Dália chegou a casa muito antes do previsto, trazendo saquinhos cheios de mimos dos pais do Norte. Queria surpreender o Mário, mas, em vez de uma receção calorosa, deparou-se com outra missão: ir ao supermercado. As consequências foram mais inesperadas do que podia imaginar.
A mala pesava tanto que o ombro de Dália deu um estalo involuntário. As costas doíam-lhe como nunca antes, e nos últimos dois meses aquela dor tornou-se inseparável companheira. Num gesto cauteloso, pousou os sacos pesados no asfalto gasto da paragem do autocarro.
Deixou escapar um suspiro profundo; a sua barriga já com seis meses de gestação remexia-se desconfortável, como se reclamasse pelo cansaço. Surpreender o marido, regressando três dias antes do combinado, parecia, naquele momento, uma má ideia. Passara as últimas centenas de quilómetros a contar postes pelo caminho, cheia de saudades.
“O que estará o Mário a fazer agora?”, pensou. Provavelmente nem imaginava que ela já estava a dois passos de casa. A caminhada lenta parecia interminável as malas transbordavam de compotas, chouriços caseiros, maçãs do pomar do pai, tudo pesando uma tonelada literal e figurada.
Ao fim de cinquenta metros, Dália percebeu que não conseguiria chegar. A sua coluna ameaçava ceder.
Pegou no telemóvel e marcou o número do marido.
Mário, olá, sussurrou, assim que ele atendeu.
Dália?! O que se passa? Está tudo bem? respondeu ele aflito.
Está, está Acabei de chegar. Estou na paragem aqui em frente ao prédio. Vens ajudar-me? Não aguento carregar isto tudo, a mãe entalou-me metade da despensa
Ouviu-se um silêncio estranho do outro lado. Dália olhou para o ecrã para confirmar se ainda estavam em chamada.
Estás mesmo à porta? Agora? Por que não avisaste? Não era só quinta-feira? a voz dele subiu meio tom.
Queria fazer-te uma surpresa, Dália crispou os lábios. Não estás contente? Estou exausta, anda cá!
Espera, espera, não subas! exclamou. Olha, em casa não há nada ontem acabei tudo. Podes passar ali no mini-mercado do Manuel, só precisávamos de carne carne de vaca da boa Fiquei em casa hoje para preparar o almoço, queria receber-te em condições!
Mário, ouve-me estou grávida, sexta mês, com dois sacos enormes! replicou, trémula. Dói-me as costas, quero só comer e deitar-me. Há batatas e ovos, desenrascamos; vem-me buscar!
Tu não percebes, ele acelerou o discurso, ignorando-a. Quero que esteja tudo perfeito. Compra carne, batatas, se puderes. Pede ajuda se precisares. Isto é para nós! Preparo tudo aqui!
Dália olhou as mãos vermelhas. Sentiu um nó quente subir-lhe ao peito.
Ó Mário, estás bem? a voz vacilou. Queres que vá agora, arrastar este peso e ainda ir ao supermercado?
Porque não desces tu a ajudar?
Já comecei a preparação… Se desço agora, estrago tudo! Dália, pelos dois, compra uns oitocentos gramas de carne e um saco de batatas pequeno. Estou à espera!
Desligou-lhe o telefone. Ali ficou, a olhar para o ecrã negro, estafada. Teve vontade de se sentar no passeio e chorar, sob as luzes frias dos candeeiros. Em vez de um abraço, mais uma tarefa. E se ele realmente está a preparar algo especial? Pensamento fugidio. Suspirou, pegou de novo nas malas e arrastou-se para o supermercado.
Dália circulou entre prateleiras, sentindo o olhar compassivo da funcionária junto às caixas. A carne pesava ainda mais, o saco de batatas era todo menos pequeno. Ao sair, já não sentia as mãos, só ganchos de dor.
O telemóvel tocou de novo.
Compraste? perguntou ele, animado.
Já, estou no prédio. Abre a porta.
Não subas ainda! Senta-te um pouco na bancada. Dez minutinhos, só dez!
Estás a gozar comigo? Dez minutos? Já mal me aguento de pé!
O meu plano não está pronto! Se subires agora, estragas tudo. Senta-te, apanha ar! Daqui a nada chamo-te.
Desabou num banco de madeira, deixando o peso dos sacos tombar ao lado. Teve vontade de atirar a carne pela janela do terceiro andar.
Dez minutos passaram. Vinte. O tempo arrastava-se. Dália imaginava o que a esperaria: flores, um pequeno-almoço romântico, um quarteto de cordas? Nada justificava tê-la deixado assim, no seu estado, ao frio.
Ao cabo de trinta e cinco minutos, a porta rangeu e Mário apareceu, suado, camisola do avesso e cabelo despenteado.
Estás aqui! forçou um sorriso, pegando nos sacos. Porque estás zangada? Nem viste o tempo que faz! Vamos!
Ela ergueu-se com dificuldade, apoiando-se com força no corrimão.
Porque vens a cheirar a lixívia, Mário?
Já vais ver! apressou-se para o elevador, aos pulos.
Entraram. Mário abriu a porta como se fosse um espetáculo. Assim que Dália entrou, foi recebida por um cheiro forte a detergente e aromatizante a brisa marítima.
Explorou a sala, a cozinha, a casa de banho. Tudo brilhava, arrumado até demais; nem uma côdea fora do sítio, as estátuas empilhadas no canto, tapetes aspirados (com algumas manchas ainda húmidas) e pó limpo das prateleiras.
Então? Mário irradiava orgulho. Gostas? Surpresa!
Dália fitou-o, desanimada, com voz sumida.
Só isto?
Como assim, “só isto”? Dália, vê bem, andei aqui três horas! Lavei o chão, aspirei tudo, lavei loiça, o sanita está a brilhar. Queria que chegasses e te sentisses logo em casa, sem te preocupares com nada. Andei a correr mal tiveste de ir ao supermercado.
A tristeza apertou-lhe o peito, lágrimas à beira do olhar.
Portanto, puseste-me a circular sozinha com este peso todo para lavares o chão?
Era para ficares orgulhosa, estava a ser atencioso! Tu reclamas sempre que não faço nada em casa, hoje quis provar o contrário. Chegaste mais cedo, não consegui terminar a tempo! Tive de te atrasar para acabar. E tu, em vez de um obrigada, fazes esta cara, como se te tivesse ofendido!
Achas mesmo, Mário? Achas que me interessa essas limpezas se não me ajudas, se não me estendes a mão quando chego esgotada, grávida, cheia de dores? Eu só queria sentir que estou em primeiro lugar!
Mário corou de raiva e atirou o pano para o lava-loiças.
Pronto, outra vez! Nada te agrada! Estava aqui desde o amanhecer, a planear uma surpresa para ti… e só recebo crítica! Olha à volta, nunca a casa esteve assim, nem no dia do nosso casamento!
Para quê se é à custa do meu cansaço? Tive de esperar cá fora, gelada, quase uma hora. Tive de ir às compras, esgotada. Isto não é surpresa é tortura!
Ah, agora sou um monstro? Desculpa por não ser perfeito, ao menos tentei! Outra mulher ficava feliz. Tu, só pensas em ti, nas tuas dores! Esqueces-te que também posso estar cansado, também quis fazer o melhor.
Dália tapou a cara para esconder as lágrimas.
Não entendeste nada… trocaste o meu bem-estar por um rodapé reluzente.
Deixasses de chegar de surpresa! Se tivesses vindo na data combinada, estava tudo pronto, entravas e ficavas contente! Assim, estragaste tudo. És ingrata, Dália.
Saiu disparado para o quarto, batendo a porta com força.
O bebé remexeu-se dentro da barriga. Dália sentou-se em silêncio, a olhar para a carne esquecida na bancada, o coração apertado e enjoada.
Dez minutos depois, Mário abriu a porta da cozinha:
Queres que trate da carne ou agora também já não comes, só para me castigares?
Não faças nada, Mário. Quero só descanso respondeu, já sem ânimo.
Como quiseres! e voltou a sumir-se.
Com passos inseguros foi até à casa de banho, olhou-se ao espelho: pálida, olheiras fundas, cabelo revolto. Lembrou-se do caminho no autocarro, das fantasias de um abraço apertado, a ouvir: “Graças a Deus, já estás em casa”. Ilusões.
No final, a discussão reacendeu com outra trivialidade qualquer. Dália deixou o lar como estava, nem se trocou. Voltou para os braços dos pais.
Várias vezes lhe disseram para não se divorciar: sogros, cunhadas, até família distante. Mário ligava, pedia desculpa, prometia mudanças. Mas ela percebeu: não queria mais aquele marido, queria o bem dela e do filho. Porque não faz sentido viver ao lado de alguém que coloca o chão mais limpo à frente do amor e do cuidado com a própria família.
Na vida, não é o brilho no chão que importa, mas sim a forma como amparamos quem amamos nos momentos em que mais precisamos.





