A vizinha fez do meu corredor um “fumódromo”. Resolvi o problema de forma firme — e ela nunca imaginou como isso iria acabar.

E onde está escrito que este ar é teu? O patamar é de todos. Se quiser, fumo. Se quiser, cospo. Aprende as leis, mulher!

Beatriz, a filha de vinte anos da vizinha Graça, soltou uma densa nuvem de fumo adocicado mesmo na cara da Dona Matilde da Silva. Ao lado dela, esparramados no parapeito entre os andares, dois rapazes riam alto. No chão de cimento estavam beatas, latas vazias de energético e cascas de sementes.

Dona Matilde, chefe de contabilidade de uma grande fábrica em Lisboa, não tossiu nem gesticulou, como os miúdos esperavam. Limitou-se a ajeitar os óculos e lançou à jovem aquele seu olhar pesado, calculista, que faz transpirar os chefes do armazém durante as auditorias.

O espaço é comum, Beatriz respondeu gelada. Isso significa que aqui não se fuma, não se cospe, nem se faz pocilga. Tens cinco minutos para limpares esta sujidade. Se não, a conversa vai ser outra.

Ui, que medo! torceu o nariz Beatriz, sacudindo o cinzeiro mesmo no chão acabado de limpar pela senhora da limpeza. Vai tomar um ansiolítico, antes que o coração te falhe. Vais te queixar à mamã? Ela própria deixou-me aqui fora, para não dar cabo do cheiro lá em casa.

Os rapazes rebentaram a rir. A porta de Dona Matilde bateu, abafando o barulho do átrio.

No corredor misturava-se o aroma de batatas fritas com madeira velha aquele cheiro acolhedor de casa que agora era abafado pelo cheiro a tabaco ordinário, a infiltrar-se pela fechadura. Sentado à mesa da cozinha, corcunda sobre o prato, estava Paulo.

Paulo, com trinta e dois anos mas aspeto de quarenta, devido à calvície precoce e postura curvada, era sobrinho do falecido marido de Matilde e vivia com ela há dez anos. Pacato, calado, com um leve gaguejo, trabalhava numa loja de relojoeiro e tinha medo de tudo. Era o tolinho do prédio, fácil alvo de chacota dos vizinhos.

M-matilde, eles ainda lá estão? perguntou Paulo, encolhendo os ombros ao ouvir barulho à porta.

Come, Paulo. Não é contigo, respondeu Dona Matilde, enchendo-lhe o prato. Por dentro, fervilhava.

Nessa noite, foi à casa de Graça. A vizinha abriu a porta de robe, telemóvel numa mão e máscara na cara.

Graça, a tua filha fez do meu patamar uma pocilga. O fumo entra-me pela casa, o barulho dura até às tantas. Exijo que faças alguma coisa.

Graça revirou os olhos, sem sequer tirar o telemóvel do ouvido:

Ó Matilde, não compliques. São jovens, onde é que queres que estejam? Na rua está frio. Não são drogados, só convivem. Tu é que já não tens filhos, por isso embirras. E o teu Paulo então, coitado, nem percebe nada disto.

O golpe caiu, certeiro e cruel. Dona Matilde respirou fundo.

Então chama-se coisas de jovens, não é? E o meu Paulo incomoda-te? Está certo, Graça. Ouvi-te bem.

Entrou em casa, sentou-se à secretária e tirou a pasta dos papéis. Emoções são para os fracos. Para os fortes existe o Código Civil e as normas do condomínio.

Na semana seguinte, Dona Matilde manteve-se discreta. Beatriz, convencida que a velha ranzinza se resignara, tomou de assalto o patamar. Trouxe uma poltrona velha da rua, a música soava até de madrugada.

A gota de água foi na sexta-feira.

Paulo voltava do trabalho com um saco de mercearias e uma pequena caixa um pedido de um cliente. Ao passar perto do grupo, um dos rapazes, chamado Ácido, pôs o pé à frente.

Paulo tropeçou. O saco rasgou-se, as maçãs rolaram pelo chão imundo, mesmo por entre as beatas. A caixa caiu junto à parede.

Olha, o avestruz descolou! desatou a rir o Ácido.

Beatriz soltou fumo devagar:

Ó desajeitado, devias olhar por onde andas. Até estragas o ambiente. Anda lá, apanha enquanto estou de bom humor.

Paulo, vermelho e de mãos a tremer, começou a apanhar as maçãs. Tinha lágrimas nos olhos de tanto desespero. Estava habituado: sempre foi invisível, sempre o podiam empurrar sem que alguém o defendesse.

A porta abriu-se de rompante. Dona Matilde apareceu no limiar, não com vassoura, mas com o telemóvel filmando o Ácido.

Agressão, insultos e danos disse claramente. Gravei tudo. Já chamei a polícia, e amanhã entrego tudo no condomínio.

Ponha o telemóvel abaixo, ó tia! disse o rapaz, com medo de se aproximar. O olhar de Matilde intimidava mais do que qualquer autoridade.

Paulo, entra em casa ordenou ela, sem olhar para ele.

E-e as maçãs balbuciou ele.

Deixa. Não prestam. Como tudo o que está neste patamar.

Quando a porta se fechou, Dona Matilde virou-se para Beatriz, que já estava mais pálida.

Agora ouve bem, menina. Achaste que tive uma semana calada? Andei a recolher provas.

Que provas? resmungou Beatriz, num fio de voz.

Contactei o dono do apartamento. A tua mãe não é dona, pois não? O apartamento é do teu pai. Ele acredita que tu és uma estudiosa de medicina, não a cabecilha de arruaças no prédio.

O rosto de Beatriz perdeu toda a cor. O pai era severo, quase tirano, que só as mantinha com dinheiro porque impunha disciplina total à filha.

Não vais murmurou.

Já fui. Recebeu tudo fotos, vídeos, queixas à polícia e à administração, horários, lixo, ruído, fumo. Eles vão tratar do assunto. O polícia está a caminho. O teu pai chega amanhã cedo.

No sábado de manhã, o prédio tremia com uma voz grave.

Dona Matilde tomava o pequeno-almoço quando bateram à porta. À entrada, um homem alto e forte num sobretudo caro pai de Beatriz, António Tavares. Ao lado, Graça soluçava de cabeça baixa, e Beatriz nem se via.

Dona Matilde? perguntou ele respeitoso mas firme. Venho pedir desculpa pela minha filha e pela ex-mulher. O patamar já está a ser limpo pelas funcionárias. Vou pagar a pintura das paredes. A Beatriz vai para a residência universitária. Cancelei o apoio que tinha lá em casa.

Matilde assentiu, aceitando o pedido de desculpa como algo natural.

Justo. Mas há mais uma questão.

Chamou Paulo. Ele apareceu tímido, encolhido, à espera de outra humilhação.

Ontem o seu convidado insultou o meu sobrinho informou Matilde com calma. Quebrou-lhe o trabalho. O Paulo é um mestre excelente. Repara mecanismos de relógios antigos, aqueles que os suíços não pegam.

António olhou Paulo com interesse.

Relojoeiro?

R-restaurador, corrigiu baixinho Paulo.

Que sorte. Tenho uma coleção de Breguet de bolso. Um par deles estão parados há meses, ninguém aceitou o desafio. Acha que pode ver?

Pela primeira vez, Paulo sentiu-se visto não como estranho, mas como profissional.

Acho posso tentar. D-desde que a mola esteja boa.

Ficamos assim. António apertou-lhe a mão com força. E desculpe pela minha filha. Falhei na educação. Não guarde rancor. Eu compenso e faço o pedido formalmente.

Quando a porta fechou, Paulo olhou para a própria mão, maravilhado. Endireitou os ombros. Era a primeira vez, em anos, que se sentia inteiro.

Tia Matilde, disse ele firme, quase sem gaguejar. Se calhar vou apanhar aquelas maçãs. Não fica bem deitar comida fora.

Matilde virou-se para a janela, para disfarçar os olhos húmidos.

Vai, Paulo. E põe água ao lume, que hoje é dia de festa.

Na escada, só cheiro a lixívia e tinta fresca. E da cozinha de Dona Matilde saía o perfume do bolo acabado de fazer e a voz serena de Paulo a explicar-lhe como funciona um turbilhão.

A sala dos fumadores tinha fechado. E não voltava a abrir.

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A vizinha fez do meu corredor um “fumódromo”. Resolvi o problema de forma firme — e ela nunca imaginou como isso iria acabar.
Вече не си моя дъщеря.