Acontece que tenho 60 anos e moro sozinha numa casa que parece flutuar sobre as ruas de Lisboa. Não tenho filhos, nem marido. Embora, num tempo longínquo que parece dissolver-se como névoa, tenha sido casada. Quando tinha vinte e cinco anos, o amor levou-me ao altar, mas o matrimónio descascou-se como muralha velha diante da infidelidade do meu marido.
Ele trouxe a amante para o nosso pequeno apartamento, esquecendo-se que o lar não se faz de três. Não consegui suportar tal humilhação. Arrumei as minhas coisas dentro de malas que pareciam pesadas de memórias e fui para a casa dos meus pais, num bairro antigo. Dois meses após o divórcio, soube que estava grávida, num sonho pálido que se tornava cada vez mais estranho.
Confesso que não quis contar ao meu ex-marido; não fiz qualquer esforço de contacto. Decidi que criaria o filho sozinha, como quem constrói sozinho um barco para navegar num rio surreal. Quando o meu filho nasceu, os médicos do Hospital de Santa Maria deram-me uma notícia como chuva que atravessa o vidro: O seu filho nasceu frágil, mas há mais. Uma doença incurável. Será uma sorte se viver até aos onze ou doze anos.
Naqueles dias, eu andava pelas ruas com o pensamento embrulhado: o meu menino partiria cedo do mundo. Alimentava-o ao colo, com o coração pendurado, enxergando um futuro de sombras. Mas, como nos sonhos, o tempo dobrou-se estranho e o meu filho viveu até aos quinze anos. E num eco surreal, meu filho e o meu pai partiram com apenas uma semana de diferença, deixando-me órfã de afeto.
O meu pai, na despedida, deixou-me o seu apartamento amplo no coração de Lisboa, onde os elétricos cantam à janela. Vivi sozinha por todos esses anos, nunca tive muitos homens à porta. Sempre quis outro filho, mas o medo tornou-se vassoura que varre intenções, e não arrisquei repetir o passado. Aos quarenta e cinco anos, comprei um portátil numa loja da Baixa, para poder falar com parentes distantes e acompanhar as notícias no Diário de Notícias.
Quando as minhas tias e primas souberam que vivia só, começaram a aparecer em carrossel de visitas, trazendo bolos, vinho e lembranças. Perguntavam se já tinha feito testamento; ao saber que não, lamentavam as suas próprias contas ou fingiam generosidade, criticando discretamente outras pessoas para parecerem melhores aos meus olhos. Eu já sabia a quem deixaria aquele apartamento. Uma amiga de longa data e a filha dela, Manuela, que sempre me ajudou sem esperar nada.
A minha família só via paredes e chaves, não pessoas. Acabei por eliminar as chamadas e mensagens, mas como num sonho de correntes, eles não cessaram.
Um dia, um primo ligou-me e perguntou, com ousadia surreal: Ainda estás viva? E a quem vais deixar o apartamento? Senti-me tão magoada que bloqueei todos os familiares nas redes e no telemóvel, tornando-me invisível no mundo onírico das comunicações portuguesas.







