Na faculdade militar lecionava uma doutora distinta.

Na Faculdade de Ciências Militares, havia uma doutora a dar aulas. Passou a vida inteira a trabalhar num hospital pediátrico em Lisboa. E contou-nos uma coisa curiosa. Os filhos dela apanharam TODAS as doenças infecciosas possíveis e imaginárias, mesmo sendo ela médica. Na verdade, até parecia que os vírus gostavam de ir lá a casa fazer uma visita: ela fartava-se de curar os miúdos! E olhem que eles eram bem ativos e sempre de sorriso no rosto, uns verdadeiros artistas das traquinices.

Claro, a doutora era rigorosa na higiene chegava a casa e ia logo tomar um duche, trocava de roupa, lavava as mãos, tudo direitinho. Mas, apesar disso, os miúdos apanhavam, como por magia, exatamente aquelas doenças que ela tratava aos outros. Se o caso fosse bicudo no hospital, já se sabia: em casa havia febre, tosse e noites sem dormir. Vitaminas, banho de água fria, dieta à base de sopa de legumes nada resultava! Houve uma altura em que a mãe-doutora, coitada, estava verdadeiramente à beira de uma síncope.

Um dia, depois de um turno puxado no hospital, apanhou um susto tão grande com um doente que só lhe apetecia fugir para Marte em vez de ir para casa. Estava mesmo convencida de que os filhos iam outra vez adoecer… Por isso, em vez de ir logo para casa, foi ao cinema ver um filme do Indiana Jones (sim, em Lisboa também temos blockbusters, não julguem). Saiu do cinema ainda cheia de adrenalina mas, vá lá, mais animada. Quando chegou finalmente a casa, surpresa das surpresas: os miúdos estavam na maior, a saltar no sofá e a rir como sempre.

A doutora começou então a experimentar outros desvios pelo caminho: uma tarde, foi lanchar a casa de uma amiga em Almada, onde, entre chá e bolachas, se fartou de rir e ouvir piadas. E o resultado continuava o mesmo nada de febre nem tosses; saúde de ferro!

Com o tempo, virou rotina: antes de ir para casa, mesmo cansada e com o jantar por fazer, ela passava no jardim do Príncipe Real. Passeava entre as buganvílias, sentava-se um bocado ao pé do chafariz a ouvir os passarinhos e só depois, já de espírito leve, seguia para casa. E os miúdos? Nunca mais adoeceram!

Daí, a doutora tirou uma grande lição: não são só os micróbios que fazemos chegar aos nossos. É também a informação (e o mau humor, claro) com que chegamos a casa. Ela jurava a pés juntos que era essa energia pesada das más experiências do trabalho que andava a chatear os filhos. E desde então, nunca mais houve gripes ou viroses na família.

Por isso, se algum dia tiveres um dia daqueles de arrancar os cabelos, não vás logo para casa despejar a nuvem negra. Vai antes comprar um pastel de nata, dá uma volta na rua Augusta ou vê um episódio do Herman José. Depois, sim, regressa ao lar, de cara lavada. Como é que isto funciona? Isso já é para cientistas decifrarem. Mas experimentar, garanto-te, funciona mesmo um passeio ao jardim ou um filme divertido valem ouro, ou melhor, valem uns bons euros gastos em saúde e alegria… E só depois, sim, vai dar miminhos a quem te espera de braços abertos.

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Na faculdade militar lecionava uma doutora distinta.
A primeira vez passou despercebida. Era uma manhã de terça-feira na Escola Básica Manuel da Maia, um daqueles dias cinzentos e lentos em que os corredores cheiram a detergente e pequenos-almoços apressados. Os miúdos formavam filas na cantina, mochilas penduradas e olhares sonolentos, à espera que as bandejas passassem pelo balcão. Perto da caixa, estava o Tiago Gomes, onze anos, mangas do casaco tapando as mãos, fingindo mexer no telemóvel que não funcionava há meses. Quando chegou a sua vez, a funcionária tocou no ecrã e franziu o sobrolho. “Tiago, ficaste outra vez em dívida. Dois euros e quinze cêntimos.” A fila atrás suspirou. Tiago engoliu em seco. “Eu… está bem. Posso devolver o tabuleiro.” Puxou o tabuleiro para a frente e já se afastava, o estômago apertado, como de costume. Aprendera a conviver com a fome, como se aprende a ignorar os murmúrios dos colegas ou o olhar fingido dos professores. Antes de conseguir sair, uma voz atrás dele ergueu-se. “Eu pago.” Todos olharam. Aquele homem não pertencia à escola. Destacava-se como um trovão numa sala cheia de miúdos—alto, de ombros largos, colete de cabedal preto sobre camisola térmica cinzenta, botas gastas por muitos quilómetros. A barba salpicada de prata e as mãos marcadas de trabalho duro. Um motociclista. A cantina ficou em silêncio. A funcionária piscou os olhos. “Senhor… faz parte da escola?” O homem tirou do bolso a quantia exata e colocou-a no balcão. “Só quero pagar o almoço do rapaz.” Tiago ficou parado. O homem olhou para ele, sem sorrir nem ralhar. Só tranquilo. “Come”, disse. “Precisas de força para crescer.” Depois virou costas e saiu antes que alguém dissesse mais qualquer coisa. Sem nome. Sem explicação. Sem aplausos. No final do almoço, já se discutia se aquilo sequer acontecera. Mas no dia seguinte, voltou a acontecer. Outro miúdo. Outra fila. Mesmo motociclista. E também no dia depois desse. Sempre dinheiro contado. Sempre discreto. Sempre longe antes que perguntas pudessem surgir. Em poucos dias, os alunos começaram a chamá-lo Fantasma do Almoço. Os adultos não acharam graça. A diretora, Dona Carla Duarte, não gostava de mistérios. Sobretudo quando envolviam cabedal e visitas inesperadas. Numa manhã, ficou junto às portas da cantina, de braços cruzados, à espera. Quando o motociclista apareceu de novo—desta vez a pagar o almoço de uma menina com trinta euros em dívida—Dona Carla avançou. “Senhor, peço-lhe que abandone o recinto escolar.” O motociclista acenou, com calma. “Justo.” “Mas antes disso”, acrescentou, virando-se um pouco, “devia verificar quantos miúdos estão a saltar refeições aqui.” Dona Carla ficou tensa. “Temos programas para isso.” Ele encarou-a. “Então porque é que continuam a faltar?” Silêncio. Saiu sem mais palavras. Devia ter acabado ali. Mas não acabou. Porque dois meses depois, o mundo do Tiago Gomes partiu-se da forma que nenhuma criança de onze anos deveria enfrentar sozinho. A mãe perdeu o trabalho no lar de idosos. A eletricidade foi desligada primeiro. Depois levaram-lhes o carro. Depois veio o aviso de despejo. Numa quinta-feira gelada, Tiago sentou-se na cama enquanto ouvia a mãe chorar baixinho na cozinha, tentando não o deixar perceber. No dia seguinte, Tiago não apanhou o autocarro para a escola. Foi a pé. Seis quilómetros. Não sabia explicar porquê—apenas que a escola ainda parecia mais segura do que a casa. Quando lá chegou, as pernas doíam e a cabeça estava estranha. Sentou-se nos degraus, a tremer, sem saber se queria entrar. Foi quando a mota chegou. Baixo rugido. Paragem lenta. O Fantasma do Almoço. O motociclista tirou as luvas e olhou para Tiago por um longo momento. “Estás bem, miúdo?” Tiago tentou mentir. Não conseguiu. “A minha mãe diz que vamos ficar bem”, disse rápido. “Só precisa de tempo.” O motociclista acenou, como se soubesse exatamente o que aquilo significava. “Como te chamas?” “Tiago.” “Eu sou o Joaquim.” Foi a primeira vez que alguém soube o nome. Joaquim tirou da mochila uma sandes de pequeno-almoço embrulhada e um sumo. “Primeiro comes”, disse. “Conversar é mais fácil depois.” Tiago hesitou. “Não tenho dinheiro.” Joaquim sorriu. “Não pedi.” Tiago comeu como quem não vê comida há dias. Joaquim sentou-se ao lado dele, capacete pousado no joelho. “Vais a pé para casa hoje?” perguntou Joaquim. Tiago acenou. Joaquim respirou fundo. “Sabes, alguma vez pensaste ir para a faculdade?” Tiago quase riu. “Isso é para filhos de ricos.” Joaquim abanou a cabeça. “Não. É para miúdos que não desistem.” Levantou-se, tirou um cartão dobrado e entregou a Tiago. “Se um dia precisares de ajuda—ajuda a sério—ligas para este número.” “O que é?”, perguntou Tiago. Joaquim olhou-o. “É uma promessa.” Depois arrancou. Foi a última vez que alguém viu Joaquim durante anos. Sem almoços pagos. Sem motociclista à porta. Sem Fantasma do Almoço. A vida não melhorou por magia. Tiago e a mãe saltaram entre casas de familiares e apartamentos baratos. Tiago trabalhou depois da escola, saltou refeições, aprendeu a esticar cada euro e a esconder o cansaço atrás de piadas. Mas guardou o cartão. E estudou. Muito. Os anos passaram. Durante o último ano de secundário, a orientadora chamou-o ao gabinete. “Tiago”, disse cautelosa, “já te candidataste a alguma faculdade?” Ele acenou. “Universidade comunitária. Talvez.” Ela empurrou uma pasta para ele. “Isto é uma bolsa completa. Propinas. Manuais. Quarto.” Tiago ficou a olhar. “Isto… deve estar errado.” Ela abanou a cabeça. “Doação anónima. Disseram só que mereces.” Dentro da pasta havia um bilhete. Três palavras escritas em caixa alta. Continua a crescer. — J Tiago percebeu. A faculdade mudou tudo. Pela primeira vez, Tiago não estava só a sobreviver—estava a construir um futuro. Estudou Serviço Social. Fez voluntariado em associações. Ajudou miúdos que lhe pareciam demasiado familiares. Um dia, numa formação num centro de jovens, uma assistente mais velha mencionou um motoclube local que financiava discretamente refeições e bolsas de estudo. “Não querem fama”, disse ela. “Só resultados.” O coração de Tiago acelerou. Encontrou o clube na periferia da cidade. Pequeno. Organizado. Bandeira portuguesa pendurada com orgulho. Quando entrou, as conversas pararam. E uma voz familiar, vinda do fundo. “Demoraste, miúdo.” Joaquim. Mais velho agora. Mais lento. Os mesmos olhos. Tiago não disse nada. Só avançou e deu-lhe um abraço. Joaquim pigarreou, fingindo que era pó nos olhos. “Fizeste tudo certo”, murmurou. Anos depois, Tiago estava em frente à cantina da escola—já não como miúdo, mas como assistente social licenciado. Um aluno ficou sem dinheiro para o almoço. Tiago avançou. “Eu pago.” E lá fora, uma moto ficou a roncar, à espera.