Naquela noite, Rosa ia dormir pela última vez ao lado de Menta. De manhã, teriam levado o cão para a quinta, mas às quatro horas apareceu na escadaria um homem que sabia que os funcionários da padaria às vezes recebiam o ordenado em dinheiro.

Naquela noite, Deolinda tinha de dormir pela última vez ao lado de Mel. De manhã, a cadela seria levada para uma quinta, mas às quatro horas apareceu no prédio um homem que sabia que os funcionários da padaria, às vezes, recebiam o ordenado em dinheiro.

Deolinda Ferreira tinha quarenta e sete anos. Trabalhava no turno da noite numa padaria em Lisboa e alugava um pequeno apartamento na Graça.

Tinha encontrado a Mel amarrada a uma garagem abandonada. De um cão magro, tornara-se uma cadela forte, cinzenta; as pessoas afastavam-se dela só por causa do aspeto.

A nova proprietária do apartamento ficou gelada ao vê-la.

— No contrato não está nada sobre um cão.

— Quando assinámos, ela era pequena.

— Ou a cadela vai embora, ou não renovo o contrato.

Deolinda encontrou um agricultor no Ribatejo. Ele prometia um quintal e uma casota. Mas na fotografia, atrás dele, Deolinda reparou numa corrente curta.

Passou a noite a hesitar.

Às quatro da manhã, vinha da padaria. Não havia luz na escada. Mel, como sempre, esperava atrás da porta. Assim que Deolinda abriu, um homem levantou-se do canto escuro.

Reconheceu o ex-funcionário da padaria, despedido há pouco por roubos.

— Dá cá a mala.

— Não tem nada.

— Sei que hoje foi dia de ordenados.

Aproximou-se. Mel veio para a escada e pôs-se diante de Deolinda. Não atacou. Apenas baixou a cabeça.

O homem bateu no braço de Deolinda. O telemóvel caiu nos degraus. Mel ladrou. No andar de baixo, abriu-se a porta de um vizinho. O homem agarrou a mala e desatou a descer. Mel correu atrás.

Deolinda apanhou o telemóvel e ouviu um estrondo. Quando desceu, o homem estava junto à porta da cave. Mel estava à frente dele. Mas não olhava para o ladrão. Farejava a fresta por baixo da porta fechada e gania.

Da cave chegou uma batida abafada.

— Quem está aí?

— Por favor… deixem-me sair…

Era a voz de uma criança.

O homem disparou de repente para a saída. O vizinho tentou segurá-lo, mas ele escapou-se. Deolinda ligou para a polícia e para o administrador do prédio. A porta da cave estava fechada com um cadeado novo. Enquanto esperavam, Mel deitou-se junto à fresta e ganiu baixinho, para o menino saber que não estava sozinho.

Vinte minutos depois, abriram a porta. Lá dentro estava um menino de nove anos, neto da dona da padaria. Descobriu-se que o antigo funcionário o encontrara à porta do prédio, com mentiras o convencera a descer à cave e tencionava obrigar a avó a levar-lhe o dinheiro. Só que Deolinda chegou mais cedo do que ele esperava.

O homem foi detido nesse mesmo dia na estação de camionagem. A mala de Deolinda foi encontrada no carro dele.

Na manhã seguinte, a dona do apartamento apareceu.

— Ouvi falar da noite. A cadela pode ficar.

Deolinda olhou para ela durante muito tempo.

— Ontem ela era o problema.

— Mudei de ideias.

— E eu mudei de planos.

Em menos de um mês, Deolinda arranjou uma pequena parte de uma casa na Graça. A cozinha era velha, o chão rangia, mas no quintal crescia uma macieira.

Foi ela própria que telefonou ao agricultor.

— Não vou levar a Mel.

— Porquê?

— Porque onde a vi na fotografia havia uma corrente.

A dona da padaria ajudou a pagar a caução.

— Não foi porque a sua cadela salvou o meu neto, disse ela. Foi porque a senhora não fugiu.

Depois do sucedido, o menino ficou com medo de caves e de escadas escuras. A psicóloga sugeriu-lhe que voltasse aos poucos aos sítios do costume. A primeira vez que desceu à cave da padaria, desceu com a Mel. A cadela ia devagar, deixando-o pôr a mão na coleira.

Ao fim de uns meses, o menino desenhou a Mel num concurso da escola. Chamou ao desenho “A Luz Atrás da Porta Fechada”. Deolinda pendurou-o na cozinha.

Na primeira noite no quintal novo, Mel trouxe uma maçã caída e pô-la aos pés de Deolinda.

— Bom, riu-se a mulher. Metade da renda pagas com maçãs.

Naquele quintal não havia lugar para uma corrente.

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Naquela noite, Rosa ia dormir pela última vez ao lado de Menta. De manhã, teriam levado o cão para a quinta, mas às quatro horas apareceu na escadaria um homem que sabia que os funcionários da padaria às vezes recebiam o ordenado em dinheiro.
Fui a um abrigo de animais e pedi para me mostrarem o gato mais velho que tinham. Quando a funcionária ouviu o meu pedido, ficou em choque porque…