Sem rodeios
O Rui recostou-se na cadeira, sentindo-se mais leve depois de um jantar à séria. Olhou com calma para a Margarida, que nesse momento levava o seu copo de vinho branco aos lábios. A luz suave do restaurante caía-lhe no rosto, acentuando-lhe os traços delicados. Um rubor leve encarnava-lhe as bochechas, parecia mesmo natural, e os olhos tinham aquele brilho quente que quase espelhava o reflexo dos candeeiros acima da mesa.
Então, estás satisfeita? perguntou, esforçando-se para soar descontraído, como se a pergunta lhe tivesse escapado sem querer.
A Margarida pousou delicadamente o copo. O sorriso brilhava-lhe nos lábios.
Claro que sim. Tu tens sempre bom gosto para escolher restaurantes. Aqui sente-se mesmo confortável, respondeu, olhando à volta.
O Rui assentiu, em silêncio, sabendo que ela tinha razão. Gostava mesmo daquele lugar. Não era luxuoso nem sugeria elegância forçada, mas tinha uma aura pensada, calma, acolhedora. A luz não cegava, a música ambiente passava despercebida, deixando espaço para a conversa, e o pessoal de sala movia-se sereno, fazendo o serviço devagar mas sempre com dignidade.
Nos últimos seis meses já lá tinha levado a Margarida umas cinco vezes, pelo menos. E cada vez saía dali com aquela sensação boa não só pela comida, mas por aquela atmosfera especial que parecia envolver os dois àquela mesa. E sempre que chegava a conta, o Rui pagava automaticamente, sem ligar ao preço.
Sabes começou a Margarida, brincando com o guardanapo nos dedos, estava a pensar Porque não damos um saltinho qualquer num fim de semana destes? Já me está a apetecer sair daqui da rotina.
Logo se vê, respondeu ele, tentando não mostrar a hesitação. Agora o trabalho anda apertado, sabes como é
Ela franziu ligeiramente o sobrolho, deixando passar um instante de desilusão. Mas voltou de imediato ao sorriso, a aligeirar a tensão que pairava.
Já te conheço, és um responsável de primeira, disse ela, num tom quase trocista.
O empregado aproximou-se com o menu das sobremesas. Os seus gestos mostravam quem já tem ritmo seguro nestas lides.
O Rui não hesitou:
Estamos prontos, traga o vosso bolo de chocolate e mais uma garrafa do mesmo vinho, se faz favor.
O funcionário assentiu e afastou-se com a mesma calma.
A Margarida entretanto passou um dedo pelo rebordo do copo, num gesto demorado, quase distraído. O vidro tilintou levemente, cortando o aconchego da música ambiente. Ela levantou os olhos para o Rui, com um ar preocupado.
Estás diferente, comentou num sussurro, para não dar nas vistas.
O Rui encolheu os ombros, fingindo despreocupação.
Estou só cansado, disse. Isto no escritório tem sido puxado.
Era verdade as últimas semanas tinham sido pesadas. Reuniões, prazos apertados, noites mal dormidas. Mas não era só isso que lhe ia na cabeça.
Há uns dias, sem querer, dera de caras com o perfil da Margarida numa rede social que nem sabia que existia. Nada demais fotos banais, posts, comentários dos amigos. Mas depois, ali no meio, estavam umas fotos com um tipo de fato caro, com legendas inocentes mas que picavam: “Com o mais atencioso”, “O meu motivador”. As datas batiam exactamente com os dias em que ela dizia que tinha compromissos.
No início quis acreditar que era só um colega ou conhecido, coincidências. Mas foi rever outra vez reparou nos detalhes, ligou os pontos. Depois descobriu outro homem qualquer, nas mensagens de uma das fotos, também tirada naquele restaurante. “Estás sempre maravilhosa, mal posso esperar pela próxima vez”, escrevia um tal de Miguel, com corações.
Aquilo não lhe saía da cabeça. Tentou distrair-se com o vinho, mas não conseguia deixar de pensar nas imagens, nos comentários, nas datas.
Decidiu não fazer escândalos. Nem pedir satisfações ou levantar a voz ali. O Rui sabia que tinha chegado o momento de fechar este capítulo. Mas também sabia que não ia embora sem lhe deixar bem claro que a história deles tinha mesmo acabado não numa fuga silenciosa, mas de um modo que ela se lembrasse.
À medida que acabavam a sobremesa, o empregado trouxe a conta valente, como é costume nestes sítios de jantar a sério. O Rui abriu a carteira, fingiu analisar bem a conta, mas já sabia o valor. Olhou nos olhos da Margarida, desta vez sem sorrir.
Olha, vou pagar só o meu jantar. Vais ter de tratar do teu, disse ele num tom firme, como quem diz uma coisa natural.
Margarida corou de imediato, as mãos tremeram e procuravam palavras.
Rui, estás a brincar? perguntou, já a duvidar.
Não, não estou, ele respondeu, sereno, pousando a conta à frente dela. Não tens dinheiro contigo? Liga a alguém então. Ao tal Miguel, por exemplo. Pensavas que eu nunca ia descobrir? Achaste que podias brincar assim comigo?
Os olhos dela arregalaram-se, entre o choque e a zanga parecia que ele acabara de puxar palavras que ela nunca pensara ouvir.
Não estou a perceber, balbuciou, cada vez mais nervosa.
Que pena, respondeu Rui ao levantar-se. Então desenrasca-te.
Tirou uns euros da carteira, deixou no canto da mesa, e saiu devagar, sem se apressar, enquanto ouvia Margarida a tentar resolver a situação com o empregado a voz dela tremia. Mas o Rui nem olhou para trás. Foi direto à porta, sentindo um alívio discreto, sem aquele sabor amargo de vitória era só a sensação de que já era tempo de dizer o que precisava.
Já cá fora, respirou fundo e sentiu-se finalmente livre. Estava acabado.
Foi andando pela rua, com as mãos nos bolsos. Os candeeiros faziam círculos amarelos no passeio, as montras piscavam com luzes coloridas. Uns corriam para casa, outros passeavam, casais riam-se e faziam planos. A vida seguia e aquilo era mesmo o correto.
Pensou como a vida é estranha. Há semanas achava que a Margarida era “a tal” talvez não perfeita, mas sentia-se em casa com ela. Lembrava-se dos presentes que lhe oferecera, do tempo gasto a pesquisar smartphones, a pedir dicas para que ela gostasse. Ficara feliz quando ela o abraçava ao receber o voucher para um spa de luxo. Outras vezes, via-a radiante com os brincos de ouro que ele tanto escolheu. Tudo lembranças pequenas, mas cheias de intenção.
Recordava-se das chamadas que tanto esperava, de como largava tudo para estar com ela, do orgulho em dar-lhe momentos felizes. Agora via: para ela, aquilo era só jogo. Não dele dela. Não lhe custava tanto como temia, só restava a sensação amarga de um café frio que já perdeu o sabor.
O telemóvel vibrou no bolso. Era mensagem da Margarida: “Isso foi baixo. Podias apenas ter-me dito que estava tudo acabado”.
Parou em frente à montra de uma livraria, olhando para os livros coloridos. Pensou uns segundos, respondeu: “Foi exatamente isso que fiz.”
Enviou, desligou o telefone. Não queria mais desculpas, nem conversas. Tudo dito.
O resto da noite era seu podia ir a um bar daqueles onde já o conheciam e pedir uma ginja, só para estar a ver a noite a correr, sem pensar em nada. Ou então ir para casa, pôr a música de que ele gostava (e ela não podia ouvir) e dormir finalmente descansado. Talvez ligar ao Marco, o amigo de infância, e combinar sair, só para dar dois dedos de conversa.
Agora era tudo por ele. E isso sabia bem, mesmo bem.
*******************
No dia seguinte, Rui acordou antes do despertador. A cidade lá fora começava a ganhar vida, mas por dentro já não sentia aquela opressão. Antes pelo contrário, sentia-se mais leve, como quem vê finalmente sol depois de chuva.
Ficou tempo debaixo do chuveiro, a deixar a água morna levar embora qualquer resto do dia anterior. Depois, preparou um café forte, deixando que o cheiro enchesse a cozinha. Pegou na chávena, saiu para a varanda.
Era uma manhã clara. Lá em baixo, o trânsito arrancava, crianças riam na escola ao lado, havia o aroma da boulangerie da esquina e aquela frescura dos dias limpos. Rui saboreou os momentos, sem pressa, só a ver Lisboa acordar.
O telemóvel ficou a um canto, intocado. Ele não tinha pressa de regressar às notificações do mundo.
Já perto da hora de almoço, acabou mesmo por ver as mensagens. Vários colegas do trabalho, um ou outro like nas redes. E uma mensagem da Margarida passou-a para o lado, sem ler. Não queria saber mais.
Preferiu marcar o número do Marco e convidá-lo para um copo ao fim do dia.
Então, pá, como vai isso? perguntou, quando o amigo atendeu. Desta vez, na sua voz já não estava aquela tensão dos últimos dias. Que dizes de irmos beber um copo? Já não falamos há meses.
O Marco nem pensou duas vezes.
Bora! Diz tu onde.
Marcaram num bar perto do escritório do Rui, aqueles de sempre das noites depois do trabalho.
Quando chegou, o Marco já lá estava com duas imperiais em cima da mesa, pronto para a conversa.
Então vá, desenrola, começou ele, mal o Rui se sentou. Estás diferente, com um ar libertado. Que se passou?
O Rui pegou na cerveja, bebeu um gole, e disse:
Acabei com a Margarida.
A sério? Foi ela que te largou? O Marco abriu um sorriso.
Não. Decidi eu, explicou o Rui, e contou por alto a noite do jantar.
O Marco ouviu tudo atento, só interrompeu com um aceno, e no fim disse:
Foste duro, mas merecia. Tens a certeza que ela andava com outro?
Absoluta, disse o Rui, sentindo o resto do peso a desaparecer. Não precisava ver mais.
E agora? quis saber o Marco, quase a testá-lo.
Agora vivo, respondeu simplesmente o Rui. Trabalho, amigos, talvez marque férias. A vida segue.
Falava sem drama, com a firme certeza de quem finalmente aceitou seguir em frente.
Muito bem, assentiu o Marco. Sabes que mais? Tenho uma prima no Porto, diz que vai haver um festival de jazz brutal lá em breve. Que tal irmos? Dois ou três dias, só para mudar de ares.
O Rui visualizou logo a cena: o Porto, música, sair dos sítios onde tudo lembrava a Margarida. Porque não? Estava na altura de coisas novas.
Bora, anuiu, e naquele “bora” ia toda a vontade de recomeçar. Só preciso de uma semana para ajeitar as coisas no trabalho.
Fechado! Marco bateu com a mão na mesa, desatando a rir. Assim é que se fala! Já estava a ver-te a definhar.
Rui sorriu. Sentia que essa nova etapa estava a nascer devagar, quase sem dar por isso, como quando a primavera começa e só depois se nota o verde a crescer.
*****************
Passada uma semana, embarcou mesmo no Porto com o Marco. E sim, o festival foi qualquer coisa! Perderam-se nas ruas, subiram miradouros, ouviram um quarteto de blues num beco, jantaram em cafés onde cheirava a pastel de nata e café forte. Uma noite apanharam chuva e refugiaram-se juntos num quiosque a rir dos transeuntes com guarda-chuvas invertidos pelo vento.
Num bar junto ao rio, enquanto a cidade se reflectia na água e o ambiente se enchia de jazz suave, o Rui percebeu que, de repente, já não pensava sequer na Margarida. Nem um pouco.
Foi estranho até ali, quase tudo o fazia lembrar-se dela. Agora, só sentia aquela paz que vem quando finalmente se deixa o passado para trás.
Em que pensas? perguntou o Marco, levantando o copo.
Que finalmente respiro sem peso. Parece que andei meses em apneia, e agora pude soltar o ar. respondeu o Rui, olhando pela janela e vendo as luzes dançarem no Douro.
Brindemos, então, aos recomeços.
Tin-tin, e aquela noite ficou com um sabor mesmo especial: o sabor do possível.
*************************
Quando voltou a Lisboa, o Rui recusou mergulhar logo no automatismo dos dias. Começou a mudar pequenos hábitos. Passou a aceitar mais convites dos amigos, fosse para um café ou uma caminhada pelo Jardim da Estrela.
Inscreveu-se finalmente na natação já era altura de aprender a nadar mesmo, não só “safarse”. As primeiras aulas foram duras, mas a cada semana sentia o corpo mais ágil, a cabeça a limpar-se.
Também decidiu desafiar-se a aprender italiano. Não era por trabalho ou viagens, era só porque, sim! Comprou livros, inscreveu-se num curso online, começou a ver filmes legendados, a tentar perceber o ritmo das palavras. E aquilo divertia-o.
Na empresa, apareceram projetos novos que o puxavam, sentia-se útil de novo, e os colegas voltaram a incluí-lo nas conversas e jantares.
Ao fim-de-semana combinavam churrascos fora da cidade: grupo animado, carnes no carvão, boas conversas e planos para mais aventuras.
No parque ao pé de casa havia sessões de cinema ao ar livre todos os sábados. O Rui ficou fã daqueles serões: levava uma manta, chá quente num termo, estendia-se na relva a ver filmes antigos ou comédias recentes, sentindo aquele prazer de estar ali, a ser só mais um.
Numa dessas noites, já com o frio de outono a chegar, viu uma comédia que fez a plateia toda rir, ele incluído. No fim do filme, enquanto arrumava as coisas, ouviu uma voz suave atrás de si.
Olhe, desculpe, disse uma rapariga baixinha, de cachecol volumoso e cabelo dourado um pouco desalinhado do vento. Tinha um sorriso aberto.
Tenho reparado que vem cá sempre. Gosta de cinema ao ar livre?
O Rui, meio surpreendido, sorriu também.
É diferente, não é? Aqui tudo parece mais intenso.
Exacto, ela sorriu. No cinema é tudo escuro e solitário… Aqui é como viver dentro do filme.
Apresentou-se:
Sou Beatriz.
O Rui hesitou por um segundo esse nome trazia-lhe lembranças, mas passaram rápido. Apertou-lhe a mão: era quente, firme.
Rui.
A conversa fluiu. Falaram de filmes, bairros favoritos em Lisboa, os melhores sítios para café, galerias de arte escondidas. Ela contou que tinha acabado de se mudar para o bairro. Ele recomendou o melhor pão de Deus da zona, o alfarrabista ali da esquina.
Quando, por fim, Beatriz olhou para o relógio e disse que tinha de ir, o Rui sentiu uma coragem nova.
Hei, e se formos um dia a uma pastelaria ali perto? perguntou. Fazem um capuccino genial e uns bolinhos de figo que não esqueces.
Ela aceitou com um sorriso, trocaram números de telemóvel. Foi um gesto simples, mas sentiu-o cheio de significado.
Quando ela desapareceu na noite, o Rui ficou ali mais um pouco. Tinha aquela alegria calma de quem sente que tudo pode recomeçar e se não chegasse a nada especial, ao menos ganhou uma boa conversa.
************************
No dia seguinte, acordou leve, com aquele entusiasmo tímido de início. Cá fora, a chuva corria pelos vidros, deixava a casa ainda mais acolhedora. Preparou um café, sentou-se, e mandou mensagem à Beatriz: Bom dia! Que tal irmos ao cinema este sábado? Parece que vem aí um frio valente…
A resposta não tardou: Claro! Que seja uma comédia adoro rir.
O Rui sorriu enquanto via o céu cinzento lá fora. Para ele, aquela manhã arrastada tinha um sabor especial quase como se tudo estivesse mesmo a começar e não a acabar.
Lá para o final do dia, a Beatriz, já em casa depois do trabalho, também sorriu para o telemóvel ao reler a mensagem. Disse para si própria, baixinho: Vamos ver no que dá.
Ela nem sabia o que esperar talvez só um bocadinho de companhia, talvez algo mais. Mas sentia aquele nervosismo bom, de quem está prestes a viver qualquer coisa especial.
No trabalho também lhe corriam bem as coisas, acabara um projeto difícil e sentia-se confiante. Deu por si, nesse fim de tarde, a escolher roupa para sábado: queria sentir-se confortável e sem complicações. Optou por uns jeans e uma camisola de lã suave, um batom simples.
O sábado acordou frio, mas luminoso. Beatriz saiu cedo para não chegar atrasada. Chegou ao cinema vinte minutos antes, foi buscar pipocas de caramelo, ocupou dois lugares no centro. Quando viu o Rui entrar, levantou logo a mão. Ele veio ter com ela, sorriso aberto.
Chegaste cedo!
Não conseguia esperar em casa, ela admitiu. Tremo sempre antes de um primeiro encontro.
Eu também, confessou ele.
Ainda trocaram impressões sobre o barulho crocante das pipocas antes do início do filme, e depois partilharam sorrisos e gargalhadas pelo meio da sessão, a sentir que se conheciam há mais tempo.
Quando terminou, saíram para a rua já noite caída. O frio era cortante mas eles começaram a passear por Lisboa, falando de tudo e de nada: livros favoritos, viagens, sonhos. Ela contou do fascínio pelo Porto, ele confidenciou o sonho de ir a Sevilha.
Se calhar, um dia destes vamos juntos, atirou o Rui, naturalmente.
Ela sorriu, meio surpreendida, meio intrigada:
Por que não?
Seguiram até à beira do Tejo. Ficaram a olhar a água, as luzes da cidade reflectidas, tudo tão bonito numa noite calma de Lisboa. Ele agradeceu o dia à Beatriz, ela respondeu com sinceridade:
Também gostei muito. Repetimos?
Claro, disse ele, apertando-lhe suavemente a mão.
Ficaram ali mais uns segundos, depois ela afastou-se, olhando para trás e acenando. E ele soube: isto era só o começo.
************************
E assim, a vida do Rui seguiu feita de pequenos começos, conversas novas, tardes inesperadas. Sem dramas, sem fado trágico, só aquela certeza de que, por vezes, é a simplicidade dos momentos que faz tudo valer a pena.







