Uma Resposta Inesperada Cátia nunca suportou o Stásio. Durante todos os sete anos em que foi casada…

Resposta Inesperada

Nunca consegui suportar o Tiago. Durante os sete anos em que fui casada com o melhor amigo dele, o Miguel.

O que me irritava era o riso estridente do Tiago, aquela jaqueta de cabedal ridícula, o hábito de dar palmadas fortes no ombro do Miguel enquanto gritava: Ó pá, deixa adivinhar, a tua mulher está outra vez em cima do acontecimento!. Dava-me nos nervos.

O Miguel limitava-se a encolher os ombros: Ele é tolo, mas olha que tem um coração de ouro, dizia. E eu ficava zangada, achando que um coração de ouro não era desculpa para me estragar os serões.

Quando o Miguel morreu escorregou, caiu , o Tiago estava no funeral com a sua jaqueta absurda, afastado, discreto e deslocado. Olhava para longe, como se visse algo que mais ninguém notava.

Nessa altura, pensei: Pronto. Agora deixa-me em paz. Ainda bem.

Mas não aconteceu. Passada uma semana, apareceu. Bateu à porta do meu apartamento, naquele silêncio de casa órfã.

Mariana, disse hesitante, deixa-me pelo menos descascar umas batatas ou… o que for preciso.

Não, obrigada, respondi, sem abrir totalmente a porta, com aquela voz vazia.

É preciso sim, respondeu teimoso, e entrou de rompante, como uma aragem fria.

Foi assim que tudo começou.

O Tiago arranjava tudo o que se partia. Chegou a parecer-me que as coisas se avariavam de propósito, como desculpa para ele aparecer.

Ele trazia compras em sacos pesadíssimos, como se estivesse a preparar-se para um cerco.

Levava o meu filho, o Tomás, ao Jardim da Estrela, e ele voltava sempre corado, falador. E isso doía-me: com o Miguel, o Tomás era sempre tão silencioso e sério.

A dor tornou-se companheira constante. Aguda quando encontrava uma meia velha do Miguel. Surda e desagradável ao preparar chá para dois, mas só servir um. E outra, estranha e pungente ao ver o Tiago a pôr a mesa toda trocada, como se a casa fosse um enigma.

Ele era um reflexo do Miguel, um espelho distorcido. Eu sofria com a presença dele, mas cedo percebi que temia ainda mais a sua ausência. Porque aí ficava só o vazio.

As amigas sussurravam: Mariana, ele anda há que tempos apaixonado por ti! Aproveita!. A minha mãe dizia: É um homem de valor, cuidado para não o perderes. Eu, frustrada, sentia que ele estava a roubar-me o meu luto, a substituir tudo por aquela assistência insistente.

Um dia, quando chegou com mais um saco de batatas (em promoção!), não aguentei mais:

Tiago, chega! Nós desenrascamo-nos. Eu percebo que estás a tentar… cuidado a mais…

Mas eu não estou pronta. Nem penso estar. Tu… és amigo do Miguel. Fica-te por aí.

Esperei por ofensas, justificações. Mas o Tiago apenas ficou vermelho, como um miúdo apanhado, e baixou os olhos:

Entendi. Desculpa.

E foi-se embora. O silêncio dele ficou mais pesado do que qualquer presença.

O Tomás perguntava: Onde está o tio Tiago? Porque é que ele não vem? E eu, a abraçá-lo, pensava: Porque sou burra. Afastei o único que vinha para dar, não para tirar.

O Tiago voltou duas semanas depois. Tocou à porta já de noite. Cheirava a chuva de outono e… vinho barato. Os olhos baços mas determinados:

Mariana, posso? É só um minuto. Digo e vou-me.

Deixei-o entrar.

Sentou-se no banco do corredor, de jaqueta molhada.

Não devia, começou com a voz rouca da emoção, mas já não consigo guardar isto. Tens razão. Fui um idiota. Mas eu… dei-lhe a minha palavra.

Fiquei gelada, encostada à parede.

Palavra a quem? murmurei.

Tiago olhou-me com tamanha dor que me doeu fisicamente.

Ele sabia, Mariana. Não a certeza, mas… suspeitava. Tinha uma bomba na cabeça, percebes? Uma aneurisma. Os médicos diziam que podia rebentar a qualquer momento, um ano, dois no máximo. O Miguel não te quis assustar. Mas a mim… a mim contou. Um mês antes.

O meu mundo, já frágil, desfez-se. Caí ao comprido no chão do corredor, o coração a martelar-me no peito.

O que… o que é que ele disse? sussurrei.

Disse: Tiago, és o único em quem confio a sério. Se eu não ficar… olha pelo meus. O Tomás é pequenino, a Mariana… parece forte, mas por dentro pode quebrar. Não a deixes partir, Tiago! E eu: Deixa-te disso, Miguel, vais viver cem anos! E ele… a voz de Tiago tremeu, olhou para mim, tranquilo e disse: Faz com que a Mariana se apaixone por ti. Ela não pode ficar sozinha. Sempre te respeitou. É o que é certo…

O silêncio ficou pesado.

Foi só isso? perguntei sem fôlego.

Disse também, continuou Tiago, com a mão a limpar a cara, que eu ia ser insuportável para ti. Porque te ia lembrar dele. Pediu-me que aguentasse. Que te desse tempo… Que ficaria tudo nas mãos de Deus.

Levantou-se, exausto.

Pronto. Tentei… Fiz tudo o que sabia. Pensei, quem sabe… Mas tu, quando olhaste para mim daquele jeito… Percebi tudo. Nunca vou ser mais do que Tiago, amigo do Miguel. Falhei. Não cumpri. Desculpa.

Já ia tocar na porta quando finalmente aceitei a verdade insuportável. Aceitei esse amor terrível do Miguel, que pensou em nós até ao fim. Aceitei o absurdo, teimoso, sagrado cavalheirismo do Tiago, que por dois anos carregou a sua cruz sem esperar agradecimento.

Tiago, chamei baixinho.

Ele virou-se. Não tinha esperança nos olhos, só cansaço.

Arranjaste a torneira que o Miguel prometeu arranjar durante dois anos.

Sim.

Levaste o Tomás ao campo quando eu chorava na casa de banho.

Pois…

Lembraste-te do aniversário da minha mãe quando nem eu me lembrei.

Ele assentiu calado.

E tudo só porque ele pediu?

Tiago suspirou:

Ao início, sim. Depois… já não sabia fazer diferente. Já fazia porque era o que tinha de ser feito.

Levantei-me do chão. Aproximámo-nos. Olhei para o casaco gasto, no rosto cansado. Pela primeira vez em dois anos, não vi a sombra do Miguel. Vi o Tiago. O homem que tinha sido amigo do meu marido e agora assumia o peso de amar uma família que não era a sua.

Fica, pedi, serena. Bebe um chá. Estás gelado…

Ele olhava, incrédulo.

Como amigo, acrescentei; mas nos meus lábios soou, pela primeira vez, algo quente. Vivo. Como o melhor amigo do Miguel. Até… até cansares.

O Tiago sorriu, aquele antigo sorriso que antes me irritava.

Chá? perguntou. Não há uma mini à mão?

Ri-me. Pela primeira vez em muito tempo. E soube, senti mesmo: nunca mais ia afastar uma mão que, mesmo a tremer de exaustão, queria ajudar-me. Mesmo que viesse envolta numa luva de cabedal disparatada.

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Uma Resposta Inesperada Cátia nunca suportou o Stásio. Durante todos os sete anos em que foi casada…
«Preguiçosa, Maria, por natureza». Um homem de 54 anos estava em casa reformado, e depois do trabalho esperavam-me repreensões e uma montanha de loiça.