A sogra obrigava-me a capinar os canteiros no meu legítimo dia de descanso. Mas desta vez tudo correu ao contrário.

Querido diário,

Já percebeste que é difícil para a mãe? O Pedro atirou as chaves do carro de uma mão para a outra, sem sequer olhar para mim. Ela estava a tratar das mudas. Custa assim tanto ajudar três dias? É sempre a mesma coisa.

Eu estava parado junto à bagageira aberta, a olhar para os três sacos enormes que a Inês tinha empacotado. Num, as roupas dos miúdos; noutro, os casacos para a noite; no último, os lençóis, porque a minha mãe não nos emprestava os dela do armário.

A nossa Sofia, de cinco anos, já se mexia no banco de trás, apertando contra o peito um coelho de peluche, e o Tiago, que acabara de fazer oito, folheava uma banda desenhada, aborrecido. À minha espera estava mais um fim de semana que devia ser um descanso merecido depois de quarenta horas de trabalho na contabilidade, mas que prometia tornar-se num trabalho forçado.

— Ajudar três dias é quando chegamos, fazemos um churrasco e regamos dois canteiros à noite, Pedro — a voz da Inês saiu calma. — Mas quando fico o dia todo curvada sobre os morangos enquanto a Dona Clara inspecciona cada pé, isso tem outro nome.

Abri a porta do condutor, irritado, e sentei-me ao volante.

— Pronto, bora lá. Depois logo se vê. No local tudo parece mais simples.

Sentei-me no banco do passageiro, apertei o cinto e fitei a estrada. O carro arrancou, deixando para trás o nosso sossegado bairro residencial de Lisboa. À nossa frente, duas horas de estrada esburacada para o Algarve, o calor e a sensação de que estava a perder a minha posição sem luta.

Nove anos de casamento ensinaram-me que discutir com a Inês sobre os meus pais é como tentar parar um comboio em andamento. Mais vale ceder, aguentar dois dias, e depois passar três a recuperar na cidade. Mas desta vez algo dentro de mim resistia, como se um fio fino estivesse esticado ao máximo.

A estrada parecia interminável. Os miúdos começaram a fazer birra a meio do caminho. O Tiago queixava-se do calor, a Sofia deixou cair o coelho entre os bancos e choramingava baixinho. Eu irritava-me, aumentava o volume do rádio onde passavam velhos hits pop, e ultrapassava camiões, mudando de faixa bruscamente.

— Era mesmo preciso trazer tanta roupa? — atirei, de relance ao espelho retrovisor. — A mãe disse que tem roupa velha para a horta. Porque é que carregaste esses sacos todos?

— Porque a roupa velha da tua mãe são aventais sebentos do tamanho 54, onde não me sinto à vontade — respondeu ela, mantendo a calma. — E os miúdos precisam de mudas limpas.

— Ai, não comeces. Estás sempre a inventar problemas onde não existem. A mãe está à nossa espera, fez empadas de espinafre, e tu vens com essa cara de quem vai para a forca.

Calei-me. Não queria discutir, e não valia a pena. Para mim, ir à quinta dos meus pais era o melhor que podia acontecer ao fim de semana. Era voltar à infância, onde podia andar de calções velhos, beber leite fresco da vaca do vizinho e não ter responsabilidades nenhumas.

Para a Inês, porém, transformava-se num exame interminável para ser a “nora ideal”, que ela falhava sempre, por mais que se esforçasse.

Quando o carro virou para a estrada de terra batida cheia de gravilha, a suspensão começou a bater. Passaram por nós vedações cinzentas, silvas e casas de campo iguais. A nossa quinta – ou melhor, a dos meus pais – destacava-se pela cerca verde e pela estufa grande, que parecia uma cúpula futurista.

A Dona Clara já estava ao portão. Vestia um avental azul às bolinhas e segurava umas tesouras de poda. Ao lado, num banco baixo debaixo da macieira, o meu pai, o senhor António, consertava um velho rádio de pilhas.

— Finalmente chegaram! — a minha mãe abriu o portão, sem esperar que eu desligasse o motor. — Muitos engarrafamentos? Descarreguem depressa, o almoço arrefece. Inês, filha, estás tão pálida. Esse Lisboa vos mata. Aqui o ar é puro, vais recuperar.

Sorria, mas o olhar já avaliava a t-shirt de algodão e as calças de ganga claras da Inês. Eu conhecia aquele olhar. Ia começar a análise: quanto custa a roupa, porque é que suja, para que é que se maquilhou para vir para o campo.

O almoço passou sob o comando da minha mãe. Ela servia a sopa com almôndegas e dava instruções para a tarde. Eu comia com apetite, aprovando com a cabeça.

— Pedro, tens de escorar a vedação das framboesas, está a cair — a minha mãe limpou os lábios com um guardanapo. — E a Inês e eu tratamos dos canteiros. A erva cresceu imenso depois das chuvas. Se não mondarmos hoje, amanhã não se chega às cebolas.

— Mãe, eu estava a pensar ir ao rio com os miúdos — arrisquei, estendendo a mão para mais uma empada. — Está tanto calor, que eles se refresquem.

— O rio não foge — cortou ela. — A água ainda está fria, vais constipá-los. Primeiro o trabalho, depois o descanso. Inês, já acabaste? Leva os pratos para o lava-loiça e vamos. Já te preparei as ferramentas.

Olhei para a minha mulher, à espera de um sinal de apoio. Mas a Inês estudava atentamente o padrão da caneca de chá. Fazia sempre assim: encolhia-se, deixando-me lidar sozinho com a minha mãe.

Meia hora depois, estava de quatro entre longas filas de cebolas. O sol queimava sem piedade, até a pala do boné não chegava. A terra estava seca, cheia de torrões, e as ervas daninhas agarravam-se com força. Ao lado, num banco de plástico, a minha mãe sentara-se. Não mondava – os médicos proibiram-na de se baixar devido à tensão – mas supervisionava tudo.

— Puxa mais fundo, Inês, mais fundo. Tens de arrancar a raiz toda, senão volta a crescer daqui a três dias. E não te apresses, faz com cuidado. É para nós, para os netos. Não queres que eles comam os seus legumes sem químicos?

Ela calou-se, arrancou um dente-de-leão grande. A terra entranhou-se-lhe nas unhas. A manicura que fizera na quinta-feira à noite, que custara um bom dinheiro, já não existia ao fim de dez minutos. Dentro do peito, a raiva começou a ferver. Não contra a minha mãe – ela sempre foi assim, não se muda. Contra mim. Contra ela própria. Contra o facto de estar ali outra vez, naquela poeira, a cumprir a vontade alheia, enquanto os seus planos de fim de semana se desfaziam.

— Mãe, posso ir buscar água? — a Sofia aproximou-se do canteiro, corada de calor. Tinha tentado brincar com o cão da vizinhança, mas ele dormia à sombra.

— Vai lá a casa, está um jarro na mesa — disse a Inês, limpando o suor da testa com o dorso da mão.

— Não vás para casa, vais sujar tudo — interveio a minha mãe. — Pedro! Vai buscar água do poço para a tua filha. E traz também para a Inês, vê-se que está vermelha.

Nesse momento eu preguiçosamente martelava uma tábua na vedação. Larguei o martelo e fui ao poço. O meu andar era tão lento que a Inês quase atirou a enxada a mim.

Ao fim da tarde de sábado, as costas dela não se endireitavam. Os músculos doíam-lhe com o esforço incomum, as palmas das mãos ardiam. Passámos para os canteiros de cenouras, que exigiam uma monda minuciosa – os rebentos pequenos confundiam-se com as ervas.

— Quem é que monda assim, valha-me Deus — a minha mãe levantou-se do banco e aproximou-se, a examinar o resultado. — Arrancaste metade das cenouras, Inês! Vê, aqui está vazio, e aqui também. Pedi-te atenção. Tens a cabeça noutro sítio?

A Inês parou, com um punhado de ervas na mão. Algo estalou lá dentro. Calma, pensei eu, é só uma idosa. Ela acha que está a ajudar.

— Dona Clara, estou a tentar fazer com cuidado. Os rebentos são muito pequenos, veem-se mal.

— Se vês mal, tens de usar óculos — atirou a minha mãe, seca. — O meu Pedro mondava estas cenouras na perfeição quando era pequeno. Tu és uma mulher adulta, não sabes fazer o elementar. Vocês, mulheres modernas, não servem para nada na lida da casa. Só sabem gastar dinheiro nos vossos salões.

Eu cheguei por trás. Vinha do armazém de materiais de construção, onde tinha ido com o meu pai comprar umas tábuas. Trazia um gelado na mão. Um. Já o estava a comer, lambendo as gotas brancas dos dedos. Aos miúdos comprara chupas. Por mim, claro, ninguém se lembrou.

— Mãe, porque é que estás a fazer barulho? — disse eu, sentando-me no degrau da varanda. — A Inês está a fazer bem. Só não está habituada.

— Exactamente, não está habituada! — a minha mãe animou-se com o meu apoio. — E tem de se habituar. Senão, chega aqui, senta-se numa espreguiçadeira com um livro, e pensa que está num hotel. Aqui é preciso trabalhar. O teu pai e eu mantivemos este terreno durante trinta anos, cada palmo a pulso. E ela custa a dobrar as costas.

A Inês levantou-se devagar dos joelhos. Sacudiu as calças da terra agarrada. As costas doeram-lhe com uma pontada forte, mas nem franziu o sobrolho. Olhou para a minha mãe – o rosto com sincera indignação. Olhou para mim – eu estava nos degraus, a acabar o cone de gelado e a olhar para o telemóvel, completamente alheio ao que se passava. Para mim, aquela conversa era o ruído de fundo habitual.

— Acabei — disse ela, baixinho.

— Acabaste o quê? — a minha mãe abanou as mãos. — E os outros três canteiros, quem os faz? Disseram que vai chover esta noite, amanhã fica tudo cheio de ervas!

— Faz você, Dona Clara. Ou o seu filho. Eu nunca mais volto a estes canteiros. Nunca.

Virou-se e foi para dentro de casa. Os passos custavam-lhe, as pernas pareciam de chumbo, mas por dentro crescia uma sensação estranha, nova: a de libertação. Como se tivesse carregado muito tempo uma mala pesada e, de repente, tivesse aberto os dedos.

Em casa foi logo para o quarto onde dormíamos. Tirou os sacos de debaixo da cama e começou a arrumar as coisas. As t-shirts dos miúdos, os calções, os lençóis – tudo voava para dentro dos sacos, amontoado.

Apareci à porta, com uma cara de espanto, quase assustado.

— Inês, o que estás a fazer? A mãe está a tomar um comprimido para os nervos. Porque é que lhe respondeste mal? Ela é idosa, tem o coração fraco.

— A tua mãe está cheia de força, Pedro — fechou o fecho do primeiro saco. — Ela vai cavar esta horta e enterrar-nos a todos. Eu é que estou com as costas a doer. Arranja os miúdos. Vamos embora.

— Vamos embora para onde? É sábado à noite! Os engarrafamentos para Lisboa estão terríveis. Enlouqueceste? Por causa de uma cenoura vais fazer um circo?

— Não estou a fazer circo. Vou para casa. Se quiseres, fica aqui com a tua mãe e as cenouras. O carro é meu, as chaves estão comigo. Levo os miúdos.

Tentei bloquear-lhe o caminho, fiquei na porta.

— Não vais a lado nenhum. Chega de histerias. Acalma-te, vamos jantar, tomar um chá, e tudo se resolve. A mãe passa-lhe a raiva.

Olhei para a Inês. Calma, sem o pânico que costumava tomar conta dela nas nossas discussões. Lembrei-me do que o meu amigo Rui me disse: “Ela nunca vai tomar o teu partido”. Para mim, ela estava sempre em segundo lugar: a mãe era a principal, e a Inês tinha de aturar e conformar-se.

— Deixa-me passar, Pedro.

Peguei nos dois sacos pesados e saí para o corredor. Os miúdos estavam sentados no sofá da sala, em silêncio, a sentir que algo de anormal se passava.

— Tiago, Sofia, calcem os sapatos. Vamos para casa, para Lisboa.

— Bora! — o Tiago saltou do sofá, sem esconder a alegria. A vida na quinta também o aborrecia, debaixo da vigilância constante da avó, que proibia correr no relvado e colher frutos sem autorização.

A minha mãe estava na varanda, de lábios franzidos. O meu pai, atrás dela, fumava em silêncio, a olhar para as árvores. Ninguém nos reteve, ninguém nos pediu para ficar.

Eu segui a Inês até ao carro. Ainda tentava detê-la.

— Estás a cometer uma grande estupidez, Inês — disse baixinho, enquanto ela carregava os sacos. — A mãe não vai esquecer isto. Estás a estragar a relação por uma ninharia.

— Sabes que mais, Pedro? — fechou a bagageira e voltou-se para mim. — Tu não te importas com os meus sentimentos. Nunca mais venho à quinta dos teus pais. É definitivo. Se quiseres visitá-los, podes vir todos os fins de semana. Podes trazer os miúdos, se eles quiserem. Mas sem mim. Já chega.

Sentei-me ao volante, liguei o motor. Eu fiquei junto à vedação, com as mãos nos bolsos. Parecia um miúdo perdido a quem tinham tirado o brinquedo habitual. Não entrei no carro. Fiquei na quinta, ao pé da minha mãe, que já me ralhava da varanda, gesticulando.

Eles saíram pelo portão. No espelho retrovisor vi a minha figura encolher, juntamente com a cerca verde e a estufa enorme. No peito doía-me a compreensão de que aquela noite mudara tudo.

O nosso casamento não vai acabar amanhã, vamos continuar a viver. Mas a Inês que eu conhecia, que estava disposta a aturar qualquer humilhação por uma paz ilusória na família, já não existia.

Ela pisou o acelerador, e o carro seguiu pela estrada de gravilha, levando-os para longe daquela quinta alheia, onde ela passara demasiado tempo a viver segundo regras que não eram suas.

— Mãe, não vamos mais à avó? — perguntou a Sofia do banco de trás, distraindo-me da estrada.

Desviei o olhar para o retrovisor. A filha apertava o coelho, e o Tiago esperava atento a resposta.

— Vocês podem ir com o pai, se quiserem — respondeu ela, mudando de mudança e entrando na estrada alcatroada. — Eu é que tenho outros planos para os fins de semana.

À frente, apareceram as luzes de uma estação de serviço. Ela virou para lá, para comprar sumo aos miúdos e beber um café descansado. Ainda tinha cem quilómetros até casa, e essa viagem ia fazê-la sem pressas.

Aprendi hoje que o amor não justifica a anulação de quem somos. Ficar calado para evitar conflitos só adia a explosão. No fim, a dignidade não se negocia.

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A sogra obrigava-me a capinar os canteiros no meu legítimo dia de descanso. Mas desta vez tudo correu ao contrário.
Na pôrodnici jej oznámili, že dieťa nepřežilo, a o roky neskôr zistila, že jej syn je v rodine svojho biologického otca.