batidos que não causavam rejeição. Notou que de manhã ficava mais fácil levantar-se, e ao meio-dia não vinha a fadiga habitual. Às vezes no espelho via a pele mais firme, leve rubor da atividade física regular.

Beatriz continuava a controlar, mas agora com mais aprovação:

Vês, está a resultar. Já não és a mesma de há um mês. Mais um pouco e estarás em ótima forma.

Inês concordava, mas por dentro a ansiedade vivia: bastariam as mudanças? Seria suficiente para Pedro não ficar desiludido? Não sabia, mas continuava passo a passo, dia após dia.

Paralelamente aos treinos e dieta, ia o trabalho com a aparência. Beatriz planeou com antecedência e marcou Inês num bom salão não luxuoso, mas com profissionais experientes.

Na primeira visita fizeram um corte, escolhendo a forma com as feições e estrutura dos cabelos. A estilista manuseava tesouras habilmente, recuando para avaliar, corrigindo linhas. Pontas bifurcadas desapareceram. Adicionou volume nas raízes e perfilou as pontas cabelos ganharam vida. Seguiu-se coloração suave com gradiente, cor mais profunda preservando naturalidade.

Depois a manicure tratou das unhas cutícula processada, forma nivelada, verniz bege suave. Inês admirou as mãos cuidadas sem extravagância.

O maquiador recomendada por conhecidos começou com análise do tipo de Inês. Estudou feições, tom de pele e olhos, demonstrou como realçar qualidades com maquiagem delicada: base leve, sobrancelhas destacadas, rímel discreto e rubor natural. Explicava pacientemente produtos e sequência, sugerindo que Inês repetisse.

Olha que bonita estás! exclamou Beatriz admirada após outra transformação, prazer genuíno na voz como se orgulhosa do resultado e de inspirar Inês.

Inês aproximou-se do grande espelho e parou. Olhou longamente o reflexo, tentando compreender que era ela. Diante dela uma mulher que mal reconhecia: penteado arrumado dava expressividade, maquiagem leve realçava olhos e frescura da pele, roupa simples mas elegante escolhida por Beatriz valorizava a figura. Não era aquela Inês que preferia camisolas largas e ténis, escondia-se atrás de silhuetas volumosas e evitava atenção extra.

Gradualmente os novos looks entraram no hábito. Inês aprendeu a escolher roupas que se ajustassem à figura sem limitar movimentos, dominou cuidados com a pele e maquiagem simples diária. Notou pessoas sorrirem mais na rua, colegas demorarem o olhar quando entrava no escritório.

Mas o mais difícil foi a reconstrução interna. Inês demorou a habituar-se a olharem de outra forma. Antes evitava olhares, baixava olhos ao falar, curvava-se para parecer mais pequena. Agora tinha de aprender a manter costas direitas, olhar nos olhos e responder com sorriso confiante.

No início era difícil. Nos primeiros dias apanhava-se a esconder puxava manga para ocultar manicure, arranjava cabelo para cobrir rosto, apressava-se a afastar se alguém olhava demasiado. Mas Beatriz lembrava pacientemente:

Estás ótima. Não te escondas. As pessoas apenas notam a tua beleza e isso é normal.

Com o tempo Inês sentiu-se mais confiante. Notou a voz mais firme, sem incerteza tímida anterior. Embora restassem dúvidas, focava no que resultava elogios dos colegas, olhares calorosos dos transeuntes, facilidade em escolher roupa e cuidar de si.

Tens de acreditar em ti, repetia Beatriz. És linda, e as pessoas vêem isso. Ainda temos tempo para te habituares ao novo visual.

Certo dia de manhã, quando Inês ia pelo corredor para o trabalho, Sofia da contabilidade chamou-a. Sorriu amplamente e com entusiasmo disse:

Inês, estás fantástica! Algo em ti mudou nem consigo dizer exatamente o quê, mas fica incrível!

Inês corou e apressou-se a responder:

Não é nada de especial, apenas atualizei o guarda-roupa…

Mas Sofia não a deixou acabar:

Não, não é só a roupa! Estás toda mais fresca, talvez. Os olhos brilham, o andar é diferente. Fica-te muito bem!

Nesse dia Carlos do departamento de vendas aproximou-se. Conhecido por misturar elogios com piada, encontrou-a na máquina de café e piscou o olho com sorriso:

O que é este milagre? Pareces brilhar por dentro. Partilha o segredo talvez também devêssemos mudar alguma coisa?

Inês sorriu timidamente, bochechas a aquecerem. Era agradável ouvir palavras amáveis, embora não habituada a tal atenção. Antes colegas mal notavam a presença, agora paravam para trocar palavras ou sorrir.

Começou a notar outras mudanças. No café próximo empregados cumprimentavam pelo nome, rapazes desconhecidos lançavam olhares interessados e sorriam ao passar. Inês captava sinais momentâneos e surpreendia-se: será que tudo lhe acontecia a ela?

Especialmente ativo foi Miguel do departamento vizinho. Antes mal trocavam cumprimentos, agora encontrava pretextos para falar. Perguntava sobre projetos, interessava-se pelo fim de semana, propunha almoçar juntos.

Certo dia durante o intervalo aproximou-se da mesa com chávena de café e perguntou descontraidamente:

Tens um gosto incrível. Onde compras estas coisas? Este casaco fica muito estiloso.

Inês passou a mão pelo tecido macio, recordando como Beatriz ajudou a escolher. Sorriu e respondeu:

Na verdade há muito que não o vestia decidi dar-lhe uma segunda oportunidade.

Miguel concordou mas não se apressou:

Sabes, agora pareces completamente diferente. Mais confiante, talvez. Isso é ótimo.

Inês agradeceu, mas na cabeça giravam pensamentos sobre Pedro. Imaginava como ele viria, a veria e não conseguiria desviar o olhar. Nessas fantasias sorria, dizia algo caloroso, notava como mudara. Este pensamento sustentava-a nos momentos difíceis após treino pesado o corpo a doer ou quando queria abandonar a dieta e comer algo proibido.

Às vezes deitada à noite questionava-se se Pedro apreciaria os esforços. Mas afastava as dúvidas. O importante era já sentir a mudança na atitude em relação a si mesma. Embora houvesse muito trabalho, já não era a rapariga que se escondia atrás de roupa informe e evitava olhares. Agora aprendia a aceitar atenção, responder a sorrisos e acreditar que mudanças eram principalmente por si mesma.

Beatriz observava a amiga com leve sorriso, notando sem se dar conta cada mudança. Via como Inês começava a manter-se direita, entrava confiantemente, olhava calmamente nos olhos. Nos movimentos aparecia leveza, na voz firmeza, nos olhos brilho que antes não existia.

Cada vez que se encontrava, Beatriz comparava-a com a imagem de há meses. Então Inês estava escondida na concha: curvava-se, falava baixo, evitava atenção. Agora parecia ter aberto as asas e esta transformação alegrava Beatriz profundamente.

Notava com prazer como Inês escolhia cores vivas na roupa, acessórios habilmente, conversas descontraídas com colegas. Especialmente tocante era como aprendia a aceitar elogios primeiro afastava timidamente, depois sorria agradecida, agora respondia com piada ou palavra calorosa.

No fundo da alma Beatriz sentia sentimentos mistos. Por um lado transbordava orgulho aplicara esforços para impulsionar Inês às mudanças. Lembrava conversas, persuasões, idas juntas a lojas e salões. Ver o resultado era agradável.

Por outro lado não a deixava desconforto. A história com Pedro tinha sido ideia dela. Mais ainda, nenhum Pedro existia, era ela quem conversava com Inês todo esse tempo! Beatriz não aguentava ver a amiga desperdiçar a vida, decidiu essa ação não totalmente correta. E se Pedro não aparecer destruísse o progresso e Inês voltasse a encolher-se na concha?

Embora não, disso nem se podia falar! Já Beatriz trataria disso!

Uma semana antes do encontro previsto com Pedro, Inês estava diante do espelho no quarto e observava atentamente o reflexo. Estudava demoradamente cada traço, tentando ver o que Beatriz repetia. Não se considerava ainda uma beleza o ideal era inatingível. Mas agora via uma mulher de quem não tinha vergonha de se mostrar.

Passou a mão pelo ombro, arranjou o colarinho da blusa e virou-se para se ver de lado. Na cabeça girava: Será que sou realmente eu?

Nesse momento Beatriz entrou. Parou na porta a sorrir, depois disse confiantemente:

Estás pronta. Ele vai ficar encantado. Tiveste dois meses para te habituares à nova ti e conseguiste.

Inês concordou, mas pareceu-lhe ouvir nota estranha na voz, como se Beatriz quisesse acrescentar mas se conteve. Já abria a boca para perguntar mas não teve tempo o telefone vibrou.

Tirou o smartphone, viu mensagem de Pedro. Leu uma vez, depois outra, esperando que o sentido mudasse. Mas o texto permanecia: Desculpa, mas não vou conseguir vir. As circunstâncias mudaram. Encontramo-nos algum dia depois.

Inês releu, tentando compreender. Como assim! Fez tantos esforços por este encontro e tudo em vão?

O que aconteceu? alertou-se Beatriz, notando a mudança no rosto.

Ele não vem, respondeu Inês baixinho, mostrando o ecrã. Escreve que nos encontramos algum dia depois…

A amiga ficou parada um segundo, tentando palavras certas. Depois suspirou fundo e sentou-se ao lado, mão no ombro de Inês. Nos olhos passou algo indescritível arrependimento ou alívio mas controlou-se.

Sabes, disse Beatriz suavemente, talvez seja para melhor.

Para melhor? Inês ergueu olhar surpreendido, mistura de desorientação e perplexidade. Por que dizes isso?

Porque nestes dois meses tornaste-te completamente diferente, sorriu Beatriz, orgulho sincero na voz. Adquiriste confiança, aprendeste a cuidar de ti, revelaste a tua beleza. Já não te escondes, não duvidas de cada passo, não tens medo de olhar as pessoas nos olhos. Aprendeste a valorizar-te.

Fez pausa para Inês assimilar, depois continuou:

E sabes o quê? Agora sabes: mereces o melhor. Não algum Pedro da internet, mas a verdadeira felicidade. Aquela que não desaparece por circunstâncias. Mereces pessoa que te valorize verdadeiramente, não desapareça sem explicações.

Inês escutou em silêncio. Na cabeça formava-se nova imagem: sim, Pedro não viria, comunicação terminou subitamente. Mas nestes dois meses aconteceu algo maior ela própria mudou.

Beatriz apertou o ombro e acrescentou:

Hoje não vamos a lado nenhum. Pedimos pizza, vemos a tua série favorita e descansamos. Amanhã começamos novo capítulo. Tudo vai correr bem, eu sei.

Inês concordou lentamente.

Sabes, disse virando-se, firmeza invulgar na voz, acho que vou ao teatro com Miguel. Ele convida há muito.

Beatriz riu facilmente, alegremente, como se ouvisse o que esperava. Avançou e abraçou Inês com força.

Essa é que é a minha menina! exclamou, afastando-se com orgulho. Sabia que ias conseguir. E tenho certeza que isto é apenas o início.

Inês concordou, sentindo antecipação crescer. Não sabia o que esperava no dia seguinte, mas pela primeira vez em muito tempo estava pronta para descobrir.

À noite Inês estava diante do teatro num vestido novo comprado para o evento. Arranjou um cacho, verificou a maquiagem, sentiu nervosismo crescer.

Nesse momento Miguel aproximou-se. Nas mãos trazia ramo de rosas vermelhas:

Estás fantástica.

Ela sorriu em resposta, sorriso natural sem tensão. Inês percebeu que pela primeira vez em muito tempo se sentia verdadeiramente bonita não porque alguém dissesse, mas porque ela própria assim decidiu. Via o reflexo nas portas de vidro, luz a cair suavemente no vestido, cabelos arrumados, compreendia: era a sua escolha, o seu estilo, a sua confiança.

O espetáculo foi maravilhoso dinâmico, com humor subtil e reviravoltas. Inês e Miguel sentaram-se lado a lado, trocando réplicas, rindo dos mesmos momentos, depois discutiram a encenação. Falavam de como os atores desempenharam, cenas que impressionaram, até discutiram a interpretação do final. Conversa fluía facilmente, Inês sentia prazer em ouvir Miguel, responder, simplesmente estar ao lado.

Quando terminou Miguel propôs continuar o passeio. Olhou com leve sorriso:

Não queres dar um passeio? A noite está tão boa.

Inês aceitou sem hesitar. Saíram, candeeiros acesos, ar com frescura e ruído suave da cidade noturna. Caminharam devagar, desfrutando o momento.

À medida que avançavam pelas ruas acolhedoras, Inês sentia nascer sensação de liberdade. Já não era a rapariga que se escondia atrás de roupa volumosa e olhar baixo. Agora podia caminhar sem medo de olhares, sorrir a desconhecidos, desfrutar sem olhar para o passado. Era ela mesma verdadeira, viva, confiante.

Pararam num pequeno jardim, raros visitantes nos bancos, ar com frescura e notas de folhas outonais. Inês virou-se para Miguel e inesperadamente disse:

Obrigada.

Porquê? surpreendeu-se ele, sobrancelhas erguidas.

Por esta noite maravilhosa e pela companhia agradável, respondeu simplesmente, sorrindo. Há muito que não desfrutava assim.

Beatriz observava de longe, à sombra das árvores, sem se apressar. Queria ver como Inês se sentia, certificar-se que tudo corria bem. Quando notou o sorriso a Miguel, postura relaxada, rosto a brilhar, sorriu silenciosamente e afastou-se.

A caminho de casa entrou numa cafetaria. Junto à janela pediu cappuccino, tirou o telefone. Na galeria guardava fotografias de Inês antes e depois. Nas primeiras a antiga Inês: cabelos sem brilho, roupa informe, olhar baixo como se tentasse tornar-se invisível. Nas segundas confiante, radiante, sorriso leve e olhar direto, postura orgulhosa e brilho nos olhos.

Beatriz folheou, demorando na última Inês diante do teatro no vestido novo, Miguel com o ramo. Olhou longamente, pensamento simples na cabeça: Ela realmente desabrochou.

E percebeu não precisava explicar nada. Não precisava confessar que Pedro era invenção sua. Porque o resultado é mais importante que o plano inicial. Inês agora é diferente. Aprendeu a valorizar-se, acreditar nas forças, alegrar-se com as pequenas coisas. E isto é o mais importante…

Passaram três meses. Nesse tempo a vida de Inês mudou notavelmente, mudanças tornaram-se parte do quotidiano, não experimento temporário. Ela e Miguel encontravam-se a sério não apenas encontros ocasionais, mas construíam relação, conheciam-se, partilhavam hábitos e alegrias.

Frequentemente iam ao cinema, escolhendo filmes de autor ou comédias leves conforme o humor. Após a sessão passeavam pela cidade, discutindo enredo, atuações ou partilhando impressões. Às vezes entravam em cafetarias, bebiam chá com sobremesas, falavam de tudo: infância, trabalho, sonhos e planos.

Aos fins de semana cozinhavam juntos. Inês gostava de experimentar receitas, Miguel ajudava. Na cozinha barulho e alegria: riam de fracassos como torrada queimada ou molho salgado, cantavam a música do rádio, desfrutavam o processo. Pratos prontos comiam à mesa junto à janela, discutindo o dia e planos.

Miguel revelou-se a pessoa de quem Inês sentia falta há muito. Era atencioso notava mudanças no humor, sabia apoiar com palavra amiga ou estar em silêncio quando necessário. Bondoso nunca zombava, mantinha delicadeza mesmo em brincadeiras. Estava simplesmente ao lado e bastava para Inês se sentir confortável e segura.

Um ano depois, Inês estava diante de um grande espelho num provador claro, a observar o reflexo num vestido de noiva. Era exatamente como sonhava: rendas delicadas, silhueta arrumada, saia fluida. Realçava a figura sem limitar movimentos, tom pastel harmonizava com a pele.

Ao lado Beatriz afanava-se chegara mais cedo para ajudar. Ajustou o véu, certificou-se que ganchos estavam no lugar, recuou para avaliar. Sorriu calorosamente.

Estás fantástica, sussurrou, sinceridade genuína na voz. Simplesmente incrível.

Inês virou-se lentamente. Olhos com alegria tranquila misturada com nervosismo. Respirou fundo para acalmar o tremor e respondeu:

Obrigada. Por tudo.

Estas palavras continham muito mais que gratidão por elogio. Havia reconhecimento pelos meses de apoio, paciência, momentos em que Beatriz encontrava palavras para animar, e por estar sempre presente mesmo quando Inês duvidava.

Nesse momento Miguel apareceu na porta. Parou no limiar, como se temesse perturbar a cena tranquila cheia de luz. Olhar deslizou por Inês, demorou no rosto, sorriso caloroso e sincero que sempre fazia Inês perder a respiração.

És a mulher mais bonita do mundo, disse aproximando-se. Sem fingimento, apenas admiração e ternura.

Inês sentiu o coração encher-se de calor. Estendeu a mão, Miguel pegou na palma forte, confiável. Toque acalmou-a, levou as últimas partículas de ansiedade.

Inês apertou os dedos de Miguel, felicidade calma e profunda a espalhar-se. Sabia que era amada não pela aparência, não pelas mudanças do último ano, mas por quem era realmente. Pelo riso, sonhos, capacidade de estar ao lado, sinceridade e bondade.

Beatriz afastou-se silenciosamente, observando o casal com leve sorriso. Não quis interferir, apenas secou uma lágrima, alegrando-se pela amiga. Tudo se arranjou exatamente como deveria…Recordando agora aqueles tempos distantes, Inês sorria ao pensar na chamada que mudou tudo na sua vida. Lembra-se como se fosse ontem de ter ouvido a voz desesperada da amiga ao telefone.

Beatriz! Preciso urgentemente da tua ajuda! exclamou Inês, mal a amiga atendeu. A voz tremia tanto que mal se reconhecia, com um zumbido surdo nos ouvidos como se alguém batesse num tambor, quase abafando as palavras. É uma questão de vida ou de morte! Em dois meses, preciso transformar-me de lagarta em borboleta! E numa borboleta tão bonita que ninguém consiga desviar o olhar.

No outro lado da linha, houve uma longa pausa. Inês fechou os olhos e imaginou Beatriz erguendo a sobrancelha, inclinando a cabeça e olhando para o telefone com perplexidade, abanando-a como se tentasse compreender o que acabara de ouvir.

Que declaração interessante! respondeu finalmente Beatriz, com genuíno espanto na voz. Nesse prazo… É viável em princípio, mas vais ter de suar a camisa. O que aconteceu aí?

Inês passou a mão nervosamente pelos cabelos longos mas sem brilho, com pontas bifurcadas que precisavam de corte há muito. Sorriu mentalmente, que ironia do destino. Durante cinco anos, Beatriz falava sempre do salão de beleza, do ginásio, propunha inscreverem-se juntas em ioga ou corridas matinais, mas Inês recusava, inventando desculpas. E agora era ela quem pedia ajuda desesperada, pronta para fazer o que tanto recusara.

Lembras-te daquele rapaz com quem falei no site de encontros? começou Inês, tentando falar calma, mas a emoção tornava a voz entrecortada. Inspirou fundo e continuou: Estivemos a conversar bastante tempo, tudo estava bem… Depois ele propôs encontrar-nos.

Com qual exatamente? sorriu Beatriz, e Inês imaginou o seu sorriso irónico. A amiga sempre brincava com as tentativas infinitas de encontrar o homem ideal pela internet, sem esconder o cepticismo em relação a encontros online, e perguntava em tom de brincadeira se Inês não planeava abrir uma agência de busca de príncipes. A foto no perfil estava editada, Beatriz sabia e insinuava que a verdade acabaria por aparecer, mas Inês descartava: Ora, não é certo que nos vamos encontrar algum dia.

O Pedro, alto, loiro de olhos azuis! explicou Inês apressadamente. Lembro-me que também te agradou. Disseste que ele tinha um sorriso agradável e um olhar inteligente.

Ah, esse a voz da amiga soou estranha, um pouco abafada, como se tivesse desviado o telefone. Mas Inês, tomada pela ansiedade, não deu importância. Lembro-me. E então?

Ele prometeu vir nas férias de fim de ano! desabafou Inês, palavras a saírem num fluxo como se guardadas por muito tempo. Dentro de dois meses! Imagina? Conversámos tanto… Não quero ver desprezo nos seus olhos quando me vir. Nas fotos pareço um pouco diferente. E a figura não é a mesma, e os cabelos não são tão brilhantes, e no geral…

Inês sentia os segundos arrastarem-se, cada momento sem resposta aumentava a ansiedade. Queria que Beatriz dissesse logo que tudo correria bem, mas o silêncio fazia o coração bater mais rápido.

E por que aceitaste o encontro? perguntou Beatriz ceticamente. Ela nunca escondia que via os encontros online de forma negativa. Quem sabe que tipo de pessoa se esconde por trás da foto?

Ele insistiu tanto… admitiu Inês baixinho, baixando os olhos embora Beatriz não a visse. Sentia vergonha por ter aceitado tão facilmente, sem pensar nas consequências. Conversámos durante muito tempo, ele era atencioso, fazia tantas perguntas… Depois escreveu que queria ver-me pessoalmente, que gostava muito de mim, e queria saber se era possível uma relação séria. Pensei durante vários dias, ponderei, mas no final simplesmente não consegui recusar.

Calou-se, mordendo os lábios nervosamente. Pedro escrevia que procurava há muito um interlocutor assim, que com ela era fácil e interessante. E quanto mais conversavam, mais Inês se apanhava a pensar se seriam feitos um para o outro.

Então prepara-te, suspirou Beatriz, captando uma mistura de determinação e leve preocupação. Beatriz sempre tomava as rédeas, mesmo quando parecia impossível. Vai ser difícil! Dois meses é curto, mas vamos tentar. Só vais ter de tirar férias durante algumas semanas primeiro os músculos vão doer muito após os treinos intensos.

Treinos? repetiu Inês, sentindo pânico subir. Queres dizer o ginásio?

Sim, o ginásio, e alimentação correta, e cuidados pessoais, listou Beatriz calmamente, como uma lista habitual. Sem abordagem completa, nada resulta. Não queres que dentro de dois meses ele veja a mesma Inês, apenas um pouco maquiada?

Inês ficou em silêncio a digerir. A ideia do ginásio causava sentimentos mistos: compreendia que era necessário, mas imaginava horas na passadeira e halteres pesados, e desconforto crescia.

E se eu não conseguir? perguntou baixinho, surpreendendo-se com o quão desamparadas soavam as palavras.

Vais conseguir, respondeu Beatriz com firmeza. Eu ajudo-te. Mas tens de estar preparada para trabalhar a sério! Não existe magia, Inês. Nada acontece com um estalar de dedos, é preciso fazer esforços.

Inês respirou fundo, fechou os punhos e disse a si mesma: Tudo bem. Vou tentar. Pelo menos por ele não ficar desiludido.

As primeiras semanas foram difíceis para Inês tanto que por vezes lhe parecia que não aguentaria e desistiria no dia seguinte. Cada manhã começava igual: o despertador tocava às 7:00, e a primeira sensação era relutância em levantar-se. Ficava deitada, olhando o teto, convencendo-se a levantar pelo menos cinco minutos mais cedo que no dia anterior.

No início, o aquecimento durava cinco minutos inclinações simples, balanços de braços, agachamentos leves. Inês fazia os exercícios em frente ao espelho, reconhecendo-se com dificuldade: rosto sonolento, cabelos despenteados, movimentos lentos. Mas Beatriz controlava: Amanhã dez minutos. Vamos aumentando a carga gradualmente.

Não era fácil: o corpo doía após cada treino, músculos ardiam no dia seguinte. Por vezes ao subir escadas as pernas tremiam, braços recusavam levantar uma chávena. Mas Beatriz não deixava relaxar, estava sempre por perto por telefone ou pessoalmente, voz firme sem dúvida:

Tu consegues mais, repetia, observando Inês suar a tentar o próximo exercício. Faz só mais uma série. Ainda temos um mês vamos conseguir melhorar o que é preciso.

Inês cerrava os dentes, respirava fundo e forçava-se a continuar. Às vezes queria desistir, voltar à rotina ficar mais na cama, comer algo saboroso, esquecer os exercícios. Mas recordava as mensagens de Pedro, a promessa de vir nas férias de fim de ano e isso impedia-a de ceder.

A alimentação também foi revista radicalmente. Antes o pequeno-almoço era um bolo aromático com café ou uma barra de chocolate se faltava tempo. Agora apareciam saladas com azeite, peito de frango cozido, arroz e batidos verdes que mal conseguia engolir. Nos primeiros dias estendia a mão para os biscoitos, mas parava sempre. Diante dos olhos surgiam os olhos azuis de Pedro, o sorriso na foto, as palavras: Estou ansioso pela nossa reunião.

São apenas dois meses, convencia-se, regando a salada com água sem gás. Apenas dois meses.

Gradualmente os novos hábitos entraram na vida. Inês aprendeu a preparar pratos saudáveis, encontrou receitas de batidos que não causavam rejeição. Notou que de manhã ficava mais fácil levantar-se, e ao meio-dia não vinha a fadiga habitual. Às vezes no espelho via a pele mais firme, leve rubor da atividade física regular.

Beatriz continuava a controlar, mas agora com mais aprovação:

Vês, está a resultar. Já não és a mesma de há um mês. Mais um pouco e estarás em ótima forma.

Inês concordava, mas por dentro a ansiedade vivia: bastariam as mudanças? Seria suficiente para Pedro não ficar desiludido? Não sabia, mas continuava passo a passo, dia após dia.

Paralelamente aos treinos e dieta, ia o trabalho com a aparência. Beatriz planeou com antecedência e marcou Inês num bom salão não luxuoso, mas com profissionais experientes.

Na primeira visita fizeram um corte, escolhendo a forma com as feições e estrutura dos cabelos. A estilista manuseava tesouras habilmente, recuando para avaliar, corrigindo linhas. Pontas bifurcadas desapareceram. Adicionou volume nas raízes e perfilou as pontas cabelos ganharam vida. Seguiu-se coloração suave com gradiente, cor mais profunda preservando naturalidade.

Depois a manicure tratou das unhas cutícula processada, forma nivelada, verniz bege suave. Inês admirou as mãos cuidadas sem extravagância.

O maquiador recomendada por conhecidos começou com análise do tipo de Inês. Estudou feições, tom de pele e olhos, demonstrou como realçar qualidades com maquiagem delicada: base leve, sobrancelhas destacadas, rímel discreto e rubor natural. Explicava pacientemente produtos e sequência, sugerindo que Inês repetisse.

Olha que bonita estás! exclamou Beatriz admirada após outra transformação, prazer genuíno na voz como se orgulhosa do resultado e de inspirar Inês.

Inês aproximou-se do grande espelho e parou. Olhou longamente o reflexo, tentando compreender que era ela. Diante dela uma mulher que mal reconhecia: penteado arrumado dava expressividade, maquiagem leve realçava olhos e frescura da pele, roupa simples mas elegante escolhida por Beatriz valorizava a figura. Não era aquela Inês que preferia camisolas largas e ténis, escondia-se atrás de silhuetas volumosas e evitava atenção extra.

Gradualmente os novos looks entraram no hábito. Inês aprendeu a escolher roupas que se ajustassem à figura sem limitar movimentos, dominou cuidados com a pele e maquiagem simples diária. Notou pessoas sorrirem mais na rua, colegas demorarem o olhar quando entrava no escritório.

Mas o mais difícil foi a reconstrução interna. Inês demorou a habituar-se a olharem de outra forma. Antes evitava olhares, baixava olhos ao falar, curvava-se para parecer mais pequena. Agora tinha de aprender a manter costas direitas, olhar nos olhos e responder com sorriso confiante.

No início era difícil. Nos primeiros dias apanhava-se a esconder puxava manga para ocultar manicure, arranjava cabelo para cobrir rosto, apressava-se a afastar se alguém olhava demasiado. Mas Beatriz lembrava pacientemente:

Estás ótima. Não te escondas. As pessoas apenas notam a tua beleza e isso é normal.

Com o tempo Inês sentiu-se mais confiante. Notou a voz mais firme, sem incerteza tímida anterior. Embora restassem dúvidas, focava no que resultava elogios dos colegas, olhares calorosos dos transeuntes, facilidade em escolher roupa e cuidar de si.

Tens de acreditar em ti, repetia Beatriz. És linda, e as pessoas vêem isso. Ainda temos tempo para te habituares ao novo visual.

Certo dia de manhã, quando Inês ia pelo corredor para o trabalho, Sofia da contabilidade chamou-a. Sorriu amplamente e com entusiasmo disse:

Inês, estás fantástica! Algo em ti mudou nem consigo dizer exatamente o quê, mas fica incrível!

Inês corou e apressou-se a responder:

Não é nada de especial, apenas atualizei o guarda-roupa…

Mas Sofia não a deixou acabar:

Não, não é só a roupa! Estás toda mais fresca, talvez. Os olhos brilham, o andar é diferente. Fica-te muito bem!

Nesse dia Carlos do departamento de vendas aproximou-se. Conhecido por misturar elogios com piada, encontrou-a na máquina de café e piscou o olho com sorriso:

O que é este milagre? Pareces brilhar por dentro. Partilha o segredo talvez também devêssemos mudar alguma coisa?

Inês sorriu timidamente, bochechas a aquecerem. Era agradável ouvir palavras amáveis, embora não habituada a tal atenção. Antes colegas mal notavam a presença, agora paravam para trocar palavras ou sorrir.

Começou a notar outras mudanças. No café próximo empregados cumprimentavam pelo nome, rapazes desconhecidos lançavam olhares interessados e sorriam ao passar. Inês captava sinais momentâneos e surpreendia-se: será que tudo lhe acontecia a ela?

Especialmente ativo foi Miguel do departamento vizinho. Antes mal trocavam cumprimentos, agora encontrava pretextos para falar. Perguntava sobre projetos, interessava-se pelo fim de semana, propunha almoçar juntos.

Certo dia durante o intervalo aproximou-se da mesa com chávena de café e perguntou descontraidamente:

Tens um gosto incrível. Onde compras estas coisas? Este casaco fica muito estiloso.

Inês passou a mão pelo tecido macio, recordando como Beatriz ajudou a escolher. Sorriu e respondeu:

Na verdade há muito que não o vestia decidi dar-lhe uma segunda oportunidade.

Miguel concordou mas não se apressou:

Sabes, agora pareces completamente diferente. Mais confiante, talvez. Isso é ótimo.

Inês agradeceu, mas na cabeça giravam pensamentos sobre Pedro. Imaginava como ele viria, a veria e não conseguiria desviar o olhar. Nessas fantasias sorria, dizia algo caloroso, notava como mudara. Este pensamento sustentava-a nos momentos difíceis após treino pesado o corpo a doer ou quando queria abandonar a dieta e comer algo proibido.

Às vezes deitada à noite questionava-se se Pedro apreciaria os esforços. Mas afastava as dúvidas. O importante era já sentir a mudança na atitude em relação a si mesma. Embora houvesse muito trabalho, já não era a rapariga que se escondia atrás de roupa informe e evitava olhares. Agora aprendia a aceitar atenção, responder a sorrisos e acreditar que mudanças eram principalmente por si mesma.

Beatriz observava a amiga com leve sorriso, notando sem se dar conta cada mudança. Via como Inês começava a manter-se direita, entrava confiantemente, olhava calmamente nos olhos. Nos movimentos aparecia leveza, na voz firmeza, nos olhos brilho que antes não existia.

Cada vez que se encontrava, Beatriz comparava-a com a imagem de há meses. Então Inês estava escondida na concha: curvava-se, falava baixo, evitava atenção. Agora parecia ter aberto as asas e esta transformação alegrava Beatriz profundamente.

Notava com prazer como Inês escolhia cores vivas na roupa, acessórios habilmente, conversas descontraídas com colegas. Especialmente tocante era como aprendia a aceitar elogios primeiro afastava timidamente, depois sorria agradecida, agora respondia com piada ou palavra calorosa.

No fundo da alma Beatriz sentia sentimentos mistos. Por um lado transbordava orgulho aplicara esforços para impulsionar Inês às mudanças. Lembrava conversas, persuasões, idas juntas a lojas e salões. Ver o resultado era agradável.

Por outro lado não a deixava desconforto. A história com Pedro tinha sido ideia dela. Mais ainda, nenhum Pedro existia, era ela quem conversava com Inês todo esse tempo! Beatriz não aguentava ver a amiga desperdiçar a vida, decidiu essa ação não totalmente correta. E se Pedro não aparecer destruísse o progresso e Inês voltasse a encolher-se na concha?

Embora não, disso nem se podia falar! Já Beatriz trataria disso!

Uma semana antes do encontro previsto com Pedro, Inês estava diante do espelho no quarto e observava atentamente o reflexo. Estudava demoradamente cada traço, tentando ver o que Beatriz repetia. Não se considerava ainda uma beleza o ideal era inatingível. Mas agora via uma mulher de quem não tinha vergonha de se mostrar.

Passou a mão pelo ombro, arranjou o colarinho da blusa e virou-se para se ver de lado. Na cabeça girava: Será que sou realmente eu?

Nesse momento Beatriz entrou. Parou na porta a sorrir, depois disse confiantemente:

Estás pronta. Ele vai ficar encantado. Tiveste dois meses para te habituares à nova ti e conseguiste.

Inês concordou, mas pareceu-lhe ouvir nota estranha na voz, como se Beatriz quisesse acrescentar mas se conteve. Já abria a boca para perguntar mas não teve tempo o telefone vibrou.

Tirou o smartphone, viu mensagem de Pedro. Leu uma vez, depois outra, esperando que o sentido mudasse. Mas o texto permanecia: Desculpa, mas não vou conseguir vir. As circunstâncias mudaram. Encontramo-nos algum dia depois.

Inês releu, tentando compreender. Como assim! Fez tantos esforços por este encontro e tudo em vão?

O que aconteceu? alertou-se Beatriz, notando a mudança no rosto.

Ele não vem, respondeu Inês baixinho, mostrando o ecrã. Escreve que nos encontramos algum dia depois…

A amiga ficou parada um segundo, tentando palavras certas. Depois suspirou fundo e sentou-se ao lado, mão no ombro de Inês. Nos olhos passou algo indescritível arrependimento ou alívio mas controlou-se.

Sabes, disse Beatriz suavemente, talvez seja para melhor.

Para melhor? Inês ergueu olhar surpreendido, mistura de desorientação e perplexidade. Por que dizes isso?

Porque nestes dois meses tornaste-te completamente diferente, sorriu Beatriz, orgulho sincero na voz. Adquiriste confiança, aprendeste a cuidar de ti, revelaste a tua beleza. Já não te escondes, não duvidas de cada passo, não tens medo de olhar as pessoas nos olhos. Aprendeste a valorizar-te.

Fez pausa para Inês assimilar, depois continuou:

E sabes o quê? Agora sabes: mereces o melhor. Não algum Pedro da internet, mas a verdadeira felicidade. Aquela que não desaparece por circunstâncias. Mereces pessoa que te valorize verdadeiramente, não desapareça sem explicações.

Inês escutou em silêncio. Na cabeça formava-se nova imagem: sim, Pedro não viria, comunicação terminou subitamente. Mas nestes dois meses aconteceu algo maior ela própria mudou.

Beatriz apertou o ombro e acrescentou:

Hoje não vamos a lado nenhum. Pedimos pizza, vemos a tua série favorita e descansamos. Amanhã começamos novo capítulo. Tudo vai correr bem, eu sei.

Inês concordou lentamente.

Sabes, disse virando-se, firmeza invulgar na voz, acho que vou ao teatro com Miguel. Ele convida há muito.

Beatriz riu facilmente, alegremente, como se ouvisse o que esperava. Avançou e abraçou Inês com força.

Essa é que é a minha menina! exclamou, afastando-se com orgulho. Sabia que ias conseguir. E tenho certeza que isto é apenas o início.

Inês concordou, sentindo antecipação crescer. Não sabia o que esperava no dia seguinte, mas pela primeira vez em muito tempo estava pronta para descobrir.

À noite Inês estava diante do teatro num vestido novo comprado para o evento. Arranjou um cacho, verificou a maquiagem, sentiu nervosismo crescer.

Nesse momento Miguel aproximou-se. Nas mãos trazia ramo de rosas vermelhas:

Estás fantástica.

Ela sorriu em resposta, sorriso natural sem tensão. Inês percebeu que pela primeira vez em muito tempo se sentia verdadeiramente bonita não porque alguém dissesse, mas porque ela própria assim decidiu. Via o reflexo nas portas de vidro, luz a cair suavemente no vestido, cabelos arrumados, compreendia: era a sua escolha, o seu estilo, a sua confiança.

O espetáculo foi maravilhoso dinâmico, com humor subtil e reviravoltas. Inês e Miguel sentaram-se lado a lado, trocando réplicas, rindo dos mesmos momentos, depois discutiram a encenação. Falavam de como os atores desempenharam, cenas que impressionaram, até discutiram a interpretação do final. Conversa fluía facilmente, Inês sentia prazer em ouvir Miguel, responder, simplesmente estar ao lado.

Quando terminou Miguel propôs continuar o passeio. Olhou com leve sorriso:

Não queres dar um passeio? A noite está tão boa.

Inês aceitou sem hesitar. Saíram, candeeiros acesos, ar com frescura e ruído suave da cidade noturna. Caminharam devagar, desfrutando o momento.

À medida que avançavam pelas ruas acolhedoras, Inês sentia nascer sensação de liberdade. Já não era a rapariga que se escondia atrás de roupa volumosa e olhar baixo. Agora podia caminhar sem medo de olhares, sorrir a desconhecidos, desfrutar sem olhar para o passado. Era ela mesma verdadeira, viva, confiante.

Pararam num pequeno jardim, raros visitantes nos bancos, ar com frescura e notas de folhas outonais. Inês virou-se para Miguel e inesperadamente disse:

Obrigada.

Porquê? surpreendeu-se ele, sobrancelhas erguidas.

Por esta noite maravilhosa e pela companhia agradável, respondeu simplesmente, sorrindo. Há muito que não desfrutava assim.

Beatriz observava de longe, à sombra das árvores, sem se apressar. Queria ver como Inês se sentia, certificar-se que tudo corria bem. Quando notou o sorriso a Miguel, postura relaxada, rosto a brilhar, sorriu silenciosamente e afastou-se.

A caminho de casa entrou numa cafetaria. Junto à janela pediu cappuccino, tirou o telefone. Na galeria guardava fotografias de Inês antes e depois. Nas primeiras a antiga Inês: cabelos sem brilho, roupa informe, olhar baixo como se tentasse tornar-se invisível. Nas segundas confiante, radiante, sorriso leve e olhar direto, postura orgulhosa e brilho nos olhos.

Beatriz folheou, demorando na última Inês diante do teatro no vestido novo, Miguel com o ramo. Olhou longamente, pensamento simples na cabeça: Ela realmente desabrochou.

E percebeu não precisava explicar nada. Não precisava confessar que Pedro era invenção sua. Porque o resultado é mais importante que o plano inicial. Inês agora é diferente. Aprendeu a valorizar-se, acreditar nas forças, alegrar-se com as pequenas coisas. E isto é o mais importante…

Passaram três meses. Nesse tempo a vida de Inês mudou notavelmente, mudanças tornaram-se parte do quotidiano, não experimento temporário. Ela e Miguel encontravam-se a sério não apenas encontros ocasionais, mas construíam relação, conheciam-se, partilhavam hábitos e alegrias.

Frequentemente iam ao cinema, escolhendo filmes de autor ou comédias leves conforme o humor. Após a sessão passeavam pela cidade, discutindo enredo, atuações ou partilhando impressões. Às vezes entravam em cafetarias, bebiam chá com sobremesas, falavam de tudo: infância, trabalho, sonhos e planos.

Aos fins de semana cozinhavam juntos. Inês gostava de experimentar receitas, Miguel ajudava. Na cozinha barulho e alegria: riam de fracassos como torrada queimada ou molho salgado, cantavam a música do rádio, desfrutavam o processo. Pratos prontos comiam à mesa junto à janela, discutindo o dia e planos.

Miguel revelou-se a pessoa de quem Inês sentia falta há muito. Era atencioso notava mudanças no humor, sabia apoiar com palavra amiga ou estar em silêncio quando necessário. Bondoso nunca zombava, mantinha delicadeza mesmo em brincadeiras. Estava simplesmente ao lado e bastava para Inês se sentir confortável e segura.

Um ano depois, Inês estava diante de um grande espelho num provador claro, a observar o reflexo num vestido de noiva. Era exatamente como sonhava: rendas delicadas, silhueta arrumada, saia fluida. Realçava a figura sem limitar movimentos, tom pastel harmonizava com a pele.

Ao lado Beatriz afanava-se chegara mais cedo para ajudar. Ajustou o véu, certificou-se que ganchos estavam no lugar, recuou para avaliar. Sorriu calorosamente.

Estás fantástica, sussurrou, sinceridade genuína na voz. Simplesmente incrível.

Inês virou-se lentamente. Olhos com alegria tranquila misturada com nervosismo. Respirou fundo para acalmar o tremor e respondeu:

Obrigada. Por tudo.

Estas palavras continham muito mais que gratidão por elogio. Havia reconhecimento pelos meses de apoio, paciência, momentos em que Beatriz encontrava palavras para animar, e por estar sempre presente mesmo quando Inês duvidava.

Nesse momento Miguel apareceu na porta. Parou no limiar, como se temesse perturbar a cena tranquila cheia de luz. Olhar deslizou por Inês, demorou no rosto, sorriso caloroso e sincero que sempre fazia Inês perder a respiração.

És a mulher mais bonita do mundo, disse aproximando-se. Sem fingimento, apenas admiração e ternura.

Inês sentiu o coração encher-se de calor. Estendeu a mão, Miguel pegou na palma forte, confiável. Toque acalmou-a, levou as últimas partículas de ansiedade.

Inês apertou os dedos de Miguel, felicidade calma e profunda a espalhar-se. Sabia que era amada não pela aparência, não pelas mudanças do último ano, mas por quem era realmente. Pelo riso, sonhos, capacidade de estar ao lado, sinceridade e bondade.

Beatriz afastou-se silenciosamente, observando o casal com leve sorriso. Não quis interferir, apenas secou uma lágrima, alegrando-se pela amiga. Tudo se arranjou exatamente como deveria…

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