Coração de MãeEla guardava cada lágrima dos filhos como se fosse um tesouro que o tempo jamais poderia apagar.

Leonor da Conceição casou-se tarde (segundo a sua mãe, Amélia) – aos trinta e um anos. Mas assim foi, apesar de Leonor ter boa aparência – olhos cinzentos, cabelo castanho ligeiramente ondulado até aos ombros, um sorriso doce.

— Devias ter procurado marido mais cedo, mas tu sempre a estudar e a fazer-te de modesta. E as tuas amigas já escolheram os melhores pretendentes – resmungava Amélia, a mãe de Leonor. – Agora o que sobra é o que apanhas. Não gosto do teu namorado, o João. Parece gente humilde, os pais da aldeia, mas tem uma arrogância que não se aguenta… Que coisa é essa?

O João tinha mesmo um feitio complicado, autoritário, prepotente e intolerante. Mas isso só se descobriu quando Leonor já estava casada com ele. No início, o João portou-se bem, fez uma corte bonita, oferecia flores e era atencioso.

Quando o tempo romântico dos primeiros meses passou, o marido começou a mostrar o feitio, fazendo críticas descaradas a Leonor por qualquer motivo, sem pensar que o tom severo e professoral a podia magoar. Mas Leonor esforçava-se, queria salvar o casamento, ouvia o marido, trabalhava num gabinete de projetos, era respeitada no emprego, e em casa dava conta de tudo. O João só franzia a testa e descarregava nela o seu mau humor.

Nasceu o António, e quando o miúdo começou a adoecer e a não dormir de noite, o João afastou-se ainda mais, indo dormir para o outro quarto para não ser incomodado.

Quando o António tinha quatro anos, os pais divorciaram-se. Leonor, cansada do feitio do marido, decidiu criar o filho sozinha, e o João, com uma leveza que magoou Leonor mais do que tudo, aceitou o divórcio. Mais tarde descobriu-se que já tinha para onde ir. Felizmente, o João mudou-se rapidamente com a segunda mulher para outra cidade, e Leonor respirou de alívio – ao menos não corria o risco de encontrar o ex-marido na rua…

Todo o seu carinho, Leonor dedicou ao único filho, o António.

— Leonor, – dizia-lhe a mãe muitas vezes – ainda és nova, bonita, podias casar-te outra vez, ou ao menos arranjar um amigo para ti…

Mas Leonor não ouvia Amélia e trabalhava afincadamente para dar tudo ao filho. Poupara em tudo para juntar dinheiro para os estudos do António e para o casamento, negando-se a si mesma tudo. A pensão de alimentos do pai era muito reduzida.

O António cresceu, estudou bem, nos últimos anos teve explicações para se preparar para a universidade. Leonor interessou-o pela sua profissão, e ele, ao acabar os estudos, já sabia que a mãe tinha combinado no seu instituto para o contratarem como jovem engenheiro.

— Eu vou reformar-me daqui a pouco, e tu entras como jovem especialista! Convenci o diretor. Conhece a nossa família há muito tempo e prometeu aceitar-te… – alegrava-se Leonor.

O António voltou para casa e começou logo a trabalhar no gabinete de projetos onde a mãe trabalhara anos a fio.

— Não te vou desiludir! – abraçou a mãe. – E tu daqui a pouco vais descansar… Mudança de gerações!

Passado um ano, Leonor reformou-se, fez cinquenta e cinco anos, e nessa altura o António encontrou uma namorada, a Sofia. Era uma loura bonita, de formas cheias e pernas esbeltas. O António estava apaixonado perdidamente, e o casal preparava o casamento.

Leonor alegrava-se com o filho. Só uma coisa a preocupava – a saúde da sua mãe. Amélia já fizera oitenta anos, e de vez em quando parava uma ambulância à porta do prédio. Leonor ora ficava em casa da mãe nos dias de maior fraqueza, ora corria para a sua, mas visitava-a todos os dias, levava-lhe comida, comprava medicamentos, e a mãe perguntava pelos jovens, pelo tempo e pela saúde da própria Leonor.

— Vou-me embora em breve, minha filha, – dizia Amélia – e o meu coração dói por ti. Não pelo António, esse tem mulher, não está sozinho. São novos, fortes. Mas tu passaste a vida a criá-lo, a puxá-lo, a ensiná-lo, juntaste dinheiro para o casamento, demos-lhe dinheiro para o carro. Tudo para ele. Tu não te casaste, não foste à praia, ao sul… Tenho pena de ti. E eu já estou doente há dois anos, outra vez nos teus braços.

— Que dizes, mãezinha, não me arrependo de nada… O António é a luz da minha vida – começou Leonor.

— Pois é, luz da vida, mas não devia ser assim. Tu estragaste-o… Já passou meio ano desde o casamento, e eles nunca vieram cá. Sabem que estou doente, à beira da cova… Talvez não nos voltemos a ver… E a ti também não te visitam. Isso é certo? – preocupava-se a avó Amélia.

— Que dizes, mãe, estão na lua de mel. Não têm tempo para nós. Além disso, trabalham… – defendia Leonor o filho e a nora.

— Não, – abanou a cabeça Amélia – não digas isso. Mãe é mãe. E tu fizeste tanto por ele… Não se pode esquecer. Nem na tristeza nem na alegria… Tu estragaste-o, sim…

Leonor calou-se. Depois ligou ao António e pediu-lhe que fosse visitar a avó, porque ela se sentia mal.

O António foi com a mulher, estiveram meia hora com Amélia, beberam chá e apressaram-se a ir para casa. Viviam com os pais da Sofia, numa moradia.

Amélia morreu. Leonor chorou, teve pena da mãe, teve pena de si mesma. As palavras da mãe ecoavam nas longas noites, quando Leonor se sentava sozinha à janela, lembrando-se de como antes o filho chegava do trabalho, ela punha a mesa, trocavam novidades… Agora estava sozinha.

Mas Leonor ergueu-se e foi trabalhar para um jardim de infância, para espanto de todos os conhecidos.

— Tens curso superior e vais limpar o chão? Na idade da reforma… – diziam-lhe as vizinhas. E ela respondia: – Não faz mal. Passei a vida sentada à secretária, a desenhar. Preciso de me mexer. A minha mãe, em nova, foi educadora num jardim de infância, eu adorava ir ter com ela depois da escola…

Leonor tinha uma pensão pequena, gastara todas as poupanças no filho. Embora sempre tivesse vivido modestamente, agora queria um pouco mais de liberdade financeira. O trabalho, claro, tirava-lhe forças e tempo, mas Leonor não tinha tempo para se aborrecer. Além disso, por insistência da vizinha, começou a ir com ela para um coro popular no centro cultural, e a vida tornou-se muito mais interessante.

Leonor ocupava-se também para não incomodar o António e a Sofia, para não interferir na vida deles, embora lhe doesse que o filho não só não a visitava, como raramente ligava, e só quando precisava de alguma coisa.

De vez em quando, Leonor chorava à noite, a ver o álbum de fotografias de infância do filho. Para não se sentir tão só, mandou imprimir na loja as suas fotos preferidas com o filho, em grande formato, emoldurou-as como quadros e pendurou-as por toda a casa.

Parava muitas vezes junto às fotos, tocava no rosto do filho e sorria. Às vezes parecia-lhe que ele sorria de volta. Depois ficava à espera de uma chamada, e alegrava-se se o filho aparecia de vez em quando para um chá ou para buscar alguma roupa ou sapatos.

O António normalmente não demorava muito com a mãe. Nem reparou nas fotos emolduradas. Quando finalmente as viu, parou, olhou para a mãe e perguntou, surpreendido:

— O que é que te deu na cabeça para pendurar isso?

— Ora… – hesitou Leonor – já não sou nova, lembro-me daqueles tempos, os mais dourados, quando eras pequeno…

O António acenou com a cabeça e fugiu para casa da mulher, sem perceber bem as “manias” da mãe. E a Leonor parecia que a mãe a ajudava do céu. Até apareceu um amigo do coro.

— Ó Leonor, nós só temos três homens no grupo, e tu levaste um. Nós não conseguimos conquistá-lo em anos, e tu apaixonaste-o num instante! – riam-se abertamente as coralistas. – É o que é ser nova!

Todos riam, e o próprio “apaixonado”, Nicolau, beijava a mão de Leonor ao acompanhá-la a casa depois dos ensaios.

Leonor não levava a amizade a sério, e aceitava com simpatia as atenções do solista de sessenta e cinco anos. Ele era persistente e adorava Leonor, apegado de alma.

— Leonor, não imagina como é bom estar consigo. É inteligente, sabe ouvir, é calma, e tão bonita.

— Basta, basta… Não me elogie mais, que fico convencida. Acredito, e também digo o mesmo de si. Além disso, é tão talentoso! Devia actuar num grande palco.

— Há muito que queria deixar os concertos. Pode-se cantar em casa, à mesa nas festas, os meus filhos ouvem-me com gosto. Mas entrei no grupo há dez anos porque fiquei viúvo, e as noites eram insuportáveis sozinho. Aqui há um bom director, actuações, pequenas festas – os nossos encontros. Agora não saio daqui, quero estar ao seu lado.

Leonor ia para casa, olhava outra vez para as fotos e suspirava. O António continuava a ligar raramente, e nada substituía essa ausência – nem o canto, nem o trabalho, nem os bons amigos.

Mas ela aguentava e alegrava-se com as raras visitas do filho. Só ultimamente ele começara a insinuar que seria bom vender o apartamento da avó para ajudar a comprar uma casa para eles.

— Estás mal com a família dela? – preocupou-se Leonor.

— Não, está bem, mas a Sofia quer um apartamento só nosso – hesitou o António.

— Então, sejam bem-vindos, mudem-se já amanhã! – disse Leonor ao filho. – Embora seja um pequeno T2, dá para vocês, jovens.

— A sério? – brilhou o António. – És a melhor mãe do mundo! Vou já contar à Sofia. Temos a nossa casa!

— Um momento, filho. O apartamento continua a ser meu – parou-o Leonor. – Não vou passar para ninguém já. Vivam lá, deem-me netos.

O António foi-se. E depressa se mudou com a mulher para o acolhedor apartamento da avó. Como a mãe pedira, um ano depois nasceu uma menina, para alegria de todos, especialmente dos pais.

Leonor já tinha deixado o trabalho, percebendo que era tempo de dar atenção à neta e também a si própria, para se manter saudável. O seu pretendente, Nicolau, foi tão persistente que a convenceu a viverem juntos, e tornaram-se um casal, morando nos dois apartamentos.

Leonor habituou-se ao papel de avó e de esposa, e só se admirava de como a sua vida mudava depressa. Agradecia a Nicolau pela “segunda primavera”, e ele não se cansava de se alegrar com o seu amor e agradecer ao destino por aquele encontro.

A jovem família também estava bem. O António tornou-se mais atento à mãe, visitava-a com mais frequência. Um dia falou sobre trocar de apartamentos.

— Vamos ter um segundo filho, mãe – começou ele.

— Sei, e fico muito contente – sorriu Leonor.

— A Sofia pede-me para falar contigo, para tu te mudares para o apartamento da avó, e nós para aqui, para o nosso. É mais espaçoso, tem mais dez metros quadrados, é um T3 antigo. Para dois filhos, dá mais jeito…

— E porque é que a Sofia pede sempre através de ti, e não fala ela? – sorriu Leonor. – Sabe que não te consigo recusar? E porque não convencem os pais dela a viver no apartamento da avó, e vocês ficam com a moradia deles? Ela é filha única! As crianças teriam tanto espaço!

O António corou e foi-se embora. Leonor não se apressou a agradar ao filho. Também se habituara ao seu apartamento. Cada coisa estava à mão, tudo no seu lugar, familiar e vivido, até uma agulha se encontrava de olhos fechados…

E lembravam-se as palavras da mãe: “Estragaste-o, ao António, estragaste-o…” E Leonor decidiu não apressar as coisas. Nasceu a segunda neta, trazendo muitas alegrias e preocupações a toda a família. As meninas cresciam unidas, viviam num quarto pequeno, e aos fins-de-semana iam visitar a avó Leonor ou os avós paternos. Lá tinham espaço no quintal, no jardim com coreto, baloiços e frutas.

Leonor e Nicolau passaram a viver juntos, no apartamento dela, e alugaram o dele para terem mais rendimento. Adoravam ir ao teatro e fazer pequenas excursões de um ou dois dias, e por isso decidiram coabitar.

Só doze anos depois, quando Nicolau faleceu, Leonor se mudou para o apartamento da sua mãe, onde tinha vivido em criança.

— Pronto, filho, fiquem com o nosso apartamento, vivam lá. Para mim chega o pequeno – disse ela ao filho. – Já viajei, já cantei, agora fico em casa à espera das meninas, e de vocês. Espero que não me deixem…

O filho abraçou a mãe e ajudou-a a mudar-se para as paredes da sua infância, fazendo lá um pequeno arranjo.

Leonor não mudou nada na decoração, apenas pendurou nas paredes as grandes fotografias do filho, da mãe e dela em nova. E na mesinha estava o retrato de Nicolau…

— Estamos todos juntos aqui – sorriu Leonor, serena e tranquila, a olhar para os seus queridos nas fotos. – Que mais posso desejar? As paredes de casa e o calor daqueles que amei.

As netas visitavam a avó. Adoravam ficar a dormir em casa dela, no quartinho onde ainda estavam as suas camas, e conversavam até tarde, entre risos e brincadeiras.

— Eh, meninas, está na hora de dormir! – comandava a avó da sala. – Pega-ratas… Amanhã temos de acordar cedo. Vou ensinar-vos a fazer sonhos. Daqui a pouco são noivas, e eu hei-de examinar-vos na arte da cozinha!

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