Então compraram um apartamento a prestações? exclamou alegremente D. Augusta. Que maravilha, minha filha! É mesmo fantástico!
Matilde, do outro lado da linha, desatou a rir, e Augusta ouviu o genro dizer algo ao fundo.
Ó mãe, não fales tão alto, os vizinhos vão ouvir…
Que oiçam! sorriu Augusta. Então, quando posso ir ver? Hoje? Amanhã? Faço aquele bolo de maçã, o que o Tiago adora.
Matilde hesitou um instante.
Vem no sábado, vamos aproveitar para já estar tudo com os móveis.
No sábado, Augusta estava no meio da sala iluminada e rodava lentamente, admirando o pé-direito alto, as janelas largas, a pintura fresca nas paredes. O cheiro a tinta e a madeira do prédio novo era inconfundível.
A cozinha é enorme, imagina! Matilde conduziu a mãe pelo corredor. E a varanda está fechada, depois até podemos pôr lá o carrinho de bebé.
Que maravilha, Augusta afagou a parede. Tiago, és um rapaz despachado!
O genro apenas encolheu os ombros.
Lá vamos tentando, Dona Augusta.
Ao almoço, Augusta serviu-se da segunda fatia do bolo e acabou por dizer aquilo que lhe andava na cabeça desde manhã.
Nem imaginam como me preocupei convosco. A Matilde já com sete meses, e vocês numa casa arrendada, que a senhoria podia pedir de volta a qualquer momento. Isso não é vida!
Matilde e Tiago trocaram olhares. Augusta reparou que a filha apertava os lábios.
Mãe, nós íamos dando conta do recado.
Dando conta, Augusta pousou o garfo. E eu sem pregar olho, a pensar: como é que eles estão, se acontecer alguma coisa? Uma criança precisa de estabilidade, de um lar seu.
Tiago tossiu e afastou o prato.
A prestação não é pequena, claro. Mas fizemos bem as contas.
É muito? perguntou Augusta, desconfiada.
Nada de especial, respondeu Matilde com rapidez. Para Lisboa é o normal.
Augusta olhou para a filha, para os ombros tensos, para o Tiago absorto nos desenhos da toalha, e percebeu que ambos tinham receio. Mas jamais iriam admitir.
Bem, ouçam lá, Augusta estava séria. Eu vou ajudar, nem se discute. E os teus pais, Tiago, também vão ajudar?
Disseram que sim, acenou Tiago. A minha mãe prometeu que todos os meses dá o que puderem.
Ora vês? Augusta recostou-se. Vão dar a volta a isto. Juntos ninguém está sozinho.
Matilde sorriu, mas aquela inquietação não lhe desapareceu dos olhos…
O Martim nasceu em março, grande, saudável, enérgico. Augusta vinha todas as semanas, fazia sopa, lavava cueiros, passeava o neto no carrinho novo pelos jardins do prédio.
A vida estabilizou-se. Tiago foi promovido, e Matilde até falou em ter outro filho.
Dois anos depois nasceu a Rosarinho, e o apartamento encheu-se novamente de gritos, brinquedos espalhados e noites passadas em claro. Augusta olhava para a filha e para o brilho dos seus olhos e sentia-se em paz. Tinha corrido bem.
Mas depois Tiago perdeu o emprego.
Augusta só descobriu mais tarde Matilde desviava as conversas, dizia que apenas estavam cansados. Só soube a verdade quando apareceu sem avisar e apanhou a filha chorosa, rodeada de papéis.
Não conseguimos suportar, mãe, murmurou Matilde. Três meses de atraso. O banco telefona todos os dias.
Augusta fez o que pôde. Pediu dinheiro a família e amigos, mas não era suficiente. Os pais do Tiago também mal se aguentavam, desde que o sogro ficou internado.
Seis meses depois, perderam o apartamento.
Augusta, um final de tarde, sentava-se em casa da amiga Lurdes e nem tocava no chá.
Estão agora numa T1, Augusta segurou a chávena. Dois miúdos, Lurdes. O Martim tem quatro anos, a Rosarinho dois. Não têm espaço para crescer, andam sempre em cima uns dos outros! Quatro pessoas num só quarto!
Lurdes abanou a cabeça.
Valha-me Deus, Augusta, que aflição!
Disse-lhes que se safariam, Augusta enxugou uma lágrima. Prometi que ajudava. Agora, que posso eu? A minha reforma não chega, só arranjo trabalho avulso. Fui eu que os convenci que ficaria tudo bem!
Não podias adivinhar o rumo da vida.
Mas isso consola alguém? Augusta pousou a chávena. Fica a Matilde melhor? Ou os netos?
Augusta ocultou o rosto nas mãos. Pensava que a vida da filha estava finalmente encaminhada. Afinal, tudo ficou ainda mais difícil. Antigamente, pelo menos, estavam os dois sozinhos num arrendamento. Agora, com duas crianças!
O tempo passou…
Matilde e Tiago lá liquidaram a dívida ao banco. Foi a melhor notícia que Augusta recebera há muito.
E agora? perguntou Augusta.
Voltamos a juntar para outra casa, confessou Matilde. Talvez desta vez algo mais modesto.
Que assim seja, Augusta acenou, embora a filha não visse. O importante é que seja vosso.
Dois anos voaram. Martim fez seis anos, e Augusta apareceu no aniversário do neto com uma caixa enorme debaixo do braço. Andara três horas à procura das peças certas, até encontrar aquele kit de carrinhos e garagem que tanto Martim queria desde o inverno.
Avó! o rapazinho atirou-se para Augusta e ficou pendurado no seu pescoço. É para mim?
É para ti, Augusta beijou-lhe o cabelo. E olha, toma lá isto também.
Retirou um envelope da mala e deu a Martim. O menino abriu, espreitou, e ficou boquiaberto.
Quanto é?
Dois mil euros, Augusta agachou-se ao seu lado. Não querias um telemóvel novo? Começa a juntar. A avó ajuda.
Martim apertou o envelope contra o peito e foi correr mostrar à Rosarinho. Matilde estava na ombreira da porta da cozinha, a observar calada. Augusta não reparou no olhar estranho da filha.
Duas semanas depois, Augusta decidiu ligar ao neto. Martim atendeu ao terceiro toque.
Avó, olá!
Olá, meu querido! Está tudo bem? Como vais?
Muito bem! Martim tagarelava Compraram-me roupa nova para o verão, uns calções, t-shirts, e ténis daqueles que acendem!
Augusta franziu o sobrolho.
Compraram? Mas de onde é que os teus pais arranjaram dinheiro?
A mãe usou aquilo que tu me deste, disse sem hesitar Martim. Ela disse que o telemóvel pode esperar, mas a roupa faz mais falta.
Augusta ficou estática, o telefone quente na mão. Sentiu dentro do peito algo a crescer, um fogo desconfortável.
Chama a mãe, pediu em voz baixa.
Está ocupada.
Está bem, Augusta forçou um sorriso. Até já, meu querido.
Desligou e ficou dez minutos sem se mexer. Parecia-lhe que mais uma vez era preciso educar a filha.
No dia seguinte, Augusta apareceu cedo em casa da Matilde.
Como foste capaz? explodiu Augusta. Dei esse dinheiro ao Martim! Era dele!
Matilde cerrou os olhos, cansada.
Mãe, tem calma.
Calma? Augusta exclamou. O menino queria um telemóvel! Era por isso que lhe dei o dinheiro, para lhe ensinar a poupar! E tu gastaste tudo!
O rosto de Matilde ficou frio, inexpressivo.
Mãe, agi como achei melhor.
Melhor? Augusta sufocava de indignação. Gastar dinheiro dos outros em calções?
O menino precisava de roupa para o verão, respondeu Matilde, sem se exaltar. Não tínhamos mais nada.
E perguntar-me? Augusta avançou. E consultar-me primeiro?
Não, mãe, Matilde abanou a cabeça. Na minha casa faço como entendo. E isso não é da tua conta.
Não é da minha conta?! Augusta já gritava. Não me diz respeito como tratam o dinheiro? Já perderam o apartamento uma vez por não saberem! Sempre foram irresponsáveis!
Matilde empalideceu, mas não respondeu.
Agora ainda tiram dinheiro ao menino, Augusta não se conseguia conter. Que vergonha! Que miséria!
Vai embora, mãe, sussurrou Matilde. Por favor, vai.
Augusta virou costas e saiu sem se despedir. Estava cheia de raiva. Achei que a filha tinha errado, e para cúmulo, pô-la fora de casa! Era certo, mais dia menos dia a Matilde havia de lhe pedir perdão, havia de voltar atrás!
Mas passou um mês e Matilde não ligou nem respondeu às mensagens.
De novo na cozinha da Lurdes, Augusta torcia um guardanapo de papel nas mãos.
Ela afastou-se de mim, abanava a cabeça. A minha própria filha! Não me deixa ver os netos, não me atende o telefone.
Lurdes encheu-lhe a chávena.
O que é que lhe disseste nesse dia?
Disse-lhe a verdade! Augusta defendeu-se. Que não sabem lidar com dinheiro, que são irresponsáveis! Não é mentira!
Lurdes ficou um pouco calada, a olhar a rua pela janela.
Augusta, tu deste aquele dinheiro ao teu neto?
Dei.
Então era dele, já não era teu.
Mas foi para o telefone que dei!
E eles gastaram em roupa, Lurdes encolheu os ombros. Precisavam, era mais urgente do que o telefone.
Augusta abriu a boca, mas Lurdes ergueu a mão.
E a questão do apartamento não havia necessidade de recordar. Eles passaram anos a pagar aquela dívida, trabalharam e criaram os filhos. E tu chamaste-lhes irresponsáveis.
Foi com boa intenção, murmurou Augusta. Preocupo-me com eles.
Preocupas, Lurdes assentiu. Mas acabas por magoar. Talvez devesses tu telefonar. Pedir desculpa.
Augusta apertou os lábios teimosamente e virou-se. Era a mais velha, só queria o melhor para eles.






