UMA VIDA SURPREENDENTE

VIDA INCRÍVEL

Na festa de casamento da minha amiga Joana estivemos dois dias seguidos, a curtir à grande: comes, bebes e risota como manda a lei. O noivo era um príncipe, daqueles de novela, e mesmo assim de um pudor e humildade que não se via todos os dias. Nós, o grupo de amigas mais atentos, não tirávamos os olhos do Vítor: uns olhos azulados de tirar o fôlego, pestanas tão fartas e longas que era pecado numa cara de homem (a natureza lá sabe o que faz, não é?). Queixo marcado, nariz direito de traço grego e aquela pele sedosa, com um tom moreno que encantava. E, para acabar de nos deixar de boca aberta: quase dois metros de altura e uns ombros de encher a sala. Se não fosse por gostarmos tanto da Joana, tínhamos feito um escândalo ali mesmo por causa desse exemplar raro.

Ó Joana, onde é que foste buscar um galã destes, pá?! atirámos nós, fingindo caras de gatas borralheiras e abandonadas, à espera que o Vítor tivesse irmãos tão giros quanto ele.

Meninas, vocês não imaginam! Eu apaixonei-me pelo Vítor pela simplicidade dele, podem acreditar. Ele é lá duma aldeia perto de Vila Real, criado pela avó, um rapaz muito trabalhador, sempre de mãos dadas com a terra. Conheci-o quando os meus pais compraram uma casa de fimdesemana lá na aldeia. Ele é atento, genuinamente bom, um homem em quem se pode confiar. A quinta dele era uma coisa, nem vos digo… Um verdadeiro homem do Norte! Tive de insistir para me vir para o Porto, demorei semanas a convencê-lo!

O Vítor não só se adaptou bem à cidade, como num instante aprendeu de tudo: a escolher bom vinho, perfumes, política, arte, viagens, sabe de cor como funciona o índice PSI-20, fala de futebol como um expert e perdeu o sotaque marcado do interior. Aprendeu a conduzir o carro jeitoso que o sogro lhes emprestou e até arranjou trabalho na empresa do sogro, um lugar de respeito. Quem deu o apartamento ao casal? Olha, segredo… Descubram vocês!

No segundo ano de casados descobriu-se um hábito curioso do Vítor paixão por meias brancas. Só usava mesmo meias brancas, em casa, em visitas, metia as meias brancas nas galochas quando ia ao quintal e nem se importava de andar pelo chão sujo sem sapatos!

Joana nunca ligou nenhuma àquela mania, mas lá lavava o chão da casa duas vezes por dia e os armários estavam cheios de lixívias. Daí a chamarem o Vítor de Meia Branca foi um instante.

A traição do Vítor ficou a descoberto quando a Joana já estava de oito meses de gravidez. Para cúmulo, a amante também estava quase de ter bebé. O Meia Branca foi posto na rua, despedido, amaldiçoado e chorado tudo no mesmo dia. Depois vieram aqueles dias pegajosos e tristes do outono, e a Joana ficava deitada na cama que parecia imensa agora a olhar o teto com olhos secos.

Hei de chorar, mas só quando o bebé nascer. Agora faz mal ao pequenino repetia ela.

A Joana estava ali, calada, qual múmia no seu próprio mausoléu, e nós, amigas, íamos trocando à vez para lhe fazer companhia no silêncio.

Tinhas vontade de rasgar o livro da vida à dentada, mas ficavas muda e à espera.

No dia em que a Joana saiu da maternidade, éramos uma algazarra, balões a esvoaçar, tentávamos convencer as enfermeiras a tirarem um cházinho connosco, desejando saúde e felicidade a tudo e todos. O novo avô, todo babado, tinha escrito a giz em frente à janela da enfermaria uma frase torta e enorme: Obrigado pelo neto! E ainda tentou cantar qualquer coisa, mas a segurança levou-o gentilmente para tomar um cálice de aguardente, para não perturbar ninguém.

No dia da alta, o avô estava renovado, com um brilho no olhar, e chorava, mas daqueles choros bons, de orgulho. Nós, todas, também chorávamos, ríamos, enchíamos a Joana de beijos, espreitávamos o envelope azul do bebé e evitávamos falar no nariz grego do miúdo, o Igor, puxado ao pai. Só a Joana não chorou:

Depois, não vá ser que me falhe o leite…

Assim se passou mais dois meses, e depois a Joana decide ir visitar o Vítor. Não levou brasa, nem vinagre, mas ia cheia de vontade de partir tudo e gritar. Queria atirar-lhe tudo à cara, descarregar a raiva, a humilhação, tudo aquilo que a tinha prendido à cama.

Também queria muito era olhar cara a cara a mulher sem vergonha que tinha dormido com o seu homem. Imaginava que teria olhos provocadores, talvez até bonitos, e pensava que, se desse, cuspia-lhe na cara. Estava decidida. Se preciso fosse, até lhe arranhava.

Onde morava a amante, soube-o sem querer, das velhas do prédio, num passeio com o filho. As senhoras meteram conversa, lembraram-lhe que o Vítor era um grande traste, explicaram-lhe a rota para a casa da outra e deram dicas de boa vingança. A Joana hesitou, já quase ia embora, mas o orgulho ficou e ela lá foi.

Quando dá por si, está à porta da casa velha dos anos 60, só precisa subir ao quinto andar e decidir se gritava ou cuspia.

No primeiro andar, pensava que com a sorte que tinha, não ia estar ninguém e que, se calhar, até era melhor assim. No segundo, já desejava não encontrar ninguém de facto. No terceiro, ouve um bebé a chorar de partir o coração, vindo do quinto andar.

Abre-lhe a porta uma rapariga magra, de olhos inchados de tanto chorar em nada parecida com a mulher fatal que a Joana imaginava.

Enquanto a Joana absorvia quem era a rival, o bebé berrava ao fundo da casa.

Olá, Joana. O Vítor já não está cá, deixou-nos há duas semanas e não faço ideia dele diz a rapariga sentando-se no chão e chorando ainda mais.

A Joana perdeu logo a vontade de armar barraca. Só lhe apetecia ir acalmar o bebé, abraçar aquela rapariga desamparada… E depois, talvez, deitar uma frase torta: Quem faz, paga! talvez dissesse, em jeito de justiça poética. E olhava-a com desdém ao menos isso, pensou.

O bebé estava seco, olhos inchados, uma veia na testa, quase sem forças de tanto chorar. Era fome, claro. A mãe, de rastos, deitava-se no chão da entrada a soluçar.

Lembro-me como a Joana foi abrindo armários e o frigorífico à procura de leite e tudo estava vazio. Ao encontrar em cima da mesa um papel mal escrito com as palavras Perdoem-me, estremeceu.

A rapariga, sentada no chão, contava tudo como se Joana fosse uma velha amiga: não tinha para onde ir, o contrato da casa ia terminar dali a dias, não tinha leite, não tinha Vítor, nunca teve dinheiro, tinha vergonha, arrependia-se. E pedia desculpa. Se Joana quisesse bater-lhe, podia fazê-lo, disse. O bebé chamava-se Paulo, que ficasse esse nome na cabeça da Joana, só para o caso. O Paulo só era 9 dias mais velho que o Igor.

A Joana voltou para casa a correr como podia dali a vinte minutos o Igor ia pedir mama. Parecia uma missão impossível: com duas grandes malas da Oxana, a Oxana a trotar de lado com o Paulo, finalmente alimentado, e a Joana só pensava: Onde é que enfiamos mais duas camas?

Passados três anos, festejámos o casamento da Oxana, e ao fim de quatro, foi o casamento da Joana. O marido da Joana odeia meias brancas para ele, a vida é para ser mais colorida , adora a mulher, o filho e as duas filhas. A Oxana? Tem quatro rapazesmas o marido ainda sonha com uma princesa lá em casaOxana? Vive alegre, com Paulo pela mão e um sotaque doce que já pega às palavras da nossa terra. Tem uma lojinha de chás e bolos vegan, tornou-se a doceira ucraniana do bairro, e não há festa sem ela. Igor e Paulo são irmãos sem sangue, mas com as mesmas pantufas, e correm pelo parque no outono, chapinhando nas poças, gargalhando com aquela liberdade de quem nunca soube de onde veio o vento.

Joana, a rir, diz sempre: Numa vida incrível cabe quase tudo, até o perdão, se for maior que o rancor.

E nós, todas, gostamos de pensar que a felicidade mora mesmo ali, entre uma chávena de chá quente, crianças aos saltos e a certeza de que o tempo passa, mas o coração nunca se gasta de amar outra vez.

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