A minha mulher levava o cão ao veterinário e já começava a pensar que cometeu um erro fatal. Agora, em vez de haver uma criatura azarada em casa, já eram duas
Ficou tudo claro assim que o gatinho entrou porta dentro. Bem, entrou é força de expressão encontraram o bichinho ao lado dos caixotes do lixo. Alguém tinha tido coragem de simplesmente deitá-lo fora
A minha mulher foi deitar o lixo e voltou para casa com mais um membro da família. Chama-se Nelo vem de infortunado.
Logo à chegada, Nelo enfiou as duas patinhas da frente numa terrina de caldo verde a ferver. Enquanto a minha mulher tentava apanhar o miúdo, que miava de dor, ele enfiou as traseiras num prato de natas. E depois começou a saga.
Nelo é perito em meter-se em sarilhos. Conseguiu torcer as quatro patas ao saltar da cama.
Ao deixar cair copos, taças e jarros das mesas e cómodas, tinha o dom de ser atingido por esses mesmos objetos, porque saltava para o chão mesmo no sítio errado.
Se havia sal na mesa, todos protegiam o saleiro com a mão. Já sabiam que Nelo, ao saltar, iria acertar nele na certa!
Foi electrocutado três vezes. Normalmente gatos não sobrevivem, mas parece que o Anjo da Guarda de Nelo não falha. O veterinário já lhe salvou a vida várias vezes
Tentou afogar-se em baldes de água enquanto a casa era lavada. Sempre alguém o apanhava a tempo. Desde então, baldes nunca mais ficaram sem vigilância.
Saltar nunca foi o forte de Nelo. Nunca acerta no destino. Anda sempre a embater em esquinas, espelhos, apoios de braços
Enfim, nem vale a pena
A minha mulher até tentou ir às benzedeiras. Elas riam-se, mas lá aceitavam os euros e rolavam o azar fora com ovos, segundo diziam. Depois de Nelo ter conseguido destruir os conjuntos de chá a todas elas, ganhou fama de maldito e nenhuma bruxa o quis ver mais.
Exausta de tantas peripécias, a minha mulher falou com uma amiga, que lhe sugeriu arranjar um companheiro para o gato. Ou então um cão.
A minha filha e a minha mulher ficaram radiantes quando, depois de pagar uma pipa de massa, trouxemos para casa um cãozinho chamado Bóris, um chihuahua aterrador.
Porquê aterrador? Se alguma vez viram um chihuahua a ladrar de perto, percebem. Ou ladra ou tosse
No dia seguinte, tudo ficou claro. Como moramos numa casa, tínhamos ratos
Nelo não tinha medo dos ratos, adorava observá-los e até brincava, correndo atrás deles às escondidas. Por isso mesmo, havia ratoeiras.
Foi numa delas que foi parar a pata do assustador Bóris
Lá foi a minha mulher, aflita, ao veterinário, com o cãozinho a choramingar no banco de trás, convencida de que cometera o maior erro da vida. Agora, havia duas criaturas cheias de azar lá em casa
Nelo assumiu a chefia do novo desastrado. Saíam juntos para o quintal em empresas perigosas e era preciso ter sempre olho neles.
Apanhavam picadas de formigas, abelhas e vespas. Os gansos bicavam-nos e as galinhas também não perdoavam. Resumindo, só davam trabalho.
Mas um dia, tudo mudou
O meu marido estaciona o carro com que vai trabalhar mesmo em frente à casa, que Deus seja louvado por haver espaço. Sai todas as manhãs com a sua chávena de café, tranca o portão, senta-se no carro e segue viagem.
Pois naquela manhã, Nelo, depois de deitar o café ao chão e deixar cair a sandes, em vez de se esconder debaixo da mesa, atirou-se à porta, tapando-a como uma muralha.
O meu marido tentou tirá-lo dali, mas levou uma patada e o gato virou-lhe as costas, arqueado de indignação.
Ó seu traquinas! gritou ele Não te chega entornar café e deixar cair o pão, ainda te pões a arranhar?! Vai-te já daqui!
Tentou afastar o gato com o pé, quando de repente
Debaixo da cama saltou o assustador Bóris, que, numa tosse que imitava ladrar, veio defender o amigo felino!
O cãozinho pôs-se firme, as patinhas fininhas a tremer, e diante de Nelo, mostrou uma dentuça minúscula e um olhar determinado:
Não deixo maltratar! dizia toda a sua postura. Se for preciso, morro aqui, mas não passo! Primeiro tratas de mim!
Aquilo já era caso sério.
Vocês estão malucos ou quê?! indignou-se o meu marido Estou a atrasar-me para o trabalho!
Correu ao quarto, onde a minha mulher dormia.
Anda lá, levanta-te, que preciso de sair de casa e aqueles dois não me deixam passar!
Quem? Mas o que se passa? resmungou ela, meio a dormir.
Levanta-se, vão os dois à porta, e enquanto discutiam com os azarados, lá fora ouviu-se um estrondo brutal.
Ao espreitarem pelo portão, viram o insólito: um camião de leite, sem travões, tinha entrado a alta velocidade pelo nosso carro adentro, fazendo-lhe uma escultura de ferro retorcido.
O café caiu das mãos do meu marido. O condutor do camião foi de ambulância, vítima de um ataque cardíaco. Acontece
*****
Agora, Nelo e Bóris deixam o meu marido sair sempre, mas ele, ao passar, pergunta sempre à dupla:
E aí, pessoal? Está tudo calmo lá fora?
Bóris mostra os dentes e acena com a cabeça
Acham que ficaram de repente sortudos? Nem pensar!
Os nossos campeões de sarilhos continuam a meter-se em confusões e aventuras, das mil e uma maneiras possíveis. Mas agora já ninguém se põe as mãos à cabeça nem conta prejuízos ou se lamenta do azar de ser dono deles.
Agora, estão sempre ao colo e recebem beijinhos, são lavados às pressas quando aparecem cheios de natas e caldo verde. A Bóris comprámos uma coleira linda e cara; ao Nelo arranjámos arranhadores nos cantos todos, comprámos-lhe cama própria.
Na verdade, ele nunca a usa: prefere dormir aos pés dos donos. De onde, claro, cai todas as noites aos berros
Ao primeiro miado, salta logo Bóris, que dorme na caminha nova, a tossir e pronto a armar-se em guarda-costas.
Meia hora depois, a família junta-se toda na cama. Nelo e Bóris ficam no meio do casal assim, conseguem dormir até de manhã
E se não perceberam ao que isto vem, podem passar à frente.
No fundo, é sempre sobre o mesmo: o amor. Acreditem, não gostamos do Nelo e do Bóris por serem azarados ou sortudos, mas simplesmente porque eles existem.
E isso, meus amigos, é o verdadeiro golpe de sorte!







