O meu marido disse: «Não discutas». Eu não discuti — simplesmente deixei de concordar. E foi aí que tudo começou.

Diário de Mariana, Lisboa, abril

Hoje tive um daqueles momentos que merecem ficar registados, nem que seja só para não me esquecer de como cheguei até aqui. O Rodrigo entrou na cozinha com passos triunfais, como se tivesse acabado de assinar um acordo de paz entre dois planetas desavindos. Na realidade, só passou na padaria do bairro e trouxe uma carcaça e um litro de leite da Mimosa. Desde que, há uns dias, o nomearam substituto interino do chefe de secção, anda com um ar monumental, quase de estátua de Camões no Rossio. Já não anda, desliza em procissão.

Mariana, disse, olhando para o meu jantar (truta assada no forno) como se fosse fiscal sanitário.

Hoje estou exausto. Passei o dia a tomar decisões estratégicas. Por isso quero sugerir um acordo: em casa, silêncio e aceitação total. Não tenho pachorra para discutir. Só quero que concordes comigo. O meu cérebro precisa de descanso da resistência do mundo.

Fiquei imóvel, garfo suspenso. Aquilo era ousado. Era uma novidade. Vivemos no meu apartamento, pago quase só com o meu ordenado de analista financeira mal sentimos o impacto da inflação , por isso a declaração dele soou como se um canário pedisse ao gato o direito a uma suite privativa.

Ou seja, queres que eu seja o teu eco? perguntei, sentindo aquela fera nobre cá dentro, a mesma que os meus colegas admiram e a sogra teme.

Quero que reconheças a minha autoridade, declarou, ajeitando a gravata que vestiu sem razão para o jantar de terça. Homem é o vetor, mulher é o ambiente. Não tentes distorcer o meu caminho, Mariana.

Olhei para ele nos olhos dançava aquela convicção imaculada que só vi, uma vez, num tipo que quis atravessar a Segunda Circular a pé em hora de ponta.

Está bem, querido, sorri, cortando um pedaço de truta. Sem discussões. Só acordo.

E começou ali o meu passatempo preferido: Cuidado com os desejos, pois podem realizar-se… ao pé da letra.

No sábado assisti ao primeiro ato da peça. O Rodrigo ia para um teambuilding da empresa ele dizia cimeira de líderes, mas para mim era piquenique do escritório. Girava ao espelho, de calças novas que comprou sem me consultar. Eram de um amarelo mostarda muito em voga (na cabeça dele), mas assentavam-lhe como um macaco a pensar em saltar: largas nas ancas, justas nas pernas, um disparate.

Então? estufou o peito. Fico bem? Nota-se o estatuto de chefe?

Normalmente eu insinuava que o estatuto era mais parecido ao de palhaço de circo. Mas afinal, prometi não discutir.

Sem dúvida, Rodrigo, disse sem largar o livro. Muito arrojado. Destacas-te logo no grupo, toda a gente vai perceber quem comanda. A cor e o corte pura personalidade.

Rodrigo inflou-se. Estás a ver? Antigamente começavas logo: Tira isso, faz-me vergonha. Estás a aprender, mulher!

Saiu, vaidoso como um pavão. Voltou ao fim do dia, furioso, vermelho, de calças de ganga de um colega. Pelos vistos, no concurso de puxar a corda do sucesso, as calças amareladas abriram-se ao meio com estrondo, como vela rasgada pelo vento atlântico.

Porque não me disseste que aquilo estava apertado nos sítios importantes?! berrou, atirando o trapo para o canto.

Querido, disseste que realçava o teu cargo. Eu não discuti. Pelos vistos, o estatuto era maior que o tecido.

Mas o espetáculo ganhou outra dimensão quando entrou em cena a artilharia pesada: D. Filomena, a mãe do vetor. Veio de Setúbal fiscalizar, cheia de energia. O Rodrigo, embalado pela minha submissão, achou que podia tudo.

Estávamos à mesa. D. Filomena, com penteado igual ao de um caniche de salão e olhar de juíza do Tribunal Constitucional, passava revista à minha sala.

Marianinha, essas cortinas são tristes, declarou, despachando a tarte que fiz. E aquela poeira no topo do móvel? Uma boa dona de casa afasta o pó só de olhar! O Rodrigo precisa de conforto! Isto aqui cheira a escritório.

Apoiado pela retaguarda, Rodrigo arriscou: É verdade, Mariana. A mãe tem razão. Trabalhas demasiado, a casa está ao abandono. Deviam repensar as prioridades. Talvez reduzas o horário? Para dinheiro já chega, agora que sou chefe

Engoli as gargalhadas. O bónus de chefia mal dava para as idas ao talho dele, mas eu mantinha a palavra.

Tem toda a razão, D. Filomena, respondi. E tu também, Rodrigo. De facto, tenho-me dedicado demasiado ao trabalho. As cortinas são o rosto do lar.

Aí está, a sogra ficou radiante. Já estás a mudar, filha.

Por isso, continuei, decidi dispensar a senhora da limpeza.

Silêncio. D. Filomena parou de mastigar.

Qual senhora? Rodrigo franziu o sobrolho.

Aquela que vem cá duas vezes por semana limpar tudo enquanto estamos no trabalho. Disseste que precisávamos de poupar, para honrar o teu novo estatuto de gestor. E a mãe acha que o lar se constrói pelas mãos da mulher. Concordo. Vou eu limpar. Ao fim de semana.

Mas e nos outros dias? hesitou ele.

Amor, deixamos a casa ao ritmo da vida. A entropia é natural, não é? Não convém que eu fique esgotada.

Foram duas semanas de martírio para o Rodrigo. Chegava a casa, eu sorria e ia ler. Deixava a louça por lavar, pó, roupa por passar. As camisas do Rodrigo, que antes pareciam saídas da Zara, agora estavam tristes, amarrotadas, a pedir clemência.

Mariana, não tenho camisas limpas! queixou-se, terça-feira.

Pois Ontem estive a escolher cortinas, como recomendou a mãe. Passei a noite nos catálogos. Não sobrou energia para passar a ferro. Mas tu és chefe, podes delegar em ti próprio!

Pegou no ferro de engomar, queimou-se, fez um buraco na manga e lá saiu de camisola derrotado pelo sistema.

O apogeu do espetáculo foi o jantar “de negócios”. Vinha cá o tal António Lobo o verdadeiro chefe que o Rodrigo está só a substituir, e mais uns colegas de peso.

Mariana, esta é a minha oportunidade, Rodrigo suava pela cozinha. Temos de mostrar que tenho a base segura. Que mando cá em casa. Quero a mesa farta, tradicional, nada dessas modernices de sushi ou carpaccio! Homens passam-se por carne. E por favor, não interrompas as conversas. Só serves, sorris e calas-te. Ninguém quer saber da tua opinião sobre logística. Está bem?

Compreendido, querido anui, dócil. Tradicional, farta, calada.

E veste-te de forma feminina.

Como queiras.

Preparei-me a rigor. Usei aquele robe herdado da sogra, cheio de folhos, que sempre achei uma piada para festas de Carnaval. Na cabeça fiz um apanhado meio ninho, meio Torre de Belém.

Na mesa, servi gelatina de carne (da charcutaria tremia mais do que o Rodrigo antes da reunião), um monte de batatas cozidas e um pernil de porco tão gordo que parecia que o animal se despachou da vida por comer demais. Nada de luxos, nada de guardanapos de anel. Tradicional como mandava o figurino.

Os convidados chegaram. O António Lobo, homem simpático de óculos, estranhou o roupão mas não comentou. Rodrigo ficou vermelho, camuflado nas paredes bordeaux.

Sentem-se, amigos! cantei, com voz de peixeira da Ribeira.

O jantar arrancou. Rodrigo tentou conversa séria, mas o ambiente estava carregado. Falava de otimização de fluxos e redes de recursos, claramente sem perceber metade.

Rodrigo, desculpe-me, cortou Dr. António amavelmente. Mas se fizer como sugere, perdemos o contrato com a China. Mariana, o que acha? Ouvi dizer que é analista sénior na Lusitânia Finanças?

Momento de verdade. O Rodrigo gelou. Os olhos dele gritavam: Cala-te!

Sorri largo e olhei-o, quase com devoção.

Ora, Dr. António, está a pedir-me demais! Pisquei o pulso cheio de pulseiras. Cá em casa quem sapiência tem é o Rodrigo. Ele é que decide tudo! Eu só faço batatas e sirvo o marido. Mandou-me não me meter em assuntos destes, diz que a pele das mulheres estraga.

O António engasgou-se com a batata. Os outros colegas trocaram olhares.

Rodrigo ficou lívido, suando em bica.

Não, mas falando a sério insisti, empolgada. O Rodrigo diz sempre que as decisões dele são de milhões de euros. O meu modesto Excel nem chega lá. Aliás, conta-lhe lá, Rodrigo, aquela tua ideia de mudarmos todos para o Excel na nuvem? Como é que chamaste mesmo isso?

Bingo. Excel na nuvem foi a risada do escritório durante meses, mas o Rodrigo em casa vendia aquilo como visão revolucionária.

Rodrigo? O Dr. António tirou os óculos e olhou para ele como quem observa um espécime raro, mas inútil. Foi mesmo isso que propôs?

Bem era uma hipótese balbuciou Rodrigo, descendo o olhar à gelatina de carne. A Mariana entendeu mal

Ouviste mal, querido? Ontem estiveste uma hora a explicar-me como os chefes são retrógrados e tu és um inovador. Eu não discuti, só concordei!

O Rodrigo deu um toque no molho e a poça vermelha escorreu para as calças brancas parecia o capitão do Titanic a abrir buraco no próprio navio.

Vinte minutos depois, os convidados já tinham inventado urgências. Na saída, António Lobo cumprimentou-me:

Senhora Mariana, se alguma vez se fartar de batatas, há vaga de subdiretora de estratégia na minha equipa. A senhora sabe pôr tudo em ordem.

Quando fechei a porta, Rodrigo virou-se para mim. Tremia.

Destruíste-me! Fizeste-me de parvo de propósito!

Eu? tirei o robe carnavalesco. Rodrigo, fiz tudo como me pediste. Não discuti. Fui decorativa. Se nesse cenário pareceste tolo talvez o problema não seja a moldura, mas o quadro.

Ia levantar a voz, mas calei-o com um gesto.

Agora escuta tu, e sem discutir. O meu cérebro precisa de férias da tua asneira. As tuas coisas estão à porta, o Uber espera, e o teu vetor vai direitinho para casa da mãe, em Setúbal. Lá, as cortinas são do teu agrado e ninguém te contraria.

Não te atrevas Eu sou teu marido!

Foste, enquanto foste companheiro. Decidiste ser patrão e esqueceste que o trono está na minha sala.

Fiquei à janela a vê-lo carregar o trolley no táxi. Não senti tristeza. Senti alívio. A casa cheirava a liberdade (e um pouco a porco assado, mas nada que uma corrente de ar não resolva).

Meninas, nunca discutam com quem se acha mais esperto que vocês. Saíam de lado e deixem-nos chocar de frente com a realidade. O som da coroa a cair é a melhor sinfonia para os nossos ouvidos.

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O meu marido disse: «Não discutas». Eu não discuti — simplesmente deixei de concordar. E foi aí que tudo começou.
Keď pred všetkými nevesta povedala, že „už nemusím chodiť tak často“, pocítila som, ako mi vnúčik stisol ruku silnejšie, akoby chápal viac, než by mal.