O Meu Segredo

O meu segredo

Sabes aquela sensação de estar estendido no chão gelado depois de um dia em que choveu e agora já caiu a geada? Pois foi isso que senti, quase agradável, acredita ou não. Por dentro só sentia calor, o sangue a ferver-me na cabeça e o peito a doer. A cara ardia, e tinha a boca seca como quem não bebe um copo de água há dias.

Peguei com a mão uma bola de neve e, quase como alguém a meio de um AVC, abri devagar os dentes e enfiei aquele pedaço de gelo na língua. Sabe bem, pensei, mas logo um gosto a metal estragou tudo. Gengivas a sangrar, tossi e engoli aquele sabor a sangue. Não tinha energia sequer para virar a cara e cuspir.

Ainda assim, a neve amenizava a dor. Agradeci-lhe por isso como quem agradece a um remédio santo. Pelo menos anestesia grátis! Mas claro que o frio só tornava tudo menos mau, não apagava aquela dor que parecia perder-se ao longe, para lá do horizonte onde o sol caía atrás dos telhados de Lisboa, como uma bola vermelha a mergulhar no Atlântico. Era até doloroso olhar para aquele pôr-do-sol brilhante.

Fechei os olhos e, com as pálpebras quase coladas, só via um círculo cinzento-amarelado, esbatido e desfocado.

Se pudesse rastejar, tinha ido esconder-me num canto qualquer uma valeta, uma cova, enrolar-me como um cão abandonado, só a gemer e a tremer para aquecer o corpo magoado. Mas não dava. As pernas, pesadas como troncos, estavam imóveis, só de vez em quando uma cãibra.

Tentei virar para o lado, apoiar-me no braço direito, mas ele não respondeu, como se uma agulha estivesse enterrada no ombro.

Nada de novo vá, tenta de outro jeito! murmurava eu entre dentes, surpreendido de ouvir a minha própria voz rouca, a soar a morte.

Do lado esquerdo ainda havia força, e acabei por conseguir sentar-me trôpego, enfiando a mão boa num monte de neve. O corpo voltou a colar-se ao chão gelado.

Morrer. Só isso: agora, aqui, morrer e tudo acaba, pensei. Que me importa depois? Arrisquei mais do que conseguia aguentar, pensava que era invencível. Enganei-me. Agora já não me salvo.

De manhã vão procurar o meu corpo. Prometeram-me isso. Mas talvez algum cão vadio me encontre primeiro, eles também têm de comer… E rio-me, pensando nos meus inimigos: vão encontrar só ossos.

A noite caiu de repente. O sono puxava por mim. Afundava-me naquela escuridão, sentia-me a boiar como um peixe apanhado por uma garra. Era tão estranho, era quase agradável. E de repente vinha dor, como fagulhas vermelhas a saltar nos olhos, a correr nas veias, e de novo cãibras e raiva, uma raiva inútil, furiosa de tão vazia. Vontade de gritar, de me atirar ao inimigo de peito aberto mesmo sem armas, pelo menos assustava. E apetecia-me vingar-me… Mas nunca levantei mão a uma mulher, nunca conseguiria. Por isso, nem a possibilidade de vingança me restava…

A raiva fazia a cabeça funcionar, por mais que tudo parecesse estoirado por dentro.

Depois o medo subia-me do fundo da barriga. Uma coisa primitiva, medo puro de morrer. Era o medo que me mantinha acordado.

Do mato ao lado ouvi um uivo. Podem uivar à vontade! Nenhum de vocês vai engolir os meus ossos! pensei, meio azedo. Todos somos lobos uns andam em duas pernas, outros em quatro.

Era preciso mexer-me. Para onde? Não interessa. Como? Também não. Nem que fosse a rastejar, desde que não parasse, tivesse de fugir daquele lugar de derrota.

A minha mãe…Ela vai esperar por mim, está preocupada, como estará ela? Nem disse onde estava, ela nunca vai saber como tudo acabou Ou talvez alguém lhe conte. Ela vai chorar, claro, e eu serei culpado por isso. O meu pai vai amaldiçoar-me, com razão.

Só de pensar nisso fiquei mal-disposto, e as lágrimas caíram-me dos olhos, congelando-se antes de baterem no casaco roto…

Comecei a rastejar. Desajeitado, com um braço, as pernas a arrastar-se na neve, deixando para trás riscos vermelhos. Mas, aos poucos, avançava, puxando-me para longe daquele som faminto…

Depois apaguei. Era bom, tão leve. Não sentia nada, não pensava em nada. Tudo a zeros. Mesmo se isto fosse o inferno, parecia-me bem. Queria ficar ali, ser levado, que me levassem! O corpo já só me estorvava, que ficasse para trás…

Mas nem do inferno me quiseram. Levaram-me de volta à dor com um jorro de água fria na cara e um clarão amarelo, quase insuportável.

Então? Não tosses? Tens de tossir, pá! alguém batia-me nas bochechas, com força, que até os dentes doíam.

Ughhh, respondi, virando a cara e cuspindo sangue na neve.

Vivaço, então! Bora lá para casa, não é longe. Deita-te no casaco, que eu empurro-te. Vá, pá, não tens forças? Eu trato disso… uns braços fortes ergueram-me e deitaram-me num borrego fedorento, mas quente. És cá um sorteado! Olha, ouvi barulho, vi luzes. Eles vêm sempre para o campo fazer asneiras, tanto maluco por aqui resmungava o homem, ajeitando-me no casaco. Agora descansa. Amanhã vê-se o que se faz.

Resmunguei qualquer coisa sobre lobos, sobre voltarem os meus inimigos. Mas ali senti calor, aconchego, e apaguei-me de novo…

Mas tu és mesmo um querido, tão meigo! ria Anabela, deixando-me beijar-lhe os ombros redondos e macios. Um bezerro, não és? Prendeu-me as bochechas, colou os lábios nos meus, parou, sentindo-me o respirar. Depois empurrou-me, levantou-se, vestiu o roupão e apertou o cinto à pressa. Vai. Já chega, meu querido.

Bela… espreguiçava-me, encostado nos lençóis cheirosos a amaciador. Quero dormir, ainda é cedo, vê as horas! Outra vez a mandar-me embora…

Agora passava quase todas as noites em casa de Anabela. Ela tratava de mim, dava-me jantar, mandava-me para banho, ela própria fazia a cama, sempre com tudo lavado e passado. Apagava a luz, esperava por mim sem pressas, a noite passava num instante. Tinha acabado de vir da tropa e só ansiava pelo cheiro e pelo toque duma mulher. A Bela era linda, doce, muito mais mulher do que todas as miúdas que tentavam chamar-me a atenção.

Ficava a vê-la calçar as meias de seda, vestir lingerie, um vestido, sempre atrás do biombo…

No espelho via um anjo dourado, luminosa, desejável como ninguém.

Já te disse que é para ires, murmurava. Fecha o fecho, despacha-te. Se ficas aqui perdes tu, ouviu, Maximiliano? Amanhã voltas, prometo… Amanhã…

Mais um beijo antes de ir, e lá voava a minha roupa pela porta.

Ouvi-a ir para a cozinha, ligar o fogão, moer café. O cheiro aspeto de café pairava logo pelo ar. O António Pedro, o marido dela, só gosta de café forte, mete sempre pimenta e diz que é divino. A Bela senta-se à frente, quase encolhida no banco, sorri, acena. Parece uma galinha a arrumar-se, põe os pés na trave, tem de ter cuidado não chamar o marido pelo meu nome…

Fiquei mais um bocado à porta, fui lavar a cara, vestir-me devagar. Quando saí, encostei-me à porta da cozinha. O roupão dela era atravessado pelo sol, desenhando-lhe as formas de guitarra.

A Anabela era uns quinze anos mais velha do que eu, mas para mim isso era motivo de orgulho. Uma mulher daquelas a reparar em mim, no meio de tantos homens!

A Anabela sabia bem o que fazia, paciente com o meu jeito trapalhão, rindo e beijando-me até eu perder a noção do tempo. Deixava-me passar a noite na sua casa, luxuosa, com tetos altos, candelabros, soalhos encerados e louça fina como de rainha. Alimentava-me, via-me a comer à mão de semear, a comer rissóis e batatas fritas, a virar copos desajeitado. Gostava de beber comigo, fazíamos brinde de braço dado e ela ria, oferecendo-me o pescoço macio aos meus beijos brutos.

Ela não queria que ninguém soubesse de nós, mas eu insisti.

Uma vez vi-a no metro, fui ter com ela, já meio bêbedo, chatava-a para me deixar acompanhá-la a casa. Acabou por deixar, só mesmo até à porta, depois mandou-me embora. Fingi que fui, mas escondi-me na entrada, a espreitar a janela dela até se acender a luz.

Era rez-do-chão, as janelas para o lado do pátio onde estava escondido. Vi-a a despir-se que coisa absurda tive a sorte de ver… até que o varredor me expulsou dali à vassourada…

Ia lá todas as noites. Dizia à minha mãe que ia dar uma volta, mas só queria ver a Bela.

Vi também o marido. Os vidros da cozinha davam para o pátio. O senhor António Pedro andava em camiseta de alças e calças, velho, ossudo, curvado. Como é que ela casou com ele? Ver se apaixonou mesmo?, não me saía da cabeça.

Ele jantava devagar, lia o jornal, a Bela dava-lhe chá e bolachas. E eu, ridículo, ali parado. Uma vez virou-se de repente, como se sentisse o meu olhar, correu e fechou as cortinas. Dois vultos fundiram-se numa sombra fiquei enojado. Como podia ela, a minha Anabela, beijar aquele seco?!

Naquela altura fartava-me do esconde-esconde e entrei-lhe pela janela do quarto, quando o marido saiu uns dias de viagem. Sentei-me à mesa do quarto e ela ficou sem saber o que fazer. Ia gritar, tapei-lhe a boca, beijei-a logo.

O cheiro dela o cabelo, a pele, o vestidinho de verão tudo com um perfume distinto.

A minha mãe nunca usou perfumes, cheirava sempre a tabaco ou a desinfectante fábril, dentes amarelos das cigarrilhas, quase nunca sorria de boca aberta. Já a Anabela tinha dentes direitinhos, brancos como se fossem de revista. Raramente a minha mãe vestia roupa bonita, antes nem notava, mas a vida com a Bela fez-me envergonhar. Podia comprar-lhe qualquer coisa, mas deixei de comprar gastava o dinheiro em flores para a Bela. O marido nunca lhe levava flores, para mim era um falhado. Sim, tinham aquele apartamento rico, móveis boas, quadros nas paredes, louça de princesa, tudo herança da família dela. O marido era só usufrutuário dos bens da Anabela. Que rato!

Eu não era desses, só queria a Bela, só ela! De resto, pão com queijo e um colchão no sótão bastava, com ela ao lado.

A Anabela cheirava a coisas finas, que bem podiam ser francesas ou italianas, para mim era tudo igual, só sabia que queria sentir aquele cheiro no cabelo, na pele.

Ela era mesmo a minha mulher. Sim, era assim que a via: A minha mulher. Conquistei-a, entrei-lhe em casa ela caiu a meus pés.

Tudo nela era bonito comer, vestir-se, fumar. Era fluida, harmoniosa, como uma guitarra. Deusa! A minha deusa.

Nunca me esqueci da primeira noite, sempre tão terna, aberta comigo. Não havia segredos, só nós e o calor. Na manhã seguinte, soube que gostava de mim. O marido era só um papel cumpria o contrato, mas comigo ela vivia.

Sim, às vezes cedo de mais tinha de fugir dali.

Anda, querido, tens de ir beijava-me ao acordar, logo depois da nossa terceira noite. Ele vem de viagem. Vai estar cá uns dias. Maximiliano, meu amor, agora tem de ser assim. Volta depois.

E se eu for ter com ele? Falamos, de homem para homem. Quero que sejas só minha, Anabela!

Ela ria-se de cabeça caída para trás, caracóis caíam-lhe nos ombros como lava escura. Eu saltava para ela, apertava-a.

Minha! Só minha! sussurrava eu. Não achas que conseguia dar conta do teu António? Um sopro e virava-se…

Oh, querido… safou-se dos meus braços. Quero que tudo fique igual, que sejas o meu segredo e eu o teu. Maximiliano, há coisas onde não deves mexer. Agora anda, tenho de arrumar isto.

Fiquei magoado. Não queria ser só o segredo dela! Como é possível?

Mesmo assim, ao fechar-me a porta, ainda veio abraçar-me e beijar-me. Deixava-me tão desarmado. Se não fosse mulher oficial, pelo menos era minha, sempre minha. Ela pensava em mim ao deitar, lembrava-me enquanto fazia o pequeno-almoço ao marido, comparava-o a mim, e ganhava sempre eu. E o António Pedro corno manso.

Depois de eu sair, a Anabela limpava tudo à pressa. O marido ligou-lhe a meio da noite: chegava antes do previsto. Sábio, educado… Não queria apanhá-la em falso. A mulher nervosa, abriu janelas, não fosse ele sentir cheiro estranho. Mas percebeu.

Cheira a quê aqui, Anabela? atirou ele, largando a mala.

Ai, cheira a quê? fez-se de desentendida, embrulhando-se no roupão.

Cheira a podre, Anabela. E tu? Traíste-me? olhou-a de baixo para cima enquanto se descalçava, depois levantou-se de repente. A Anabela mal respirava, mas sorria.

Nada disso! Fiz frango no forno e vinha estragado, imagina! Vai lavar-te, eu ponho mesa. O café está feito, há bifes. Queres? Anda, tolinho adoro-te, senti a tua falta… quase a rir.

Ele agarrou-lhe o cabelo, puxou-a, olhou-a nos olhos e sorriu.

Trouxe-te uma prenda. Experimenta! tirou os brincos embrulhados no lenço. De prata, com pedras vermelhas, pesados, com fecho inglês, já velhos. Anda, põe já! berrou.

Ela tirou os brinquinhos da mãe, pôs os novos, olhou para ele, e ele acenou. Adorava enfeitá-la, fazia-a vestir bem, pôr colares e pulseiras, às vezes até dormir com as correntes de ouro que lhe arranhavam a pele, ele achava graça…

Fico cá uns cinco dias, depois viajo, disse ele, limpando o prato com pão. E o frango, Anabela? Onde está?

Que frango? A mão dela tremeu, entornou café sobre a toalha. Ele odiava toalhas sujas, tinha nojo. Vinha de uma infância dura, mãe alcoólica, comida só restos e ossos. Sempre sonhou com o melhor, fazia tudo para ter luxo, e a Anabela era o troféu. Ela tinha um noivo, um físico novo, mas foi morto numa noite, um assalto… Ela chorou, quase se matou, e aqui estava ele, o António, que falava bem, ajudava a família quando era preciso, apareceu como herói quando o pai dela quase foi preso. No fim, casou com a Anabela numa festa digna de novela.

Anabela agora sorria, tapando a nódoa da toalha.

O frango, tirei-o para o lixo, claro, respondeu.

Ele riu-se. Sabia tudo…

Mal o marido viajou, Anabela chamou-me. Ligou-me para a fábrica de gelados onde eu trabalhava, que ela adorava gelado de nata e bolacha. Eu levava-lhe sempre, ela comia da minha mão a rir.

Desculpei-me do trabalho, fui ter com ela, com o coração aos saltos. Precisava tanto daqueles braços. Foi fogo! Três dias sem ir a casa, nem telefonar aos meus. Andava perdido, mas sou jovem, preciso mesmo destas coisas.

Só soube que a mãe estava no hospital quando encontrei o meu pai à porta da fábrica, magro e abatido, parecia um fantasma.

Pai? O que faz aqui?

Tua mãe foi internada, passou mal de noite. Vai lá vê-la, balbuciou, apertando o boné entre as mãos, aquele boné velho que nunca largava.

Perguntei a que hospital, prometi ir. Vi que chorava, mas estava pouco preocupado. A mãe ia mil vezes ao hospital, e daí?

A Anabela não gostou nada, mas deixou-me ir, até preparou comida para levar. Minha querida, tão carinhosa.

A minha mãe estava num corredor numa maca dura, a vomitar, a enfermeira mandou-me levá-la dali com maus modos. Discuti com ela, exigi respeito.

A mãe pedia calma, comia devagar a sopa que a Anabela tinha mandado e agradecia. Sentei-me ao lado a olhar para o relógio. Faltavam duas semanas para o António voltar e tinha de sair de casa da Bela…

Mãe, consegues comer sozinha? levantei-me depressa, pus-lhe o saco aos pés.

Tens pressa, filho? Vai, vai descansado. O teu pai vem cá amanhã, sorriu, afagando-me a mão.

Fui embora sem saber que ela nem tocou na comida e ficou ali esquecida, no frio, com a bruxa da enfermeira a azucrinar-lhe o juízo… Mas eu só pensava na Bela.

Quando voltei, a Anabela estava sentada no chão a chorar.

O que foi? perguntei, tenso. O que aconteceu?

Ela tremia, apontou para brincos no tapete.

O António deu-me isto. Quis limpá-los porque estão velhos, e olha, estão sujos, sujos de sangue. Tenho medo disto, leva-os, leva-os daqui, Maximiliano! Leva, por favor!

Envolveu-os num trapo e enfiou-mos nas mãos.

Vai! Atira para o lixo, leva-os! Tenho tanto medo! O que será de mim agora? soluçava, toda borrada de rímel.

Pronto, está bem, calma. Dou-lhe uma esfrega, o teu António vai notar se desaparecerem… Mas o que raio têm de mal? Olha para isto…

Percebi tudo. O homem não tinha vergonha de trazer para casa peças roubadas. Sempre foi assim. As manchas pretas pareciam mesmo sangue seco, muitas, de uma ferida enorme, mortal.

Tive ânsias, fiquei enojado como se tivesse dado um mergulho num monte de estrume.

Anabela! Se calhar devíamos ir à polícia isto é crime! gaguejei, mas logo percebi que era disparate. A Bela nunca o denunciaria.

Obedeci, fui atirar o embrulho por cima do muro da tipografia ao lado de casa dela. Nem notei o homenzinho magro, curvado nas sombras devia ter reparado… Ele vigiava-nos há muito tempo.

Naquela mesma noite, António e uns capangas apareceram. Tínhamos acabado de adormecer, ainda bêbados, não demos conta do trinco nem dos passos.

Acordei com pancada. No escuro, alguém me esmurrava, a Anabela gritava e depois calou-se.

Tentei defender-me, a cabeça doía-me, o gosto a ferro voltou, mexia os braços à toa, os golpes não acertavam. Estava todo embriagado.

De repente acenderam a luz. António Pedro, sentado na poltrona dele, olhava para mim. A Anabela, de olhos fechados, ao lado.

Desculpa o incómodo, disse, baixo. Só vim buscar umas coisas. Anabela, amor, dá-me um beijo, marido chegou!

Puxou-a, beijou-a quase à força.

António vê ela apontou para mim.

Não quero saber, e acenou. Levei mais pancada, não consegui reagir. Toda a força tinha sido gasta no vinho e na Bela…

Anabela, querida, vai buscar-me as tuas jóias, está bem? Apanha tudo, vá.

O António levantou-se, veio ter comigo. Só o via mal, os olhos já inchados, dificuldade em respirar acho que me partiram as costelas.

E tu, rasteja, passa-te para lá, obediente, vá! disse ele.

António ela, aflita, vasculhava gavetas. Não lhe faças mal. Tu próprio disseste Não era proibido… suplicava, puxando o roupão. Tiveste a tua parte Porquê agora este rapaz?

Porque foi longe demais. Não gostei deste. A mãe está no hospital, a morrer, e ele aqui na cama da nossa mulher! e pontapeou-me. A mãe merece respeito, mesmo odiando-a, tratei-na como rainha. Este fugiu da mãe.

Como sabes murmurei, tossindo.

Sei de tudo. Aqui tudo me passa pelas mãos, Maximiliano. A cidade toda. Não sabias disto por acaso? virou-se para Anabela. Mais um desgraçado que puseste de rastos.

Levantei devagar a cabeça, olhei para a Bela. Tudo se misturava mãe, hospital, o cheiro a canja, o corredor cheio de correntes de ar, a nossa noite, o carinho dela, tudo. Mas de repente só sobrou o azul-gelado dos olhos do António. Ele ainda teve energia de se abaixar e sussurrar:

Fizeste mal em fugir da mãe. Agora nunca mais a vês! e eu chorei. Era um miserável, e ia morrer ali.

E eu? Que faço com ele? recuperou o sangue-frio a Anabela, começando a encher um saco com jóias. Ele veio por escolha própria, já é homem, não é culpa minha. Pronto, está aqui tudo, querido.

Ele olhou para o saco, aceitou.

Agora põe os brincos que te dei na última vez, ordenou.

Ai, não combinam com o roupão, amor! Depois meto! tentou brincar, a encostar-se.

Põe já! gritou, disparando para o chão. Uma bala cravou-se no soalho junto ao meu dedo.

A Bela fingiu procurar na gaveta, cavando no meio da roupa.

Ela há de inventar alguma coisa! Vai salvar-nos! gritava-me a cabeça. Minha Anabela querida, desenrasca-nos!

Não António, sumiram! Juro que estavam aqui, escondi mas sumiram! e atirou-me ao chão com uma joelhada. Foste tu! Roubaste! Que vergonha! E eu a fazer canja para a tua mãezinha, e tu a roubar-me?! António, manda este para a rua! Até deixaste faltar o meu relógio da avó. Olha, Maximiliano sempre pensei que fosses bom rapaz, mas afinal és igual aos outros… António…

Aquele relógio ela tinha dado ao médico que lhe fez o aborto. Ia ter um filho meu, não quis. O António queria filhos mas não podia. Nunca saberia quem era o pai… E agora a culpa era minha.

Mandaram-me pôr de pé. Lembro-me mal disso, só guardo o vulto da Anabela, linda, atrás do marido, e ele a quebrar-me.

Não gosto que me roubem, Maximiliano, disse ele, já no campo. Aceito tudo paixão, coragem, até perdoo traição. Queres saber se também a traio? riu-se. Tenho Anabelas em todo o lado. Mas roubos não admito. O que é meu, é meu!

Deitei-me na neve, com o peito ainda quente e estúpido, ouvi o carro a arrancar, o vento a arranhar-me com neve. Depois só restou o bater do sangue nas têmporas. E a certeza a mulher que mais amei traiu-me. O meu coração arrefeceu. Curou-se.

O resto já sabes…

Fiquei semanas em casa do caçador. Trouxe um médico, deram-me uns quantos tratamentos para as costelas, as pernas (felizmente só bruises), coseram, emendaram. Só me restava agradecer entre dentes, eles riam-se.

Vais ficar bom, carago! dizia o caçador.

Ao fim de três semanas saí para o sol, e quase me cegou aquela luz a bater na neve. O campo parecia um mar de ouro, era como se estivesse a inundar a paisagem como aço derretido no molde. O caçador deu-me uns óculos escuros.

Agora vai-te embora, mandou. E aprende: não mexas no que não é teu. Para a próxima podes não ter a mesma sorte.

Enquanto me calçava, ouvi aqueles dois a discutir quanto é que o António lhes deu para me deixarem vivo. Fiquei paralisado, deixei cair o sapato.

O que é que disseram?

Nada, encolheram os ombros. O António Pedro é generoso. É forreta, mas passa-lhe depressa. E a mulher dele é um cobra. Anda a vender as jóias às escondidas, pensa que um dia o vai deixar. E, quando o apanha, é rapazes como tu que lhe entrega, é sempre assim. Não foste o primeiro. Mas mete na cabeça: só te metas onde podes. Vai, Maximiliano. Segue o teu caminho…

Ao fim do dia cheguei à cidade, corri direto ao hospital para ver se ainda chegava a tempo de ver a mãe…

Não temos ninguém com esse nome, fecharam-me a janela na cara. Devia meter medo com o aspeto.

Por favor, veja melhor! ainda bati, mas depois larguei tudo e fui para casa.

O céu, rubro, assustou-me.

Cheguei a casa com a luz acesa. Suspirei e corri para o prédio, mancando. Toquei, mal abri a porta a minha mãe apareceu, pequena, magrinha, um susto nos olhos. Abracei-a, vi o meu pai e chorei…

Preocupámo-nos tanto, filho, dizia ela, sempre a servir mais batata frita no meu prato. Mas depois telefonou o António Pedro, disse que estavas metido num problema, mas que brevemente melhoravas e voltavas para casa, disse também para não aparecessem por Lisboa por uns tempos, para não te meterem na cadeia

António Pedro? deixei cair o garfo.

Sim. Um senhor do Ministério da Saúde. Até me foi ver ao hospital, conseguiu um quarto só para mim. Maximiliano, obrigado por pedir para ele me ajudar! Sem ele não cá estava…

Ainda se chorava, acarinhava-me a cabeça rapada, o meu pai olhava-me sério. Não aguentei o olhar e desviei

Anos depois, eu e a minha mulher, Maria, andávamos pela feira à procura duma árvore de Natal decente. Ela gosta mesmo das naturais, do cheiro a resina, das agulhinhas no chão, dos troncos a largar gotas brilhantes.

Passámos por todos os mercados, nenhum nos convencia.

Vamos ver ali, disse a Maria, apontando para uma banca humilde. A luz amarelada mostrava só árvores magras, ramos no canto.

Assenti. Entrámos, a Maria começou logo a mexer nos ramos, mas do escuro ouvi um vozeirão:

Compra primeiro antes de mexer! Uma mulher de lenço de lã, casaco velho, botas castanhas, com cara fechada e amarga, olhos cheios de raiva.

Conheci-a logo. A minha Anabela. A mulher da minha paixão de juventude. Aquela que deixou marcas no meu corpo. A minha Maria já perguntou de onde são algumas cicatrizes; inventei, claro. Porque só amo verdadeiramente esta mulher que tenho ao meu lado, boa, leal, a minha rocha, a minha casa. Ela veio de uma costela minha, é bênção do céu. Quero que seja feliz.

A Anabela olhou-me, cuspiu para o lado. Reconheceu-me.

O António agora obriga-a a ficar ao frio a vender árvores de Natal, enquanto ele está no restaurante a beber espumante. Nunca lhe bate, só é mais esperto. Ela perdeu tudo. E já não há rapaz novo que a salve. A sua beleza foi-se.

Vamos, Maria, peguei-lhe na mão. Estas árvores não prestam. Vamos à mata, cortamos nós uma.

A Maria sorriu, acreditou. Amava-me, e eu nunca quis acreditar que merecia.

E será que tenho de agradecer ao António Pedro por a vida feliz que tenho? Agradecer por não ter mandado matar-me? O António, magro e curvado, venceu. Fez de mim o seu eterno devedor. Eu mereci.

Оцініть статтю
Додати коментар

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!:

1 × five =

O Meu Segredo
Дистанционното за семейното щастие Към четири следобед входната врата се тресна така, че ветровката на закачалката затрепери, и в антрето нахлуха наведнъж трима: първо високият Иван с раница и торба с портокали, после жена му Нина, притисната между детското яке и кутия с „Не се сърди човече“, а най-накрая и осемгодишният Коко, вече сваляйки плетената си шапка над очите и по някаква причина ръмжащ на глас. – Дойдохме! – провикна се Иван навътре, без да изува обувките. От кухнята тутакси се показа майка му, леля Маргарита – с нож в ръка и с карирана престилка. Бузите ѝ розови, косата събрана с щипка, а на масата зад нея – планина от нарязани картофи и салам. – Ох, мои златни! – Тя тръсна ножа на дъската и се затича към тях, забърсвайки ръце в престилката. – Влизайте, събувайте се, минете вътре. Недейте да стоите на вратата, въздух дърпа. От хола долиташе гласът на водещия и приглушен глъч от студиото – по телевизията вървеше някакъв следобеден концерт. Таткото, бай Стефан Георгиев, се провикна оттам, без да помръдне: – Здрасти-здрасти! Аз съм тук, контролирам ефира. Иван се наведе да помогне на Коко с ботушите и надникна в хола – познат от неговото детство: масата вече частично сложена, на малката масичка пред дивана – дистанционното, до него купичка с бонбони, а на стената премигва стара гирлянда. Телевизорът, разбира се, работеше. Звукът не силен, но постоянен, като бръмчене на хладилник. „От сутринта, сигурно, вече бучи“, pomисли той и усети онова познато раздразнение, което обикновено скриваше зад усмивка. – Мамо, хайде да помогна – каза той, минавайки в кухнята с торбата. – Това е за теб. Имаме истинско шампанско, не като… – Спря, забелязвайки на масата бутилка „Искра“ със златен етикет. – Е, значи ще има два вида. – Вече купих всичко – кротко, но с лек укор, каза леля Маргарита. – Нека да има, де да знам, вашето модерно да е по-хубаво. Нина, мило, събличай палтото, аз ще дорежа салатата и сядаме на чай. Нина се усмихна и кимна, макар че Иван усети, че малко се стегна. По пътя насам бяха говорили как тази година ще пробват да го направят по свой начин – без безкрайния телевизионен фон, с игри, музика, така че децата да не зяпат в телефоните. Но щом прекрачиха прага, планът се сблъска с познатия звук на диктора и шумоленето на дистанционното. Бай Стефан вече се беше настанил на своето място в ъгъла на дивана – като капитан на мостика. Дистанционното му бе подръка и го докосваше постоянно, сменяйки каналите. Правеше го напоследък почти машинално – концерт, шарения, водещи с пайети, пак концерт. „Ето, почва се – с тревога си помисли той. – Ще викнат техните колонки, плейлистове… Аз сега трябва цялата телевизия ли да спра? Все едно никога не съм имал свой празник.“ Беше включил телевизора още сутринта, докато Маргарита белеше картофите, и оттогава не бе спирал. Бай Стефан обичаше в стаята да звучи глас, музика. Винаги е било така, дори когато Иван беше малък и прескачаше между масата и елхата – телевизорът беше фон, доказателство, че цялата страна празнува. – Дядо, може ли анимация? – Коко влетя в стаята, сваляйки раницата на пода. – После, бабино. Сега концертът е хубав. Виж как пеят – каза Стефан, без да отмести погледа си. – Обаче аз не ги харесвам как пеят – честно заяви Коко, смръщен. Иван надникна, бършейки ръце в дънките. – Тате, може ли по-тихо поне към вечерта? Ще играем „Каркасон“, донесох я. – Какво е това? – не разбра Стефан. – Настолна игра. Карти, замъци, пътища. Интересно. – Ами играйте, кой ви пречи? Телевизорът не шуми. Нека си върви. Иван си отвори устата, за да обясни, че тъкмо шумният фон им пречи, но срещна погледа на майка си, която току-що минаваше с чиния нарязано мезе. – Първо яжте, после правете каквото искате. До полунощ има цял вагон време – каза Маргарита. „Вагонът време не изглежда толкова голям“, помисли си Иван. Знаеше как върви – първо „С деца на море“, после концерт, после речта на президента, после нов концерт, и накрая всички прозяващи се, а той с кутията игри така и си седи. В кухнята ухаеше на майонеза, пресен магданоз и пържен лук. На перваза в купа изстиваха печени картофи за руската салата. Маргарита ловко режеше краставици над голяма купа с вече нарязани продукти. – Мамо, може ли половин салата „Оливие“ без салам? Повече ни харесва зеленчуково, а и Коко не обича месо – предпазливо каза Нина, насядайки на стола. – Без салам това вече не е салата – откликна Маргарита по навик. – Това е… винегрет. Но ако искаш – отделно ще му сложа преди да сме разбъркали. – Супер – с облекчение се съгласи Нина. Тя обичаше свекървата си, но всяка Нова година усещаше, че е като гост на чужда сцена, където всички роли са раздадени. Мама Иван си държеше за рецептите и навиците си, като спасителна котва. Нина го разбираше, но ѝ се щеше, и техните семейни ужаси да са валидни тук, не само у дома. – Пак експериментираш със салатата – долетя гласът на Стефан. – Пак без сол, без нищо. После ще си досолявам! – Всичко ще е наред – извика Маргарита, но гласът ѝ прозвуча малко обидено. Иван улови тона и реши, че Нина е била права да настоява за промяната след спомена от миналата година, в който Коко човъркаше салатата и шепнеше, че му се гади. След половин час вече седяха на масата. Навън още се смрачаваше, не бяха запалили свещи. Елхата светеше в ъгъла, телевизорът тихо въртеше концерт. Това беше първият малък компромис: Иван тихо намали звука, Стефан така и не реагира. – За срещата – вдигна чашата с шампанско Стефан. – Че дойдохте. Иначе децата порастват и… – махна с ръка, не довършвайки. – Важното е, че сте тук. Иван усети как гърлото му се сви. Знаеше, че баща му се страхува да остане сам с Маргарита в апартамента с килимите и бюфета. Страхуваше се, че децата ще кажат: „Предпочитаме с приятели, имаме си нови традиции“ – и всичко ще приключи. Телевизорът, концертите, оливието – всичко беше като гаранция, че миналото е още тук. – И ние се радваме – каза Иван. – Истина е. Чукнаха се. Шампанското бе леко горчиво. Коко се натискаше към портокалите, Нина си доливаше сок, Маргарита сипваше салата. – „С деца на море“ ще гледаме ли тази година? – небрежно попита Нина. – Как без нея? – оживи се Стефан. – Това е празникът! В девет почва. Ще вечеряме, после ще гледаме. – Може ли тази година да пропуснем? – предпазливо предложи Иван. – Все пак го знаем наизуст… Може да… – Не на мен – прекъсна Маргарита, макар че той не я гледаше. – Без този филм не ми е празник. В младостта под него лежах в родилния, помниш, Стефан? – Помня – кимна той. – Тогава ходех да гледам. Иван усети, че идеята му пропада: сякаш се посяга не на филм, а на нечия лична история. – Нека гледаме – бързо каза Нина, забелязвайки колебанието. – Само може после малко да поиграем? Играта е страхотна, всички ще я харесат. – Ще играем- ще играем – махна Стефан. – Имаме време. Той пак взе дистанционното, машинално смени канала. Иван отброяваше кликанията – като удари на часовник. Когато Коко прошепна: „Тате, кога ще играем?“, всички чуха. – Сега – каза Иван, – ще разчистим масата първо. – Аз ще я оправя – намеси се Маргарита. – Ходете, аз ще се включа после. – Мамо, хайде заедно, – настоя Иван. – Ще ми объркаш реда. Имам си система. Вие си играйте. Тя знаеше къде кое стои и го правеше наизуст всяка година. Иван с Нина се погледнаха. Не спориха. – Добре – рече Иван. – Ще подготвим играта. Минаха в хола. Стефан вече беше надушил „С деца на море“ и първите надписи рисуваха екрана. – О, ей сега почва най-доброто – доволно отбеляза той. – Тате, точно искахме да… – започна Иван с кутията. – После ще играем – не отлепи очи той. – Аз обичам началото. Вие си играйте, ако искате, на кухнята. – На кухнята е тясно – включи се Нина. – Мама чисти. Мислехме всички да… – Защо заедно…? – почуди се Стефан. – Вие нали ще ми обяснявате сложните ви правила, аз нищо няма да разбера. Ще гледам филма. Искате – гледайте с мен. Иван вдиша дълбоко. Ето го момента. – Тате, всяка година правим едно и също. Искахме… поне малко различно – да си поговорим, да поиграем… Не на фона на телевизора. – Какво те бърка телевизора? – гласът на баща му стана твърд. – В чинията ли ти пречи? Ще намаля звука и толкова. – Не в чинията, в главата… – не издържа Иван. – Не може да се говори, като все нещо шуми! – Никой не дига шум! – обиди се Стефан и… усили звука. В този момент Маргарита пристъпи в стаята, бършейки ръце. – Какво стана? – попита тя. – Нищо – хорово отвърнаха Иван и Стефан. На екрана вървяха реплики, които всички знаеха наизуст. – Просто искахме да поиграем – тихо каза Нина. – Заедно. Можем и после да гледаме филма. – Ще гледаме филма – решително каза Маргарита. – Винаги го гледаме. Знаете. Иван усещаше яд и вина. „Не ни чуват, – мислеше – все едно нямаме право на промяна.“ Погледна към Коко. Детето държеше плюшения си динозавър, разочаровано тръгнало по прага. – Не искам този филм – каза изведнъж. – Тъп е! Пауза. Телевизорът си вървеше, но никой вече не го слушаше. – Кокичка, – меко рече Маргарита. – Този филм не е тъп, просто още си малък. – Искам да играя – повтори Коко, тихо на ръба на плача. Иван усети, че само възрастните ще преживеят да отстъпят. До детето не може да се обясни защо уговорките не важат. Приближи телевизора и без да мисли натисна бутона „изключване“. Екранът угасна. Стаята сякаш се разшири. Чу се само капенето на чешмата и напуканата играчка на елхата. – Иване… – въздъхна Маргарита. – Тате… – каза и Стефан. Гласовете им бяха пълни с еднаква обида и безпомощност. – Пет минути да поиграем – побърза Иван, усещайки, че се самозабрави. – Само да започнем… – У нас си, – прекъсна го баща му. – И ми спираш телевизора, като че ли тук съм излишен! Думите го удариха. Иван отвърна: – Не съм искал… Просто Коко… Коко вече подсмърча. Аня го взе на ръце. – Тихичко, хайде, ще измислим нещо… – шепнеше тя. Маргарита погледна към сина си – в погледа ѝ се четяха умора, тревога, любов, страх от това техният си празник да се разтвори в чужди сценарии и да останат с празни ръце. – Иван – каза тихо тя – цял ден не спирам да приготвям. Искам само да седна и да си гледам филма. Не преча на никого. Искаш да играеш – играй. Но защо да спираш? Иван почувства как всички аргументи се изпразниха от съдържание. – Защото… когато е включен, сте… не с нас, а с телевизора. Искаме да сме с вас. Не само на дивана, а заедно. Тези думи увиснаха. Стефан отвърна поглед – неприятно му беше. „Купих този телевизор с много усилия, – помисли си той. – Сега изглежда, че за него съм се криел…“ Спомни си как, когато Маргарита беше в болницата, телевизорът беше единственото, което говореше вечер. Оттогава се страхуваше от тишината. – Така – изведнъж каза той. – Играйте сега. Половин час или час. После пак ще го пусна. Става ли? Иван примигна. – Тате… – Няма да ви преча. Даже ще поиграя с вас, ако ми покажете. Но после ще гледам. Ок? Маргарита го изгледа: някакво малко чудо беше това; в гласа му прозвуча не примирение, а желание да бъде част от всички, да не губи своето. – Така да бъде – каза Нина внимателно. – Сега ще опънем играта на масичката. Телевизора остана изключен. Когато дойде речта на президента, ще го включим, гледаме заедно. После пак филма. Но малко по-тихо. Който иска, гледа, другите – играят в другата стая. – Искам с дядо да играя! – оживя Коко, подсмърчайки, но с първа усмивка. – И с баба. Маргарита въздъхна. „Няма да съм звер – заради детето ще отстъпя мъничко.“ – Добре, дайте я тая игра. Само обяснявайте бързо. Иван усети как напрежението стихва. Включи телевизора, но го сложи на пауза. – Ще почака – рече той. – За Андрей все има време. Стефан невольно се усмихна – тази шега беше стара, но на място. Разтвориха „Каркасон“ на масичката, преместиха купата лакомства. Картонените тайли с пътища и градове намериха място до дистанционното. Коко нетърпеливо ги размесваше. – Така… – започна Иван да обяснява. – Всеки по ред… (следват обяснения). Първите минути беше хаос. Маргарита бъркаше фишките, Коко забравяше правилата, Нина търпеливо поправяше. Стефан уж безразличен, после влезе в играта, щом осъзна, че неговият път носи повече точки. – Я, аз съм стратег! – щастливо се засмя той. – Просто не знаехме – отвърна Нина с усмивка. В един момент Маргарита установи, че се смее – истински, не насила. Погледна мъжа си, който спореше с внука, и си каза, че може да смени част от сценария, вместо да го сменя целия. – Мамо – тихо каза Иван, когато Коко отскочи до банята – Благодаря. – Още не съм приела – подсмихна се тя, но този път нямаше укор. – Не ни е лесно да сменяме, де… – Знам, мами. Но и на нас ни се иска Коко да си спомня не само за филмите, които не е обичал. – И така ще помни. Най-важното е да сме заедно. До девет часа свършиха първата игра. За изненада на всички победи Стефан. Той доволно потри ръце и погледна към телевизора. – Е, сега е мой ред? – Твой е – призна Иван. – Пускай! Пак се наредиха на дивана. Познатата мелодия зазвуча, само дето сега телевизорът вече не бе герой, а фон. На масичката останаха тайли, фишки, бележка с отчет на точките и усещане, че този празник не премина пасивно. Когато започна президентската реч, Маргарита по навик се отправи към кухнята за шампанското. – На децата давай сок, – каза тя на Нина, – после пак мен ще обвинявате. Всички застанаха с чаши, слушайки познатите думи за трудности, надежди, бъдеще. Стефан гледаше повече към семейството си, отколкото към екрана. „Ето ги, моите. Ако за тях са важни тези игри, значи не е страшно. Главното е, че се връщат.“ Когато часовникът удари, чукнаха чаши. Някои успяха да си пожелаят нещо, някои – не. Коко си пожела три неща и реши, че така е по-сигурно. След химна телевизорът пак заговори. Но вече едва се чуваше. Филмът се точеше меко, без да доминира. Маргарита седеше на ръба на дивана с чаша шампанско. На екрана героинята стоеше на стълбището, а Нина и Иван спореха кой да тегли карти първи. – Мамо – каза Иван, – утре сутрин ще гледаме повторението заедно? Само ти, аз и тате. – Защо? – Искам да ти е специално. После ще играем и ще говорим вечерта. Два различни празника – и твой, и наш. Тя се замисли. Имаше нещо хубаво в тази идея. – Ще видим – каза тя уж нехайно. – Зависи кога ще се събудя. Стефан слушаше, уж вглъбен във филма, а му олекна. Не заради филма, а защото синът му търсеше форма където могат да са всички заедно. Коко строеше кула от фишките на пода – изглеждаше доволен. За него този Нова година щеше да бъде свързан с това, че дядо изненадващо победи, баба се смя, а мама и татко не се скараха. Към един през нощта Маргарита улови, че почти не гледа екрана. Телевизорът бе фон, както винаги, но за първи път й беше по-важно какво се случва тук. Иван седеше с баща си, обсъждайки нова игра. Нина с Коко прибираха остатъци от салата и портокалова кора в кутия. Миришеше на празник, елха и изветряло шампанско. – Мамо, – извика Иван. – Ела, татко измисля стратегия. – Ей сега – отвърна тя, покривайки салата. – Идвам. Изключи в кухнята лампата и за миг спря на прага. Телевизорът меко осветяваше лицата, гирляндата премигваше. В тези светлини и сенки имаше уют. „Нека е така и така – помисли си тя. – Главното е, че сме всички тук.“ Седна до мъжа си, който леко се дръпна, за да я пусне. Дистанционното остана между тях, като малък, но изключително важен предмет – днес вече никой не го държеше само за себе си. – Айде, – каза тя, гледайки децата, – показвайте пак вашия път. Новата година вървеше по своя си път. Вън някой палеше фойерверки, по телевизията героите се лутаха из софийските адреси. В стаята обаче се прокрадваше съвсем нова карта: зона телевизор, зона игри, зона кухня. А между тях – тънки, но здрави пътища, по които вече всички намираха обратния път един към друг. Никой не победи и не изгуби. Просто всеки малко премести границата си. И заради това на всички им стана по-топло.