Mãe, abre a porta. Sou eu. E não venho sozinho.
A voz do Rui soou-me tão estranhamente formal que até o Fernando Pessoa na parede tremeu, coitado. Fechei o livro, ajeitei a camisola e fui à entrada, sentindo já o nó a apertar-se no estômago.
No patamar, Rui apareceu com ares de diretor de condomínio e atrás dele, um senhor alto, de cabelo grisalho e casaco caro, segurando uma pasta de couro que devia custar mais do que o meu sofá todo.
Olhou-me com aquele ar de quem avalia uma bifana antes de decidir se merece mostarda ou se é para pôr no lixo.
Podemos entrar? perguntou o Rui, sem um sorriso. Deu logo entrada de proprietário e o acompanhante seguiu-lhe o passo como quem vai fazer avaliação imobiliária.
Diz olá ao Dr. Henrique Antunes atirou o Rui, a despir a gabardine . Ele é psiquiatra. Só queremos conversar, mãe. Preocupo-me contigo.
Preocupo-me saiu-lhe mais seco que bacalhau salgado em agosto. Quando olhei para o Dr. Henrique Antunes, vi-lhe a patina dos anos: óculos modernos, ar cansado e os tiques de quem já descreveu muitos diagnósticos impopulares. Mas também vi qualquer coisa que nem fado explica.
O coração escapou-me para o chão: Henrique.
Quarenta anos passaram por ele e, apesar da ruga ao canto do olho e do estilo executivo, não enganei o destino. Era o homem a quem entreguei o coração e a quem atirei pela janela com o mesmo afinco. O pai do Rui, que nunca soube ser pai.
Boa tarde, D. Filomena Dias , disse ele, naquela voz neutra dos psiquiatras que sabem tudo da vida mas vivem pouco. Nem o sobrolho mexeu. Ou não me reconheceu, ou faz de conta.
Assenti muda, com as pernas dormentes. O mundo reduziu-se àquele rosto impassível e profissional.
O meu filho trouxe-me a quem? Ao próprio pai dele, para me porem fora de casa e ficarem com as chaves do T3.
Vamos à sala, disse eu, a surpreender-me com a calma do tom. Já nem me lembrava de saber ser tão chique.
O Rui começou logo o discurso um verdadeiro relatório clínico: A minha mãe apega-se muito aos trastes, não aceita mudanças, precisa de acompanhamento, coitada, sozinha neste apartamento enorme
Eu e a Ângela só queremos ajudar, mãe. Compramos-te um T0 na Amadora, ali perto. Assim estás à mão de semear. E com o dinheiro que sobrar podes viver descansada, sem precisar de nada.
Falava de mim como se eu não estivesse ali, uma relíquia herdada do tempo do escudo, a precisar de ir para o sótão.
O Henrique ou melhor, o Dr. Henrique Antunes assentiu, anotando mentalmente. Depois virou-se para mim:
D. Filomena, costuma conversar com o seu falecido marido? atirou, ali, sem dó nem piedade.
O Rui baixou os olhos. Aposto que foi ele que lhe soprou esse pormenor: às vezes falo alto com a foto do Alfredo, como quem protesta para que o polvo fique tenro.
Olhei para o meu filho, depois para o rosto frio do ex-marido. Algo em mim eclipsou o choque ficou só aquela raiva que arde devagar.
Olharam-me ambos, um ansioso, o outro com curiosidade de laboratório.
Muito bem. Gostam de jogos? Vão tê-los.
Claro que converso olhei bem nos olhos do Henrique. E às vezes até ouço resposta. Especialmente quando se trata de traição.
O Henrique nem pestanejou. Só rabiscou qualquer coisa no bloco. Vi logo a frase: “Paciente responde de forma defensiva, possível projeção. Culpa.” Sei bem ler letra de médico.
Ó mãe, estás a exagerar desconcertou-se o Rui. O Dr. Henrique só quer ajudar. Para que estás com ironias?
Ajudar, filho? Ou facilitar-te a herança?
A dúvida ficou no ar, como carapau sem sal.
O Henrique interrompeu com um gesto sereno. Rui, deixe-me falar com a sua mãe. D. Filomena, para si, o que é traição? Acha que é isso que sente do seu filho?
Olhou para mim com aquele ar de quem monta puzzle de gente partida. Resolvi testar-lhe os nervos.
Sabes, doutor, há vários tipos de traição. Às vezes dizem que vão só ali comprar pão e não voltam mais. Outras vezes, regressam anos depois, só para tirar à pessoa o pouco que ainda lhe resta.
Esperei reação. Nada. Nem um músculo. Ou o homem tem nervos de aço, ou já eliminou tudo o que éramos.
Boa metáfora, disse ele, como quem comenta um pastel de nata. Sente que o seu filho quer tirar-lhe algo? Isso já vem de longe?
Cravava-me perguntas como quem preenche formulário de seguro. O diagnóstico feito à medida. Cada frase minha, mais um tijolinho para o laudo de incapaz.
Voltei-me para o Rui, evitando o psiquiatra.
Rui, acompanha o doutor à porta, sim? Temos de falar a sós.
Nem pensar respondeu, vermelho como tomate regional . Discutimos tudo juntos. Não quero que manipules ou faças drama. O Dr. Henrique é imparcial.
Imparcial. O teu pai, que nunca fez questão de exercer o cargo! Via-se mesmo que ironia e justiça andam de costas voltadas neste mundo.
Contive o riso. Sabia bem que qualquer gargalhada minha ia directamente para o relatório de sintomas.
Certo respondi, mais dócil que o habitual. Se querem tanto ajudar-me, então expliquem melhor o que sugerem.
O Rui descontraiu logo. Começou a vender-me os encantos do T0 na Amadora: porteiro, vizinhas a fazer crochet no banco, vida simples.
Enquanto ele debuxava este futuro idílico, olhei para o Henrique. E percebi. Ele não me via, não me conhecia. Encostava-me à mesma prateleira da santinha sentimental, dos livros de bolso e do gosto pelos lençóis de algodão barato. Fugiu disto há anos agora vinha dar-me a certidão de condenação: está doente, arrumem-na.
Vou pensar na vossa proposta levantei-me. Agora, peço que me deixem, preciso descansar.
O Rui fez um sorriso de quem já ruge vitória. Eu concordei pensar.
Claro, mãe. Descansa, amanhã ligo-te.
Despediram-se. O Henrique lançou-me um olhar conclusivo, igualzinho ao dos inspectores de qualidade do Pingo Doce. Fiquei sozinha. No apartamento que já repartiam mentalmente.
Mas esqueceram-se de um pormenor: não sou apenas a velhota sentimental. Sou a mulher que já foi traída uma vez. Uma segunda, nem pensar.
No dia seguinte, o telefone tocou às dez em ponto. O Rui, em modo gestor de condomínio:
Então, mãe, dormiste bem? O Dr. Henrique queria repetir a consulta, agora mais formal, com uns testes. Pode passar aqui amanhã, ao almoço.
Mexi na minha colher de prata, herança da avó Rosa a única coisa da família ainda inteira além de mim.
Ouvistes, mãe? perguntou Rui, impaciente. É só burocracia. A Ângela já viu cortinados para a sala nova, diz que beges ficam lindos.
Clac.
Aquilo não foi um som foi um despertar. Já escolhiam cortinas para a minha casa. Para a minha vida! Nem me tinham removido oficialmente e já dividiam memórias e espaço.
Está bem disse eu, voz fria como gelo na Figueira da Foz. Que venha quando quiser. Cá estarei.
Desliguei antes que pudesse embalar-se nas suas fantasias imobiliárias. Acabou-se a mulher submissa e conivente. Nada de ser figurante nesta telenovela. Começava agora o meu papel principal.
Liguei o computador. Psiquiatra Henrique Antunes.
Lá estava ele, sorridente no site da Clínica Bem-Estar & Alma, autor de artigos na TV, proprietário de clínica, blazer de luxo.
Telefonei e marquei consulta no meu nome de solteira: Filomena Matos. A secretária disse logo: Tem vaga amanhã de manhã. Sorte de principiante.
Passei a noite a vasculhar velhas caixas. Não à procura de provas mas de mim mesma.
A rapariga de vinte anos, largada grávida porque não dava para as ambições dele. A que não só sobreviveu, mas criou o filho sozinha.
E o filho, que cresceu para trazer à mãe um consultor de luxo, para facilitar o despejo.
No dia seguinte fui à luta: fato de calças, cabelo apanhado, batom discreto. No espelho, nem sombra da vítima via um general à beira da batalha.
A clínica Bem-Estar & Alma cheirava a dinheiro e desinfetante. Levaram-me ao gabinete do Dr. Henrique, mesa de carvalho, janelas até ao Tejo.
Ele olhou-me, surpreendido. Claramente não esperava Filomena Matos.
Bom dia, indicou-me a cadeira. Filomena Matos, não é? Em que posso ajudar?
Sentei-me.
Doutor, preciso do seu conselho clínico. Quero debater um caso. Imagine um rapaz: o pai deixou a mãe grávida por causa da carreira. Nunca soube que teve um filho. O menino cresce, um dia cruza-se com o pai. O pai é famoso, rico, mas não faz ideia de nada. Adivinha o resto?
Fui contando e, por trás da pose de médico, via-lhe no rosto a inquietação crescer.
Pousei a mão sobre a mesa, olhei-o de frente:
Então, doutor, qual a ferida maior? A do filho abandonado, ou a do pai quando descobre que ajudou o próprio filho a declarar incapaz a mãe? A sua mulher de outros tempos? Lembras-te de mim, Henrique?
Adeus, máscara. Ficou pálido, a caneta caiu-lhe da mão para cima da secretária.
Filomena? sussurrou ele, como quem acorda de um pesadelo.
A própria, sorri com amargura. Não estavas à espera? Nem eu de um reencontro destes.
Ficou a mexer os lábios como carapau fora de água, sem cor, sem ar de especialista.
Eu não sabia conseguiu balbuciar O Rui é meu filho?
É teu. Podes pedir teste de ADN, mas não é preciso: vê as fotografias.
Tirei do saco o álbum antigo. Voltei uma página: Rui, bebé nos meus braços, igual a ele em miniatura.
Ele olhava, os ombros afundados de culpa. Toda a vida de sucesso, agora cheia de rachadelas.
Nesse momento, saltou a porta e surgiu o Rui, radiante.
Dr. Henrique, não atendeu, decidi passar! A mãe disse que vinha cá
Assustou-se ao ver-me na cadeira do paciente. O sorriso escorregou-lhe do rosto.
Mãe? O que fazes aqui?
O mesmo que tu, filho: a pedir consulta ao independente. Estávamos a tratar do teu caso, não era doutor?
Perdia o olhar entre mim e o Henrique, esmiuçando cada centímetro do que não entendia.
Rui, faz favor de conhecer. Não é só o Dr. Henrique Antunes. É o Henrique, teu pai.
O traço de vida fugiu-lhe do olhar. Em segundos passou pelo choque, raiva, vergonha. Olhou do psiquiatra para mim, trémulo.
Pai? murmurou.
O Henrique engoliu em seco.
É verdade eu sou teu pai. Não sabia. Perdoa-me.
Mas o Rui já nem ouvia. Só olhava para mim, e vi nos olhos dele a tragédia de todas as traições. Sabia que tinha destruído tudo à caça de metros quadrados.
Afundou-se na cadeira, mãos na cara, a soluçar.
Ergui-me. Tarefa cumprida.
Agora desenrasquem-se. Um fugiu, outro traiu estão bem um para o outro.
***
Passaram seis meses. Vendia o apartamento já só cheirava a passado e dores. O Henrique encontrou-me uma casita perto de Sintra, com jardim pequeno. Não pediu perdão sabia que não valia a pena.
Ficou por perto. Conversávamos sobre tudo, entre silêncios e memórias por remendar. Não havia amor antigo, só uma trégua feita de luto partilhado e arrependimento já sem solução.
O Rui ligava quase todos os dias. De início, nem atendia. Depois respondia.
Chorava, pedia desculpa. A Ângela deixou-o logo, chamou-lhe monstro. Recebeu o que plantou. A sua ambição destruiu-lhe a vida.
Certa tarde, já sentada na varanda com o Henrique a segurar-me a mão, o Rui voltou a ligar.
Mãe, percebi tudo. Errei. Achas que algum dia me vais conseguir perdoar?
Olhei para o céu alaranjado, para o jardim e para o homem ao meu lado.
Já não sentia mágoa. Apenas paz.
O tempo dirá, filho disse eu. O tempo cura tudo. Mas nunca esqueças: não há felicidade construída sobre a vida de quem te pôs no mundo.







